Nem sempre ganham os mais fortes. Ou os teoricamente mais fortes. Como aliás o Benfica demonstrou na Super-Liga. Uma vitória para amenizar as desventuras de uma cidade roída pela exclusão social, pelo desemprego e pela incapacidade da sua elite política de a afirmar no contexto da Área Metropolitana.
Um cheirinho do velho Vitória, das equipas maravilha dos anos setenta e oitenta. De Fernando Vaz e Pedroto e de JJ, José Maria, Conceição, Duda, Octávio, Carriço, Arcanjo, Tomé, Carlos Cardoso e tantos outros verdadeiros craques.
E viva Rachão o treinador da conquista que fica na história e no desemprego que a ignorância dos dirigentes, tal como de alguns políticos, não tem limites.
«(...) Penso, como já antes pensava, que o BES como noutras vezes mostra a sua capacidade de trabalho e de influência, e assim a sua competência nos negócios para que está vocacionado! Estamos no entanto perante uma ameaça de interesses privados sobre interesses públicos, escudada em más leis e maus políticos.Não condenemos o BES mas aqueles que lhe permitem e até incentivam este tipo de atentados urbanisticos sobre o território.Veja-se o escandaloso elogio dado ao Presidente da CM Benavente. E como é também responsabilizada a CCRLVT e a DGF. (...) como as coisas estão só me resta chamar CORRUPTO ao ESTADO. E se a lei protege corruptos e corruptores mude-se a lei!»
António Neves
Na edição portuguesa do Courrier Internacional de 27 de Maio.
(...) A injustiça de Estado goza da impunidade maior, o que constitui mais um factor de injustiça, não se vendo ninguém, entre os responsáveis e detentores do poder político e económico responder por toda a espécie de prevaricações e abusos constantes que se cometem. O voto democrático já não chega como mecanismo de reparação.(...)
De Francisco Teixeira da Mota, no Público de hoje, comentando a publicidade paga que o Grupo Espírito Santo inseriu nos jornais de referência na passada quarta-feira a propósito do caso Portucale. Sobre a descarada arrogância dos grandes grupos económicos quando confrontados com a opinião pública democrática.
O aumento do imposto sobre os combustíveis reflectido no aumento do preço a pagar pelos consumidores. Medida gravosa num ano em que os combustíveis aumentaram da forma que todos sabemos, mas no qual os lucros das petrolíferas não baixaram. Aliás aumentaram.
Não seria possível repercutir este aumento de imposto na margem das petrolíferas?
Aliás que negócio é este que em situação alguma admite diminuição das margens de lucro? É um monopólio ou é um cartel? Seja como for tem a cumplicidade do Estado.
Medina Carreira com o seu discurso claro, apoiado em números esmagadores, deixa-nos, muitas vezes, à beira de uma depressão. Aconteceu outra vez na Sic-Notícias no programa de Gomes Ferreira.
Os números são incómodos mas ninguêm os contesta.
Gastamos 900 milhões de euros por ano com a "formação profissional". Uma das maiores fraudes do pós adesão à UE. Procuram-se "dez pessoas" que tenham aprendido alguma coisa nestas "formações profissionais". Quantos mil milhões gastámos nos últimos dez anos? Um esforço colossal para continuarmos a ter uma mão-de-obra muito desqualificada.
Vamos gastar 500 milhões de euros com as Scut´s. Nesta altura específica não seria defensável suspender este processo?
Gastamos mais de 400 milhões de euros com o crédito bonificado para aquisição de habitação pelos jovens. Jovens filhos da média e da alta burguesia, acrescente-se. Não se pode acabar totalmente com esta despesa?
Não podemos suspender imediatamente o pagamento de pensões acima do salário do Presidente da República. Aproveitando o excedente para redistribuir pelos mais necessitados?
E o TGV ? E a OTA? Não se pode exterminá-los?
As propostas de Socrates contemplam algumas medidas muito positivas. Medidas relativas aos privilégios dos titulares dos cargos politicos. Medidas corajosas, embora, ao que parece, irrelevantes para o combate ao défice. Medidas que ajudam a credibilizar a classe política. Falta agora saber a sua extensão. Por exemplo no caso de um Presidente de uma autarquia em funções à data da aplicação da lei como será contado o seu tempo de serviço para a reforma? A mesma questão se coloca relativamente a um deputado actualmente em funções. A resposta a estas questões ajuda a compreender a verdadeira dimensão da proposta. Vamos esperar.
Outra medida importante é a relativa ao sigilo bancário e ao sigilo fiscal. Muito relevante se for aplicada para averiguar da verdadeira situação daqueles que exibem um enorme poder económico e declaram rendimentos proletários. Vamos esperar pelos resultados.
Uma medida boa que não foi anunciada foi a revisão da situação fiscal da banca. Essa, por omissão, foi uma medida má.
A subida do IVA. Medida fácil porque gera receita garantida. Cerca de 500 milhões de Euros, este ano, segundo os especialistas.
O IVA é uma receita cobrada pelas empresas aos clientes e entregue por elas ao Estado. Com a agravante de no caso de as empresas não conseguirem cobrar os seus serviços terem que pagar na mesma o IVA ao Estado. Mesmo, como acontece muitas vezes, nas situações em que é o Estado o devedor.
O aumento do IVA gera recessão e estimula a economia paralela. Porque, em muitas situações, os consumidores não podem deduzir o IVA pago nos seus rendimentos. Daí optarem por pagar sem factura, ou sem recibo no caso dos profissionais liberais. Quem não vive na lua sabe o que aconteceu com o aumento do IVA de 17 para 19%, no (des)governo de Durão Barroso. Tudo piorou. A situação das finanças públicas e de forma muito grave a situação das famílias.
Como disse um, recem- eleito, primeiro ministro " Nós não vamos aumentar os impostos, porque essa é a receita errada. Não vamos cometer os erros do passado. As prioridades são:aposta no crescimento económico, reduzir a despesa e combater a fraude e a evasão fiscal."
