O Arrastão de Carcavelos, que foi já considerado o maior flop desde Santana Lopes, não se voltará a repetir. A organização desmarcou ainda os arrastões que tinha agendados para Albufeira, Rocha e Praia dos Tomates, por falta de viabilidade económica.Segundo Casimiro Monteiro presidente da "Arrastões da Cova da Moura, SA", houve um erro no cálculo do défice, que levou a organização a criar expectativas que depois saíram goradas. Em Carcavelos, a operação terá dado mesmo prejuízo, uma vez que não pagou sequer o passe aos participantes, que além de tudo, ficaram sem almoçar. "Para a quantidade de lixo que limpámos da praia, mais valia termos levado um ancinho", confidenciou-nos Casimiro Monteiro, visivelmente preocupado com a possibilidade da não realização, em Portugal, de mais iniciativas deste género. Ainda se terá alvitrado a possibilidade da deslocalização para regiões onde o lucro fosse mais garantido e o capital de risco menor como Vilamoura, Pedras d'El-Rei ou Vale de Lobo, mas depressa se concluiu que quem tem realmente dinheiro está em Cuba ou nas Maldivas e que os portugueses, aparentemente endinheirados, que frequentam estes locais "in", não passam de uns esfomeados que "a única coisa que largam nas praias é beatas e mijadelas no mar". Assim, faz-se saber a todos os interessados, que o próximo arrastão terá lugar na praia do Martinez em Cannes no dia 17, Mónaco-Sul no dia 18 e Saint-Tropez no Domingo 19. Apareçam
(José Mouro)














Henri Matisse. Estudo/Desenho (c. 1909).
Matisse, Paris / Artists Rights Society (ARS), New York



O corpo tem sobre si as linhas
que o ausentam e o ligam ao espaço seguinte
a energia significante
que o desmaterializa para surgir noutro lugar
O corpo tem em si a matriz do aparecimento
o espanto do que surge, o mistério

...


Piet Mondrian, Broadway Boogie Woogie, 1942-43

Boa noite. Bom dia.

P.S.: Imagem obtida no sítio do MoMA.

As novas regras para as nomeações políticas para altos cargos públicos foram aprovadas com os votos contra do PCP, PP e PSD. Esta minoria de oposição -já constituída noutras ocasiões nesta legislatura - contou com a participação do PCP. O argumento que o PCP utilizou para votar contra é espantoso. Disseram os comunistas pela voz de Jorge Machado : "É o cartão do partido a sobrepor-se à competência." Importa-se de repetir?
O PCP nas autarquias, onde exerce o poder, utiliza o cartão partidário como critério exclusivo(!!!) para a ocupação de cargos de chefia. A menos que não existam "camaradas" disponíveis. O mesmo se passa nas estruturas regionais que ainda influencia no Alentejo. É assim há décadas. Que hipocrisia tamanha nesta posição.
Aplausos para o PS que teve a coragem de melhorar a lei existente e para o BE que apoiou a medida. Parte da maioria de esquerda do 20 de Fevereiro ainda se mantêm.

Luís Delgado não dá um tusto por este Governo. Nunca se vira um Governo assim a disparar contra tudo e contra todos, diz ele. A falta de "sentido de classe" do Governo baralha o Luís.
Esta falta de sentido de classe leva o Luís a, pela primeira vez na sua vida, apoiar todas as greves em curso e a compreender as "razões profundas" que as motivam. Se isto continua ainda acaba em porta voz da Intersindical ou a aderir ao PCP, Deus o livre.
Parece no entanto que Luís sonha com a queda iminente do Governo, e com o seu regresso rápido ao círculo íntimo do poder. Está atrabalhar para isso. (Mal) Disfarçado de jornalista isento.

Para o Festival Músicas do Mundo, que já tem cartaz definido.

Entre 28 e 30 de Julho, passarão por Sines figuras como Marc Ribot, Kimmo Pohjonen e Hermeto Pascoal. E muitos outros, a descobrir, entre a praia e o castelo.

Para os rapazes da FENPROF, que não marcaram uma greve aos exames, apenas uma greve que, por mero acaso, coincidiu com a época de exames.

Se me é indiferente o aproveitamento da época de exames para a marcação da greve, já me incomoda a esperteza saloia semântica encontrada para, na sua superior inteligência, iludirem a pobre opinião pública sobre a oportunidade das datas. Como se ninguém ligasse uma coisa à outra. Ou custava assim tanto assumirem as datas escolhidas?

