Rui Baleiras, secretário de Estado do Desenvolvimento Regional, dá hoje uma importante entrevista ao DN sobre os desafios que se colocam às finanças municipais. Impossível resumir. O melhor é ler a entrevista aqui ou, ainda melhor, ler o trabalho feito para a Presidência da República e publicado pela "Casa das Letras". Sob o título "Desafios para Portugal" são publicados cinco Seminários dedicados a diversos temas. O último abordou as Finanças Municipais e foi coordenado por Rui Baleiras. Para ler e reflectir.
Uma nova abordagem do endividamento municipal. Uma reflexão séria sobre a necessidade de o lançamento de impostos municipais, pelos autarcas, poder ser avaliado pelos cidadãos. Que hoje fazem as suas escolhas em função quase esclusivamente da realização de despesa pública. A necessidade de acabar com a dependência - 68% era o peso da Sisa e da CA , segundo Rui Baleiras, em 2001 no conjunto dos impostos municipais - dos impostos ligados às actividades de construção. Entre outros diagnósticos e excelentes propostas. Um projecto para uma boa mudança.
O ínicio da "silly season" deu-nos um fim-de-semana cheio de notícias desinteressantes. Pelo meio o trabalho de José António Cerejo, no Público, sobre a "suspeita de tráfico de influências e administração danosa na Câmara do Montijo." Porque será que este homem só escreve sobre autarcas e políticos socialistas? Será porque só eles cometem ilegalidades? Ou estarei a ser injusto para com o jornalista?
Na edição de hoje, do mesmo jornal, um trabalho sobre "O desafio do Turismo na Costa Alentejana." A mesma lengalenga desde os tempos do PROTALI. Qual turismo? Qual desafio?
Dois trabalhos que justificam um regresso ao(s) assunto(s) durante a semana.
O Grupo Pelicano, diz o Público de sábado, ofereceu uma capela mortuária à freguesia de Melides como contrapartida pelo empreendimento do Pinheirinho em Melides.
A inauguração contou com a presença do Bispo de Beja. De acordo com a autarquia de Grândola a casa mortuária foi "contruída dentro de modernos parâmetros arquitectónicos e prestações de serviços" . Por um lapso imperdoável foi omitido o nome do Arquitecto autor.
Há qualquer coisa de fúnebre e de funesto nestes negócios e nestas contrapartidas. O que será?

Wim Van Linden e Wouter Wuilmus partiram ontem da Bélgica para uma viagem de bicicleta em que percorrerão 3.000 quilómetros e cujo final está marcado para 31 de Julho próximo em Sines, Portugal.
A iniciativa, denominada "Ride2WalkAgain", destina-se a apoiar a fundação "To Walk Again - The Marc Herremans Foundation", fundada por um ex-campeão belga de triatlo - Marc Herremans - que viu a sua vida transformada quando, em Janeiro de 2002, um acidente durante os treinos o tornou paraplégico. Desde essa data, Marc Herremans tem dedicado a vida à causa da sua fundação, auxiliando pessoas na mesma condição e promovendo e recolhendo fundos para a investigação de lesões na espinal medula.
Estas foram as razões que levaram Wim e Wouter a empreenderem a sua jornada. Através da angariação de patrocínios, pagos por quilómetro percorrido, estes dois praticantes de triatlo e de BTT e admiradores confessos de Marc Herremans esperam conseguir reunir fundos para a fundação "To Walk Again" e terminar o seu desafio junto de alguns amigos que os esperam em Portugal.
Boa sorte, rapazes!
P.S.: Informação via Sardinheiras.
Miguel Veiga, histórico militante do PSD, mandatário da (re)candidatura de Rui Rio à autarquia do Porto, afirmou no lançamento da dita: " com o triunfo autárquico no país e à cabeça na praça de Lisboa (...) e se depois ganharmos as presidenciais, o segundo grande passo estará dado para que este Governo não termine a legislatura e o PSD possa retomar a governação ingloriamente perdida"
Interessante esta visão instrumental do lugar de Presidente da República, como instrumento de assalto e eliminação de maiorias absolutas. Seria por isto que o senhor não podia sequer ouvir falar da candidatura presidencial de Santana Lopes? E que alguma esquerda aplaudia, à época, o homem a mãos ambas?
E o prof. Cavaco o que dirá de tudo isto?
O Arrastão de Carcavelos, que foi já considerado o maior flop desde Santana Lopes, não se voltará a repetir. A organização desmarcou ainda os arrastões que tinha agendados para Albufeira, Rocha e Praia dos Tomates, por falta de viabilidade económica.Segundo Casimiro Monteiro presidente da "Arrastões da Cova da Moura, SA", houve um erro no cálculo do défice, que levou a organização a criar expectativas que depois saíram goradas. Em Carcavelos, a operação terá dado mesmo prejuízo, uma vez que não pagou sequer o passe aos participantes, que além de tudo, ficaram sem almoçar. "Para a quantidade de lixo que limpámos da praia, mais valia termos levado um ancinho", confidenciou-nos Casimiro Monteiro, visivelmente preocupado com a possibilidade da não realização, em Portugal, de mais iniciativas deste género. Ainda se terá alvitrado a possibilidade da deslocalização para regiões onde o lucro fosse mais garantido e o capital de risco menor como Vilamoura, Pedras d'El-Rei ou Vale de Lobo, mas depressa se concluiu que quem tem realmente dinheiro está em Cuba ou nas Maldivas e que os portugueses, aparentemente endinheirados, que frequentam estes locais "in", não passam de uns esfomeados que "a única coisa que largam nas praias é beatas e mijadelas no mar". Assim, faz-se saber a todos os interessados, que o próximo arrastão terá lugar na praia do Martinez em Cannes no dia 17, Mónaco-Sul no dia 18 e Saint-Tropez no Domingo 19. Apareçam
(José Mouro)

Henri Matisse. Estudo/Desenho (c. 1909).
Matisse, Paris / Artists Rights Society (ARS), New York
O corpo tem sobre si as linhas
que o ausentam e o ligam ao espaço seguinte
a energia significante
que o desmaterializa para surgir noutro lugar
O corpo tem em si a matriz do aparecimento
o espanto do que surge, o mistério

Piet Mondrian, Broadway Boogie Woogie, 1942-43
Boa noite. Bom dia.
P.S.: Imagem obtida no sítio do MoMA.
As novas regras para as nomeações políticas para altos cargos públicos foram aprovadas com os votos contra do PCP, PP e PSD. Esta minoria de oposição -já constituída noutras ocasiões nesta legislatura - contou com a participação do PCP. O argumento que o PCP utilizou para votar contra é espantoso. Disseram os comunistas pela voz de Jorge Machado : "É o cartão do partido a sobrepor-se à competência." Importa-se de repetir?
O PCP nas autarquias, onde exerce o poder, utiliza o cartão partidário como critério exclusivo(!!!) para a ocupação de cargos de chefia. A menos que não existam "camaradas" disponíveis. O mesmo se passa nas estruturas regionais que ainda influencia no Alentejo. É assim há décadas. Que hipocrisia tamanha nesta posição.
Aplausos para o PS que teve a coragem de melhorar a lei existente e para o BE que apoiou a medida. Parte da maioria de esquerda do 20 de Fevereiro ainda se mantêm.
Luís Delgado não dá um tusto por este Governo. Nunca se vira um Governo assim a disparar contra tudo e contra todos, diz ele. A falta de "sentido de classe" do Governo baralha o Luís.
Esta falta de sentido de classe leva o Luís a, pela primeira vez na sua vida, apoiar todas as greves em curso e a compreender as "razões profundas" que as motivam. Se isto continua ainda acaba em porta voz da Intersindical ou a aderir ao PCP, Deus o livre.
Parece no entanto que Luís sonha com a queda iminente do Governo, e com o seu regresso rápido ao círculo íntimo do poder. Está atrabalhar para isso. (Mal) Disfarçado de jornalista isento.
Para o Festival Músicas do Mundo, que já tem cartaz definido.
Entre 28 e 30 de Julho, passarão por Sines figuras como Marc Ribot, Kimmo Pohjonen e Hermeto Pascoal. E muitos outros, a descobrir, entre a praia e o castelo.
Para os rapazes da FENPROF, que não marcaram uma greve aos exames, apenas uma greve que, por mero acaso, coincidiu com a época de exames.
Se me é indiferente o aproveitamento da época de exames para a marcação da greve, já me incomoda a esperteza saloia semântica encontrada para, na sua superior inteligência, iludirem a pobre opinião pública sobre a oportunidade das datas. Como se ninguém ligasse uma coisa à outra. Ou custava assim tanto assumirem as datas escolhidas?
É o spinning a chegar ao sindicalismo português. Com os resultados de sempre, acrescente-se.
Sampaio acusa a Banca de não apoiar a inovação e as empresas e de promover o "embuste" do crédito ao consumo, exemplificando com o crédito fácil para a compra de carro. "Há oposição da banca no que respeita a arriscar alguma coisa nas empresas que querem inovar" De vagar mas a montanha move-se.
Declarações de Manuel Coelho, presidente da Câmara de Sines, acerca do Oleoduto - notícia do Publico local de 20/06/2005 - a garantir estarem " em curso as obras para a instalação de novas vedações metálicas de protecção dos oleodutos, a revisão das bocas-de-incêndio, a instalação de vigilância electrónica, e de um percurso para circulação de viaturas de combate a incêndio, bem como a colocação de barreiras protectoras em betão no troço de oleodutos próximos das habitações".
Para além de um manifesto conflito com a realidade, estas obras estão todas na "fase invisível", parece haver aqui uma apetência irreprimível para assumir o papel de "porta-voz" dos interesses da refinaria que, infelizmente, conflituam muitas vezes com o interesse das populações.
O Farol é Testemunha
(José Pedro Lucas)

photographed/published by Unichrome of Bath.
from Emily Mace website
O monumento megalítico Stonehenge, construído provavelmente entre 3.000 a.C. e 1.600 a.C., situa-se perto de Salisbury em Inglaterra. É um lugar conhecido, segundo muitos, pelas suas poderosas energias e mistérios. Foi ali que uma multidão se juntou hoje ao raiar do dia e formando um círculo celebrou o Solistício de Verão que acontece hoje no Hemisfério Norte.
O Verão começa hoje às 21:09 hrs.
Aproveitem para celebrar também este dia e não se esqueçam de observar o luar nas próximas noites.
Em profunda reflexão.
[hã, hã... ]
Disse Juncker, "o mais realmente socialista deles todos" segundo Ana Gomes, que o fracasso da cimeira foi provocado pelo "confronto de duas concepções da Europa.(...) Há os que, sem o dizer, querem um grande mercado e nada mais que um grande mercado, e os que querem uma Europa integrada." Blair lidera claramente o primeiro grupo. Nada que embarace a Internacional Socialista.