Segunda medida muito má. Uma medida que é afinal uma não medida. A falta de coragem para alterar a situação fiscal da Banca. Que paga em média menos de 10% sobre os lucros declarados. Situação cada vez mais intolerável aos olhos dos portugueses. Medida que permitiria este ano, face ao crescimento previsto dos lucros, arrecadar mais de 600 milhões de euros. Uma medida justa, e corajosa, que permitiria, por si só, uma receita equivalente ao conjunto de todas as anunciadas por Sócrates. Porque será que esta questão permanece uma questão tabu? Será por aquilo que Mário Soares refere com alguma insistência da "excessiva intimidade" entre grupos económicos e governo? Ou numa linguagem mais terra a terra pela submissão do poder político ao poder económico?
O primeiro-ministro anunciou o seu pacote de medidas para enfrentar o novo monstro que nos aterroriza: o défice de 6,83%. Nenhuma verdadeira surpresa. Más medidas e medidas justas, mas, aparentemente, inúteis para o objectivo de redução do défice, talvez para tentar tornar socialmente aceitável as medidas mais impopulares. A justificarem os que entendem, talvez cinicamente, tentarem elas dar uma falsa, mas conveniente, imagem de que com este Governo "comem todos".
Sócrates ganhou o debate de forma esmagadora à direita. A posição do PSD e do PP nesta questão tem sido da mais descarada falta de responsabilidade no assumir de responsabilidades. Oportunismo político nunca antes visto. Marques Mendes e Nuno Melo, entre outros, alijaram responsabilidades e recorreram a Guterres para justificar a coisa. Bagão Felix, tinha-se antecipado, no Prós e Contras, recorrendo à mudança de condições entre a data de elaboração do Orçamento e a data de elaboração do "Relatório Constâncio". Manuela Ferreira Leite já antes, candidamente, referira que a situação só lhe dava razão. Entre linhas criticava a mudança de orientação do Governo de Santana Lopes. Nenhuma explicação sobre a falência das suas políticas - fortemente suportadas por receitas extraordinárias que atingiram montantes nunca vistos - que exigiram grandes sacrifícios às famílias e às empresas. Sacrifícios que conduziram, entre outros, a um crescimento gigantesco do desemprego.
No seu confronto com a esquerda a coisa correu menos bem. Sócrates, no essencial, veio pedir sacrifícios aos mesmos. Às famílias e às pequenas e médias empresas em particular. E concretiza um forte ataque aos "direitos adquiridos" pelos funcionários públicos.
Foram manifestas as dificuldades em assumir a resposta aos que os acusaram de adoptar medidas semelhantes às que antes criticara a Durão Barroso. Medidas que provaram no passado induzir recessão e estimularem a economia paralela, reduzindo a receita fiscal.
As dificuldades teriam sido maiores se alguém se tivesse lembrado do facto de a situação fiscal da Banca permanecer intocável. Até o Bloco de Esquerda se esqueceu desta questão. Que não é de somenos como todos sabemos incluindo o primeiro-ministro e o ministro das finanças.
O Durão manda na Europa, o Guterres na Jolie, o Benfica é campeão. Quem é que falou em crise?
Peseiro eleito o melhor treinador da Super Liga. Humor negro do melhor.
Este é o número do nosso descontentamento. Vai ser à sua sombra que a nossa vida vai piorar. Uma pergunta simples: porque razão não rasgam o anterior Orçamento e não fazem um melhor? Não foi isso o que quiseram os Portugueses a 20 de Fevereiro?
Não quer aumentos de impostos. O que é que será que o homem quer? Vender outra vez o património que o seu partido vendeu durante três anos? Diminuir a despesa pública à "la Durão-Portas-Santana"? Não se importa de explicar?
Como o défice, o monstro que é hoje a única oposição que conta, como explica Vasco Pulido Valente, está pelas horas da morte faço uma pequena proposta para reduzir, e a prazo eliminar, a coisa.
Como as empresas e as famílias estão, numa grande maioria, na falência, o aumento de impostos deverá ser selectivo. A lógica deverá ser ir buscar o dinheiro onde ele existe. Um Estado Robin dos Bosques para desenjoar do Estado ladrão que cobra aos pobres para perdoar aos ricos. Primeiro lugar de caça ao tesouro. A Banca. Em 2003 pagou 8,7 % sobre os lucros obtidos que, no caso dos cinco maiores bancos, ascenderam a 1.964,52 milhões de euros. Isto é pagou 170,913 milhões de euros. Devia ter pago 589,35 se estivesse sujeita a uma taxa de IRC normal. Ficaram por cobrar 418,44 milhões de euros, isto é 10% daquilo que o ministro necessita de poupar. Se o ministro aceitar poupar metade e receber a mais a outra metade, então o "perdão" fiscal à banca foi de 20% das "necessidades".
Mas para nosso contentamento a banca está próspera neste país falido. E os lucros no primeiro trimestre pularam 40% sobre o período homólogo do ano anterior. Fantástico. Um crescimento de 40% na receita fiscal deste sector. Vamos poder cobrar, no próximo ano, cerca de 825,098 milhões de euros, isto é qualquer coisa como 29,2% das "necessidades". Nada mau para começar.
Aceitam-se contribuições para este tão nobre propósito.
Para ler aqui um artigo de Luís Nazaré que questiona, entre outras coisas importantes, a tão proclamada excelência do desempenho da Banca. Um "olhar de perto" para "o superior desempenho técnico e (...) a reconhecida eficiência operacional, alegadamente ao nível das melhores prácticas internacionais."
Não há impossíveis. Uma das piores equipas do Benfica ganhou a SuperLiga. Contra um Porto de terceira e um Sporting "à Peseiro". Vai ser uma semana dura. O senhor Vieira está em todos os canais, em directo. Não há zapping que nos valha. A Ana Sousa Dias, pela primeira vez na história, assume algum protagonismo face ao "Professor" e coloca um cachecol -de seda!!! - do Benfica. Gente fina.