É o spinning a chegar ao sindicalismo português. Com os resultados de sempre, acrescente-se.

Sampaio acusa a Banca de não apoiar a inovação e as empresas e de promover o "embuste" do crédito ao consumo, exemplificando com o crédito fácil para a compra de carro. "Há oposição da banca no que respeita a arriscar alguma coisa nas empresas que querem inovar" De vagar mas a montanha move-se.

Declarações de Manuel Coelho, presidente da Câmara de Sines, acerca do Oleoduto - notícia do Publico local de 20/06/2005 - a garantir estarem " em curso as obras para a instalação de novas vedações metálicas de protecção dos oleodutos, a revisão das bocas-de-incêndio, a instalação de vigilância electrónica, e de um percurso para circulação de viaturas de combate a incêndio, bem como a colocação de barreiras protectoras em betão no troço de oleodutos próximos das habitações".
Para além de um manifesto conflito com a realidade, estas obras estão todas na "fase invisível", parece haver aqui uma apetência irreprimível para assumir o papel de "porta-voz" dos interesses da refinaria que, infelizmente, conflituam muitas vezes com o interesse das populações.

O Farol é Testemunha



(José Pedro Lucas)


photographed/published by Unichrome of Bath.
from Emily Mace website

O monumento megalítico Stonehenge, construído provavelmente entre 3.000 a.C. e 1.600 a.C., situa-se perto de Salisbury em Inglaterra. É um lugar conhecido, segundo muitos, pelas suas poderosas energias e mistérios. Foi ali que uma multidão se juntou hoje ao raiar do dia e formando um círculo celebrou o Solistício de Verão que acontece hoje no Hemisfério Norte.
O Verão começa hoje às 21:09 hrs.
Aproveitem para celebrar também este dia e não se esqueçam de observar o luar nas próximas noites.

Em profunda reflexão.

[hã, hã... ]

Disse Juncker, "o mais realmente socialista deles todos" segundo Ana Gomes, que o fracasso da cimeira foi provocado pelo "confronto de duas concepções da Europa.(...) Há os que, sem o dizer, querem um grande mercado e nada mais que um grande mercado, e os que querem uma Europa integrada." Blair lidera claramente o primeiro grupo. Nada que embarace a Internacional Socialista.

Para ler no Público Local de hoje. Um trabalho de Carlos Dias sobre as condições de segurança das populações que vivem junto ao Oleoduto que liga o Porto de Sines à refinaria da Galp.

O Blair do director do Público é um herói. O novo Napoleão, vencedor da batalha contra a PAC, travada, desta vez, nos salões de Bruxelas. J.M.F. que vê em Blair, com alguma razão, uma réplica europeia de Bush, o que manifestamente o excita, quer fazer-nos crer que o “socialista” da terceira – via tem como grande objectivo reformar a PAC. Trata-se de uma falsificação mas sobre Blair não é a primeira que se comete. O homem quer, tal como Wellington em 1815 relativamente a Napoleão, encerrar o capítulo de Chirac na história Europeia e em simultâneo manter, tanto quanto possível, o ignóbil cheque herdado da avó Teatcher. Desta vez recorreu ao veto político enquanto o general usara as granadas, então olhadas como uma nova arma de destruição em massa, de que Blair se tornou, como se sabe, um dos grandes especialistas mundiais.
Quanto à PAC ela é verdadeiramente instrumental neste jogo. Todos sabemos que Blair nunca se preocupou minimamente com esta velha, e sórdida, questão e que está disposto a manter a PAC desde que o cheque não seja reduzido. Como sempre fez ao longo de todos estes últimos 8 anos.

As empresas Municipais são uma grande invenção para concretizar dois objectivos: em primeiro lugar possibilitar o endividamento das autarquias para lá dos limites legais; em segundo lugar criar "ocupações" bem remunerados, com regalias dificilmente controláveis e capacidade para meterem a "mão na massa", aos camaradas que passaram à reforma cedendo o lugar aos filhos e aos díscípulos.
Todos conhecemos exemplos chocantes deste estado de coisas. Parece que agora o TC vai investigar a coisa. Não se podia pura e simplesmente eliminá-las. E, no entretanto, exigir o preenchimento dos cargos directivos através de concurso a que só podiam concorrer pessoas qualificadas. Pois está bem, assim os "camaradas" ficavam sem fazer nada.

