Existem parques e parques. Alguns deles, acompanham o tecido urbano no qual se inserem e disfrutam de uma presença constante na Grande e pequena Historia. França é um desses países onde “passar pelo jardim” é algo acessível a todos. Em cidades como Paris (mas não só), passar pelo jardim não significa exclusivamente ter uma vivenda com espaço. Em Paris vive-se a cidade.
O Jardim do Luxemburgo, em pleno coração da capital francesa, faz esse papel de pulmão urbano num dos bairros mais bonitos da cidade. Apesar da elegância incontestável do sixième, este não escapa às consequências de ser visitado por centenas de carros todas as manhãs. Mas o Luxembourg não se importa. Prefere exalar clorofila. Tão boa disposição só poderia culminar num bocadinho de natureza pronto a acolher quem quer estar calmo, fazer desporto, ou simplesmente ver os outros ( os que estão calmos ou os que fazem desporto). Sabemos que é algo inevitável, mas o Jardim do Luxemburgo é mais do que um simples parque.
O Luxemburgo não é apenas um parque graças ao Senado francês e à sua administração que o mantém como um autêntico museu ao ar livre. A fonte de Médicis, as estátuas e o jardim, assim como um conjunto de colméias deixam-nos com a sensação de viver um autêntico cliché Belle Epoque. O jardim é ainda palco para o Ténis, para as brincadeiras na areia, para os baloiços, o café e para as decisões politicas da nação! É berço de História. E o charme de outrora resiste ao tempo.
Fruto da nostalgia de Maria de Medicis, o Jardim sofreu das ânsias urbanísticas do arquitecto Haussman. A primeira desejara recreear o ambiente florentino dos Jardins de Boboni. Mais tarde, a reorganização urbanística da cidade impôs-se. O jardim botânico foi eliminado para permitir a abertura do Boulevard Saint Germain e da Rua Vaugirard ( uma das mais longas da cidade). Foi posteriormente local de acolhimento aos feridos da guerra do Rhin em 1870. Ao sabor dos caprichos do poder de cada época, o Jardim era mais ou menos acessível ao público. Os traços da ocupação nazi fizeram-se sentir no início do século passado, mas entre 19 e 25 de Agosto de 1944, as forças victoriosas eliminaram os traços da ocupação. As estatuas ficaram. Hemingway perseguiu pombos. Jean Paul e Simone conversaram. E os todos os outros continuam a conversar nos nossos dias.
Uma senhora delgada, vestida com uma fazenda cor terra carrega alguns jornais e faz-se acompanhar por um Basset Hound indiferente a tudo, apenas interessado no que o seu olfacto lhe permite investigar. O cão parece feito de um veludo negro, muito brilhante, que alguém se encarrega de tratar todos os dias. Dirige-se a senhora em direcção à porta principal, na qual podemos contemplar o Panteão. Sou abordado inesperadamente por uma energeticas passadas na areia grossa do parque. Dois jovens adultos, com os respectivos Ipods de serviço, queimam calorias antes de começar o dia. Apenas chegamos às nove horas da manhã. Ao longe, em diversas direcções e como abelhas, homens de negros fatos, malas ao punho, gravatas obrigatorias. Tão diferentes dos meninos do Jardim de Infância que, como uma bola de energia, quebram a atrmosfera de pássaros e plantas até então dominante. Um último detalhe relativamente ao Luxemburgo. Há uns dias perguntei a um polícia a que horas fecharia o Jardim. Repondeu-me: “Quando o sol se põe, jeunne homme. Quando o sol se põe.”
António Oliveira e Silva
Texto recebido por e-mail
O dia de ontem ficou marcado por duas notícias de sinal contrário. Pelo lado positivo a de que a refinaria de Monteiro de Barros não vai avançar. O Governo dera nos últimos dias sinais de que não iria cobrir as exigências cada vez maiores do empresário que, entretanto, vira partir o seu parceiro americano o que neste caso quer dizer grande parte do suporte financeiro do investimento. Pelo lado negativo a de que a GALP vai construir uma nova refinaria em Sines, junto à actual, num investimento da ordem dos três mil milhões de euros.
Ao longo dos últimos meses neste blogue escreveu-se muito sobre esta questão da nova refinaria. Juntaram-se argumentos que relevam da situação específica de quem vive no concelho de Sines e não pode dissociar aquilo que escreve do conhecimento da realidade da actuação das empresas ao longo de mais de duas décadas. Duas décadas nas quais a actuação de empresas como a GALP pode ser rigorosamente caracterizada por duas palavras: arrogância e omissão. Arrogância na forma como considera de somenos importância os problemas daqueles que protestam contra a actuação da empresa quer sejam cidadãos individuais, partidos ou autarcas.
Omissão na concretização da responsabilidade social da empresa que não se pode medir pelos subsídios extraordinários que dá à autarquia, um investimento com elevadas mais-valias para a empresa, mas pelo seu desempenho em termos ambientais e pelas preocupações que (não!!!) revela com a saúde das populações.
Omissão dos poderes públicos em particular dos ministérios do ambiente e da economia. Como muito bem sabe o primeiro-ministro, que por cá andou nos idos de 90, as empresas praticam uma política de arrastamento dos pés - a expressão é de Sócrates - no que se refere à realização dos necessários upgrades da sua perfomance ambiental e de segurança. ( Existe um problema grave de segurança, que se tem agudizado, em particular na refinaria da GALP, como foi recentemente denunciado numa tese de doutoramento do antropólogo Paulo Granjo). Não falo das caricatas declarações do presidente da Autarquia que, talvez por um tique ideológico, não perde oportunidade para anunciar os amanhãs que não cheiram, os amanhãs ambientalmente correctos.
Repito por isso aquilo que escrevi aqui, a propósito da ampliação da fábrica de Etileno:
"Neste cenário investimentos na área da indústria pesada em Sines devem ser objecto de uma moratória até que se verifiquem as seguintes situações:
a) Uma entidade credível - o que não é o caso do Instituto do Ambiente - avalie a situação da poluição atmosférica em Sines;
b) Seja feita uma avaliação das principais doenças que afectam a população e das principais causas de morte estabelecendo uma relação com o resto do país. Seja criada uma unidade a operar no âmbito do Hospital do Litoral Alentejano vocacionada para a prevenção e despistagem das doenças associadas à poluição atmosférica;
c) Seja emitida legislação que proiba as empresas industriais de financiarem as autarquias a menos que esses dinheiros sejam determinados pelo Estado no seu montante e objecto de uma cativação específica, por exemplo investimentos em infraestruturas de tratamento de efluentes, captaçãoe tratamento de água, acções de reflorestação, monitorização do estado do ambiente e educação e prevenção ambiental etc.