Para ler no Público Local de hoje. Um trabalho de Carlos Dias sobre as condições de segurança das populações que vivem junto ao Oleoduto que liga o Porto de Sines à refinaria da Galp.
O Blair do director do Público é um herói. O novo Napoleão, vencedor da batalha contra a PAC, travada, desta vez, nos salões de Bruxelas. J.M.F. que vê em Blair, com alguma razão, uma réplica europeia de Bush, o que manifestamente o excita, quer fazer-nos crer que o “socialista” da terceira – via tem como grande objectivo reformar a PAC. Trata-se de uma falsificação mas sobre Blair não é a primeira que se comete. O homem quer, tal como Wellington em 1815 relativamente a Napoleão, encerrar o capítulo de Chirac na história Europeia e em simultâneo manter, tanto quanto possível, o ignóbil cheque herdado da avó Teatcher. Desta vez recorreu ao veto político enquanto o general usara as granadas, então olhadas como uma nova arma de destruição em massa, de que Blair se tornou, como se sabe, um dos grandes especialistas mundiais.
Quanto à PAC ela é verdadeiramente instrumental neste jogo. Todos sabemos que Blair nunca se preocupou minimamente com esta velha, e sórdida, questão e que está disposto a manter a PAC desde que o cheque não seja reduzido. Como sempre fez ao longo de todos estes últimos 8 anos.
As empresas Municipais são uma grande invenção para concretizar dois objectivos: em primeiro lugar possibilitar o endividamento das autarquias para lá dos limites legais; em segundo lugar criar "ocupações" bem remunerados, com regalias dificilmente controláveis e capacidade para meterem a "mão na massa", aos camaradas que passaram à reforma cedendo o lugar aos filhos e aos díscípulos.
Todos conhecemos exemplos chocantes deste estado de coisas. Parece que agora o TC vai investigar a coisa. Não se podia pura e simplesmente eliminá-las. E, no entretanto, exigir o preenchimento dos cargos directivos através de concurso a que só podiam concorrer pessoas qualificadas. Pois está bem, assim os "camaradas" ficavam sem fazer nada.
O Orçamento da UE é inferior a 1% do PIB de todos os seus países membros. Além disso cerca de 50% são canalizados para a PAC.
O acordo que previa para Portugal uma verba de 21.300 milhões de Euros enttre 2007 e 2013 - o equivalente a 6,827 milhões de euros por dia - falhou por expressa vontade do "camarada" Blair.
O homem, zeloso cumpridor das conquistas da avó Teatcher, não aceita reduzir o cheque que todos os anos recebe de Bruxelas. Cheque que representa 2/3 da contribuição do Reino Unido para o Orçamento comunitário. Ou melhor aceita mas reduzindo a parte do Orçamento destinada a financiar a PAC, isto é os agricultores franceses.
A UE está assim. Com um Orçamento miserável. Com uma coesão interna pelas horas da morte. Com uma liderança, quer da Comisssão quer da UE, impotentes. Dá tanta pena que apetece dizer: Durão regressa estás perdoado.
Manuela Ferreira Leite, a nossa Dama de Ferro, teve uma semana em grande. Atacou o relatório Constâncio e as medidas do Governo. Atacou o aumento do IVA decidido por Sócrates, que ela aumentara de 17 para 19% nos tempos de Durão. Fez saber que inevitavelmente o Governo recorrerá a receitas extraordinárias. Nunca manifestou qualquer disponibilidade para reconhecer que a medida por si tomada em 2001 foi errada. Acabou a subir no "Sobe e Desce" do Público. A gravidade já não é o que era.
Jean-Paul Fitoussi, no Expresso de hoje, disponível na versão On-Line, é definitivo sobre o que se fez em 2001: " A única estratégia seguida por Portugal foi de restrição orçamental. Adicionou um choque recessivo a outro choque recessivo." Para continuar " Não se pode respirar. Se um país renunciar ao crescimento para resolver um problema de défice orçamental, terá menos receitas fiscais e a questão orçamental ficará mais dificil de sanar. Neste clima as empresas não investem."
Foi pena o homem não ter falado com Sócrates antes do "pacote".
Porque será que sempre que se começa a falar de o sector bancário passar a pagar mais impostos saltam logo os apóstolos a alertar para a perda de competitividade do sector? Mas quem falou em perda de competitividade? Estamos a falar de a Banca passar a pagar sobre os resultados antes de impostos, que são maximizados pela "excelente" produtividade do sector, entre outros factores, uma taxa de IRC idêntica à da generalidade das empresas. Só isto. Dividir de uma forma mais justa entre o Estado e os accionistas.
Acerca da discussão suscitada por Jorge Coelho no programa da SIC-Notícias "Quadratura do Círculo". Para ler aqui
"Um Governo sem imagem" de José Gil, na Visão de 16 de Junho de 2005.
"Vivemos hoje em Portugal, um momento quase indefinível do clima político. Um momento "entre"; entre uma sociedade à beira do precipício e um futuro de que não adivinham ainda os contornos; entre a resistência à mudança e o imperativo( às vezes brutal) de mudar; entre a exigência do sacríficio consentido, e o medo de perder tudo para sempre; entre a confiança a depor num governo que diz querer salvar o País, e o retraimento defensivo, desconfiado ( e com razões históricas para isso) em posições individualistas, corporativas, dos grupos sociais."
Passada a "pequena crise" suscitada pela notícia sobre os "mais de mil boys" nomeados pelo Governo de Sócrates e a troca de correspondência entre Carrilho e os seus críticos aí está a decisão socrática de parar com o processo referendário em curso, para fazer baixar, ainda mais, os níveis de conteúdo no debate político.
É de trivialidades que se faz, exclusivamente, a discussão política em Portugal. Assim se caminhará até Outubro. Depois das eleições autárquicas iniciaremos um novo período de "conversa" sobre as Presidenciais. Que aproveitaremos para não discutir coisa que se veja.
No caso das eleições autárquicas o marasmo dominante é assustador. Depois de um período de discussão sobre o sistema de governo e de eleição das autarquias o debate baixou às "catacumbas" do sistema político. Jaz e arrefece longe dos olhares indiscretos e ígnaros dos cidadãos, numa qualquer "Comisssão Especializada da Assembleia da República". Que bem podia ser rebaptizada "Comisssão Especializada em Baptizados e Funerais".
A luta política na capital apoia-se sobretudo no Marketing. Cartazes num número insuportável que parece concorrerem para um único objectivo: esconder a bela Lisboa dos seus cidadãos substituindo-a pelas carantonhas dos candidatos. Poucas ideias e poucas diferenças. Afinal o poder Local, dizem vários palermas encartados, não é de esquerda nem de direita. É o poder dos homens bons da cidade. Bons em quê?
No resto do país, em regra, haverá a recondução do senhor "fulano de tal" que conta com o apoio da esquerda, da direita e da igreja. Boa pessoa. Levou os velhos do concelho a viajar pelo País inteiro. Com comida e dormida, tudo à borla. Alargou o conceito de velhice ao contrário do Governo que aumentou o período de vida activa. Velhos passam a ser todos os com mais de 55 anos. Por deliberação municipal. Mas não tão velhos que não possam viajar, comer e beber à conta das famélicas finanças municipais.
Fez algumas obras que o seu partido prometia, há vinte anos, e que sempre ignorara. Boa pessoa.E isso não se discute. Endividou o concelho para os próximos vinte anos. Grande visão e grande capacidade de sacrífico. Merecia uma estátua. Damos-lhe mais um mandato e depois logo se verá. Ainda por cima a oposição não se une e logo havia de escolher aquele candidato, com tão má cara, para derrotar um homem tão boa pessoa. E que agora começou a falar de urbanismo, de habitação para todos os estratos sociais, de desenvolvimento sustentável, de ambiente, de desburocratixzação, de rigor na gestão dos dinheiros públicos, de transparência na administração municipal. Quem se interessa por essas coisas? O que é que isso contribui para a nossa felicidade?
Onde é que vamos passear na próxima semana? Porra, ainda não tenho 55 anos.
O TC veio informar-nos de que o endividamento das autarquias aumentou 19% em 2003. Daqui a um ou dois anos dir-nos-á quanto cresceu em 2004 e, se tudo correr bem, antes de 2010 conheceremos a situação em 2006. Tudo continuará como dantes.
O Tribunal de Contas é uma entidade que, com alguma regularidade, nos dá notícias sobre o mau funcionamento dos diferentes orgãos do Estado e dos seus reflexos para a saúde das contas públicas. Com isso cria-se uma sensação, artifical, de que existem entidades que fiscalizam a acção executiva dos titulares desses orgãos. Pura ficção. Toda a gente, com algum poder, já descobriu que por muito mau que seja o diagnóstico nada de grave se passará. Algumas multazitas, recomendações quanto baste. Uma verdadeira "inutilidade superveniente da lide" com as decisões tornadas irrelevantes pela dinâmica do processo, democrático, em curso.
"Fascínio da Cidade. Memória e Projecto da Urbanidade." De Vitor Matias Ferreira. Edição do Centro de Estudos Territoriais do ISCTE e da Ler Devagar (Dezembro de 2004). A reler "A cidade da EXPO' 98" edição da Bizâncio, de 1999, com organização de Vitor Matias Ferreira e Francesco Indovina.
Esta noite, na série Amores Desamores da RTP 1 , é exibido o telefilme Amigos Como Dantes.
O argumento é de Vicente Alves do Ó.
O Jornal de Negócios fez hoje manchete da nomeação pelo Governo do PS de mais de mil gestores públicos. A comparação com o governo de Santana Lopes pareceu-lhes incontornável. Num tempo semelhante mais nomeações. Tornava-se evidente que este Governo batia o de Santana na despudorada promoção dos seus.
O problema está na forma como se utiliza o "método comparativo". Neste caso o Jornal de Negócios compara alhos com bugalhos, isto é, coisas que não são comparáveis. Durante todo o dia não se falou de outra coisa. Afinal este governo até nomeou mais boys do que o anterior. A asneira faz o seu curso e o seu trabalho.
O Governo de Santana resultou da substituição do primeiro-ministro em trânsito para Bruxelas. Durão tinha, dois anos antes, feito uma limpeza radical na Administração Pública incluindo nas chefias intermédias. Recorde-se o que aconteceu na Segurança Social com o implacável Bagão. Governos Civis, direcções de empresas públicas tudo tinha sido já ocupado por gente confiável. Estas realidades foram criteriosamente ignoradas pelo Jornal de Negócios.
