Luz do sol

Que a folha traga e traduza
Em verde novo
Em folha em graça
Em vida em força em luz
Céu azul que vem até
Onde os pés tocam na terra
E a terra inspira e exala seus azuis
Reza, reza o rio Córrego para o rio, o rio pro mar
Reza correnteza roça a beira doura a areia
Marcha o homem sobre o chão

Luz do sol

Leva no coração uma ferida acesa
Dono do sim e do não
Diante da visão da infinita beleza
Finda por ferir com a mão essa delicadeza
A coisa mais querida
A glória da vida
Que a folha traga e traduz
Em verde novo
Em folha em graça
Em vida em força em luz


Pintura de George-Pierre Seurat (1859-1891)
Port-en-Bessin, 1888, óleo sobre tela
Museum of Modern Art - New York


Pintura de Milton Avery (1893-1965)
Sea grasses and Blue Sea, 1958, óleo sobre tela
Museum of Modern Art - New York

Não há muito sobre o que escrever. A não ser que estejamos dispostos a fazer figuras destas.

E do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima, nem uma lástima p'ra socorrer
E na gente deu o hábito
De caminhar pelas trevas
De murmurar entre as pregas
De tirar leite das pedras
De ver o tempo correr
Mas, sob o sono dos séculos
Amanheceu o espetáculo
Como uma chuva de pétalas
Como se o céu vendo as penas
Morresse de pena e chovesse o perdão
E a prudência dos sábios
Não ousou conter nos lábios o sorriso e a paixão
Pois transbordando de flores
A calma dos lagos zangou-se
A rosa dos ventos danou-se
O leito dos rios fartou-se
Inundou de água doce a amargura do mar
Numa enchente amazónica
Numa explosão atlântica
E a multidão vendo em pânico
E a multidão vendo atônita
Ainda que tarde
O seu despertar

-Chico Buarque-


Pintura de Gustav Klimt (1862-1918) Hope, II (1907-08)
Óleo, ouro e platina sobre tela
The Museum of Modern Art - New York

Atendendo aos argumentos invocados pelo JCG, o Conselho de Redacção deliberou aceitar a licença solicitada pelo prazo indicado, garantindo aos leitores que o Pedra do Homem continuará a ser mantido pelos restantes colaboradores.

Aproveita ainda este conselho para saudar o JCG, a SB e o pequeno Diogo, desejando aos três as maiores felicidades.

Para os restantes leitores, os votos de festas felizes. Continuem a aparecer.

A colaboração deste escriba com o "pedra do homem" encontra-se interrompida até ao final do ano. O Diogo, que nasceu no passado dia 22, exige e merece todas as atenções.
Boas Festas para todos e um bom ano de 2006, com mais justiça social, maior solidariedade, maior desenvolvimento económico e social. Um ano que se caraterize pelo empenho de todos nós em prol do respeito pelo ambiente e pela saúde dos cidadãos em geral e do Litoral Alentejano em particular.

Vou ser um bocadinho saudosista, dirão alguns, mas outros recordar-se-ão do tempo em que não havia telemóveis nem e-mails e recebíamos os votos de Feliz Natal em postais chegados pelo correio. Tinha amigas e amigos de longe, com quem quase nem falava durante o ano, e no Natal lá vinha o postalinho. Não eram postais sofisticados, não tinham design, mas tinham autenticidade, no texto, escrito à mão, do remetente, no Deus Menino nas palhinhas, no boneco de neve, na paisagem de Inverno, muito simples e quentinha.
Agora já são raros os amigos que nos enviam um Postal de Natal com estrelas e dourados. Quase todos optam pelos sms, pelos e-mails, que tem a "vantagem" de chegar a um número imenso de pessoas em simultâneo e sem muito trabalho.
Por outro lado, eu sei que os Postais de Natal se continuam a vender. Quem são as pessoas que ainda resistem e os enviam enfrentando a incómoda fila dos Correios? Quem é que ainda compra aqueles postais 10 cm X 7 cm que eram os meus preferidos?


Pintura de Caravaggio (1571-1610)
Adoração dos Pastores, 1609 / Museu Nacional, Messina

Nesse País de lenda, que me encanta,
Ficaram meus brocados, que despi,
E as jóias que pelas aias reparti
Como outras rosas de Rainha Santa!

Tanta opala que eu tinha! Tanta, tanta!
Foi por lá que as semeei e que as perdi...
Mostrem-se esse País onde eu nasci!
Mostrem-me o Reino de que eu sou Infanta!

Ó meu País de sonho e de ansiedade,
Não sei se esta quimera que me assombra,
É feita de mentira ou de verdade!

Quero voltar! Não sei por onde vim...
Ah! Não ser mais que a sombra duma sombra
Por entre tanta sombra igual a mim!

-Florbela Espanca-


Pintura de Raffaello (1483-1520)
Sagrada Família com cordeiro, 1507
Museu do Prado - Madrid

A ler a opinião de Vasco Pulido Valente sobre a forma como decorreu o debate. Uma análise lúcida do que se passou e daquilo que tem estado em jogo na campanha. O candidato a primeiro-ministro Cavaco Silva - é isso que ele promete, alterar o rumo da economia, repor o crecimento económico devolver a confiança aos investidores, diminuir o fosso entre Portugal e a Europa entre outras benfeitorias só possíveis de concretizar na acção executiva - beneficia de uma conjuntura favorável ao aparecimento de um "Messias". Por muito que Soares mostre a vacuidade destas promessas como ontem fez com eficácia mas previsivelmente sem resultados.
Alguns blogues cavaquistas deixaram de ler e de citar Vasco Pulido Valente. Porque será?