O "centenário" Trapattoni deu uma das maiores lições de competitividade aos pseudo-jovens treinadores de sucesso. Transformou uma equipa de executantes menores na equipa vencedora da Super-Liga. Vai embora porque os milagres dão demasiado trabalho e a idade já pesa.
Esta é a melhor de todas as alturas para anunciar o aumento de impostos. A maior parte das pessoas está feliz.Afinal o futebol, como dizia o avô Vladimir, é o ópio do povo.
Para dar algum encanto e fantasia a este dia perdido, o Sardinheiras desvenda algumas das afinidades com a sua homónima francesa. A ver aqui.
Acerca do post "É preciso muita determinação.Muita determinação." Ver aqui.
Ontem, ao fim da tarde, fui visitar uma amiga que tem um jardim de Maio muito perfumado, repleto de sardinheiras e rosas da cor do céu mais quente. E a casa, virada a Oeste, àquela hora, recebia nas paredes a cor alaranjada do céu ao longe.
Apesar de a visitar com regularidade, foi ontem, num fim de tarde de Primavera, que recebi o meu presente de Natal: um quebra-nozes.
Não, não me refiro aos electrodomésticos que o povo de Gondomar julgou perdidos, mas que o Major já sossegou com a sua credível candidatura como independente. Refiro-me, sim, ao ponto a que chegámos em termos de angariação e de fidelização de espectadores das emissões televisivas.
Todos nós sabemos que vale tudo para conquistar audiências. Diariamente, TVI, SIC e RTP 1 (há outro, não há?) degladiam-se e (...)
Para continuar a ler, seguir para aqui, por favor.
A entrevista a Santana Lopes, na RTP1, justifica-se sob que ponto de vista? Que interesse tem ouvir o homem dizer as mesmas coisas, manifestar a mesma perplexidade com aquilo que lhe aconteceu? Há qualquer coisa de mórbido nesta insistência. Por momentos parecia que, por engano, tinha acedido à RTP Memória. Memória amarga.
Excelente a iniciativa de Pacheco Pereira. O referendo é para todos os cidadãos. Os que apoiam a constituição europeia e os que estão contra. A discussão deve ser aberta e com igualdade de oportunidades. O que não parece estar a acontecer com a "institucionalização" da defesa do sim. É bom que exista um sitio para se expressarem os que defendem o não. Ou pelo menos uma certa forma de dizer não, porque nestas questões as motivações são plurais.
Se há um défice de debate em Portugal é sobre a Europa e as questões europeias. Que são, afinal, as nossas questões. A Europa resume-se às massas que nos chegam de Bruxelas. Como a política regional se resume, desde sempre em Portugal, ao betão, ao asfalto e às obras tão relevantes na política interna, sobretudo para fins eleitorais. Nacionais e locais acrescente-se. Quase ninguêm discutiu em Portugal o "Esquema de Desenvolvimento do Espaço Comunitário" e as questões decisivas do alargamento. Que se discuta a sério esta questão da Constituição Europeia.
Já nas críticas ao Presidente da República acho a argumentação um pouco demagógica. Jorge Sampaio, como qualquer Presidente da República, é, de facto, o Presidente de todos os portugueses o que não significa que não tenha sido eleito com base num programa de candidatura que permanece válido até ao final do seu mandato. Foi com base nesse programa que foi eleito. E ninguêm ignora que Jorge Sampaio é um firme defensor da Europa e da futura Constituição Europeia. Firmeza e convicção que reafirma sempre que pode e a oportunidade o justifica. Naturalmente.
Durão Barroso acerca da forma de encarar o défice cuja dimensão será revelada na próxima semana por Vítor Constâncio. Um segredo de polichinelo já que toda a gente sabe que será superior a 6% do PIB.
Durão Barroso falou mas não "como político português". Uma boa desculpa para não abordar a sua parte de responsabilidade na engorda do "monstro".Apesar de tanta receita extraordinária, e tanto empobrecimento do País por essa via da alienação de património, muitas vezes ao desbarato, o défice não parou de crescer. Vêm aí mais sacrifícios para os do costume.
Os russos ganharam. Apostando no contra-ataque e tirando partido de uma muito superior frescura física. Peseiro apostou numa equipa "idosa", com Rogério no meio-campo e Custódio no banco a descansar, que tardou a refrescar ao longo do jogo. Na primeira parte o Sporting dominou mas sem grandes oportunidades. Na segunda parte foi o descalabro. Um estoiro que se ouviu em todo o País.
Em contra-ataque o CSKA fez o que quis de um meio-campo abandonado.
Quem diria que Pedro Barbosa jogaria o jogo da Luz e o jogo da final num espaço de dias? Quem diria que Rogério seria escolhido para o meio campo? O Sporting nunca ganhou com esta opção. Quem diria que Doualla ficaria no banco a assistir? Peseiro disse.
Os adeptos do Sporting assisitirão no próximo ano ao aperfeiçoar destas "teorias". A SAD satisfeita com a campanha vai insisitir. Há coisas que as SAD's sabem que o comum dos adeptos não topa.
Inauguram hoje quase todas as exposições integradas na LisboaPhoto 2005. Uma delas é a do fotógrafo norte americano Aaron Siskind (New York 1903-Providence 1991) que estará patente ao público no Museu de Arte Antiga em Lisboa.
Aaron Siskind http://www.aaronsiskind.org/as.html é um dos mais originais e representativos percursos da fotografia do século xx. Tal como se escrevia no Mil Folhas do último Sábado, defendia que o trabalho do fotógrafo é o de desacreditar o mundo visível, desconstruí-lo. De facto muitos trabalhos fotográficos enveredaram por esse caminho e outros pela construção ficcional das imagens. Mas se também a fotografia enveredasse somente pelos caminhos da abstração, da fragmentação do visível o que é que nos devolveria o mundo tal como ele é, sem pretensões, sem cariz artístico? Será que um olhar mais atento leva sempre à desconstrução do que se vê e à sua reinvenção?