Socrates, muito bem, nomeou o conjunto de pessoas necessários para os lugares de responsabilidade política. O que, como se sabe, não incluiu as chefias intermédias da Administração.Esperamos todos que ao longo da legislatura possa limitar ainda mais os lugares de nomeação partidária. Para já Sócrates tem sido moderado e mostrado sensatez e capacidade para se opor às pressões de alguns boys. Terá permitido algumas asneiras, como no caso da nomeação de Fernando Gomes para a GALP Energia. Mas quem não as comete na dificil arte de governar. Dificil é asneirar tanto na simples utilização do "método comparativo".
Morreu Alvaro Cunhal. Um dia de luto para Portugal. Morreu uma das personagens maiores da história política do nosso último século. Combatente insuperável contra a dituadura salazarista. Combate que no seu caso significou a própria perda da liberdade que sofreu nas prisões fascistas. Depois do 25 de Abril tentou implantar em Portugal o modelo de sociedade que sempre defendeu: uma sociedade socialista inspirada nos modelos do socialisno real que estavam implantados na União Soviética e nos países do bloco de leste. Falhou este segundo objectivo. Mas manteve-se sempre fiel ao seu ideal de comunista e acreditou sempre ser esse modelo de sociedade o que melhor servia Portugal.
Foi um homem de uma grande coerência. Mas devemos dizer que essa coerência foi a sua maior virtude e a sua maior fraqueza. Por um lado permitiu-lhe manter a fidelidade às suas convicções e ideias num mundo em que são cada vez mais raros os homens políticos capazes de defenderem ideias e convicções. Por outro lado essa inflexibilidade ideológica não lhe permitiu mudar mesmo quando as manifestações de degradação nos países de leste eram já incontornáveis. Continuou, mesmo nessa altura, a defender para Portugal o modelo que falhava em toda a linha nos países do realismo soviético.
Foi além do homem político um intelectual. Escritor e artista plástico possuidor de uma cultura acima da média ele que sendo de origens burguesas se considerava "um filho adoptivo do proletariado".
Foi um homem de uma dimensão rara gerador de ódios e de paixões como só acontece com os grandes homens.
O poeta Eugénio de Andrade partiu hoje para esse lugar luminoso onde
habitam todos os poetas que amamos, que nos deram esperança e verdade.
Adeus
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava!
Acreditava,
porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os teus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os teus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...
já não se passa absolutamente nada.
E, no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos nada que dar.
Dentro de ti
Não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Eugénio de Andrade
Vinte anos depois da adesão à UE tempo para comemorar. Mas necessariamente tempo para reflectir. Tanta coisa boa que a Europa nos trouxe. A adesão à Europa foi uma oportunidade para confirmarmos algumas das portas que Abril abrira. Sobretudo a porta do desenvolvimento e da igualdade de oportunidades. Infelizmente a incompetência de alguns e a ganância e a usura de outros fizeram deste País o mais desigual de União Europeia.
A discussão sobre o nosso futuro europeu é uma urgência. Uma discussão séria que inclua o Tratado Constitucional, o próximo quadro Comunitário de Apoio e o tipo de desenvolvimento do país que ele irá financiar. Uma discussão que não se limite à clássica discussão das verbas que iremos receber mesmo que não saibamos como as utilizar.
A classe política não deu nestes dias, infelizmente, uma ideia clara de ser esta a sua principal determinação.
PS - Mário Soares que tinha razão há 20 anos aparece hoje como um dos discursos mais lúcidos sobre aquilo que é urgente fazer.
"Os meus Anos em Cuba" de Eduardo Manet, escritor cubano exilado em França desde 1968. Edição portuguesa da Ulisseia (março 2005) a partir do original das Editions Grasset & Frasquelle(2004).
O texto de Miguel Sousa Tavares, no Público da passada sexta-feira, insiste no erro de tratar como igual aquilo que é absolutamente diferente. A utilização do conceito de funcionário público para analisar a "infinidade de privilégios e de excepções escondidas debaixo dos tapetes da administração pública" é uma escolha de mérito duvidosos. Não faz qualquer sentido considerar como semelhantes a situação de um administrador do Banco de Portugal, de um juíz do Tribunal Constitucional ou de um professor do ensino secundário que beneficia de uma progressão automática na carreira. No primeiro caso simples seis anos de exercício justificam uma "modesta" pensão vitalícia de 15000 Euros. No segundo caso bastam 40 anos de idade e mais de 10 de exercício do cargo para justificar o direito à reforma. Na esmagadora maioria dos funcionários públicos a progressão salarial é paupérrima e a reforma só vem no fim da vida, quando a classe política não resolve alterar as regras, entretanto.
Os verdadeiros funcionários públicos são quem assegura o funcionamento das estruturas apesar das chefias incompetentes que o sistema político lhes impõe. Em condições de trabalho e de remuneração modestas, ainda por cima.
A Administração Pública tem hoje os seus lugares de topo "conspurcados" por uma rapaziada que aí acede por pura e simples nomeação partidária. Existem na Administração Central, na Administração Indirecta do Estado, na Administração Local do Estado e na Administração Autárquica do Estado. São caros, porque ganham muito. São os "funcionários públicos" (sem ofensa para os verdadeiros) que melhor ganham. São caros porque quando o Governo, que os nomeia, cai sai-lhes a sorte grande. Recebem avultadas indemnizações, vendem em proveito próprio os luxuosos carros de serviço e ficam em lugares de "recuo" a aguardar que a situação política se altere. Entretanto, começam a beneficiar de "pequenas" pensões vitalícias acumuláveis. São caros porque em regra são incompetentes. E como se sabe a incompetência é a mais cara "qualificação" que alguém pode exibir.
O que não se sabe é qual o peso desta gente nos custos totais com pessoal na Administração Pública. Talvez então fosse possível perdermos menos tempo com aqueles funcionários que passados três anos vêem os seus modestos 900,00 Euros mensais actualizados em 5,27%.
Mais uma vez o "director do maior jornal do país, no cargo há 20 anos", ficou sem a condecoração do 10 de Junho. É o costume. Mais dia menos dia o homem ganha o prémio Nobel e depois vão entregar a medalha de afogadilho ou então fazem um 10 de Junho retroactivo.
O Governo aprovou o regresso à normalidade na forma de contagem do tempo de exercício de cargos políticos para efeitos de reforma. Concretamente no caso dos "nossos" autarcas um ano passa a valer por um ano e não por dois como até agora. Um saudável regresso à normalidade. Este Governo, o governo de Sócrates, através destes pequenos grandes passos vai devolvendo à actividade política parte da dignidade perdida. É disso que se trata e não de uma atitude moralista como lamentava erradamente, na Quadratura do Círculo, Lobo Xavier. Entende-se o equívoco: a direita abomina a limitação dos privilégios. Poucas coisas a aborrecem tanto.
A campanha de Carrilho em Lisboa continua em projecto. Bastante atrasado ao que parece.
A fazer fé nas poucas notícias está ainda na fase "infantil" do dito. A fase em que o candidato passeia o filho às costas pelas ruas de Lisboa, uma cidade pouco amiga dos carrinhos de bebé. Fase que deverá corresponder, na linguagem antiga, ao "Estudo Prévio".
Vê-se pouco projecto mas vê-se em todo o lado o "homem por trás do projecto".
Por este andar esta campanha pode tornar-se num enorme buraco. E o antecipadamente derrotado Carmona tornar-se o novo presidente de Lisboa. Faltam as ideias e as propostas concretas e inovadoras. E o que se diz aparece desgarrado, sem sustentação.
Como se reduz, a metade, o número de automóveis que circulam em Lisboa?
O que significa reavaliar os projectos imobiliários previstos para a frente ribeirinha?
Passados vários meses do anúncio da candidatura Carrilho ainda não teve alguns minutos para abordar a questão específica da habitação na cidade de Lisboa. Pelos vistos uma questão menor ao contrário do que pensam aqueles que julgam ser esta a questão principal da cidade.
Segundo ficámos a saber hoje, a Comissão de Ética da AR tinha-se pronunciado sobre uma eventual incompatibilidade entre as funções que Pina Moura exercia "enquanto profissional liberal" e as de deputado. Isto depois de ter sido ministro com a gestão dos negócios da Energia. Compatível foi o veredicto. Ficámos, igualmente, a saber que desde que assumiu funções na empresa Iberdrola ainda não ocorreu a Pina Moura saber se existe alguma incompatibilidade entre essas funções, as anteriormente desempenhadas e as actuais de deputado. Já passou tanto tempo...
Mas parece que isto está tudo ligado, não parece? E não devia, pois não?
Pina Moura também não quer conversas com o ex-deputado socialista Henrique Neto. Por acaso, ou talvez não, um dos raros deputados que abordou os dossiers do sector energético sempre numa perspectiva do interesse público. Como quando criticou o famoso perdão do pagamento das mais-valias aos accionistas da GALP. Decidido por um ministro à beira de se tornar profissional liberal.
O aproximar das eleições autárquicas não parece ser motivo suficiente para estimular o debate sobre as questões que, aparentemente, são decisivas para que o poder local deixe a apagada e vil tristeza em que tem vegetado. No entanto pelo que se pode observar constitui uma excelente oportunidade para redefinir a "sociologia" das nossas vilas e cidades, que as aldeias desapareceram vítimas do "decretado" progresso. Em particular as apresentações das candidaturas dos partidos, que em cada concelho podem aspirar a vencer as eleições, são um bom momento de observação. Se pegarmos no partido A, no poder desde o tempo dos afonsinos, que recandidata o actual presidente para derrotar todos aqueles que se opõem ao progresso e desenvolvimento da santa terrinha - que já não estão no poder desde o tempo dos visigodos - e no partido B, que aposta num senhor muito amigo dos pobres e da terra, que vai tentar pela enésima vez conquistar a autarquia "para fazer o que faz falta", o que é que constatamos? Na apresentação dos candidatos o conjunto das pessoas que estiveram presentes em cada um dos actos apresenta uma considerável sobreposição. Quem são essas personagens que fazem questão de estar presentes em todas as apresentações de candidaturas que tenham alguma hipótese de vencer? São as "pessoas importantes" da terra. Aqueles cuja presença é sempre bem-vinda e cuja ausência deixa uma amarga sensação de vazio e de orfandade nas candidaturas. São politicamente andróginos e, em boa verdade, nunca se sabe em quem votaram ou votarão. Tão pouco se sabe como abrem os cordões à bolsa. O que é certo é que a sua presença justifica a cobrança que irão fazer, mais tarde, ganhe quem ganhar. Afinal a sua única ideologia é a dos seus interesses que alguns políticos de asa curta e bolso farto confundem com "desenvolvimento".