Na Europa morrem por ano 350 mil pessoas mais cedo do que seria normal por razões associadas à poluição atmosférica. Quantos morrem em Sines?"
Adenda: A posição do Secretário de Estado do Ambiente, Humberto Rosa, deve ser realçada. Alertou para as alterações nas codições do investimento e sobretudo para o reflexo dessas alterações em termos ambientais. Deve aproveitar este tempo de que agora dispõe para implementar um sistema d emonitorização que de uma vez por todas permita responder a duas questões: Quem polui e quanto?; Que problemas de saúde pública existem em Sines?
Talvez com resposta a estas questões a construção de uma nova unidade industrial em Sines possa ser uma questão consensual.

Não parecem imagens do Planeta Terra, mas na realidade são.
Trata-se do deserto do Atacama, o mais seco do mundo, situado no norte do Chile, onde os índices de pluviosidade se situam nos 2 mm por ano.
Quando vemos estas imagens, onde a ausência da presença humana é total, lembramo-nos por breves momentos de onde viemos.

Na próxima quinta-feira, pelas 19h00, Vicente Alves do Ó vai ao Centro de Artes de Sines para um duplo acontecimento: o lançamento do seu romance, "Kiss Me", e a estreia, in loco, da curta-metragem "Entre o Desejo e o Destino".
A entrada é livre e recomenda-se.
... mas com alguns dos mais ricos, entre nós. As previsões valem o que valem mas esta perspectiva de até 2050 nos tornarmos os mais pobres da União Europeia é para levar a sério. Aliás, estamos hoje a lançar os alicerces desse desempenho futuro. Solidamente empenhados nisso. O lema podia ser: consolidar o presente, preparar o futuro.
à volta da entrevista de Freitas do Amaral ao Expresso foi, em grande parte, alimentado pela escolha editorial da Manchete feita pelo Semanário. Lida a entrevista conclui-se aquilo que já se sabia: Freitas do Amaral não ficaria particularmente chocado se fosse remodelado numa futura iniciativa do primeiro-ministro. Alega cansaço e confessa mesmo que aquilo que já fez na política lhe chega. Percebe-se que as suas expectativas, frustadas, de ser o candidato do centro-esquerda às eleiçôes presidenciais, deixaram marcas que nem o tempo apagará. Tomar estas declarações como base para iniciativas políticas ao nível parlamentar e exigências da demissão do ministro releva da baixeza a que chegou a actividade política no nosso país.
Há uma declaração política de Freitas que merece relevo e que tem a ver com a constatação da falência da direita na promoção de "uma política social de combate à pobreza e às desigualdades" em parte motivada pelas "suas ligações umbilicais aos grandes interesses económicos. Esses partidos vivem financeiramente dos contributos dos grandes interesses económicos".
É por esta razão que Freitas explica o seu afastamento do centro-direita e a sua aproximação ao centro-esquerda.
O problema, para todos nós, é o facto de em grande parte pelas mesmas razões o ministro poder começar a preparar o seu afastamento do centro-esquerda.
Meu caro JCG, podemos trazer à discussão para qualquer que seja o tema um sem número de formas de olhar. Uma das questões de fundo da pobreza é a que tão bem abordaste e com a qual concordo. No entanto, podemos reflectir sobre questões laterais, como seja o do comportamento das pessoas face a este tipo de iniciativas. O que quis dizer é que parece estar enraizado uma atitude de resignação face ao problema da pobreza. Como se o aceitássemos parte de um todo, sem qualquer atitude de indignação ou esperança de um dia ele ser irradicado de uma sociedade que vive cada vez mais uma falsa abundância. E a escolha dos produtos que as pessoas fazem demonstra isso mesmo: a resignação e o desprezo. Escolhem o de mais baixa qualidade para aqueles que não crêem possam vir a alterar as suas condições de vida. Esquecem-se que vivemos numa sociedade de falsas riquezas, caracterizada por uma assustadora transitoriedade onde muitos de nós podemos passar de uma situação apararentemente confortável para outra de pobreza. Hoje são muitos os rostos da pobreza e têm se vindo a alterar cada vez mais.
Minha cara Maria José, essa não é a questão. A questão é o facto de estarmos a construir uma sociedade em que, cada vez mais, são necessárias instituições como o "Banco Alimentar contra a Fome". Uma sociedade que por força de uma distribuição - apropriação melhor dizendo - selvagem da riqueza produzida, gera um número chocante de pobres. Uma situação sem paralelo na União Europeia.
Podemos colocar alguns produtos melhorzitos nos sacos dos pobres, mas aquilo que verdadeiramente faz falta é colocarmos mais justiça social, mais igualdade, mais respeito pelos valores humanos, neste país tão desigual e tão cínico que, injusto todo o ano, se redime com umas comprazitas no saco dos pobres e umas idas regulares às missas e aos confessionários para lavar a alma negra da gentes.
O Belenenses desceu de divisão. Um castigo muito pesado para os pastéis de Belém. Talvez castigo divino por pretenderem demolir o mais belo estádio de futebol do mundo.
Claro que os dois treinadores ajudaram em muito. Os seus nomes devem ser recordados: Carlos Carvalhal e José Couceiro.
E o Benfica? Deu uma grande ajuda, ontem, na Mata Real. O Paços marcou golos que devem ter provocado sonoras gargalhadas em Mr. Koeman. Aliás, o Paços conseguiu o milagre de conquistar seis pontos em Braga e com o Benfica em casa. Não há Belém que resista.
Bruxelas revê em baixa as expectativas de crescimento da economia portuguesa para os próximos anos. Há optimismo a mais nas projecções do lado português, dizem. Saberão, em Bruxelas, quem é o primeiro-ministro de Portugal?
Na realidade o que Bruxelas diz não é notícia. Sê-lo-á quando rever em alta algo que se relacione com este país. Entretanto decorrem os dias na mais pura normalidade.
Durante o dia de hoje esteve a decorrer em alguns pontos do país uma recolha de alimentos para o Banco Alimentar contra a Fome. Quando entrei no supermercado aceitei o saco que os voluntários desta instituição entregavam a quem se disponibilizava participar na iniciativa. Pelo que pude verificar foram muitas as pessoas que o fizeram.