O Orçamento da UE é inferior a 1% do PIB de todos os seus países membros. Além disso cerca de 50% são canalizados para a PAC.
O acordo que previa para Portugal uma verba de 21.300 milhões de Euros enttre 2007 e 2013 - o equivalente a 6,827 milhões de euros por dia - falhou por expressa vontade do "camarada" Blair.
O homem, zeloso cumpridor das conquistas da avó Teatcher, não aceita reduzir o cheque que todos os anos recebe de Bruxelas. Cheque que representa 2/3 da contribuição do Reino Unido para o Orçamento comunitário. Ou melhor aceita mas reduzindo a parte do Orçamento destinada a financiar a PAC, isto é os agricultores franceses.
A UE está assim. Com um Orçamento miserável. Com uma coesão interna pelas horas da morte. Com uma liderança, quer da Comisssão quer da UE, impotentes. Dá tanta pena que apetece dizer: Durão regressa estás perdoado.

Manuela Ferreira Leite, a nossa Dama de Ferro, teve uma semana em grande. Atacou o relatório Constâncio e as medidas do Governo. Atacou o aumento do IVA decidido por Sócrates, que ela aumentara de 17 para 19% nos tempos de Durão. Fez saber que inevitavelmente o Governo recorrerá a receitas extraordinárias. Nunca manifestou qualquer disponibilidade para reconhecer que a medida por si tomada em 2001 foi errada. Acabou a subir no "Sobe e Desce" do Público. A gravidade já não é o que era.
Jean-Paul Fitoussi, no Expresso de hoje, disponível na versão On-Line, é definitivo sobre o que se fez em 2001: " A única estratégia seguida por Portugal foi de restrição orçamental. Adicionou um choque recessivo a outro choque recessivo." Para continuar " Não se pode respirar. Se um país renunciar ao crescimento para resolver um problema de défice orçamental, terá menos receitas fiscais e a questão orçamental ficará mais dificil de sanar. Neste clima as empresas não investem."
Foi pena o homem não ter falado com Sócrates antes do "pacote".

Porque será que sempre que se começa a falar de o sector bancário passar a pagar mais impostos saltam logo os apóstolos a alertar para a perda de competitividade do sector? Mas quem falou em perda de competitividade? Estamos a falar de a Banca passar a pagar sobre os resultados antes de impostos, que são maximizados pela "excelente" produtividade do sector, entre outros factores, uma taxa de IRC idêntica à da generalidade das empresas. Só isto. Dividir de uma forma mais justa entre o Estado e os accionistas.

Acerca da discussão suscitada por Jorge Coelho no programa da SIC-Notícias "Quadratura do Círculo". Para ler aqui

"Um Governo sem imagem" de José Gil, na Visão de 16 de Junho de 2005.
"Vivemos hoje em Portugal, um momento quase indefinível do clima político. Um momento "entre"; entre uma sociedade à beira do precipício e um futuro de que não adivinham ainda os contornos; entre a resistência à mudança e o imperativo( às vezes brutal) de mudar; entre a exigência do sacríficio consentido, e o medo de perder tudo para sempre; entre a confiança a depor num governo que diz querer salvar o País, e o retraimento defensivo, desconfiado ( e com razões históricas para isso) em posições individualistas, corporativas, dos grupos sociais."