No Expresso do passado fim de semana num texto sob o título " Jacaré distraído", José Roquette questiona " a terrível e básica pergunta, que insistimos em não fazer, é: num diferente regime cambial, quanto valeria hoje um escudo em euros?"
Será que você escolhia para ministro um cidadão que já estivesse reformado? Como será possível que as pessoas estejam em simultâneo na actividade plena e a acumular pensões resultantes de regimes especiais de reforma? Como pode alguém receber uma pensão de 3 ou 4 mil euros por "dedicados" - e frutuosos - seis anos de trabalho para uma qualquer instituição pública? Porque será que estas coisas só "acontecem" àqueles que no normal exercício da sua actividade já beneficiam de situações remuneratórias excepcionais?
A necessidade de Socrates "enquadrar" as duras medidas que escolheu para enfrentar o défice com medidas "contra os poderosos" resultaram nisto. Nos próximos dias vão saber-se mais acerca de privilégios escondidos, absurdos mas legais. A democracia tem revelado grande talento a cuidar da vidinha e do futuro da corporação "política".
PS - A situação de Jardim é absolutamente menor quando comparada com as dos ministros. Para o mal e para o bem o homem está no exercício do poder há 30 anos. A obscenidade neste caso está no próprio.
Carta Aberta ao Exm.º Sr. Presidente da Câmara Municipal de Sines
Como Sineense, não natural, mas radicado desde 1978 e empresário do ramo da restauração, desde 1991, de momento com estabelecimento aberto na rua pedonal (a única) da Zona Histórica de Sines, venho por este meio mostrar o meu maior desacordo em relação aos moldes e local, como mais uma vez se irá realizar, a MOSTRA GASTRONÓMICA “SINES, ALENTEJO À MESA” - X EDIÇÃO e apresentar uma alternativa.
A realidade da situação do comércio em Sines no geral, ronda as “ruas da amargura”, talvez com maior incidência no comércio localizado na Zona Histórica de Sines.Os diversos factores que conduziram a esta situação são certamente do seu conhecimento, não valendo a pena enumerá-los agora.
As anteriores Mostras Gastronómicas foram sempre consideradas um “enorme sucesso” o que não questiono mas pergunto:
- Independentemente do seu número, qual a origem das pessoas que afluem às “Mostras”? Donde vêm?… Dos Concelhos vizinhos?… De todo o País?... Ou a grande maioria é de Sines?...
- Porque insistir no mesmo local para a realização do evento? As condições de trabalho não são as ideais e, conforme o próprio regulamento assume, o acesso para o transporte de material é difícil.
A alternativa que proponho passa pela realização do evento na Zona Histórica de Sines com o mesmo espírito e regras do Regulamento da Mostra Gastronómica, sendo que:
- Os estabelecimentos da Zona trabalhariam nos seus próprios locais, seriam devidamente sinalizados e publicitados e obrigavam-se a cumprir o Regulamento.
- Os estabelecimentos fora da Zona Histórica utilizariam o espaço do Castelo de Sines após serem criadas as infra-estruturas necessárias e exigidas por lei, para a montagem dos stands que agora são utilizados. Estas infra-estruturas poderiam ser definitivas e serviriam para outros eventos que se realizam no mesmo local.
Penso que seria um passo importantíssimo para a tão falada Revitalização da Zona Histórica de Sines que tarda a chegar e que, para alguns, infelizmente, já não chegará a tempo.
Sines, 23 de Maio de 2005
(José Pedro Lucas)
De novos blogues para a coluna do lado. Façam o favor de se servir.
Jorge Sampaio escreveu sobre as constantes revisões da Constituição - quantas já se realizaram? - e sobre o desconforto que lhe causa a atracção, da classe política, pelo episódico e conjuntural em detrimento do interesse por aquilo que nos afecta enquanto povo.
(...) Porém, os grandes problemas económicos e sociais, bem como os temas mais estritamente políticos exigem visão estratégica e capacidade de pensar e agir sobre o médio prazo. De outra forma, a sua resolução pode ficar negativamente condicionada e afectada.
As discussões presentemente em curso sobre a limitação de mandatos e sobre os processos referendários ilustram eloquentemente a importância daquela necessidade e deste risco.
Num e noutro viemos a adiar a resolução dos problemas até um ponto em que se formou aparentemente um acordo alargado sobre a necessidade de os encarar. Porém, logo que se trata de decidir, a tendência é invariavelmente a de deixar contaminar a discussão dos temas de fundo e, consequentemente, a resolução dos problemas pelos interesses de conjuntura."
Publicado no Público de 2-06-2005.
«De las ciudadades, lo que más me gusta
son las calles, las plazas,
la gente que passa ante mi y
que probablemente no verè
nunca más,
la aventura breve y maravillosa como un fuego
de virutas, los restaurantes,
los cafés y las librerias.
En una palabra: todo lo que es
dispersion, juego intuitivo,
fantasia y realidad.»
Josep Pla. Cartes de lluny. Prólogo de 1927.
ou melhor criticou a proposta de Jorge Coelho, integrando-a numa lógica de aumento da receita. Segundo Pacheco Pereira o esforço principal deve ir no sentido da diminuição da despesa. Trata-se de uma verdade inquestionável. Mas esta opção, presente nalgumas medidas do Governo, é "mais lenta" a produzir resultados. O que não se pode é, à sombra dessa verdade, deixar de abordar esta questão de quase impunidade da Banca. A mesma lógica, verdadeira reafirmo, não se podia aplicar ao aumento do IVA ou ao aumento dos impostos sobre os combustíveis?
Uma situação de normalidade fiscal da Banca em Portugal possibilitaria, para já um acréscimo de receitas da ordem dos 500 milhões de Euros, face às previsões de crescimento dos lucros em 2005, e a curto prazo reduzir as taxas de impostos como o IVA que nos níveis actuais constituem um incentivo à fraude fiscal e induzem recessão.
na " Quadratura do Círculo" acerca das medidas tomadas pelo Governo : "Está na altura de os grandes grupos financeiros - banca, seguradoras - assumirem a sua quota parte neste conjunto de sacríficios que foram pedidos às famílias e às empresas." (citação livre). Apetece bater palmas. A Banca não pode ser um Estado dentro do Estado. A principal critica à actuação deste Governo tem a ver com a falta de coragem para enfrentar os privilégios da Banca. Sobretudo os fiscais. Um escândalo. Será que o Governo tem coragem para anunciar um pacote de medidas que reponham a "normalidade" neste sector? As palavras de Jorge Coelho, personagem considerada "muito influente" lá para os lados do Rato, parecem ir nesse sentido.
Nem sempre ganham os mais fortes. Ou os teoricamente mais fortes. Como aliás o Benfica demonstrou na Super-Liga. Uma vitória para amenizar as desventuras de uma cidade roída pela exclusão social, pelo desemprego e pela incapacidade da sua elite política de a afirmar no contexto da Área Metropolitana.
Um cheirinho do velho Vitória, das equipas maravilha dos anos setenta e oitenta. De Fernando Vaz e Pedroto e de JJ, José Maria, Conceição, Duda, Octávio, Carriço, Arcanjo, Tomé, Carlos Cardoso e tantos outros verdadeiros craques.
E viva Rachão o treinador da conquista que fica na história e no desemprego que a ignorância dos dirigentes, tal como de alguns políticos, não tem limites.
«(...) Penso, como já antes pensava, que o BES como noutras vezes mostra a sua capacidade de trabalho e de influência, e assim a sua competência nos negócios para que está vocacionado! Estamos no entanto perante uma ameaça de interesses privados sobre interesses públicos, escudada em más leis e maus políticos.Não condenemos o BES mas aqueles que lhe permitem e até incentivam este tipo de atentados urbanisticos sobre o território.Veja-se o escandaloso elogio dado ao Presidente da CM Benavente. E como é também responsabilizada a CCRLVT e a DGF. (...) como as coisas estão só me resta chamar CORRUPTO ao ESTADO. E se a lei protege corruptos e corruptores mude-se a lei!»
António Neves
Na edição portuguesa do Courrier Internacional de 27 de Maio.
(...) A injustiça de Estado goza da impunidade maior, o que constitui mais um factor de injustiça, não se vendo ninguém, entre os responsáveis e detentores do poder político e económico responder por toda a espécie de prevaricações e abusos constantes que se cometem. O voto democrático já não chega como mecanismo de reparação.(...)
De Francisco Teixeira da Mota, no Público de hoje, comentando a publicidade paga que o Grupo Espírito Santo inseriu nos jornais de referência na passada quarta-feira a propósito do caso Portucale. Sobre a descarada arrogância dos grandes grupos económicos quando confrontados com a opinião pública democrática.
O aumento do imposto sobre os combustíveis reflectido no aumento do preço a pagar pelos consumidores. Medida gravosa num ano em que os combustíveis aumentaram da forma que todos sabemos, mas no qual os lucros das petrolíferas não baixaram. Aliás aumentaram.
Não seria possível repercutir este aumento de imposto na margem das petrolíferas?
Aliás que negócio é este que em situação alguma admite diminuição das margens de lucro? É um monopólio ou é um cartel? Seja como for tem a cumplicidade do Estado.
Medina Carreira com o seu discurso claro, apoiado em números esmagadores, deixa-nos, muitas vezes, à beira de uma depressão. Aconteceu outra vez na Sic-Notícias no programa de Gomes Ferreira.
Os números são incómodos mas ninguêm os contesta.
Gastamos 900 milhões de euros por ano com a "formação profissional". Uma das maiores fraudes do pós adesão à UE. Procuram-se "dez pessoas" que tenham aprendido alguma coisa nestas "formações profissionais". Quantos mil milhões gastámos nos últimos dez anos? Um esforço colossal para continuarmos a ter uma mão-de-obra muito desqualificada.
Vamos gastar 500 milhões de euros com as Scut´s. Nesta altura específica não seria defensável suspender este processo?
Gastamos mais de 400 milhões de euros com o crédito bonificado para aquisição de habitação pelos jovens. Jovens filhos da média e da alta burguesia, acrescente-se. Não se pode acabar totalmente com esta despesa?
Não podemos suspender imediatamente o pagamento de pensões acima do salário do Presidente da República. Aproveitando o excedente para redistribuir pelos mais necessitados?
E o TGV ? E a OTA? Não se pode exterminá-los?