Porém, o que pude também constatar é que as pessoas, mesmo as que demonstram algum poder financeiro, tendem a participar com os produtos mais baratos que encontram. Parece que está enraizado que aos pobres cabe sempre a pior fatia. Se as pessoas não compram muitos daqueles produtos para elas, porque os compram para os outros? E porque se tende a comprar sempre a mesma coisa? Será que as famílias alvo destas ajudas não gostariam de por vezes receber um produto ou um sabor diferente?
mercados voltam a estar apreensivos com nova escalada nos preços
Posted by Duarte at 5/06/2006 02:15:00 da tardeA cereja já está a € 9,98/kg.
O facto de a nova refinaria não ser construída pode e deve ser aproveitado como uma oportunidade para Sines. Uma oportunidade para, através de um conjunto de intervenções políticas, qualificar o desenvolvimento do concelho e reforçar o seu papel no desenvolvimento económico do país. A condição sine qua nom para possibilitar esse reforço é a ultrapassagem de forma inequívoca do constrangimento ambiental. Explicando: o parque industrial existente, com destaque para a Petrogal e para a Central Térmica, mas não só, é fortemente poluente, muito para lá do que a capacidade técnica disponível permitiria. A poluição ambiental já existente impede a fixação de empresas e a criação de novos postos de trabalho. Sobretudo empresas das áreas ligadas ao conhecimento e à prestação de serviços avançados. Por outro lado a degradação da qualidade ambiental estimula o abandono do concelho por parte daqueles que pela sua qualificação possuem mobilidade e não querem suportar o ónus ambiental.Importa, pois, colocar as empresas a produzirem no limite do melhor desempenho ambiental possibilitado pelos conhecimentos técnicos. Os lucros faraónicos obtidos nos últimos anos possibilitam os investimentos necessários sem comprometer o desempenho empresarial.
Por outro lado os cerca de 800 milhões de euros que o Governo ia canalizar para a nova refinaria podem ser canalizados quer para ajudar a esse esforço de qualificação ambiental das empresas, quer para apoiar iniciativas credíveis de criação de emprego qualificado através, por exemplo, do estímulo à fixação de uma rede de PME´s. As empresas da plataforma industrial de Sines, são de capital intensivo e criam um número muito pequeno de postos de trabalho por unidade de capital investido.
Os terrenos da PGS, cujo preço de aluguer é absolutamente irrealista, funcionam como um travão ao investimento e à fixação de novas empresas. Importa que o Governo altere esta situação de todo em todo inadmissível.
O concelho de Sines, com a sua área portuária industrial, tem que criar uma marca que associe qualidade de vida e desenvolvimento económico. Uma marca que associe e compatibilize investimento industrial com qualidade ambiental e qualidade de vida. Para isso tem, além do que já se referiu, que implementar um sistema de monitorização do ambiente integrado com um sistema de monitorização da saúde das populações.
Fácil e barato. Capaz de atrair empresas, gerar postos de trabalho e respeitar o direito constitucional dos cidadãos a viverem num ambiente equilibrado e à saúde.
Adenda: parte-se do príncipio que a nova refinaria não vem para Sines. Isto com base nas divisões, anunciadas hoje, no núcleo de investidores original e no que se sabe sobre as últimas exigências desses mesmos investidores. No entanto não é claro, para mim, que o assunto esteja encerrado.
Quanto às propostas aqui apresentadas podem ser utilizadas por quem quiser, mesmo como sendo originais. Nesta questão não pretendo reclamar direitos de autoria.
Saber ler os sinais é importante. E pouca gente o tem sabido fazer nos últimos tempos. As recentes notícias cruzadas sobre o aumento das pensões milionárias (cf. jornais sensacionalistas) e sobre as medidas restritivas que o Governo prepara para a aposentação têm gerado alguma desconfiança que não tem razão de ser. Uma análise cuidada - coisa rara, nestes dias - mostraria facilmente que estamos perante a simplificação e desburocratização da segurança social portuguesa. Assim, e para que todos os portugueses percebam o sistema, o Governo não fez mais do que o equiparar aos habituais regimes de férias da nação: uns vão com tudo incluído, outros só com alojamento e pequeno-almoço.

Mandarin Oriental Hyde Park, Londres
Quem não gostaria de passar uma noite no Mandarin Oriental Hyde Park em Londres? Este é apenas um dos hotéis de luxo de entre umas duas dezenas que esta cidade tem para oferecer. O interior deste tipo de hotéis é talvez tão luxuriante quanto o exterior onde cada detalhe é pensado ao pormenor. No luxo é assim, há uma encenação para que o cliente habite um mundo de perfeição e exclusividade. Aos detentores de fabulosas fortunas o mundo oferece lugares criados com minúcia e excelência para que sintam o seu dinheiro sempre por perto, para que se sintam permanentemente protegidos. Imagino que a vivência por esses lugares seja tão natural como a que os pobres ou os menos abastados têm noutros sítios. É tudo uma questão de hábito. O dinheiro acaba por definir o mundo e a realidade de cada um de nós. Por mais que imaginemos nunca sabemos o que são as outras realidades: tal como não sabemos o que é a miséria e a noite nos labirintos mais pobres da cidade, também desconhecemos o que é o esplendor do luxo numa moradia bilionária. Apesar de vivermos num mundo aparentemente mais próximo, sabemos muito menos uns dos outros do que imaginamos. Na realidade, só sabemos o que se vivemos.
Só que existem momentos em que essas duas realidades se cruzam. E na grande maioria dos casos a riqueza torna-se obscena. Oscar Niemeyer tinha razão quando dizia "No mundo de hoje ser-se rico é uma vergonha".
pretende "fixar-se" no Douro. É esta a região preferida pelo empresário português para construir a eventual central nuclear. Trata-se, como se sabe, de uma região com uma actividade turística em franca expansão e que está associada à vitivinicultura em particular ao vinho do Porto. No futuro caso a ideia do nuclear fosse aprovada e esta bizarra localização escolhida o ICEP teria fortes motivos para reforçar a marca Douro. Um vinho do Porto nuclear ou uma visitinha guiada à central nuclear valorizariam qualquer roteiro turístico.
Adenda: relativamente a esta questão do nuclear a posição mais bizarra é a dos que acham que a alteração - subida - dos preços do petróleo justifica o regresso ao tema. Os argumentos, largamente expendidos, sobre as questões da segurança,a milhares de anos, sobre as insuficiências da tecnologia ou sobre as questões do preço dessa forma d e energia não os demove. Como não os demove o facto de o nuclear só poder ser utilizado para a produção de energia eléctrica, enquanto 90% do petróleo que consumimos serve para abastecer os nossos automóveis.
