Hiperligações para esta mensagem
Etiquetas: fotografia, Sines
O João Maria que foi hoje a enterrar no cemitério de Sines leva consigo uma grande parte de muitos dos capítulos mais excitantes que se escreveram nesta terra entre os finais dos anos sessenta do século passado e o ínicio do novo século.
O João foi a mais fulgurante inteligência do seu tempo. Inteligência que junto com a sua beleza física colocou desde novo ao serviço de uma vida marcada pela radicalidade. Na sua adolescência, quando os tempos eram duros, nunca escondeu a sua orientação sexual nem evitou, antes pelo contrário, os inevitáveis confrontos com a moral e os costumes dominantes. A sua exposição pública, e do grupo de jovens amigos polarizados em seu redor, constituiu o mais radical abanão na pequena e salazarenta moral burguesa dominante. Coisa que não se confinou ao período que acabou em Abril de 1974. Contribuiu para tornar esta pequena terra num centro urbano aberto e cosmopolita antes dos novos descobridores, que inverteram o percurso do Gama, a terem tornado nesta pequena cidade-desinteressante e rotineira, igual a qualquer outra periferia, que ultimamente tanto o desiludia. Periferia onde se reprime a diferença sobretudo a de opinião crítica e se fomenta a mais rasteira subserviência ao poder.
Foi ele e os seus amigos que aqui fizeram eco, desde cedo, do movimento Hippie que culminou em Woodstock ou do Maio de 68 em França.
Recusou-se a continuar os estudos secundários porque a escola de então, que reproduzia a ordem e a moral vigentes, lhe parecia insuportavelmente repressiva, claustrofóbica e mesquinha. Desinteressante. Não necessitou da escola tradicional, do Liceu e da Universidade, para adquirir o conhecimento que faziam dele um homem muito, muito culto, com competências raras na Literatura e um conhecimento de várias línguas nas quais falava e escrevia com perfeito domínio.
Era um amante dos livros, sobretudo dos livros de alguns escritores por quem tinha uma verdadeira paixão: Yourcenar - foi ele quem me falou pela primeira vez da autora das "Memórias de Adriano" - e Borges, acima de todos os outros. Escrevia de uma forma belíssima. Mesmo nas simples crónicas dos jornais a beleza da sua escrita permitia-nos saborear os seus textos para além da importância das coisas sobre as quais escrevia. Foi durante décadas um grande conversador, animando tertúlias que discutiam sobre as coisas do dia a dia ou sobre os grandes temas e as grandes questões do mundo. E um bon -vivant. Um amigo dos copos, da noite, da imprevisibilidade da vida e dos seus amores e desamores. Um amigo dos seus amigos.
Mais tarde isolou-se de quase todos optando por percorrer quase sempre só os dias que lhe restavam da sua vida. Terá sido um reflexo da perda de alguns amigos muito importantes, dos desentendimentos com outros de que se separou por incompreensões várias, terá sido por um sentimento de injustiça perante o rumo que a sua vida levava, terá sido apenas e só porque não queria conviver com a boçalidade, cada vez mais dominante, que ele tanto detestava.
O João Maria era um homem livre. Foi sempre um homem livre. Nunca se vergou aos poderes de ocasião nem lhes prestou vassalagem. Foi um viajante, ele que quase nunca saiu de Sines. Viajou através dos livros, através da palavra escrita. Deixa um registo forte na memória afectiva daqueles com quem lidou.
Agora andará por aí a reencontrar velhos amigos que não via há muito tempo.
Até sempre.
Hiperligações para esta mensagem
Etiquetas: In Memorian
João gostava do ofício da escrita, dos livros, da madrugada, do mar, da ciência e, consequentemente, do mistério. Gostava das "filosofias" orientais, do budismo, do "Tao", dos exercícios que tornam mais leve a alma, gostava de rir e de eloquências breves. João gostava com convicção dos amigos, da filosofia, do passado, da solidão. João sabia da escrita, das coisas antigas, de uma "paz que se alcançará". É sempre pouco o que dizemos das pessoas que marcaram a nossa vida e nunca esqueceremos. Neste lugar, o mais importante não é o que se diz, mas o que se viveu e o que se sente.
.
Estes são "Os Livros da Minha Vida" por João do Ó Pacheco:
.
.
Estes são "Os Livros da Minha Vida" por João do Ó Pacheco:
.
A Obra ao Negro de Marguerite Yourcenar
As Aventuras de João Sem Medo de José Gomes Ferreira
As Brumas de Avalon (tetralogia) de Marion Zimmer Bradley
Biologia das Paixões de Jean-Didier Vincent
Cien Años de Soledad de Gabriel Garcia Márquez
Données Immédiates de la Conscience (Essai) de Henri Bergson
Fausto de Johann W. von Goethe
Ficções de Jorge Luis Borges
Kobor Tigan't - chronique des géants de Christia Sylf
Le Matin des Magiciens de Louis Pauwels et Jacques Bergier
Memorial do Convento de Jose Saramago
O Budismo Zen de Alan W.Watts
O Castelo de Franz Kafka
O Pêndulo de Foucault de Umberto Eco
O Templo Doirado de Yukio Mishima
Proposed Roads to Freedom: Socialism, Anarchism and Syndicalism by Bertrand Russell
Psycho Cybernetics by Maxwell Maltz
Tao Te Ching de Lao Tzé
The Adventures of a Reluctant Messiah by Richard Bach
The Journey to the East by Hermann Hesse
The Tibetan Book of Living and Dying by Sogyal Rinpoche
também Aqui
Subscrever:
Mensagens (Atom)