Passada a "pequena crise" suscitada pela notícia sobre os "mais de mil boys" nomeados pelo Governo de Sócrates e a troca de correspondência entre Carrilho e os seus críticos aí está a decisão socrática de parar com o processo referendário em curso, para fazer baixar, ainda mais, os níveis de conteúdo no debate político.
É de trivialidades que se faz, exclusivamente, a discussão política em Portugal. Assim se caminhará até Outubro. Depois das eleições autárquicas iniciaremos um novo período de "conversa" sobre as Presidenciais. Que aproveitaremos para não discutir coisa que se veja.
No caso das eleições autárquicas o marasmo dominante é assustador. Depois de um período de discussão sobre o sistema de governo e de eleição das autarquias o debate baixou às "catacumbas" do sistema político. Jaz e arrefece longe dos olhares indiscretos e ígnaros dos cidadãos, numa qualquer "Comisssão Especializada da Assembleia da República". Que bem podia ser rebaptizada "Comisssão Especializada em Baptizados e Funerais".
A luta política na capital apoia-se sobretudo no Marketing. Cartazes num número insuportável que parece concorrerem para um único objectivo: esconder a bela Lisboa dos seus cidadãos substituindo-a pelas carantonhas dos candidatos. Poucas ideias e poucas diferenças. Afinal o poder Local, dizem vários palermas encartados, não é de esquerda nem de direita. É o poder dos homens bons da cidade. Bons em quê?
No resto do país, em regra, haverá a recondução do senhor "fulano de tal" que conta com o apoio da esquerda, da direita e da igreja. Boa pessoa. Levou os velhos do concelho a viajar pelo País inteiro. Com comida e dormida, tudo à borla. Alargou o conceito de velhice ao contrário do Governo que aumentou o período de vida activa. Velhos passam a ser todos os com mais de 55 anos. Por deliberação municipal. Mas não tão velhos que não possam viajar, comer e beber à conta das famélicas finanças municipais.
Fez algumas obras que o seu partido prometia, há vinte anos, e que sempre ignorara. Boa pessoa.E isso não se discute. Endividou o concelho para os próximos vinte anos. Grande visão e grande capacidade de sacrífico. Merecia uma estátua. Damos-lhe mais um mandato e depois logo se verá. Ainda por cima a oposição não se une e logo havia de escolher aquele candidato, com tão má cara, para derrotar um homem tão boa pessoa. E que agora começou a falar de urbanismo, de habitação para todos os estratos sociais, de desenvolvimento sustentável, de ambiente, de desburocratixzação, de rigor na gestão dos dinheiros públicos, de transparência na administração municipal. Quem se interessa por essas coisas? O que é que isso contribui para a nossa felicidade?
Onde é que vamos passear na próxima semana? Porra, ainda não tenho 55 anos.

O TC veio informar-nos de que o endividamento das autarquias aumentou 19% em 2003. Daqui a um ou dois anos dir-nos-á quanto cresceu em 2004 e, se tudo correr bem, antes de 2010 conheceremos a situação em 2006. Tudo continuará como dantes.
O Tribunal de Contas é uma entidade que, com alguma regularidade, nos dá notícias sobre o mau funcionamento dos diferentes orgãos do Estado e dos seus reflexos para a saúde das contas públicas. Com isso cria-se uma sensação, artifical, de que existem entidades que fiscalizam a acção executiva dos titulares desses orgãos. Pura ficção. Toda a gente, com algum poder, já descobriu que por muito mau que seja o diagnóstico nada de grave se passará. Algumas multazitas, recomendações quanto baste. Uma verdadeira "inutilidade superveniente da lide" com as decisões tornadas irrelevantes pela dinâmica do processo, democrático, em curso.

"Fascínio da Cidade. Memória e Projecto da Urbanidade." De Vitor Matias Ferreira. Edição do Centro de Estudos Territoriais do ISCTE e da Ler Devagar (Dezembro de 2004). A reler "A cidade da EXPO' 98" edição da Bizâncio, de 1999, com organização de Vitor Matias Ferreira e Francesco Indovina.

Esta noite, na série Amores Desamores da RTP 1 , é exibido o telefilme Amigos Como Dantes.

O argumento é de Vicente Alves do Ó.

O Jornal de Negócios fez hoje manchete da nomeação pelo Governo do PS de mais de mil gestores públicos. A comparação com o governo de Santana Lopes pareceu-lhes incontornável. Num tempo semelhante mais nomeações. Tornava-se evidente que este Governo batia o de Santana na despudorada promoção dos seus.
O problema está na forma como se utiliza o "método comparativo". Neste caso o Jornal de Negócios compara alhos com bugalhos, isto é, coisas que não são comparáveis. Durante todo o dia não se falou de outra coisa. Afinal este governo até nomeou mais boys do que o anterior. A asneira faz o seu curso e o seu trabalho.
O Governo de Santana resultou da substituição do primeiro-ministro em trânsito para Bruxelas. Durão tinha, dois anos antes, feito uma limpeza radical na Administração Pública incluindo nas chefias intermédias. Recorde-se o que aconteceu na Segurança Social com o implacável Bagão. Governos Civis, direcções de empresas públicas tudo tinha sido já ocupado por gente confiável. Estas realidades foram criteriosamente ignoradas pelo Jornal de Negócios.
Socrates, muito bem, nomeou o conjunto de pessoas necessários para os lugares de responsabilidade política. O que, como se sabe, não incluiu as chefias intermédias da Administração.Esperamos todos que ao longo da legislatura possa limitar ainda mais os lugares de nomeação partidária. Para já Sócrates tem sido moderado e mostrado sensatez e capacidade para se opor às pressões de alguns boys. Terá permitido algumas asneiras, como no caso da nomeação de Fernando Gomes para a GALP Energia. Mas quem não as comete na dificil arte de governar. Dificil é asneirar tanto na simples utilização do "método comparativo".