As propostas de Socrates contemplam algumas medidas muito positivas. Medidas relativas aos privilégios dos titulares dos cargos politicos. Medidas corajosas, embora, ao que parece, irrelevantes para o combate ao défice. Medidas que ajudam a credibilizar a classe política. Falta agora saber a sua extensão. Por exemplo no caso de um Presidente de uma autarquia em funções à data da aplicação da lei como será contado o seu tempo de serviço para a reforma? A mesma questão se coloca relativamente a um deputado actualmente em funções. A resposta a estas questões ajuda a compreender a verdadeira dimensão da proposta. Vamos esperar.
Outra medida importante é a relativa ao sigilo bancário e ao sigilo fiscal. Muito relevante se for aplicada para averiguar da verdadeira situação daqueles que exibem um enorme poder económico e declaram rendimentos proletários. Vamos esperar pelos resultados.
Uma medida boa que não foi anunciada foi a revisão da situação fiscal da banca. Essa, por omissão, foi uma medida má.
A subida do IVA. Medida fácil porque gera receita garantida. Cerca de 500 milhões de Euros, este ano, segundo os especialistas.
O IVA é uma receita cobrada pelas empresas aos clientes e entregue por elas ao Estado. Com a agravante de no caso de as empresas não conseguirem cobrar os seus serviços terem que pagar na mesma o IVA ao Estado. Mesmo, como acontece muitas vezes, nas situações em que é o Estado o devedor.
O aumento do IVA gera recessão e estimula a economia paralela. Porque, em muitas situações, os consumidores não podem deduzir o IVA pago nos seus rendimentos. Daí optarem por pagar sem factura, ou sem recibo no caso dos profissionais liberais. Quem não vive na lua sabe o que aconteceu com o aumento do IVA de 17 para 19%, no (des)governo de Durão Barroso. Tudo piorou. A situação das finanças públicas e de forma muito grave a situação das famílias.
Como disse um, recem- eleito, primeiro ministro " Nós não vamos aumentar os impostos, porque essa é a receita errada. Não vamos cometer os erros do passado. As prioridades são:aposta no crescimento económico, reduzir a despesa e combater a fraude e a evasão fiscal."
Segunda medida muito má. Uma medida que é afinal uma não medida. A falta de coragem para alterar a situação fiscal da Banca. Que paga em média menos de 10% sobre os lucros declarados. Situação cada vez mais intolerável aos olhos dos portugueses. Medida que permitiria este ano, face ao crescimento previsto dos lucros, arrecadar mais de 600 milhões de euros. Uma medida justa, e corajosa, que permitiria, por si só, uma receita equivalente ao conjunto de todas as anunciadas por Sócrates. Porque será que esta questão permanece uma questão tabu? Será por aquilo que Mário Soares refere com alguma insistência da "excessiva intimidade" entre grupos económicos e governo? Ou numa linguagem mais terra a terra pela submissão do poder político ao poder económico?
O primeiro-ministro anunciou o seu pacote de medidas para enfrentar o novo monstro que nos aterroriza: o défice de 6,83%. Nenhuma verdadeira surpresa. Más medidas e medidas justas, mas, aparentemente, inúteis para o objectivo de redução do défice, talvez para tentar tornar socialmente aceitável as medidas mais impopulares. A justificarem os que entendem, talvez cinicamente, tentarem elas dar uma falsa, mas conveniente, imagem de que com este Governo "comem todos".
Sócrates ganhou o debate de forma esmagadora à direita. A posição do PSD e do PP nesta questão tem sido da mais descarada falta de responsabilidade no assumir de responsabilidades. Oportunismo político nunca antes visto. Marques Mendes e Nuno Melo, entre outros, alijaram responsabilidades e recorreram a Guterres para justificar a coisa. Bagão Felix, tinha-se antecipado, no Prós e Contras, recorrendo à mudança de condições entre a data de elaboração do Orçamento e a data de elaboração do "Relatório Constâncio". Manuela Ferreira Leite já antes, candidamente, referira que a situação só lhe dava razão. Entre linhas criticava a mudança de orientação do Governo de Santana Lopes. Nenhuma explicação sobre a falência das suas políticas - fortemente suportadas por receitas extraordinárias que atingiram montantes nunca vistos - que exigiram grandes sacrifícios às famílias e às empresas. Sacrifícios que conduziram, entre outros, a um crescimento gigantesco do desemprego.
No seu confronto com a esquerda a coisa correu menos bem. Sócrates, no essencial, veio pedir sacrifícios aos mesmos. Às famílias e às pequenas e médias empresas em particular. E concretiza um forte ataque aos "direitos adquiridos" pelos funcionários públicos.
Foram manifestas as dificuldades em assumir a resposta aos que os acusaram de adoptar medidas semelhantes às que antes criticara a Durão Barroso. Medidas que provaram no passado induzir recessão e estimularem a economia paralela, reduzindo a receita fiscal.
As dificuldades teriam sido maiores se alguém se tivesse lembrado do facto de a situação fiscal da Banca permanecer intocável. Até o Bloco de Esquerda se esqueceu desta questão. Que não é de somenos como todos sabemos incluindo o primeiro-ministro e o ministro das finanças.
O Durão manda na Europa, o Guterres na Jolie, o Benfica é campeão. Quem é que falou em crise?
Peseiro eleito o melhor treinador da Super Liga. Humor negro do melhor.
Este é o número do nosso descontentamento. Vai ser à sua sombra que a nossa vida vai piorar. Uma pergunta simples: porque razão não rasgam o anterior Orçamento e não fazem um melhor? Não foi isso o que quiseram os Portugueses a 20 de Fevereiro?
Não quer aumentos de impostos. O que é que será que o homem quer? Vender outra vez o património que o seu partido vendeu durante três anos? Diminuir a despesa pública à "la Durão-Portas-Santana"? Não se importa de explicar?
Como o défice, o monstro que é hoje a única oposição que conta, como explica Vasco Pulido Valente, está pelas horas da morte faço uma pequena proposta para reduzir, e a prazo eliminar, a coisa.
Como as empresas e as famílias estão, numa grande maioria, na falência, o aumento de impostos deverá ser selectivo. A lógica deverá ser ir buscar o dinheiro onde ele existe. Um Estado Robin dos Bosques para desenjoar do Estado ladrão que cobra aos pobres para perdoar aos ricos. Primeiro lugar de caça ao tesouro. A Banca. Em 2003 pagou 8,7 % sobre os lucros obtidos que, no caso dos cinco maiores bancos, ascenderam a 1.964,52 milhões de euros. Isto é pagou 170,913 milhões de euros. Devia ter pago 589,35 se estivesse sujeita a uma taxa de IRC normal. Ficaram por cobrar 418,44 milhões de euros, isto é 10% daquilo que o ministro necessita de poupar. Se o ministro aceitar poupar metade e receber a mais a outra metade, então o "perdão" fiscal à banca foi de 20% das "necessidades".
Mas para nosso contentamento a banca está próspera neste país falido. E os lucros no primeiro trimestre pularam 40% sobre o período homólogo do ano anterior. Fantástico. Um crescimento de 40% na receita fiscal deste sector. Vamos poder cobrar, no próximo ano, cerca de 825,098 milhões de euros, isto é qualquer coisa como 29,2% das "necessidades". Nada mau para começar.
Aceitam-se contribuições para este tão nobre propósito.
Para ler aqui um artigo de Luís Nazaré que questiona, entre outras coisas importantes, a tão proclamada excelência do desempenho da Banca. Um "olhar de perto" para "o superior desempenho técnico e (...) a reconhecida eficiência operacional, alegadamente ao nível das melhores prácticas internacionais."
Não há impossíveis. Uma das piores equipas do Benfica ganhou a SuperLiga. Contra um Porto de terceira e um Sporting "à Peseiro". Vai ser uma semana dura. O senhor Vieira está em todos os canais, em directo. Não há zapping que nos valha. A Ana Sousa Dias, pela primeira vez na história, assume algum protagonismo face ao "Professor" e coloca um cachecol -de seda!!! - do Benfica. Gente fina.
O "centenário" Trapattoni deu uma das maiores lições de competitividade aos pseudo-jovens treinadores de sucesso. Transformou uma equipa de executantes menores na equipa vencedora da Super-Liga. Vai embora porque os milagres dão demasiado trabalho e a idade já pesa.
Esta é a melhor de todas as alturas para anunciar o aumento de impostos. A maior parte das pessoas está feliz.Afinal o futebol, como dizia o avô Vladimir, é o ópio do povo.
Para dar algum encanto e fantasia a este dia perdido, o Sardinheiras desvenda algumas das afinidades com a sua homónima francesa. A ver aqui.
Acerca do post "É preciso muita determinação.Muita determinação." Ver aqui.
Ontem, ao fim da tarde, fui visitar uma amiga que tem um jardim de Maio muito perfumado, repleto de sardinheiras e rosas da cor do céu mais quente. E a casa, virada a Oeste, àquela hora, recebia nas paredes a cor alaranjada do céu ao longe.
Apesar de a visitar com regularidade, foi ontem, num fim de tarde de Primavera, que recebi o meu presente de Natal: um quebra-nozes.
Não, não me refiro aos electrodomésticos que o povo de Gondomar julgou perdidos, mas que o Major já sossegou com a sua credível candidatura como independente. Refiro-me, sim, ao ponto a que chegámos em termos de angariação e de fidelização de espectadores das emissões televisivas.
Todos nós sabemos que vale tudo para conquistar audiências. Diariamente, TVI, SIC e RTP 1 (há outro, não há?) degladiam-se e (...)
Para continuar a ler, seguir para aqui, por favor.
A entrevista a Santana Lopes, na RTP1, justifica-se sob que ponto de vista? Que interesse tem ouvir o homem dizer as mesmas coisas, manifestar a mesma perplexidade com aquilo que lhe aconteceu? Há qualquer coisa de mórbido nesta insistência. Por momentos parecia que, por engano, tinha acedido à RTP Memória. Memória amarga.
Excelente a iniciativa de Pacheco Pereira. O referendo é para todos os cidadãos. Os que apoiam a constituição europeia e os que estão contra. A discussão deve ser aberta e com igualdade de oportunidades. O que não parece estar a acontecer com a "institucionalização" da defesa do sim. É bom que exista um sitio para se expressarem os que defendem o não. Ou pelo menos uma certa forma de dizer não, porque nestas questões as motivações são plurais.
Se há um défice de debate em Portugal é sobre a Europa e as questões europeias. Que são, afinal, as nossas questões. A Europa resume-se às massas que nos chegam de Bruxelas. Como a política regional se resume, desde sempre em Portugal, ao betão, ao asfalto e às obras tão relevantes na política interna, sobretudo para fins eleitorais. Nacionais e locais acrescente-se. Quase ninguêm discutiu em Portugal o "Esquema de Desenvolvimento do Espaço Comunitário" e as questões decisivas do alargamento. Que se discuta a sério esta questão da Constituição Europeia.