Como é que se pode chamar "cidade" a um sítio onde não se conseguem comprar bolas de ténis?
Arde el agua,
la tierra arde,
arde
el asfalto
hasta abrasar,
como si
las farolas aprendieran
la tabla de multiplicar.
La plaza
es más bella
que miles de damas perifolladas.
Esta plaza
justificaría
cada ciudad.
Si yo fuera
el obelisco de Vendôme
me casaba
con la Place de la Concorde.
Vladimir Maiakovski. La ciudad . Poemas 1917-1930
"Acerca das novas leis do poder local.
Dois mil e quantos ?
As alterações à Lei das Autarquias vão ser discutidas na Assembleia da República quando este jornal chegar às bancas. Por diversas vezes tomei posição sobre esta questão. Desde 1989 que considero urgente a reforma do sistema. Mas, como se sabe, urgente em Portugal não tem data. Ainda agora as alterações parecem ir ser sujeitas a uma espécie de moratória, negociada entre PS e PSD, que impedirá as listas de independentes antes de 2005, na melhor das hipóteses. Nesta discussão eu coloco-me num ponto de partida que é o seguinte: o actual sistema não presta e é, já hoje, uma lamentável distorção do poder local criado no pós 25 de Abril. A evolução, conseguida à custa de sucessivas alterações legislativas, criou um novo órgão unipessoal que é o Presidente da Câmara - a partir da Lei 100/84 – e esvaziou de poderes as Assembleias Municipais, que se transformaram em câmaras de ratificação das decisões dos executivos. Este estado de coisas possibilitou o regresso em força de um poder de natureza caciquista que tem feito a obra que se pode observar um pouco por todo o país. Com honrosas excepções, que algumas andorinhas não fazem a Primavera. A discussão que alguns travam há muitos anos sobre a necessidade de limitar os mandatos parte desta constatação. Eu coloco-me deste lado. Alguns dos que há 15 dias acusavam as novas propostas de lei de serem presidencialistas vêem agora pedir para tudo ficar na mesma mas exigem limitação dos mandatos. A defesa da limitação dos mandatos é uma posição correcta – ninguém, presidente ou vereador, deve ter mais de dois mandatos – que parte da constatação da existência de um presidencialismo sem controle.
Proponho algo de diferente que é o que sempre defendi. Mudar o sistema devolvendo- lhe a vocação perdida de um regime de natureza parlamentar. Mudando o controle político para a Assembleia Municipal e permitindo executivos à imagem do Governo, isto é, executivos em que os seus integrantes – os vereadores – não teriam legitimidade eleitoral. Esta questão permitiria que tal como os ministros incompetentes também os vereadores incompetentes pudessem ser “libertados” das suas funções.
A única legitimidade eleitoral seria a do elemento mais votado das listas concorrentes à Assembleia Municipal, que presidiria à Câmara Municipal. A grande virtude desta mudança era a de se devolver ao órgão deliberativo a sua vocação de controle político e a de lugar privilegiado para o exercício da oposição. Esta mudança implica um conjunto de medidas concretas relativas às atribuições e competências das Assembleias Municipais que, infelizmente, não encontro nas leis propostas, nomeadamente na lei do Partido Socialista. Mudanças sem as quais a tal vocação de controle político não se poderá exercer o que conjuntamente com os executivos monopartidários legitimam os receios de se poder assistir a uma degradação, ainda maior, das condições em que se exerce a democracia ao nível local.
A forma de constituição das Assembleias com as inerência dos presidentes de juntas de freguesia a manterem-se, como se fossem membros eleitos, a escassez de reuniões e de recursos mobilizados e a incapacidade de demitir o executivo a menos da existência de uma maioria de dois terços – nunca ninguém ganhará uma Câmara com menos de um terço da respectiva Assembleia – defraudam a expectativa existente. Este facto junto com o – não me ocorre outra palavra – descarado adiamento da possibilidade de candidaturas independentes sem "siglas de aluguer" preocupa-me seriamente e faz-me interrogar sobre as consequências da aplicação da nova lei.
Por último uma pequena nota. Li recentemente que os executivos monocolores impedem as oposições de se ancorarem a nível local através da participação nos Executivos. Este raciocinio parte de uma posição de completa descrença nas virtudes das Assembleias Municipais e no reconhecimento da sua inutilidade. Admite que é mais fácil às maiorias aldrabar os deputados do que os vereadores das oposições. Não me parece que seja grande ponto de partida para uma análise minimamente séria. E alem do mais parte de outro erro de palmatória. Os pequenos partidos – em cada concelho considerados – conseguem mais facilmente eleger deputados do que vereadores. Em Sines, por exemplo, um vereador “custa” cerca de 800 votos e um deputado municipal a bagatela de 200 a300 votos. É também por isso que os pequenos partidos têm todas as vantagens em que as Assembleias Municipais recuperem a dignidade perdida".
Texto publicado na edição nº 44 do jornal Sudoeste em 6-02-2001, numa altura em que era vereador sem pelouros atribuídos na C.M. de Sines e militante do Partido Socialista.
Passados tantos anos "tudo na mesma como a lesma".
Peseiro acaba de perder o mais imperdível de todos os campeonatos de que há memória. Foi necessário uma laboriosa conjugação de esforços. De que o último e triste episódio teve lugar, hoje, no Estádio da Luz. Não me lembro de nada semelhante. A pior equipa possível. Douala a ponta de lança. Moutinho desterrado na ala esquerda. Pinilla, Nicolaue e Tello a repousarem no banco. E a mais apagada e vil falta de capacidade atacante e de vontade de ganhar. O frango de Ricardo fez justiça. Trapatoni comparado com Peseiro fez lembrar um "jovem turco" ao pé de um ancião.