Morreu Alvaro Cunhal. Um dia de luto para Portugal. Morreu uma das personagens maiores da história política do nosso último século. Combatente insuperável contra a dituadura salazarista. Combate que no seu caso significou a própria perda da liberdade que sofreu nas prisões fascistas. Depois do 25 de Abril tentou implantar em Portugal o modelo de sociedade que sempre defendeu: uma sociedade socialista inspirada nos modelos do socialisno real que estavam implantados na União Soviética e nos países do bloco de leste. Falhou este segundo objectivo. Mas manteve-se sempre fiel ao seu ideal de comunista e acreditou sempre ser esse modelo de sociedade o que melhor servia Portugal.
Foi um homem de uma grande coerência. Mas devemos dizer que essa coerência foi a sua maior virtude e a sua maior fraqueza. Por um lado permitiu-lhe manter a fidelidade às suas convicções e ideias num mundo em que são cada vez mais raros os homens políticos capazes de defenderem ideias e convicções. Por outro lado essa inflexibilidade ideológica não lhe permitiu mudar mesmo quando as manifestações de degradação nos países de leste eram já incontornáveis. Continuou, mesmo nessa altura, a defender para Portugal o modelo que falhava em toda a linha nos países do realismo soviético.
Foi além do homem político um intelectual. Escritor e artista plástico possuidor de uma cultura acima da média ele que sendo de origens burguesas se considerava "um filho adoptivo do proletariado".
Foi um homem de uma dimensão rara gerador de ódios e de paixões como só acontece com os grandes homens.

O poeta Eugénio de Andrade partiu hoje para esse lugar luminoso onde
habitam todos os poetas que amamos, que nos deram esperança e verdade.

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava!
Acreditava,
porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os teus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os teus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...
já não se passa absolutamente nada.

E, no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos nada que dar.
Dentro de ti
Não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.


Eugénio de Andrade

Vinte anos depois da adesão à UE tempo para comemorar. Mas necessariamente tempo para reflectir. Tanta coisa boa que a Europa nos trouxe. A adesão à Europa foi uma oportunidade para confirmarmos algumas das portas que Abril abrira. Sobretudo a porta do desenvolvimento e da igualdade de oportunidades. Infelizmente a incompetência de alguns e a ganância e a usura de outros fizeram deste País o mais desigual de União Europeia.
A discussão sobre o nosso futuro europeu é uma urgência. Uma discussão séria que inclua o Tratado Constitucional, o próximo quadro Comunitário de Apoio e o tipo de desenvolvimento do país que ele irá financiar. Uma discussão que não se limite à clássica discussão das verbas que iremos receber mesmo que não saibamos como as utilizar.
A classe política não deu nestes dias, infelizmente, uma ideia clara de ser esta a sua principal determinação.

PS - Mário Soares que tinha razão há 20 anos aparece hoje como um dos discursos mais lúcidos sobre aquilo que é urgente fazer.

"Os meus Anos em Cuba" de Eduardo Manet, escritor cubano exilado em França desde 1968. Edição portuguesa da Ulisseia (março 2005) a partir do original das Editions Grasset & Frasquelle(2004).