Soares ganhou o debate com Cavaco Silva. O seu desempenho, muitas vezes no limite da agressividade admissível, traduz uma leitura política clara das opções possíveis para quem concorre contra um adversário que se situa a uma distância tão grande nas intenções de voto.
Soares questionou a interpretação que Cavaco faz dos poderes presidenciais, mais próximo de um primeiro-ministro, e passou grande parte do debate ao ataque. Não podia fazer outras coisa. No entanto esta estratégia tem um risco: é que Soares desvalorizou muitas vezes a importância dos poderes presidenciais para a resolução das questões concretas que afligem os portugueses, o desemprego e a recessão económica. Esta postura dá espaço para Cavaco assumir um discurso baseado na confiança e na esperança, que nesta altura concreta são apetecíveis para os portugueses.
Soares ganhou mas dificilmente inverteu a tendência dominante que as sondagens expressam. Mas pode ter dado uma pequena contribuição nesse sentido, o que já não é pouco nesta altura.


Pintura de Frei Angelico, História de São Nicolau, 1437
Tríptico de Peruggia, óleo sobre madeira

Hoje há Liga dos Campeões.

Não há sondagens que não confirmem a previsível vitória de Cavaco à primeira volta. O DN de hoje traz mais uma peça, de um conjunto alargado de sondagens, que confirma uma tendência aparentemente incontornável. Alegre recupera o segundo lugar por troca com Soares, enquanto Louçã recupera o terceiro lugar por troca com Jerónimo, invertendo a tendência que a sondagem do Expresso indicara. Pouco relevante face ao resultado de Cavaco. Vem aí a coabitação Sócrates-Cavaco. Vai ser bonito.

Até quando Portugal será o país ao qual não resta alternativa senão a de dizer sim a projectos que outros países da Europa dizem não?
Até quando Portugal será o país do mal menor?
Até quando as autarquias sucumbirão a negócios com grandes grupos financeiros para assim poderem saldar antigas dívidas, pagar salários, ganhar eleições? Até quando também a estas instituições não restará outra alternativa?
Até quando Portugal, embora sabendo que a sua solidez futura passa por outro caminho, continuirá a anuir, cabisbaixo, ao progresso enganador das superfícies comerciais que não trazem qualquer riqueza?
Até quando Portugal continuará a pensar a curto e a médio prazo, desprezando e troçando dos que se aventuram na tímida estratégia do futuro?
Até quando continuaremos a nossa guerrilha diária de velhas políticas ácidas e não unimos esforços pelas grandes causas das cidades e do país?
Até quando vamos ignorar de que o importante é o desenvolvimento sério, a cultura séria da nossa cidade, do nosso país e não as nossas crenças políticas e os nossos interesses pessoais?
Até quando os políticos deste país, e de resto os portugueses, vão continuar o seu comportamento de avestruz?

A ler, obrigatoriamente, a entrevista ao engenheiro Luís Valente de Oliveira publicada na última edição da revista "engenharia e vida", sob o título "descobrir o caminho terrestre para a internacionalização".
Algumas ideias fortes: "Portugal é um País desordenado mas gosta de o ser"; " ao contrário do que se disse, não tivemos Planos de Ordenamento por causa dos fundos comunitários, nós ameaçámos é que os fundos não seriam entregues para poder ter Planos". ; "(...) o mal não está nas obras (TGV e OTA) mas, sim,na falta de dinheiro e, por isso a prioridade é obter dinheiro. A urgência irá, não obstante, acontecer.(...)"; " Nunca existirão quatro ligações a Espanha. Porque ninguém se interessa pela ligação a Huelva, porque a ligação a Vigo não é feita por alta velocidade mas por velocidade elevada.(...)"
O melhor é mesmo ler a entrevista.

Esta questão levanta vários problemas. As expropriações feitas pelo Estado fascista tinham um pressuposto de utilidade pública que em muitos casos não se verificou. Num Estado de Direito aplicar-se-ia o princípio da reversão dos bens. Os expropriados, que foram centenas, foram vítimas da ditadura fascista como muito bem diziam os comunistas depois do 25 de Abril. Mais tarde foram vítimas da gestão municipal dos comunistas que sucessivamente inviabilizaram a devolução dos terrenos aos seus anteriores proprietários. Falo, é claro, dos terrenos que foram transferidos do GAS para as autarquias de Sines e Santiago do Cacém, mas sobretudo de Sines. Foram mais recentemente vítimas do défice público quando Manuela Ferreira Leite, do PSD, e agora recentemente Teixeira dos Santos, do PS, venderam terrenos que foram expropriados em 1970.
Sou favorável a que a totalidade dos terrenos que não tiveram utilidade pública sejam devolvidos aos seus anteriores proprietários e que no caso de a devolução ser impossível sejam pagas as competentes indemnizações. A ditadura fascista acabou no dia 25 de Abril de 1974.


 

Pedra do Homem, 2007



View My Stats