Durante anos, nunca ligámos muito à ONU. Sabíamos-lhe a história, conhecíamos o Secretário-Geral, o Conselho de Segurança; víamos as suas intervenções em zonas de conflito, facilmente identificáveis pelo azul claro que serve de imagem à organização; e pouco mais. Era isto a ONU.
Contudo, aqui há umas semanas, começámos a ouvir que o nosso ex António Guterres era candidato a qualquer coisa na ONU. Palavra puxa palavra e alguém chegou à conclusão que o cargo até era importante e que seria merecedor de empenho nacional.
Hoje sabemos que Guterres está na corrida para o cargo de Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados e que o cargo é tão importante que, passada a avaliação efectuada por uma "comissão de especialistas" (!!!) e entrando na segunda fase das candidaturas, há mais quatro candidatos a lutar pelo lugar. Ao que parece, Guterres está neste momento a reunir apoios, contando já com o da Espanha, da Rússia e da França, entre outros.
É aqui que ficamos intrigados. Mas alguém fazia ideia do que era o Alto Comissariado para os Refugiados? Da sua importância? Do seu intricado processo de eleição, com segundas fases de candidatura e avaliações por "comissões de especialistas"? Segundas fases??! Se para chegar a Presidente da Comissão Europeia basta ter um bocado de desfaçatez e alguma sorte, como se explica que haja tantos interessados num cargo obscuro como este, cujo caminho para a eleição é mais insondável do que a organização interna do PCP?
Sim, eu sempre desconfiei. Ao ver o Guterres, com aquele sorriso paroquial na televisão, a angariar "apoios" e, ao mesmo tempo, a mostrar um ar de pomposo desinteresse, sabia que ele estava a preparar alguma. Vai daí, meti-me a investigar o caso e encontrei agora a solução. Eu SEI o que é que ele - e todos os outros - viram neste cargo! Querem que vos diga? Então, em exclusivo mundial, cá vai:
Vou ficar aqui quietinha, a ver se não me perguntam nada...
Ainda não perceberam? Vou pô-lo de outra forma:
Oh, António! Darling, you made it!
Apresento-vos uma futura empregada do senhor António Guterres. Chama-se Angelina Jolie e trabalha para o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, ocupando o cargo de Embaixadora da Boa Vontade.
Assim também eu mandava a Presidência da República às malvas. É que, depois de aturar Governos com a Maria de Belém, a Edite Estrela e a Manuela Arcanjo, esta é que é uma verdadeira promoção.
Força, Guterres! Portugal está contigo!
É uma fartura. Chovem projectos estruturantes por tudo o que é concelho deste País à beira-mar plantado. É nas matas de Sesimbra, é junto das praias de Melides, é na Azóia de Baixo,em Santarém. Onde existir um metro quadrado de terreno rústico com um palminho de vista lá vem um projecto estruturante. O chato é quando existem sobreiros nos terrenos. É que isso obriga a um despacho do ministro. Uma coisa mais custosa.
Alguns autarcas, cujos concelhos não foram objecto da "dinâmica estruturante" dos promotores imobiliários, estarão reunidos, por esta altura, à margem da ANMP. Querem constituir uma "liga dos concelhos vítimas de uma discriminação negativa estruturante". O seu objectivo é obterem da Administração Central uma justa compensação pelo facto de os seus terrenos rústicos não terem sido objecto de nenhum pedido de mudança de uso por parte de um qualquer promotor imobiliário, de preferência do novo tipo, daqueles com as iniciais WWF e montes de preocupações ambientais.
Uma segunda organização parece estar a nascer. Trata-se de um grupo de autarcas reunidos sob o lema "Tirem-nos daqui estes sobreiros que nos desestruturam os concelhos". A sede deverá ser em Benavente e José Ganhão, actual presidente da Câmara, pode vir a ser o seu primeiro presidente.
Luís Nobre Guedes foi um ministro coerente. Tal como mandou para o lixo a proposta de revisão da lei da RAN elaborada por Sidónio Pardal, não teve nenhuma dúvida em aprovar o abate dos sobreiros na Herdade da Vargem Fresca em Benavente. Embora alguns comentadores tenham aplaudido a primeira medida, indo ao ponto de o classificar como um bom ministro do ambiente por essa razão, não hesitarão em o vilipendiar pela segunda atitude. Estamos de facto perante duas faces da mesma moeda, ou melhor da mesma política, isto é perante a mesma submissão aos interesses do imobiliário que se alimenta das mais-valais geradas em processos de mudança do uso do solo. Mudanças de uso que são afinal a passagem do uso rústico -agrícola ou florestal - para o uso urbano. Mudanças que por serem possíveis, com maior ou menor dificuldade, e o respectivo preço a pagar, incluindo ou não o necessário parecer de desafectação da REN e da RAN, fazem com que os preços dos terrenos rústicos sejam referenciados pelo preço do uso urbano tornando virtualmente impossível a sua exploração agrícola e florestal.
Para evitar esta situação bastaria que o solo rústico não fosse objecto da atribuição de índices nos PDM's. E que os usos agrícolas e florestais fossem protegidos e defendidos da procura urbana. Coisas simples mas que poriam em causa tanto projecto falsamente estruturante e essa verdadeira mania nacional que é a segunda habitação.(Somos recordistas a nível europeu na posse de segunda habitação)
Estes processos não são fáceis de entender na sua totalidade. Exigem estudo aturado dos problemas. Estamos perante uma àrea em que muitas vezes aquilo que parece não é. Como no caso do ministro que parecia ser um bom ministro do ambiente. Mas que não era.
Com atraso cá vão os parabéns pelo segundo aniversário do blogue de Pacheco Pereira. A razão da primeira visita à blogosfera e um local de visita regular. A propósito reproduzo a recomendação do passado dia 7 "A LER -*** (como no Michelin) A entrevista de Luiz Pacheco no esplanar". A não perder.