Já nas críticas ao Presidente da República acho a argumentação um pouco demagógica. Jorge Sampaio, como qualquer Presidente da República, é, de facto, o Presidente de todos os portugueses o que não significa que não tenha sido eleito com base num programa de candidatura que permanece válido até ao final do seu mandato. Foi com base nesse programa que foi eleito. E ninguêm ignora que Jorge Sampaio é um firme defensor da Europa e da futura Constituição Europeia. Firmeza e convicção que reafirma sempre que pode e a oportunidade o justifica. Naturalmente.
Durão Barroso acerca da forma de encarar o défice cuja dimensão será revelada na próxima semana por Vítor Constâncio. Um segredo de polichinelo já que toda a gente sabe que será superior a 6% do PIB.
Durão Barroso falou mas não "como político português". Uma boa desculpa para não abordar a sua parte de responsabilidade na engorda do "monstro".Apesar de tanta receita extraordinária, e tanto empobrecimento do País por essa via da alienação de património, muitas vezes ao desbarato, o défice não parou de crescer. Vêm aí mais sacrifícios para os do costume.
Os russos ganharam. Apostando no contra-ataque e tirando partido de uma muito superior frescura física. Peseiro apostou numa equipa "idosa", com Rogério no meio-campo e Custódio no banco a descansar, que tardou a refrescar ao longo do jogo. Na primeira parte o Sporting dominou mas sem grandes oportunidades. Na segunda parte foi o descalabro. Um estoiro que se ouviu em todo o País.
Em contra-ataque o CSKA fez o que quis de um meio-campo abandonado.
Quem diria que Pedro Barbosa jogaria o jogo da Luz e o jogo da final num espaço de dias? Quem diria que Rogério seria escolhido para o meio campo? O Sporting nunca ganhou com esta opção. Quem diria que Doualla ficaria no banco a assistir? Peseiro disse.
Os adeptos do Sporting assisitirão no próximo ano ao aperfeiçoar destas "teorias". A SAD satisfeita com a campanha vai insisitir. Há coisas que as SAD's sabem que o comum dos adeptos não topa.
Inauguram hoje quase todas as exposições integradas na LisboaPhoto 2005. Uma delas é a do fotógrafo norte americano Aaron Siskind (New York 1903-Providence 1991) que estará patente ao público no Museu de Arte Antiga em Lisboa.
Aaron Siskind http://www.aaronsiskind.org/as.html é um dos mais originais e representativos percursos da fotografia do século xx. Tal como se escrevia no Mil Folhas do último Sábado, defendia que o trabalho do fotógrafo é o de desacreditar o mundo visível, desconstruí-lo. De facto muitos trabalhos fotográficos enveredaram por esse caminho e outros pela construção ficcional das imagens. Mas se também a fotografia enveredasse somente pelos caminhos da abstração, da fragmentação do visível o que é que nos devolveria o mundo tal como ele é, sem pretensões, sem cariz artístico? Será que um olhar mais atento leva sempre à desconstrução do que se vê e à sua reinvenção?
Como é que se pode chamar "cidade" a um sítio onde não se conseguem comprar bolas de ténis?
Arde el agua,
la tierra arde,
arde
el asfalto
hasta abrasar,
como si
las farolas aprendieran
la tabla de multiplicar.
La plaza
es más bella
que miles de damas perifolladas.
Esta plaza
justificaría
cada ciudad.
Si yo fuera
el obelisco de Vendôme
me casaba
con la Place de la Concorde.
Vladimir Maiakovski. La ciudad . Poemas 1917-1930
"Acerca das novas leis do poder local.
Dois mil e quantos ?
As alterações à Lei das Autarquias vão ser discutidas na Assembleia da República quando este jornal chegar às bancas. Por diversas vezes tomei posição sobre esta questão. Desde 1989 que considero urgente a reforma do sistema. Mas, como se sabe, urgente em Portugal não tem data. Ainda agora as alterações parecem ir ser sujeitas a uma espécie de moratória, negociada entre PS e PSD, que impedirá as listas de independentes antes de 2005, na melhor das hipóteses. Nesta discussão eu coloco-me num ponto de partida que é o seguinte: o actual sistema não presta e é, já hoje, uma lamentável distorção do poder local criado no pós 25 de Abril. A evolução, conseguida à custa de sucessivas alterações legislativas, criou um novo órgão unipessoal que é o Presidente da Câmara - a partir da Lei 100/84 – e esvaziou de poderes as Assembleias Municipais, que se transformaram em câmaras de ratificação das decisões dos executivos. Este estado de coisas possibilitou o regresso em força de um poder de natureza caciquista que tem feito a obra que se pode observar um pouco por todo o país. Com honrosas excepções, que algumas andorinhas não fazem a Primavera. A discussão que alguns travam há muitos anos sobre a necessidade de limitar os mandatos parte desta constatação. Eu coloco-me deste lado. Alguns dos que há 15 dias acusavam as novas propostas de lei de serem presidencialistas vêem agora pedir para tudo ficar na mesma mas exigem limitação dos mandatos. A defesa da limitação dos mandatos é uma posição correcta – ninguém, presidente ou vereador, deve ter mais de dois mandatos – que parte da constatação da existência de um presidencialismo sem controle.
Proponho algo de diferente que é o que sempre defendi. Mudar o sistema devolvendo- lhe a vocação perdida de um regime de natureza parlamentar. Mudando o controle político para a Assembleia Municipal e permitindo executivos à imagem do Governo, isto é, executivos em que os seus integrantes – os vereadores – não teriam legitimidade eleitoral. Esta questão permitiria que tal como os ministros incompetentes também os vereadores incompetentes pudessem ser “libertados” das suas funções.
A única legitimidade eleitoral seria a do elemento mais votado das listas concorrentes à Assembleia Municipal, que presidiria à Câmara Municipal. A grande virtude desta mudança era a de se devolver ao órgão deliberativo a sua vocação de controle político e a de lugar privilegiado para o exercício da oposição. Esta mudança implica um conjunto de medidas concretas relativas às atribuições e competências das Assembleias Municipais que, infelizmente, não encontro nas leis propostas, nomeadamente na lei do Partido Socialista. Mudanças sem as quais a tal vocação de controle político não se poderá exercer o que conjuntamente com os executivos monopartidários legitimam os receios de se poder assistir a uma degradação, ainda maior, das condições em que se exerce a democracia ao nível local.
A forma de constituição das Assembleias com as inerência dos presidentes de juntas de freguesia a manterem-se, como se fossem membros eleitos, a escassez de reuniões e de recursos mobilizados e a incapacidade de demitir o executivo a menos da existência de uma maioria de dois terços – nunca ninguém ganhará uma Câmara com menos de um terço da respectiva Assembleia – defraudam a expectativa existente. Este facto junto com o – não me ocorre outra palavra – descarado adiamento da possibilidade de candidaturas independentes sem "siglas de aluguer" preocupa-me seriamente e faz-me interrogar sobre as consequências da aplicação da nova lei.
Por último uma pequena nota. Li recentemente que os executivos monocolores impedem as oposições de se ancorarem a nível local através da participação nos Executivos. Este raciocinio parte de uma posição de completa descrença nas virtudes das Assembleias Municipais e no reconhecimento da sua inutilidade. Admite que é mais fácil às maiorias aldrabar os deputados do que os vereadores das oposições. Não me parece que seja grande ponto de partida para uma análise minimamente séria. E alem do mais parte de outro erro de palmatória. Os pequenos partidos – em cada concelho considerados – conseguem mais facilmente eleger deputados do que vereadores. Em Sines, por exemplo, um vereador “custa” cerca de 800 votos e um deputado municipal a bagatela de 200 a300 votos. É também por isso que os pequenos partidos têm todas as vantagens em que as Assembleias Municipais recuperem a dignidade perdida".
Texto publicado na edição nº 44 do jornal Sudoeste em 6-02-2001, numa altura em que era vereador sem pelouros atribuídos na C.M. de Sines e militante do Partido Socialista.
Passados tantos anos "tudo na mesma como a lesma".
Peseiro acaba de perder o mais imperdível de todos os campeonatos de que há memória. Foi necessário uma laboriosa conjugação de esforços. De que o último e triste episódio teve lugar, hoje, no Estádio da Luz. Não me lembro de nada semelhante. A pior equipa possível. Douala a ponta de lança. Moutinho desterrado na ala esquerda. Pinilla, Nicolaue e Tello a repousarem no banco. E a mais apagada e vil falta de capacidade atacante e de vontade de ganhar. O frango de Ricardo fez justiça. Trapatoni comparado com Peseiro fez lembrar um "jovem turco" ao pé de um ancião.
Durante anos, nunca ligámos muito à ONU. Sabíamos-lhe a história, conhecíamos o Secretário-Geral, o Conselho de Segurança; víamos as suas intervenções em zonas de conflito, facilmente identificáveis pelo azul claro que serve de imagem à organização; e pouco mais. Era isto a ONU.
Contudo, aqui há umas semanas, começámos a ouvir que o nosso ex António Guterres era candidato a qualquer coisa na ONU. Palavra puxa palavra e alguém chegou à conclusão que o cargo até era importante e que seria merecedor de empenho nacional.
Hoje sabemos que Guterres está na corrida para o cargo de Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados e que o cargo é tão importante que, passada a avaliação efectuada por uma "comissão de especialistas" (!!!) e entrando na segunda fase das candidaturas, há mais quatro candidatos a lutar pelo lugar. Ao que parece, Guterres está neste momento a reunir apoios, contando já com o da Espanha, da Rússia e da França, entre outros.
É aqui que ficamos intrigados. Mas alguém fazia ideia do que era o Alto Comissariado para os Refugiados? Da sua importância? Do seu intricado processo de eleição, com segundas fases de candidatura e avaliações por "comissões de especialistas"? Segundas fases??! Se para chegar a Presidente da Comissão Europeia basta ter um bocado de desfaçatez e alguma sorte, como se explica que haja tantos interessados num cargo obscuro como este, cujo caminho para a eleição é mais insondável do que a organização interna do PCP?
Sim, eu sempre desconfiei. Ao ver o Guterres, com aquele sorriso paroquial na televisão, a angariar "apoios" e, ao mesmo tempo, a mostrar um ar de pomposo desinteresse, sabia que ele estava a preparar alguma. Vai daí, meti-me a investigar o caso e encontrei agora a solução. Eu SEI o que é que ele - e todos os outros - viram neste cargo! Querem que vos diga? Então, em exclusivo mundial, cá vai:
Vou ficar aqui quietinha, a ver se não me perguntam nada...