Por essa razão um conhecido autor comentava a aposta francesa no nuclear afirmando que em caso de falência das energias fósseis, em particular do petróleo, os franceses seriam os últimos a apagar... a luz.
não exportará a totalidade da produção. Exportará apenas 50%. Não emitirá 2,5 milhões de toneladas/ano de CO2. Emitirá 7 milhões de toneladas de CO2. Não consumirá 800 milhões de euros de fundos públicos. Consumirá 1200 milhões de euros.
Alguém sabe porque razão este projecto não foi já liminarmente recusado?
absolutamente a não perder "Colbert roasting Bush" aqui. Como este link já não está disponível oferecemos outro. Mais informações na Bloguítica.
"A administração a que preside George Bush destruiu a ponte de diálogo cultural, intelectual e literário que unia os Estados Unidos da América com o resto do mundo".
Salman Rushdie, escritor inglês de origem indiana

Está patente ao público a exposição de vacas mais famosa do planeta. O local escolhido para a CowParade ou Vach’arte em francês foi, nada mais nada menos, do que as ruas da cidade de Paris. Nada de novo para os mais cosmopolitas, uma vez que esta festa bovina já esteve presente em cidades como Kansas City (2001) Dublin (2003) ou Genebra (2005), esperando ainda marcar presença proximamente em cidades como Lisboa, Edimburgo ou Minas Gerais.
Tudo começou em 1999 nos Estados Unidos, quando cidades como Nova Iorque e Chicago acolheram a primeira exposição do considerado nos nossos dias como o maior evento de arte de rua do mundo. O sucesso inicial levou os organizadores do envento a cruzar o Atlântico e a exposição decorou as ruas de Londres. Segundo o organizador da parada, Peter Hanig, a arte serve para quebrar barreiras e para fazer as pessoas pensar, reagir. Talvez seja por isso que a filosofia da CowParade implica a acessibilidade das peças que a compõem. O público é convidado a misturar esse momento tão sacralizado como o de apreciar uma obra de arte sem deixar de viver o quotidiano das grandes urbes. Uma arte comprometida cujas peças são posteriormente leiloadas, revertendo os lucros das vendas a favor de orgzanizações tão diversas como a Choc, organização de luta contra o cancro infantil na Africa do Sul ou o Comité Romeno para os Jogos Paralímpicos, consoante o leilão realizado em cada cidade.
Paris recebe as vacas com os olhares dos seus habitantes, mas também de turistas vindos de todo mundo, ou não fosse esta uma das cidades mais visitadas do planeta. Elas estão por todo o centro, desde a porta da Igreja de Saint Germain des Près, à mais antiga da aglomeração, até à rotunda dos Campos Elísios, passando pela Praça da Bastilha.
As grandes estrelas, as vacas, denominam-se de formas tao originais como a Porsche Cowrrera presente em Harrisburg, na Pensilvania. Um Muu-seu de rua num pasto globalizado! Se quiser conhecer as vacas que estiveram de paradas anteriores, visite o site http://www.cowparade.com/. E já agora, porque não participar no envento de Lisboa?
António Oliveira e Silva
texto recebido via e-mail
Os políticos de Sines serão capazes de dizer Sim a mais uma Refinaria
Posted by MJB at 5/03/2006 12:10:00 da manhã
para o concelho e por conseguinte para o Litoral Alentejano?
Veremos os seus movimentos e que maturidade política demonstram ao para trazer o problema para a opinião pública. Veremos afinal o que os representantes de todos os partidos políticos querem para este Litoral. Veremos os seus projectos e o respeito que manifestam pelo espaço, a saúde e a paisagem de todos nós.
A gravidade da intenção de vir para Sines mais uma refinaria, levou-me a assistir à Assembleia Municipal no passado dia 28 de Abril, por cerca de uma hora.
Não por indiferença, mas por desilusão na actuação política de uma maneira geral, fez com que me fosse afastando cada vez mais das leituras sobre essas temáticas nos jornais diários ou de assistir a este tipo de momentos, o de uma Assembleia Municipal na cidade onde vivo.
Fiquei mais uma vez desiludida. Dos eleitos que se manifestaram, com a excepção do Presidente da Assembleia Municipal e do que depreendi de uma breve intervenção do deputado Rui Penas, o que ouvi foram generalidades de quem não sabe ou não pensou seriamente sobre o assunto ou de quem não quer ter os dissabores inerentes à ousadia de ter "uma opinião própria na política".
E é precisamente esta forma sempre igual de se fazer uma política sem ideias, sem frontalidade, sem ideais, que afastam os cidadãos dos centros de debate e os tornam inertes perante as sinuosas manobras do poder. Converso com as pessoas e é isto que me dizem: não sabem como intervir, não acreditam na voz da cidadania e não crêem que os políticos que elegeram estejam seriamente empenhados em defender o seu presente e o seu futuro.
Como é que o que foi criado para unir e melhorar a vida dos homens, possa ser cada vez mais o que os afasta e silencia a multiplicidade de opiniões? Como é que se aceita a responsabilidade de representar os cidadãos e se demonstra tamanha ligeireza perante problemas tão sérios? Que mentes são estas, que pais é este cujos representantes acreditam que o desenvolvimento e o progresso é apenas igual à mera criação de postos de trabalho. Quando é que os intelectos políticos são capazes de ir mais longe? Quando é que se tem a coragem de pensar a médio e especialmente a longo prazo? Quando é que se tem a ousadia de ver os vários primas dos problemas e não embarcar na mais fácil, na mais apetecível e imediata das soluções? Quando é que os politícos percebem que se lhes pede coisa séria: o Futuro? Quando é que no Portugal de hoje mesmo o que pensa ser o grão de areia, tem coragem para dizer não? Será que algum dia vamos conseguir responder "Agora" a algumas destas questões e trazer a este pais o tão aguardado desígnio?
Exmo. Senhor Prof. António Carmona Rodrigues
Presidente da Câmara Municipal de Lisboa
Exmo. Senhor.
Como V. Exa. deverá já ter conhecimento, uma menina de 8 anos, de nome Rafaela, foi ontem atropelada mortalmente quando atravessava a Av. de Ceuta, numa passadeira.
Lamentavelmente, esta tragédia não é, nem para nós nem para V. Exa., nem para a maior parte dos lisboetas, surpreendente.Esta era uma morte temida, mas esperada.
Dir-se-á: o motorista de táxi deveria ter circulado com precaução.
Dir-se-á: é necessário colocar ali radares de controlo da velocidade e criar medidas de acalmia de tráfego.
Perguntamos nós: quem foram os políticos e os técnicos da autarquia de Lisboa responsáveis pela construção de duas urbanizações gémeas cortadas por uma via rápida com mais de 30 metros de largura?