Na passada segunda-feira quando escutava a Antena Miróbriga – a única rádio local, do Litoral Alentejano, que dá uma informação livre da "pata censória" do autarca de serviço – tive oportunidade de escutar as declarações do Presidente da Câmara de Grândola sobre alguns "projectos estruturantes" para o seu concelho. Para Carlos Beato, esses projectos "são investimentos estruturantes que vão criar milhares de postos de trabalho para o concelho". Trata-se de dois mega-empreendimentos que se situam perto de Melides. Um da responsabilidade da imobiliária Pelicano e outro da empresa, de capitais suíços, Costa Terra. O primeiro é o loteamento do Pinheirinho que ocupará 200 hectares e o segundo é o loteamento da Costa Terra que ocupará mais 200 hectares. No seu conjunto implicam 5700(!!!)novas camas.
Importa esclarecer de uma vez por todas o que significa isto dos projectos estruturantes. Porque razões são estas operações imobiliárias estruturantes? E quanto aos postos de trabalho a criar, será que o presidente da autarquia de Grândola nos pode esclarecer sobre o seu número e as suas características? Trabalho qualificado e com direitos? Trabalho desqualificado, sazonal, e sem direitos? Trabalho durante a fase de construção ou para lá dessa fase? E, se possível, quais as receitas da autarquia em taxas municipais de urbanização e quais os custos a longo prazo com a gestão e conservação das infra-estruturas públicas (rede viária, abastecimento de água, drenagem e tratamento de esgotos, iluminação pública, rede de comunicações etc,). Isto é, quais os custos da rentabilização social de tais investimentos privados? Será que "estruturante" tem alguma coisa a ver com desenvolvimento? E qual o conceito de desenvolvimento que se aplica no concelho de Grândola? A aposta é na valorização da propriedade fundiária ou existe uma ideia precisa de desenvolvimento com a criação de uma cultura de resistência à tirania do curto prazo e uma capacidade para avaliar a razoabilidade dos objectivos dos tais projectos estruturantes?
O que já se sabe é que estamos perante duas operações imobiliárias de grande envergadura, sob a designação "protectora" de empreendimentos turísticos, que têm na sua origem uma operação de alteração do uso do solo. Essa alteração do uso do solo rústico para urbano é geradora de gigantescas mais-valias simples que são apropriadas, na sua totalidade, pelas entidades promotoras. Essas entidades são identificadas na literatura científica sobre estas questões como agentes catalizadores da alteração do uso do solo rústico para urbano. São normalmente referidas as entidades com grande capacidade financeira, como os Bancos, as Seguradoras e os Fundos Imobiliários. Recorde-se que a imobiliária Pelicano pertence ao grupo Espírito Santo, tal como a Portucale em Benavente, agora tão na berra pelas piores razões.As autarquias são referidas como agentes permissivos. Não sendo os únicos, pois ainda antes do ex-ministro Nobre Guedes já muitos despachos governamentais reconheceram a "utilidade pública" deste ou daquele projecto estruturante. Já agora, a título de esclarecimento: mais-valias simples são aquelas que resultam de decisões da Administração Pública e que não implicam qualquer mérito por parte dos promotores. Os países nos quais a Administração segue uma lógica de defesa do interesse público, caso da Holanda, da Suécia e da Alemanha entre outros, conscientes da impossibilidade de tributarem estas mais-valias simples, optaram pela sua socialização, isto é, pela sua retenção na posse da Administração.
PS – O autarca de Grândola queixou-se do facto de "por razões processuais, estivemos mais de uma dúzia de anos à espera que eles fossem aprovados nos vários organismos governamentais". Vamos lá ver se eu compreendo. Estes projectos estruturantes não foram concretizados pela anterior gestão comunista do concelho por "razões processuais"? E se tivessem sido concretizados, com a criação dos tais "milhares de postos de trabalho", quem seria o actual presidente da autarquia? Será que existe ao nível autárquico uma "ideologia" dos projectos ditos estruturantes?
Ando a viajar pelos livros, papéis e mapas:
Ceuta, Alcácer Quibir, Cabo Bojador, Arguim, Cabo das Três Pontas, Cabo de Santa Catarina, Angra das Areias e Angra das Voltas, Cabo da Boa Esperança, Rio dos Bons Sinais, Melinde e Calcute corria o mês de Maio de 1498.
"Das criações helénicas, a cidade e a estátua, ainda é a cidade a mais bela. Tem além da linha, o movimento. É a um tempo estátua e tragédia, tragédia no mais elevado sentido da palavra, espectáculo de um movimento fundado na liberdade"
Eugenie d’Ors
60 Anos após o armistício na Europa, Paul Celan, o poeta do silêncio no tempo
Posted by MJB at 5/09/2005 08:23:00 da manhãPaul Celan nasceu na Roménia em 1920. Filho de judeus-alemães, em 1942 dá-se a deportação dos pais para um campo de extermínio nazi.
Escolhi o poeta do silêncio no tempo para assinalar o terminar da Segunda Grande Guerra.
Leite negro da madrugada bebemo-lo ao entardecer
bebemo-lo ao meio-dia e pela manhã bebemo-lo de noite
bebemos e bebemos
cavamos um túmulo nos ares aí não ficamos apertados
Na casa vive um homem que brinca com serpentes escreve
escreve ao anoitecer para a Alemanha os teus cabelos de oiro Margarete
escreve e pôe-se à porta da casa e as estrelas brilham
assobia e vêm os seus cães
assobia e saem os seus judeus manda abrir uma vala na terra
ordena-nos agora toquem para começar a dança
(...)
- Paul Celan -
Depois de se ler a entrevista que Vasco Pulido Valente dá à Visão desta semana, só nos resta fugir do país!