Ainda não perceberam? Vou pô-lo de outra forma:
Oh, António! Darling, you made it!
Apresento-vos uma futura empregada do senhor António Guterres. Chama-se Angelina Jolie e trabalha para o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, ocupando o cargo de Embaixadora da Boa Vontade.
Assim também eu mandava a Presidência da República às malvas. É que, depois de aturar Governos com a Maria de Belém, a Edite Estrela e a Manuela Arcanjo, esta é que é uma verdadeira promoção.
Força, Guterres! Portugal está contigo!
É uma fartura. Chovem projectos estruturantes por tudo o que é concelho deste País à beira-mar plantado. É nas matas de Sesimbra, é junto das praias de Melides, é na Azóia de Baixo,em Santarém. Onde existir um metro quadrado de terreno rústico com um palminho de vista lá vem um projecto estruturante. O chato é quando existem sobreiros nos terrenos. É que isso obriga a um despacho do ministro. Uma coisa mais custosa.
Alguns autarcas, cujos concelhos não foram objecto da "dinâmica estruturante" dos promotores imobiliários, estarão reunidos, por esta altura, à margem da ANMP. Querem constituir uma "liga dos concelhos vítimas de uma discriminação negativa estruturante". O seu objectivo é obterem da Administração Central uma justa compensação pelo facto de os seus terrenos rústicos não terem sido objecto de nenhum pedido de mudança de uso por parte de um qualquer promotor imobiliário, de preferência do novo tipo, daqueles com as iniciais WWF e montes de preocupações ambientais.
Uma segunda organização parece estar a nascer. Trata-se de um grupo de autarcas reunidos sob o lema "Tirem-nos daqui estes sobreiros que nos desestruturam os concelhos". A sede deverá ser em Benavente e José Ganhão, actual presidente da Câmara, pode vir a ser o seu primeiro presidente.
Luís Nobre Guedes foi um ministro coerente. Tal como mandou para o lixo a proposta de revisão da lei da RAN elaborada por Sidónio Pardal, não teve nenhuma dúvida em aprovar o abate dos sobreiros na Herdade da Vargem Fresca em Benavente. Embora alguns comentadores tenham aplaudido a primeira medida, indo ao ponto de o classificar como um bom ministro do ambiente por essa razão, não hesitarão em o vilipendiar pela segunda atitude. Estamos de facto perante duas faces da mesma moeda, ou melhor da mesma política, isto é perante a mesma submissão aos interesses do imobiliário que se alimenta das mais-valais geradas em processos de mudança do uso do solo. Mudanças de uso que são afinal a passagem do uso rústico -agrícola ou florestal - para o uso urbano. Mudanças que por serem possíveis, com maior ou menor dificuldade, e o respectivo preço a pagar, incluindo ou não o necessário parecer de desafectação da REN e da RAN, fazem com que os preços dos terrenos rústicos sejam referenciados pelo preço do uso urbano tornando virtualmente impossível a sua exploração agrícola e florestal.
Para evitar esta situação bastaria que o solo rústico não fosse objecto da atribuição de índices nos PDM's. E que os usos agrícolas e florestais fossem protegidos e defendidos da procura urbana. Coisas simples mas que poriam em causa tanto projecto falsamente estruturante e essa verdadeira mania nacional que é a segunda habitação.(Somos recordistas a nível europeu na posse de segunda habitação)
Estes processos não são fáceis de entender na sua totalidade. Exigem estudo aturado dos problemas. Estamos perante uma àrea em que muitas vezes aquilo que parece não é. Como no caso do ministro que parecia ser um bom ministro do ambiente. Mas que não era.
Com atraso cá vão os parabéns pelo segundo aniversário do blogue de Pacheco Pereira. A razão da primeira visita à blogosfera e um local de visita regular. A propósito reproduzo a recomendação do passado dia 7 "A LER -*** (como no Michelin) A entrevista de Luiz Pacheco no esplanar". A não perder.
Na passada segunda-feira quando escutava a Antena Miróbriga – a única rádio local, do Litoral Alentejano, que dá uma informação livre da "pata censória" do autarca de serviço – tive oportunidade de escutar as declarações do Presidente da Câmara de Grândola sobre alguns "projectos estruturantes" para o seu concelho. Para Carlos Beato, esses projectos "são investimentos estruturantes que vão criar milhares de postos de trabalho para o concelho". Trata-se de dois mega-empreendimentos que se situam perto de Melides. Um da responsabilidade da imobiliária Pelicano e outro da empresa, de capitais suíços, Costa Terra. O primeiro é o loteamento do Pinheirinho que ocupará 200 hectares e o segundo é o loteamento da Costa Terra que ocupará mais 200 hectares. No seu conjunto implicam 5700(!!!)novas camas.
Importa esclarecer de uma vez por todas o que significa isto dos projectos estruturantes. Porque razões são estas operações imobiliárias estruturantes? E quanto aos postos de trabalho a criar, será que o presidente da autarquia de Grândola nos pode esclarecer sobre o seu número e as suas características? Trabalho qualificado e com direitos? Trabalho desqualificado, sazonal, e sem direitos? Trabalho durante a fase de construção ou para lá dessa fase? E, se possível, quais as receitas da autarquia em taxas municipais de urbanização e quais os custos a longo prazo com a gestão e conservação das infra-estruturas públicas (rede viária, abastecimento de água, drenagem e tratamento de esgotos, iluminação pública, rede de comunicações etc,). Isto é, quais os custos da rentabilização social de tais investimentos privados? Será que "estruturante" tem alguma coisa a ver com desenvolvimento? E qual o conceito de desenvolvimento que se aplica no concelho de Grândola? A aposta é na valorização da propriedade fundiária ou existe uma ideia precisa de desenvolvimento com a criação de uma cultura de resistência à tirania do curto prazo e uma capacidade para avaliar a razoabilidade dos objectivos dos tais projectos estruturantes?
O que já se sabe é que estamos perante duas operações imobiliárias de grande envergadura, sob a designação "protectora" de empreendimentos turísticos, que têm na sua origem uma operação de alteração do uso do solo. Essa alteração do uso do solo rústico para urbano é geradora de gigantescas mais-valias simples que são apropriadas, na sua totalidade, pelas entidades promotoras. Essas entidades são identificadas na literatura científica sobre estas questões como agentes catalizadores da alteração do uso do solo rústico para urbano. São normalmente referidas as entidades com grande capacidade financeira, como os Bancos, as Seguradoras e os Fundos Imobiliários. Recorde-se que a imobiliária Pelicano pertence ao grupo Espírito Santo, tal como a Portucale em Benavente, agora tão na berra pelas piores razões.As autarquias são referidas como agentes permissivos. Não sendo os únicos, pois ainda antes do ex-ministro Nobre Guedes já muitos despachos governamentais reconheceram a "utilidade pública" deste ou daquele projecto estruturante. Já agora, a título de esclarecimento: mais-valias simples são aquelas que resultam de decisões da Administração Pública e que não implicam qualquer mérito por parte dos promotores. Os países nos quais a Administração segue uma lógica de defesa do interesse público, caso da Holanda, da Suécia e da Alemanha entre outros, conscientes da impossibilidade de tributarem estas mais-valias simples, optaram pela sua socialização, isto é, pela sua retenção na posse da Administração.
PS – O autarca de Grândola queixou-se do facto de "por razões processuais, estivemos mais de uma dúzia de anos à espera que eles fossem aprovados nos vários organismos governamentais". Vamos lá ver se eu compreendo. Estes projectos estruturantes não foram concretizados pela anterior gestão comunista do concelho por "razões processuais"? E se tivessem sido concretizados, com a criação dos tais "milhares de postos de trabalho", quem seria o actual presidente da autarquia? Será que existe ao nível autárquico uma "ideologia" dos projectos ditos estruturantes?
Ando a viajar pelos livros, papéis e mapas:
Ceuta, Alcácer Quibir, Cabo Bojador, Arguim, Cabo das Três Pontas, Cabo de Santa Catarina, Angra das Areias e Angra das Voltas, Cabo da Boa Esperança, Rio dos Bons Sinais, Melinde e Calcute corria o mês de Maio de 1498.
"Das criações helénicas, a cidade e a estátua, ainda é a cidade a mais bela. Tem além da linha, o movimento. É a um tempo estátua e tragédia, tragédia no mais elevado sentido da palavra, espectáculo de um movimento fundado na liberdade"
Eugenie d’Ors
60 Anos após o armistício na Europa, Paul Celan, o poeta do silêncio no tempo
Posted by MJB at 5/09/2005 08:23:00 da manhãPaul Celan nasceu na Roménia em 1920. Filho de judeus-alemães, em 1942 dá-se a deportação dos pais para um campo de extermínio nazi.
Escolhi o poeta do silêncio no tempo para assinalar o terminar da Segunda Grande Guerra.
Leite negro da madrugada bebemo-lo ao entardecer
bebemo-lo ao meio-dia e pela manhã bebemo-lo de noite
bebemos e bebemos
cavamos um túmulo nos ares aí não ficamos apertados
Na casa vive um homem que brinca com serpentes escreve
escreve ao anoitecer para a Alemanha os teus cabelos de oiro Margarete
escreve e pôe-se à porta da casa e as estrelas brilham
assobia e vêm os seus cães
assobia e saem os seus judeus manda abrir uma vala na terra
ordena-nos agora toquem para começar a dança
(...)
- Paul Celan -
Depois de se ler a entrevista que Vasco Pulido Valente dá à Visão desta semana, só nos resta fugir do país!
Confesso que sempre gostei do estilo de Pulido Valente: audaz, lúcido, cáustico, independente. Quatro adjectivos que infelizmente muito escasseiam neste país, vindos de pessoas que realmente pensam antes de emitir opinião. Mas desta vez o "Velho do Restelo", como já lhe chamaram, vai longe demais. Não nos deixa uma única esperança ou saída para mudar o rumo de Portugal. Como Pulido Valente diz, " estamos a ser, pouco a pouco, Governo a Governo, empurrados contra a parede". Depois de ler as suas palavras, é como se tivesse feito "pause" num filme em que um dos protagonistas, já moribundo, está contra uma parede com uma espada no pescoço.
Entretanto, ainda com a "pause " ligada e a pensar neste país "historicamente periférico", faço "zapping" pelos outros canais e lá estão: Valentim Loureiro no Canal 1 e o jogo do Sporting na TVI. Esta noite só me restam 2 coisas: ver o final da vitória do Sporting e estudar História da Expansão Portuguesa.