E perguntamos nós ainda: será que os políticos e técnicos hoje responsáveis pela gestão do trânsito da cidade dormiram tranquilamente até hoje, sem ter resolvido urgentemente a situação de absoluta insegurança dos peões que atravessam a Av. Ceuta?É que não era necessário proceder a estudos de identificação de pontos negros. Os moradores da zona já tinham diversas vezes alertado a CML para o perigo daquela travessia.
A ACA-M, na sua campanha “Vamos acabar com os pontos negros”, já tinha enviado requerimentos à CML, pedindo a resolução do problema.É terrível constatar que as autoridades só costumam agir sobre os pontos negros que criam depois de alguém neles falecer e de a comunidade exprimir a sua comoção. Não deveria ser esta a postura dos políticos ou dos técnicos face aos cidadãos que se comprometeram servir.Mas mais inaceitável é mesmo não agir imediatamente sobre uma situação de risco, para prevenir novas tragédias.Por isso, quando faleceram duas jovens na Av. 24 de Julho, em Novembro passado, a ACA-M veio pedir celeridade na resolução de um problema criado pela autarquia, ao licenciar bares de divertimento nocturno nas bermas de uma via rápida.Por isso, vimos hoje pedir assunção de responsabilidades, celeridade na busca de medidas provisórias e coerência na elaboração de medidas definitivas para a resolução do ponto negro que é a travessia entre os Bairros do Cabrinha e do Loureiro.
Neste sentido, vimos convidar V. Exa. a deslocar-se connosco à Av. Ceuta para a atravessar – como peão – na passadeira fatídica, no dia 4 de Maio, às 11 horas, para ficar a conhecer o conjunto de propostas de acalmia de tráfego que pretendemos apresentar nesse dia, numa conferência de imprensa que iremos convocar para o local, e para depositar connosco uma coroa de flores nas imediações do local da tragédia.
Confiantes que V. Exa. será sensível à bondade deste convite, solicitamos que nos contacte, para o 919258585, para informar da sua decisão de o aceitar, ou não.Com os melhores cumprimentos
Manuel João Ramos
Direcção da ACA-M- Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados. Av. 5 Outubro, 142, 1º Dtº
1050-062 LisboaPORTUGAL
Tel.( +351)217801997Fax: (+351)217801998Mobile: (+351)919258585
aca-m@aca-m.org;www.aca-m.org;www.estradaviva@org;www.sobreviventes.org
Member of the European Federation of Road Victims - www.fevr.org
O Público de hoje revela que, em declarações à Rádio Renascença, Manuel Coelho, Presidente da Câmara de Sines, mostra preocupação com o eventual fracasso da construção da nova refinaria no concelho. Manuel Coelho mostra igualmente desagrado pelo facto de não ser recebido pelos ministros a quem solicitou diversas audiências.
Manuel Coelho não entende que o seu papel neste processo foi concluído com a emissão de parecer favorável à localização, pela autarquia. Resta-lhe agora esperar pela altura de receber as Taxas Municipais de Urbanização(TMU), os mais de 2,5 milhões de contos, pelos quais tanto suspira.
Fazemos, no entanto, uma antevisão daquilo que seria a conversa de Manuel Coelho com cada um dos ministros.
Com o ministro do Ambiente.
Manuel Coelho (MC). Ó snr. ministro mas então que história é esta das emissões. O snr. acha que o futuro do concelho pode ser condicionado por essas emissões. Nós queremos desenvolvimento, snr. ministro.
Nunes Correia(NC). Ó snr. Presidente, não são assim umas emissões insignificantes. São seis milhões de toneladas de CO2. Ainda fico conhecido como o ministro mais inimigo do ambiente da democracia. Qualquer dia tenho pichagens no ministério a dizer "Nunes Correia, ministro negro do ambiente". E o Patrick está-nos a apertar, quer que seja a gente a pagar a massa toda. Já viu como é que isso é possível com o défice neste estado?
MC. Mas o que é isso do CO2? Fale-me das TMU, snr ministro.Isso é que importa. Se não vier a refinaria queremos ser indemnizados. Ficamos sem futuro. Sem desenvolvimento.
NC. Ó snr. presidente, o snr é pior do que o meu colega da Economia que não me deixa em paz. Até me ligou para casa no primeiro de Maio, veja lá, no dia do trabalhador. Diz que não quer saber nada das emissões. Quer o investimento e pronto.
MC. ó snr. ministro, mas quais emissões, santo homem? Daqui a seis meses não há mais emissões. Dou-lhe a minha palavra de honra. Está tudo tratado. As empresas vão passar a emitir apenas oxigénio com diferentes fragâncias entre o alfazema e o rosmaninho que tem muitos apreciadores na zona. Temos uns peritos a tratar de tudo. São colegas seus da Universidade. Uns crânios.
Conversa com o ministro da Economia.
M.C. Ó Pinho, então que porra é esta? A TMU, aliás a refinaria, vem ou não? Que maluquice é esta das emissões?
Manuel Pinho (M.P.). Ó Manel, desculpa lá o atraso nesta conversa. Não merecias isto pá. Tens sido um grande amigo do Governo e do desenvolvimento do país. O Sócrates está farto de dizer que tem que ter uma atenção contigo. Ve lá se tiveres mais qualquer coisa para inaugurar podes contar com ele.
MC. Mas inaugurar o quê? Sem a TMU inauguro o quê, santo Deus. Mas olha lá não pões na ordem o teu colega do ambiente? Que porra é essa do CO2?
MP. E achas que eu sei? Eu quero é investimento, que é aquilo de que o País precisa para diminuir o défice em 2009 e ter o Sócrates mais quatro anos como primeiro ministro e eu como ministro da Economia. E tu Manel quando é que te reformas?
MC. Que é que isso interessa? A TMU, aliás a refinaria, vem ou não? Olha lá já que aumentaram as emissões não podias aumentar os postos de trabalho?
MP. Mas ó homem isso fizemos logo no principio, pá. Aumentámos de 350 para oitocentos.
MC. Pois é. O Guterres fez o mesmo com o Terminal XXI e o Terminal de Gás Natural. São sempre os mesmos oitocentos postos de trabalho.Mas olha a malta aceita muito bem. É qualquer coisa de mágico que o número tem. Só os gajos da cabalística e da psicologia de massas é que podem explicar isto.
MP. Mas tem calma Manel. O Sócrates está determinado. Temos que ter confiança. Muita confiança. Havemos de arranjar maneira de responder positivamente às legitimas preocupações do Patrick. A propósito acho que ele está muito impressionado contigo. Disse-me que se não tivesse visto, não acreditava que existissem comunistas assim, como tu. Mas olha se o Sócrates abrir os cordões à bolsa tens que falar com o Jerónimo não vá ele começar a dizer que o Estado rouba aos pobres para dar aos ricos.