Confesso que sempre gostei do estilo de Pulido Valente: audaz, lúcido, cáustico, independente. Quatro adjectivos que infelizmente muito escasseiam neste país, vindos de pessoas que realmente pensam antes de emitir opinião. Mas desta vez o "Velho do Restelo", como já lhe chamaram, vai longe demais. Não nos deixa uma única esperança ou saída para mudar o rumo de Portugal. Como Pulido Valente diz, " estamos a ser, pouco a pouco, Governo a Governo, empurrados contra a parede". Depois de ler as suas palavras, é como se tivesse feito "pause" num filme em que um dos protagonistas, já moribundo, está contra uma parede com uma espada no pescoço.
Entretanto, ainda com a "pause " ligada e a pensar neste país "historicamente periférico", faço "zapping" pelos outros canais e lá estão: Valentim Loureiro no Canal 1 e o jogo do Sporting na TVI. Esta noite só me restam 2 coisas: ver o final da vitória do Sporting e estudar História da Expansão Portuguesa.
Vasco, temo que estejas certo, mas "não entres tão depressa nessa noite escura".
para a posição do BE sobre esta questão. Francisco Louçã já tinha garantido que o Bloco votaria favoravelmente qualquer das propostas em discussão, com objectivo de evitar que a "discussão -eterna acrescento eu - política sobre esta questão não passe de uma encenação com várias propostas diferentes, mas com o objectivo de nenhuma ser aprovada.". Ontem votaram favoravelmente a sua proposta e a do PS. Com a particularidade de o seu projecto, aprovado com os seus votos e do PS, ter tido a abstenção do PSD e os votos contra do PCP e do PP.
O PCP, o PSD e o PP aliaram-se para votar contra a aprovação, na generalidade, das propostas do PS e do BE, sobre a limitação de mandatos. Uma vergonha a atitude do PCP.Que já tinhamos previsto.
para Jorge Coelho por ter defendido que "os socialistas têm a obrigação moral de fazer aprovar a despenalização da interrupção voluntária da gravidez pelo Parlamento", caso o PSD continue a bloquear a realização, a curto prazo, do referendo.
Posição pessoal mas com muito peso no interior do partido. Uma opção clara para acabar de vez com o cinismo da direita à volta desta questão.
A "administração interina" tem cuidado do Blogue com grande desvelo nesta minha ausência de alguns dias. Mas cá estou de regresso depois de algumas semanas às voltas com as coisas da "formação do preço do imobiliário" e do que com isso tem a ver, ou talvez não, essa coisa etérea a que alguns chamam o nosso "sistema de planeamento urbanístico".
Para curar-me, o feiticeiro
pintou tua imagem
no deserto:
areia de oiro - teus olhos,
areia vermelha - tua boca,
areia azul para os teus cabelos,
e branca, branca areia, para as minhas lágrimas.
Pintou durante o dia, e tu
crescias como uma deusa
sobre a imensa tela amarela.
E pela tarde o vento dispersou
tua sombra colorida.
E, como sempre, na areia
nada ficou senão o símbolo das minhas lágrimas:
areia prateada.
poemas dos peles-vermelhas
"mudados para português" por Herberto Helder

Kasimir Malevitch, Suprematist Composition: White on White, 1918
P.S.: Imagem obtida no sítio do MoMA.
Polissulfato de mucopolissacáridos
Apesar de já ter ficado com o pé direito virado ao contrário numa calha de um campo de ténis, tardo em aprender que existem actividades bem mais saudáveis do que a prática desportiva. Por isso, continuo a dedicar-me às modalidades do corpo, entremeando o ténis com o futebol, o mergulho com o basquete e a fisioterapia com todas elas.
Quando era mais novo – e arrogante e orgulhoso e apaixonado, como acontece sempre que nos julgamos mais novos – desafiava de igual para igual todos os centímetros de qualquer campo de ténis, entregue a mim mesmo e à pomada oficial da selecção nacional alemã de futebol. Não sei, mas talvez achasse que, untando-me com tal mistela, auferiria, como que por osmose, da eficácia e competência estóica daqueles Homens-máquinas, intocáveis intérpretes de futebol naqueles tempos, a meus olhos.
À medida que fui envelhecendo, tornei-me mais céptico quanto à verdade instituída, o meu corpo mais frágil face aos elementos externos e os amigos alemães menos infalíveis contra as selecções de pequenos países periféricos do sul da Europa. O meu mundo desleixou-se, os alemães “deslixaram-se” e chegámos aos dias de hoje.
Ganhar ou perder não importa: o que interessa é participar! É com base nesta insigne mentira que muita gente perde o seu tempo e a sua saúde em pavilhões desportivos, campos polidesportivos, estradas de montanha e encontros românticos. Reportando-me ao primeiro caso apresentado, foi devido à profunda tibieza do físico que ontem regressei de um jogo de futebol como um veterano das trincheiras da Primeira Grande Guerra. À falta de condecorações, optei por procurar alguma coisa que me aliviasse as dores e prevenisse o recurso a uma epidural no São Francisco Xavier. Longe da pomada dos panzeres, busquei algo mais trivial. E, pela primeira vez na minha vida, não encontrei uma bisnaga de Hirudoid em minha casa. Dirigi-me à minha mãe, fiel depositária da mastodôntica farmácia caseira, e inquiri sobre a milagrosa droga. As certezas não foram muitas, “havia de estar lá p’ ra dentro”, que não, não estava, não havia!
O Hirudoid é assim mesmo: anónimo, incompreendido, insondável nas suas propriedades clínicas, uma fé cega sem contra-indicações nem lugar marcado. Não tem direito a caixa ou a lugar privilegiado em casa: a bisnaga encontra-se sempre retorcida, dobrada em mil voltas em direcção à tampa, com a pintura esfolada nas extremidades, prisioneira do fundo de uma certa gaveta órfã da benigna gordura do unguento, remanescente da última utilização.