O texto de Miguel Sousa Tavares, no Público da passada sexta-feira, insiste no erro de tratar como igual aquilo que é absolutamente diferente. A utilização do conceito de funcionário público para analisar a "infinidade de privilégios e de excepções escondidas debaixo dos tapetes da administração pública" é uma escolha de mérito duvidosos. Não faz qualquer sentido considerar como semelhantes a situação de um administrador do Banco de Portugal, de um juíz do Tribunal Constitucional ou de um professor do ensino secundário que beneficia de uma progressão automática na carreira. No primeiro caso simples seis anos de exercício justificam uma "modesta" pensão vitalícia de 15000 Euros. No segundo caso bastam 40 anos de idade e mais de 10 de exercício do cargo para justificar o direito à reforma. Na esmagadora maioria dos funcionários públicos a progressão salarial é paupérrima e a reforma só vem no fim da vida, quando a classe política não resolve alterar as regras, entretanto.
Os verdadeiros funcionários públicos são quem assegura o funcionamento das estruturas apesar das chefias incompetentes que o sistema político lhes impõe. Em condições de trabalho e de remuneração modestas, ainda por cima.
A Administração Pública tem hoje os seus lugares de topo "conspurcados" por uma rapaziada que aí acede por pura e simples nomeação partidária. Existem na Administração Central, na Administração Indirecta do Estado, na Administração Local do Estado e na Administração Autárquica do Estado. São caros, porque ganham muito. São os "funcionários públicos" (sem ofensa para os verdadeiros) que melhor ganham. São caros porque quando o Governo, que os nomeia, cai sai-lhes a sorte grande. Recebem avultadas indemnizações, vendem em proveito próprio os luxuosos carros de serviço e ficam em lugares de "recuo" a aguardar que a situação política se altere. Entretanto, começam a beneficiar de "pequenas" pensões vitalícias acumuláveis. São caros porque em regra são incompetentes. E como se sabe a incompetência é a mais cara "qualificação" que alguém pode exibir.
O que não se sabe é qual o peso desta gente nos custos totais com pessoal na Administração Pública. Talvez então fosse possível perdermos menos tempo com aqueles funcionários que passados três anos vêem os seus modestos 900,00 Euros mensais actualizados em 5,27%.

Mais uma vez o "director do maior jornal do país, no cargo há 20 anos", ficou sem a condecoração do 10 de Junho. É o costume. Mais dia menos dia o homem ganha o prémio Nobel e depois vão entregar a medalha de afogadilho ou então fazem um 10 de Junho retroactivo.

O Governo aprovou o regresso à normalidade na forma de contagem do tempo de exercício de cargos políticos para efeitos de reforma. Concretamente no caso dos "nossos" autarcas um ano passa a valer por um ano e não por dois como até agora. Um saudável regresso à normalidade. Este Governo, o governo de Sócrates, através destes pequenos grandes passos vai devolvendo à actividade política parte da dignidade perdida. É disso que se trata e não de uma atitude moralista como lamentava erradamente, na Quadratura do Círculo, Lobo Xavier. Entende-se o equívoco: a direita abomina a limitação dos privilégios. Poucas coisas a aborrecem tanto.

A campanha de Carrilho em Lisboa continua em projecto. Bastante atrasado ao que parece.
A fazer fé nas poucas notícias está ainda na fase "infantil" do dito. A fase em que o candidato passeia o filho às costas pelas ruas de Lisboa, uma cidade pouco amiga dos carrinhos de bebé. Fase que deverá corresponder, na linguagem antiga, ao "Estudo Prévio".
Vê-se pouco projecto mas vê-se em todo o lado o "homem por trás do projecto".
Por este andar esta campanha pode tornar-se num enorme buraco. E o antecipadamente derrotado Carmona tornar-se o novo presidente de Lisboa. Faltam as ideias e as propostas concretas e inovadoras. E o que se diz aparece desgarrado, sem sustentação.
Como se reduz, a metade, o número de automóveis que circulam em Lisboa?
O que significa reavaliar os projectos imobiliários previstos para a frente ribeirinha?
Passados vários meses do anúncio da candidatura Carrilho ainda não teve alguns minutos para abordar a questão específica da habitação na cidade de Lisboa. Pelos vistos uma questão menor ao contrário do que pensam aqueles que julgam ser esta a questão principal da cidade.

Segundo ficámos a saber hoje, a Comissão de Ética da AR tinha-se pronunciado sobre uma eventual incompatibilidade entre as funções que Pina Moura exercia "enquanto profissional liberal" e as de deputado. Isto depois de ter sido ministro com a gestão dos negócios da Energia. Compatível foi o veredicto. Ficámos, igualmente, a saber que desde que assumiu funções na empresa Iberdrola ainda não ocorreu a Pina Moura saber se existe alguma incompatibilidade entre essas funções, as anteriormente desempenhadas e as actuais de deputado. Já passou tanto tempo...
Mas parece que isto está tudo ligado, não parece? E não devia, pois não?
Pina Moura também não quer conversas com o ex-deputado socialista Henrique Neto. Por acaso, ou talvez não, um dos raros deputados que abordou os dossiers do sector energético sempre numa perspectiva do interesse público. Como quando criticou o famoso perdão do pagamento das mais-valias aos accionistas da GALP. Decidido por um ministro à beira de se tornar profissional liberal.