MC. Está descansado. Ele é a favor. Desde que não sejam investimentos beduínos ele apoia. Não te lembras do debate com o Cavaco? Aquela coisa dos cheiros e das emissões ele não liga.Tem sinusite crónica.
MP. Muito bem. Estamos na luta. Isto resolve-se. Ainda havemos de regar a primeira pedra da nova refinaria.
MC. Olha lá, achas que devo falar com o ministro da saúde?
MP. Não vale a pena. Não se vão realizar estudos nessa zona. Mas vamos anunciar para o futuro. Para 2020, depois da tua reforma e da minha. Olha o Sócrates ficou muito sensibilizado com aquela tua iniciativa de realizares uma monitorização do ambiente. Grande ideia. Como é que tu ias fazer aquilo?
MC. Não sei pá. Eu já não percebo nada disto.
A construção da Refinaria em Sines é muito importante para o Governo de Sócrates. Permitirá, ao que se diz, aumentar o PIB em cerca de 3% e apresentar um défice aceitável em 2009, a tempo da reeleição. As outras questões - ambiente, saúde dos cidadãos, segurança face a ataques terroristas etc - que se lixem, pois não fazem baixar o PIB.
O problema é que Patrick Monteiro de Barros é que tem o dinheiro para investir e quer cada vez mais massa para fazer a refinaria. Incialmente falou-se em 800 milhões de euros de fundos públicos - com valores desta natureza é obsceno falar de investimento privado - mas, face aos níveis de emissões, que já triplicaram desde o anúncio do projecto, o capitalista quer que seja o Governo, isto é todos nós, a suportar os custos de tão grande descontrolo de emissões. Mais de 300 milhões de euros nos primeiros três anos.
Há muito pouca vergonha nestes processos. Aposto uma coisa: Sócrates vai ultrapassar todas as dificuldades e selar este investimento, abrindo os cordões à bolsa.
Só a população de Sines os pode parar.
Morreu ontem com 98 anos um dos mais importantes economistas do último século. Um economista que falava de forma clara e simples sobre as questões mais complexas da economia. No Público, um trabalho - disponível on line só com subscrição - da jornalista Eunice Lourenço traça um perfil do mestre canadiano/americano. Galbraith defendeu sempre a "intervenção governamental na economia para resolver os problemas sociais e rejeitou a ideia de que as decisões de produção se baseiam na procura dos consumidores. Pelo contrário dizia que são os produtores que manipulam os consumidores para lhes imporem certos produtos e serviços de que não precisam. Esa cultura de consumo pode ser rica em bens, mas pobre em serviços sociais e de interesse público".
No seu livro mais famoso, a Sociedade da Abundância(*), escreveu a dado passo: "Se se é rico ou até próspero e com amor-próprio, qualquer doutrina que torne os serviços públicos ( e portanto os impostos) não económicos, politicamente regressivos e possivelmente imorais, está sujeita a parecer benigna. Qualquer coisa que seja de tanta conveniência deve ser correcta. Mas embora não se precisasse da prova, a exegese era bem vinda e por isso havia considerável procura de profectas do mercado. Estes tornaram-se rapidamente disponíveis, e nos anos seguintes à segunda guerra mundial, clubes de serviços, convenções de vendas e até clubes de senhoras suburbanos ouviam atentos o evangelho revelado por John Stuart Mill, Herbert Spencer, William Graham Summer, Friedrich Von Hayek e Ludwig Von Mises".
(*) - John Kenneth Galbraith. A Sociedade da Abundância. Publicações Europa-América. 1976
Refinaria de Sines : as diferentes posições ao nível local
Posted by JCG at 4/30/2006 05:35:00 da tardeQuem tem seguido com alguma distância as referências feitas à eventual construção de uma nova refinaria em Sines pensará que ao nível local existe unanimidade na aprovação do projecto. Esse entendimento resulta sobretudo das declarações, de indisfarçável apoio ao projecto, do autarca comunista Manuel Coelho. Para reforçar o seu posicionamento avançou mais alguns capítulos da sua famosa tese sobre a "Excelência ambiental do concelho já daqui a ... seis meses". Resulta igualmente da ausência de qualquer posicionamento da oposição, se não considerarmos o silêncio e a omissão um claro posicionamento. Mas a situação não é bem esta.
De facto, como ficou bem claro na sessão da AM realizada na passada sexta-feira, dentro da CDU existe um sector que se opõe ao projecto e que discorda frontalmente da actuação do Presidente da autarquia. O que assume particular significado político é que o Presidente da AM lidera, claramente, o sector dos que se opõem e assumiu a responsabilidade de levar a questão à população. Desde logo essa situação obrigou o presidente da Câmara a moderar o seu apoio ao projecto e aos 2,5 milhões de contos de Taxas Municipais de Urbanização que espera receber.
Ficará nesse exacto momento, o da discussão pública da questão, nas mãos da população o tipo de atitude a tomar. Caso a resposta seja a indiferença e o conformismo não adiantará que alguns assumam o desafio de contestar projectos como os que ameaçam o futuro do concelho.
Uma certeza alguns de nós temos: bastarão dez anos para que se cumpra o desiderato salazarista de acabar com Sines como um lugar habitável, um concelho onde se possa viver.
Sócrates, Pinho e os coveiros locais ficarão com o seu nome associado a essa realização.
... merecem destaque, ainda que atrasado, pelo que fizeram no 25 de Abril. Falo de Manuel Moreira, presidente da Câmara de Marco de Canavezes, e de Moita Flores, presidente da Câmara de Santarém.
O primeiro fez com que as comemorações do 25 de Abril voltassem ao Marco depois dos 22 anos de reinado de Avelino Ferreira Torres. O segundo recuperou de uns obscuros armazéns municipais a estátua de Salgueiro Maia -figura maior do concelho, importante capitão de Abril - que um, não menos obscuro, presidente socialista que o antecedeu para aí tinha atirado. Com alguns euros Moita Flores arranjou uma praça e dignificou-a e à cidade de Santarém aí colocando a estátua desse homem tão notável.
Em qualquer dos casos são pequenos grandes gestos que, pelo seu simbolismo, justificam uma eleição.
O Público de hoje traz um trabalho sobre a exclusão e a inclusão social. Parte desse trabalho inclui uma entrevista com Isabel Jonet a responsável máxima do Banco Alimentar contra a Fome. Em primeiro lugar convém dizer que a acção da senhora é a todos os títulos notável. Isso no entanto não a "livra" de poder ser criticada quando vem a público teorizar sobre a matéria.