Prestimosa, minha mãe não perdeu tempo a admitir a falha e a repará-la com brio. No dia seguinte vi, fascinado, essa palavra trissilábica na receita médica do meu contentamento, legitimada superiormente pelo cromo com o código de barras, preta larga, branca branca, preta fina, fina branca, dupla preta, M, 1, 2, 4, 8, 9, *, que identifica os nossos médicos na via verde das caixas registadoras das farmácias.
No século XXI, já ninguém pede um Hirudoid. Querem-se analgésicos, anti-inflamatórios, anti-reumatismais, antipiréticos, orçamentos rectificativos e comboios de alta velocidade. O Hirudoid não é nada disso. É humano. É antigalo e nódoa negra. Combate os males dos idosos, os nossos professores nesta vida e a quem tudo devemos; e apazigua as obrigações das nossas crianças, a única prova de que realmente existimos e de que podemos acreditar em qualquer coisa que gostamos de chamar amor.
Sempre que o utilizo recordo-me daqueles turistas que, uma vez longe da pátria de Luís Figo e de Zé Maria, procuram o primeiro botequim português para “matar as saudades” com um pastel de bacalhau e um Sumol. Ainda que não bebam Sumol em Portugal desde os tempos em que enfileiravam a Mocidade Portuguesa. Tal como o Sumol, o chocolate para o leite Milo, os Fogões Meireles e a pasta medicinal Couto, o Hirudoid faz parte desse imaginário colectivo de saudosistas inveterados, eternas segundas escolhas, hipóteses desesperadas de que invocamos saudade na esperança de nunca as termos.
A embalagem continua um clássico, longe da fúria remodeladora dos nossos dias, ora ditada por política de marketing, ora por marketing político. O fundo é alvo, o nome vem escrito a azul escuro q. b. numa fonte ultrapassada, acima, um risca vermelha a rematar e a dar início à tampa de uma ingénua enormidade.
Lá dentro, a pomada em tons branco-hirudoid. E o cheiro? O cheiro é a minha infância, um final de tarde solarengo em que um maldito escorrega resolveu mexer-se quando lutava com os outros miúdos pela primeira descida.
O Hirudoid é só uma pomada, um carinho que se dá ao corpo em complemento ao gelo, ao chá e às torradas, as melhores drogas para qualquer mal de corpo e espírito. Para uso externo, sem casos de sobredosagem conhecidos e sem efeitos sobre a capacidade de condução de veículos e utilização de maquinaria pesada. Quanto a estes dois últimos casos, com muita mágoa minha.
Hoje, já não há escorregadelas que me animem ou torradas que me curem. Tenho memória, recordações, o mundo e um sol a nascer todos os dias.
Publicado originalmente a 27 de Junho de 2001, na edição n.º 53 do jornal regional "Sudoeste"
isto & aquilo
Foi com Black Cross (Cruz Preta sobre Fundo Branco, em português), que, em 1915, Kasimir Malevitch assinou o primeiro manifesto do suprematismo. Assumindo a condição de precursor desta corrente, Malevitch pretendia, assim, libertar a pintura do escravatura da paisagem, do retrato e do real, afirmando que a pintura existia por si, antes de tudo o resto, no próprio artista, não necessitando da ideia da formação de imagens e da figuração como cópia da realidade. O que tentava alcançar era a «supremacia das formas», na primeira manifestação de abstraccionismo geométrico puro. O suprematismo abriu caminho a novas abordagens na pintura – como os famosos ensaios de "branco sobre branco" – e a simples cruz preta sobre fundo branco é uma das obras mais estimulantes do Centre Pompidou.
Eu entendo que existem mais relações como a que Malevitch encontrou entre a pintura e a realidade. Uma delas usa-se da liberdade.
Quando associamos a liberdade a um momento certo no tempo e a cristalizamos aí, perdêmo-la antes de a termos. Quando a fazemos festa folclórica e vazia, vivida militantemente uma vez por ano, escapa-se-nos a essência. Quando a impomos por decreto, ela deixa de existir.
Por que é que há tanta gente preocupada a festejá-la e tão poucos decididos a vivê-la?
O todo e a parte. A ditadura da liberdade. Que liberdade? Alguma, instituída? Já existia, antes de a conhecermos. Agora, arrogamo-nos como seus fiéis defensores, tomámo-la como só nossa, restringimos o conceito a festas e feriados. Confundimo-la, de forma mais ou menos honesta, com a verdade possível, com os nossos triunfos, como um troféu. Liberdade?
Que fique claro que, para mim, a liberdade é livre.
José Manuel Fernandes, o neo-conservador director do Público, não mostra grande entusiasmo pela actuação do Governo. Com uma regularidade semanal lá vai actualizando as razões do seu descontentamento. Esta semana, referindo-se às medidas anunciadas para a Justiça, questionou-se sobre a razão porque é que "se continua" com a sensação de que o Governo não governa. Uma semana antes eram as palavras de Sócrates que o afligiam. "Palavras, Palavras e mais palavras" não chegam, concluía.
Este Governo tomou posse há menos de dois meses. Tomou algumas medidas importantes e outras que nem por isso. E sobretudo, entre palavras e actos, priveligiou claramente os segundos. O que este Governo nunca conseguirá ser é um Governo suficientemente bom para agradar a José Manuel Fernandes. E já agora se obtivesse esse nível de "excelência" será que continuaria a agradar a quem o elegeu?

Imagem enviada por correio electrónico por José Pedro Lucas.
O professor Marcelo hoje esteve imparável. O Governo foi objecto de um ataque cerrado. Os que pensavam que tinha sido só com o Santana Lopes estavam muito bem enganados. Vão ver como é todos os domingos na Televisão Pública a melhor oposição da semana. Luís Marques Mendes pode ter desempenhos frouxos no Parlamento que o professor ao domingo compensa nas calmas. Não há show off que lhe escape nem oposição que se lhe compare.



Nada de confusões. Isto é pago com dinheiros municipais. Não tem nada a ver com as próximas autárquicas. Aliás, vai haver eleições este ano?