O aproximar das eleições autárquicas não parece ser motivo suficiente para estimular o debate sobre as questões que, aparentemente, são decisivas para que o poder local deixe a apagada e vil tristeza em que tem vegetado. No entanto pelo que se pode observar constitui uma excelente oportunidade para redefinir a "sociologia" das nossas vilas e cidades, que as aldeias desapareceram vítimas do "decretado" progresso. Em particular as apresentações das candidaturas dos partidos, que em cada concelho podem aspirar a vencer as eleições, são um bom momento de observação. Se pegarmos no partido A, no poder desde o tempo dos afonsinos, que recandidata o actual presidente para derrotar todos aqueles que se opõem ao progresso e desenvolvimento da santa terrinha - que já não estão no poder desde o tempo dos visigodos - e no partido B, que aposta num senhor muito amigo dos pobres e da terra, que vai tentar pela enésima vez conquistar a autarquia "para fazer o que faz falta", o que é que constatamos? Na apresentação dos candidatos o conjunto das pessoas que estiveram presentes em cada um dos actos apresenta uma considerável sobreposição. Quem são essas personagens que fazem questão de estar presentes em todas as apresentações de candidaturas que tenham alguma hipótese de vencer? São as "pessoas importantes" da terra. Aqueles cuja presença é sempre bem-vinda e cuja ausência deixa uma amarga sensação de vazio e de orfandade nas candidaturas. São politicamente andróginos e, em boa verdade, nunca se sabe em quem votaram ou votarão. Tão pouco se sabe como abrem os cordões à bolsa. O que é certo é que a sua presença justifica a cobrança que irão fazer, mais tarde, ganhe quem ganhar. Afinal a sua única ideologia é a dos seus interesses que alguns políticos de asa curta e bolso farto confundem com "desenvolvimento".

No Expresso do passado fim de semana num texto sob o título " Jacaré distraído", José Roquette questiona " a terrível e básica pergunta, que insistimos em não fazer, é: num diferente regime cambial, quanto valeria hoje um escudo em euros?"

Será que você escolhia para ministro um cidadão que já estivesse reformado? Como será possível que as pessoas estejam em simultâneo na actividade plena e a acumular pensões resultantes de regimes especiais de reforma? Como pode alguém receber uma pensão de 3 ou 4 mil euros por "dedicados" - e frutuosos - seis anos de trabalho para uma qualquer instituição pública? Porque será que estas coisas só "acontecem" àqueles que no normal exercício da sua actividade já beneficiam de situações remuneratórias excepcionais?
A necessidade de Socrates "enquadrar" as duras medidas que escolheu para enfrentar o défice com medidas "contra os poderosos" resultaram nisto. Nos próximos dias vão saber-se mais acerca de privilégios escondidos, absurdos mas legais. A democracia tem revelado grande talento a cuidar da vidinha e do futuro da corporação "política".

PS - A situação de Jardim é absolutamente menor quando comparada com as dos ministros. Para o mal e para o bem o homem está no exercício do poder há 30 anos. A obscenidade neste caso está no próprio.

Carta Aberta ao Exm.º Sr. Presidente da Câmara Municipal de Sines

Como Sineense, não natural, mas radicado desde 1978 e empresário do ramo da restauração, desde 1991, de momento com estabelecimento aberto na rua pedonal (a única) da Zona Histórica de Sines, venho por este meio mostrar o meu maior desacordo em relação aos moldes e local, como mais uma vez se irá realizar, a MOSTRA GASTRONÓMICA “SINES, ALENTEJO À MESA” - X EDIÇÃO e apresentar uma alternativa.

A realidade da situação do comércio em Sines no geral, ronda as “ruas da amargura”, talvez com maior incidência no comércio localizado na Zona Histórica de Sines.Os diversos factores que conduziram a esta situação são certamente do seu conhecimento, não valendo a pena enumerá-los agora.

As anteriores Mostras Gastronómicas foram sempre consideradas um “enorme sucesso” o que não questiono mas pergunto:

- Independentemente do seu número, qual a origem das pessoas que afluem às “Mostras”? Donde vêm?… Dos Concelhos vizinhos?… De todo o País?... Ou a grande maioria é de Sines?...