Ora a teoria que a senhora defende parte do pressuposto de que a desigualdade na distribuição do rendimento não significa mais pobreza. Por outro lado a senhora julga que só o desenvolvimento económico pode ajudar a combater a pobreza, afirmação susceptível de merecer a unanimidade nacional, para não ir mais longe. O problema é que, atendendo à primeira afirmação, a senhora associa desenvolvimento à acumulação privada da riqueza, preferencialmente em poucas, mas generosas, mãos.
Que pobreza.
A refinaria que Monteiro de Barros quer construir em Sines irá emitir 6 milhões de toneladas de CO2, e não 2,5 milhões como anunciado, revela hoje o Público, com chamada à primeira página. O secretário deEstado do Ambiente revela que esta valor é dificil de cobrir com licenças gratuitas de emissões.
Segundo a Quercus estas emissões custarão - entre 2010 e 2012 - 300 milhões de euros.
Um Estado tão generoso com alguns dos investidores nunca foi capaz de gastar um cêntimo a criar as condições para que em Sines as empresas -tipo Petrogal - respeitem o ambiente e a saúde dos cidadãos. Exigindo às empresas mudanças e a modernização dos procedimentos industriais.
Temos um Estado ladrão no sentido em que rouba a todos para dar aos ricos. Quem nos dera que tivessemos um Estado do tipo Robin dos Bosques - ou se não puder ser tão bom um Estado socialista - capaz de retirar uma pequena parte aos poderosos para melhorar a vida de todos nós.
A reunião de ontem da Assembleia Municipal de Sines justifica esta adenda. Para fazer duas coisas:
-Em primeiro lugar para louvar a iniciativa do Presidente da Assembleia Municipal de Sines, Francisco do Ó Pacheco, eleito pela CDU, que introduziu o tema na agenda da reunião para obrigar a Câmara a prestar informação aos deputados e à população sobre o avanço do processo. Para o elogiar por ter decidido convocar uma reunião da Assembleia, com carácter de urgente, para discutir com a população esta questão. Muito bem.
- Em segundo lugar para denunciar a posição da Câmara e do seu Presidente, que já emitiu parcer favorável à localização da nova refinaria, como foi denunciado pelo Presidente da AM na sessão de ontem. Com a desculpa de que o PDM a isso obrigava o que, de todo em todo, não é verdade. O PDM de Sines na sua orientação estratégica, definida na década de oitenta, e até hoje não revista, recusava a aposta na continuação da instalação de indústria pesada, sobretudo associada aos sectores da refinação e ao sector petroquímico. O ónus ambiental, e de saúde, que as populações suportam desde o final da década de oitenta legitimam a tomada de posições, mesmo as mais radicais, contra esta nova intervenção "estruturante" este PIN à moda de sua excelência o ministro Pinho.
Aquilo que está em causa é demasiado importante para o futuro de Sines para poder ser decidido no silêncio dos gabinetes, com contrapartidas económicas a toldarem o espírito daqueles que foram eleitos para defenderem as populações e que se esquecem logo que ouvem o tilintar das moedas.
Vai ter lugar, esta noite, uma reunião ordinária da Assembleia Municipal de Sines. A ordem de trabalhos tem 13 pontos entre os quais se inclui a discussão da Conta de Gerência de 2005 - ponto 3 da OT - e a contracção de um empréstimo de médio longo prazo- ponto 4 da OT. O oitavo ponto da reunião é o seguinte : " Apreciação sobre a instalação da refinaria Patrick Monteiro de Barros".
Como se percebe este assunto é apenas mais um. O oitavo, por ordem de importância para o futuro do concelho, insusceptível de justificar uma reunião exclusiva da Assembleia Municipal. Se algum cidadão se deslocar à AM terá que esperar horas e horas até que este assunto seja discutido. Quem marcou a reunião espera que desistam todos antes disso aocntecer.
A democracia no seu esplendorcomo diria Jerónimo de Sousa.
Uma questão de pormenor. A AM tem ou não poder vinculativo no que se refere à localização da nova refinaria? Isto é, se a AM recusar a localização da nova refinaria ela pode ser construída? O que quer dizer "Apreciação"?
Defendo desde que esta decisão lamentável de Sócrates-Pinho e Pactrick ( com um lugarzito pequenino para o Coelho, assim a modos do Durão na cimeira das Lajes, passe o exagero) foi conhecida, que os actuais orgãos do concelho não têm qualquer legitimidade política para decidir nesta matéria, já que ela não constava dos programas votados pela população em Outubro de 2005. Além de se tratar de um assunto demasiado sério para ser decidido por quem não exita em trocar a saúde e o bem estar das populações pelos suculentos 20 milhões de euros de Taxas Municipais de Urbanização que a Refinaria vai gerar.Defendo que seja o povo a decidir nesta matéria pela via de um referendo.
Uma das formas de observar a maturidade política de um pais é ter em conta a maneira como se organiza o seu espaço.
Quando vamos ao norte da Europa, damos por nós a dizer: “Que organizados são estes tipos!”. Se formos francos, até os nossos vizinhos ( poupo o inventário de semelhanças e diferenças) conseguiram chegar ao “nível da União”. Madrid ou Barcelona mostram que somos capazes (os do Sul) de fazer tão bem como eles. Mas também as cidades médias espanholas entraram na corrida: Salamanca, Valladolid ou Sanitago de Compostela. Seria, claro, demasiado pessimista afirmar que só Portugal ficou para trás na realização de projectos de ordenamento regional e urbano. Lisboa, Porto e muitas cidades do Norte apresentam um corte urbanístico agradável, valha-nos a capacidade quase olímpica de algumas instituiçoes regionais conseguirem conjugar o tradicional com os” mamarrachos” dos anos eufóricos do "desenvolvimento urbano português". Assim, embora Estarreja não seja das cidades pequenas a mais bonita de Portugal, tem uma praça “limpa”. Aveiro e Braga progressam, cidades como Guimarães, Miranda do Douro ou Estremoz parecem estar no bom caminho. Estas observações desprendem-se completamente de todo e qualquer juizo oficial, pois fazem parte da opinião de quem visita ou visitou recentemente estas cidades.