Vasco, temo que estejas certo, mas "não entres tão depressa nessa noite escura".
para a posição do BE sobre esta questão. Francisco Louçã já tinha garantido que o Bloco votaria favoravelmente qualquer das propostas em discussão, com objectivo de evitar que a "discussão -eterna acrescento eu - política sobre esta questão não passe de uma encenação com várias propostas diferentes, mas com o objectivo de nenhuma ser aprovada.". Ontem votaram favoravelmente a sua proposta e a do PS. Com a particularidade de o seu projecto, aprovado com os seus votos e do PS, ter tido a abstenção do PSD e os votos contra do PCP e do PP.
O PCP, o PSD e o PP aliaram-se para votar contra a aprovação, na generalidade, das propostas do PS e do BE, sobre a limitação de mandatos. Uma vergonha a atitude do PCP.Que já tinhamos previsto.
para Jorge Coelho por ter defendido que "os socialistas têm a obrigação moral de fazer aprovar a despenalização da interrupção voluntária da gravidez pelo Parlamento", caso o PSD continue a bloquear a realização, a curto prazo, do referendo.
Posição pessoal mas com muito peso no interior do partido. Uma opção clara para acabar de vez com o cinismo da direita à volta desta questão.
A "administração interina" tem cuidado do Blogue com grande desvelo nesta minha ausência de alguns dias. Mas cá estou de regresso depois de algumas semanas às voltas com as coisas da "formação do preço do imobiliário" e do que com isso tem a ver, ou talvez não, essa coisa etérea a que alguns chamam o nosso "sistema de planeamento urbanístico".
Para curar-me, o feiticeiro
pintou tua imagem
no deserto:
areia de oiro - teus olhos,
areia vermelha - tua boca,
areia azul para os teus cabelos,
e branca, branca areia, para as minhas lágrimas.
Pintou durante o dia, e tu
crescias como uma deusa
sobre a imensa tela amarela.
E pela tarde o vento dispersou
tua sombra colorida.
E, como sempre, na areia
nada ficou senão o símbolo das minhas lágrimas:
areia prateada.
poemas dos peles-vermelhas
"mudados para português" por Herberto Helder

Kasimir Malevitch, Suprematist Composition: White on White, 1918
P.S.: Imagem obtida no sítio do MoMA.
Polissulfato de mucopolissacáridos
Apesar de já ter ficado com o pé direito virado ao contrário numa calha de um campo de ténis, tardo em aprender que existem actividades bem mais saudáveis do que a prática desportiva. Por isso, continuo a dedicar-me às modalidades do corpo, entremeando o ténis com o futebol, o mergulho com o basquete e a fisioterapia com todas elas.
Quando era mais novo – e arrogante e orgulhoso e apaixonado, como acontece sempre que nos julgamos mais novos – desafiava de igual para igual todos os centímetros de qualquer campo de ténis, entregue a mim mesmo e à pomada oficial da selecção nacional alemã de futebol. Não sei, mas talvez achasse que, untando-me com tal mistela, auferiria, como que por osmose, da eficácia e competência estóica daqueles Homens-máquinas, intocáveis intérpretes de futebol naqueles tempos, a meus olhos.
À medida que fui envelhecendo, tornei-me mais céptico quanto à verdade instituída, o meu corpo mais frágil face aos elementos externos e os amigos alemães menos infalíveis contra as selecções de pequenos países periféricos do sul da Europa. O meu mundo desleixou-se, os alemães “deslixaram-se” e chegámos aos dias de hoje.
Ganhar ou perder não importa: o que interessa é participar! É com base nesta insigne mentira que muita gente perde o seu tempo e a sua saúde em pavilhões desportivos, campos polidesportivos, estradas de montanha e encontros românticos. Reportando-me ao primeiro caso apresentado, foi devido à profunda tibieza do físico que ontem regressei de um jogo de futebol como um veterano das trincheiras da Primeira Grande Guerra. À falta de condecorações, optei por procurar alguma coisa que me aliviasse as dores e prevenisse o recurso a uma epidural no São Francisco Xavier. Longe da pomada dos panzeres, busquei algo mais trivial. E, pela primeira vez na minha vida, não encontrei uma bisnaga de Hirudoid em minha casa. Dirigi-me à minha mãe, fiel depositária da mastodôntica farmácia caseira, e inquiri sobre a milagrosa droga. As certezas não foram muitas, “havia de estar lá p’ ra dentro”, que não, não estava, não havia!
O Hirudoid é assim mesmo: anónimo, incompreendido, insondável nas suas propriedades clínicas, uma fé cega sem contra-indicações nem lugar marcado. Não tem direito a caixa ou a lugar privilegiado em casa: a bisnaga encontra-se sempre retorcida, dobrada em mil voltas em direcção à tampa, com a pintura esfolada nas extremidades, prisioneira do fundo de uma certa gaveta órfã da benigna gordura do unguento, remanescente da última utilização.
Prestimosa, minha mãe não perdeu tempo a admitir a falha e a repará-la com brio. No dia seguinte vi, fascinado, essa palavra trissilábica na receita médica do meu contentamento, legitimada superiormente pelo cromo com o código de barras, preta larga, branca branca, preta fina, fina branca, dupla preta, M, 1, 2, 4, 8, 9, *, que identifica os nossos médicos na via verde das caixas registadoras das farmácias.
No século XXI, já ninguém pede um Hirudoid. Querem-se analgésicos, anti-inflamatórios, anti-reumatismais, antipiréticos, orçamentos rectificativos e comboios de alta velocidade. O Hirudoid não é nada disso. É humano. É antigalo e nódoa negra. Combate os males dos idosos, os nossos professores nesta vida e a quem tudo devemos; e apazigua as obrigações das nossas crianças, a única prova de que realmente existimos e de que podemos acreditar em qualquer coisa que gostamos de chamar amor.
Sempre que o utilizo recordo-me daqueles turistas que, uma vez longe da pátria de Luís Figo e de Zé Maria, procuram o primeiro botequim português para “matar as saudades” com um pastel de bacalhau e um Sumol. Ainda que não bebam Sumol em Portugal desde os tempos em que enfileiravam a Mocidade Portuguesa. Tal como o Sumol, o chocolate para o leite Milo, os Fogões Meireles e a pasta medicinal Couto, o Hirudoid faz parte desse imaginário colectivo de saudosistas inveterados, eternas segundas escolhas, hipóteses desesperadas de que invocamos saudade na esperança de nunca as termos.
A embalagem continua um clássico, longe da fúria remodeladora dos nossos dias, ora ditada por política de marketing, ora por marketing político. O fundo é alvo, o nome vem escrito a azul escuro q. b. numa fonte ultrapassada, acima, um risca vermelha a rematar e a dar início à tampa de uma ingénua enormidade.
Lá dentro, a pomada em tons branco-hirudoid. E o cheiro? O cheiro é a minha infância, um final de tarde solarengo em que um maldito escorrega resolveu mexer-se quando lutava com os outros miúdos pela primeira descida.
O Hirudoid é só uma pomada, um carinho que se dá ao corpo em complemento ao gelo, ao chá e às torradas, as melhores drogas para qualquer mal de corpo e espírito. Para uso externo, sem casos de sobredosagem conhecidos e sem efeitos sobre a capacidade de condução de veículos e utilização de maquinaria pesada. Quanto a estes dois últimos casos, com muita mágoa minha.
Hoje, já não há escorregadelas que me animem ou torradas que me curem. Tenho memória, recordações, o mundo e um sol a nascer todos os dias.
Publicado originalmente a 27 de Junho de 2001, na edição n.º 53 do jornal regional "Sudoeste"
isto & aquilo
Foi com Black Cross (Cruz Preta sobre Fundo Branco, em português), que, em 1915, Kasimir Malevitch assinou o primeiro manifesto do suprematismo. Assumindo a condição de precursor desta corrente, Malevitch pretendia, assim, libertar a pintura do escravatura da paisagem, do retrato e do real, afirmando que a pintura existia por si, antes de tudo o resto, no próprio artista, não necessitando da ideia da formação de imagens e da figuração como cópia da realidade. O que tentava alcançar era a «supremacia das formas», na primeira manifestação de abstraccionismo geométrico puro. O suprematismo abriu caminho a novas abordagens na pintura – como os famosos ensaios de "branco sobre branco" – e a simples cruz preta sobre fundo branco é uma das obras mais estimulantes do Centre Pompidou.
Eu entendo que existem mais relações como a que Malevitch encontrou entre a pintura e a realidade. Uma delas usa-se da liberdade.
Quando associamos a liberdade a um momento certo no tempo e a cristalizamos aí, perdêmo-la antes de a termos. Quando a fazemos festa folclórica e vazia, vivida militantemente uma vez por ano, escapa-se-nos a essência. Quando a impomos por decreto, ela deixa de existir.
Por que é que há tanta gente preocupada a festejá-la e tão poucos decididos a vivê-la?
O todo e a parte. A ditadura da liberdade. Que liberdade? Alguma, instituída? Já existia, antes de a conhecermos. Agora, arrogamo-nos como seus fiéis defensores, tomámo-la como só nossa, restringimos o conceito a festas e feriados. Confundimo-la, de forma mais ou menos honesta, com a verdade possível, com os nossos triunfos, como um troféu. Liberdade?
Que fique claro que, para mim, a liberdade é livre.
José Manuel Fernandes, o neo-conservador director do Público, não mostra grande entusiasmo pela actuação do Governo. Com uma regularidade semanal lá vai actualizando as razões do seu descontentamento. Esta semana, referindo-se às medidas anunciadas para a Justiça, questionou-se sobre a razão porque é que "se continua" com a sensação de que o Governo não governa. Uma semana antes eram as palavras de Sócrates que o afligiam. "Palavras, Palavras e mais palavras" não chegam, concluía.
Este Governo tomou posse há menos de dois meses. Tomou algumas medidas importantes e outras que nem por isso. E sobretudo, entre palavras e actos, priveligiou claramente os segundos. O que este Governo nunca conseguirá ser é um Governo suficientemente bom para agradar a José Manuel Fernandes. E já agora se obtivesse esse nível de "excelência" será que continuaria a agradar a quem o elegeu?

Imagem enviada por correio electrónico por José Pedro Lucas.
O professor Marcelo hoje esteve imparável. O Governo foi objecto de um ataque cerrado. Os que pensavam que tinha sido só com o Santana Lopes estavam muito bem enganados. Vão ver como é todos os domingos na Televisão Pública a melhor oposição da semana. Luís Marques Mendes pode ter desempenhos frouxos no Parlamento que o professor ao domingo compensa nas calmas. Não há show off que lhe escape nem oposição que se lhe compare.



Nada de confusões. Isto é pago com dinheiros municipais. Não tem nada a ver com as próximas autárquicas. Aliás, vai haver eleições este ano?