- Porque insistir no mesmo local para a realização do evento? As condições de trabalho não são as ideais e, conforme o próprio regulamento assume, o acesso para o transporte de material é difícil.

A alternativa que proponho passa pela realização do evento na Zona Histórica de Sines com o mesmo espírito e regras do Regulamento da Mostra Gastronómica, sendo que:

- Os estabelecimentos da Zona trabalhariam nos seus próprios locais, seriam devidamente sinalizados e publicitados e obrigavam-se a cumprir o Regulamento.

- Os estabelecimentos fora da Zona Histórica utilizariam o espaço do Castelo de Sines após serem criadas as infra-estruturas necessárias e exigidas por lei, para a montagem dos stands que agora são utilizados. Estas infra-estruturas poderiam ser definitivas e serviriam para outros eventos que se realizam no mesmo local.

Penso que seria um passo importantíssimo para a tão falada Revitalização da Zona Histórica de Sines que tarda a chegar e que, para alguns, infelizmente, já não chegará a tempo.

Sines, 23 de Maio de 2005

(José Pedro Lucas)

De novos blogues para a coluna do lado. Façam o favor de se servir.

Jorge Sampaio escreveu sobre as constantes revisões da Constituição - quantas já se realizaram? - e sobre o desconforto que lhe causa a atracção, da classe política, pelo episódico e conjuntural em detrimento do interesse por aquilo que nos afecta enquanto povo.
(...) Porém, os grandes problemas económicos e sociais, bem como os temas mais estritamente políticos exigem visão estratégica e capacidade de pensar e agir sobre o médio prazo. De outra forma, a sua resolução pode ficar negativamente condicionada e afectada.
As discussões presentemente em curso sobre a limitação de mandatos e sobre os processos referendários ilustram eloquentemente a importância daquela necessidade e deste risco.
Num e noutro viemos a adiar a resolução dos problemas até um ponto em que se formou aparentemente um acordo alargado sobre a necessidade de os encarar. Porém, logo que se trata de decidir, a tendência é invariavelmente a de deixar contaminar a discussão dos temas de fundo e, consequentemente, a resolução dos problemas pelos interesses de conjuntura."
Publicado no Público de 2-06-2005.

«De las ciudadades, lo que más me gusta
son las calles, las plazas,
la gente que passa ante mi y
que probablemente no verè
nunca más,
la aventura breve y maravillosa como un fuego
de virutas, los restaurantes,
los cafés y las librerias.
En una palabra: todo lo que es
dispersion, juego intuitivo,
fantasia y realidad.»

Josep Pla. Cartes de lluny. Prólogo de 1927.

ou melhor criticou a proposta de Jorge Coelho, integrando-a numa lógica de aumento da receita. Segundo Pacheco Pereira o esforço principal deve ir no sentido da diminuição da despesa. Trata-se de uma verdade inquestionável. Mas esta opção, presente nalgumas medidas do Governo, é "mais lenta" a produzir resultados. O que não se pode é, à sombra dessa verdade, deixar de abordar esta questão de quase impunidade da Banca. A mesma lógica, verdadeira reafirmo, não se podia aplicar ao aumento do IVA ou ao aumento dos impostos sobre os combustíveis?
Uma situação de normalidade fiscal da Banca em Portugal possibilitaria, para já um acréscimo de receitas da ordem dos 500 milhões de Euros, face às previsões de crescimento dos lucros em 2005, e a curto prazo reduzir as taxas de impostos como o IVA que nos níveis actuais constituem um incentivo à fraude fiscal e induzem recessão.

na " Quadratura do Círculo" acerca das medidas tomadas pelo Governo : "Está na altura de os grandes grupos financeiros - banca, seguradoras - assumirem a sua quota parte neste conjunto de sacríficios que foram pedidos às famílias e às empresas." (citação livre). Apetece bater palmas. A Banca não pode ser um Estado dentro do Estado. A principal critica à actuação deste Governo tem a ver com a falta de coragem para enfrentar os privilégios da Banca. Sobretudo os fiscais. Um escândalo. Será que o Governo tem coragem para anunciar um pacote de medidas que reponham a "normalidade" neste sector? As palavras de Jorge Coelho, personagem considerada "muito influente" lá para os lados do Rato, parecem ir nesse sentido.


 

Pedra do Homem, 2007



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