Ainda que leigo no assunto, posso questionar o que a este nível se passa em Sines. Senão vejamos: no ano de 2004, a população do concelho tinha pouco mais de 13.600 habitantes. Por outras palavras, “a terra é pequena”. Sines dispõe, de uma óptima posição face ao mar e todas as vantagens que daí advêm. Um clima agradável. Ao ler estas linhas, qualquer um que tenha estado em Sines entende que falamos de lugares comuns. Da mesma forma, qualquer um pode colocar questões. Por exemplo: Se a Avenida Vasco da Gama conferiu à faixa litoral da cidade um ar mais agradável, porque não fazer o mesmo no chamado centro histórico? Ou porque não nas principais artérias da ex-vila? Ainda que possamos não estar informados a respeito de quem dá o dinheiro para fazer o quê, podemos continuar preguntando: Porquê fazer o tão esperado Centro das Artes na parte antiga ( e já suficientemente desorganizada) da cidade? Porquê esse gasto de dinheiro nessa passarela em pedra, muito mal acabada e que acaba tragicamente a remendos de alcatrão, como se uma criança gigante a tivesse remendado com os seus dedos numa tarde de brincadeira? Não se entende. O visitante ou o habitante, ou quem sabe, os dois juntos, poderiam ainda contemplar a descontinuidade urbanística daquele canto da cidade, o novo entreposto cultural da região: uma casa Alentejana típica, escoltada por um prédio creme anos noventa e pelo mini CCB. Os ditos remendos a alcatrão e, de vez em quando, um carro que passa, ziguezagueando de forma a não chocar contra os pilarzinhos chiques que ao longo da passarela rosa foram colocados. Visitante e habitante pensariam certamente: “Que desorganizados são estes tipos”. E não é difícil. Entre obras e mais obras – já sabemos que é um clássico fácil criticar as obras da via urbana – necessitamos de bússolas para encontrar o Norte em terras de Vasco da Gama. Caso de imaturidade política? Falta de consenso? Não sei. Só sei é que aqui, até Vasco necessitaria de uma bússola.
António Oliveira e Silva
(texto recebido de um leitor via e-mail)

A Europa tem escrito e rescrito a sua História. Uma História repleta de guerras, mais ou menos longas, que foram traçando mapas e definindo a ideia de civilização exaltada pelo Iluminismo. Na Europa escreve-se muito sobre os factos da sua História, mas poder-se-ía escrever mais sobre o porquê desses factos.
O velho continente Europeu tem contrastes e movimentos humanos enigmáticos e muitos eles ainda estão por analisar e compreender. No continente onde a ideia de Liberdade Política nasce na Antiga Grécia há cerca de 2.500 anos, onde a filosofia e as artes ganham o maior explendor, onde nascem a maioria dos cérebros que disparam a máquina da ciência, onde se firmam os pilares da ideia de Justiça é também o continente onde se iniciam as duas guerras mundiais e onde se leva a cabo a ideia de extermínio de um povo com contornos de horror nunca antes imaginados.
Estes contrastes leva-nos a tantas perguntas. Quem somos? Que lugar é hoje o da Europa no mundo? Como integrar correctamente o nosso passado de guerra, liberdade e desejo de equilíbrio nos caminhos do mundo de hoje? O que é a nossa voz na loucura e no barulho de hoje?
O discurso de Cavaco Silva foi um discurso interessante do ponto de vista político. Fez uma criteriosa análise dos problemas com que os portugueses se deparam. Problemas de exclusão social, de uma pobreza cruel, de desigualdade na distribuição da riqueza - é verdade o Presidente da República falou desta questão - de baixos salários.
Em tese poder-se-á dizer que estamos perante um discurso que não se pode avaliar como sendo crítico ou de oposiçao ao Governo. Um discurso de centro-esquerda que traduz respeito pela sua base social de apoio. Poder-se-á concluir que o Presidente da República e o Primeiro-Ministro estão em sintonia.
Mas ... Cavaco nada adiantou sobre as soluções para os problemas que identificou. Ora aí é que se pode estabelecer, ou não, alguma clivagem com o Governo.
Sócrates e o seu PS, com uma nova natureza, - na feliz expressão de Maria José Nogueira Pinto - não parecem pretender questionar minimamente as razões que conduzem a esta sociedade cada vez mais desigual. Estão no entanto empenhados -uma diferença para o PSD e para o PP - em tornar esta sociedade mais aceitável, diminuindo as dores daqueles que são excluídos. São - a tal nova natureza passa por aí - assistencialistas e nunca serão socialistas no sentido de promoverem uma sociedade mais justa em que os mecanismos de fomento da desigualdade sejam anulados. O assistencialismo é, como se sabe, impotente porque se recusa a ir à raiz do problema.
Talvez seja nesse plano que Sócrates e Cavaco possam, mais facilmente, fazer coisas em conjunto. Nesse caso será claramente injusto classificar o discurso de Cavaco como um discurso de centro esquerda. A mesma injustiça que está presente naqueles que classificam o actual governo como sendo de esquerda. Um erro que Maria José Nogueira Pinto não comete.
Um olhar sobre estes 32 anos, para pensarmos o que muitos fizeram da Palavra Liberdade
Posted by MJB at 4/25/2006 11:48:00 da manhãCom fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras
Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada
De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse
Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra
Junho de 1974
Sophia de Mello Breyner
Nestes tempos amargos e dificeis de desigualdades antigas e novos e velhos privilégios as esperanças que Abril nos trouxe continuam em grande parte por cumprir. Há a liberdade mas faltam as condições de exercício dessa mesma liberdade. Como cantava Sérgio Godinho - e como se mantêm actual essa canção - "só há liberdade a sério quando houver: a paz, o pão, saúde, educação, liberdade de pensar e decidir quando pertencer ao povo o que o povo produzir(...)"
Os novos senhores nacionais, regionais e, os mais sinistros, os novos senhores locais, os "caciques de nova geração", sem ideias, sem ideais, sem estratégia, com uma sede ilimitada de poder, impõem o seu mando e o seu arbítrio. Os cidadãos são tratados de acordo com a flexibilidade da sua coluna vertebral. A competência, a idoneidade, a seriedade não são valores absolutos. Depende da orientação política do portador. Os "nossos" não são incompetentes, corruptos ou canalhas. São os nossos e isso absolve-os de todas as canalhices de todas as corrupções.
Nestes tempos, tristes, volta a estar na ordem do dia a ida ao Paço para pedir a tença.
Irás ao Paço. Irás pedir que a tença
seja paga na data combinada
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce.
Em tua perdição se conjuraram
Calúnias desamor inveja ardente
E sempre os inimigos sobejaram
A quem ousou seu ser inteiramente
E aqueles que invocaste não te viram
Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto
Irás ao Paço irás pacientemente
Pois não te pedem canto mas paciência
Este país te mata lentamente
Sophia de Mello Breyner Andresen. Camões e a Tença.
AS PORTAS QUE ABRIL ABRIU
Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais infeliz
dos povos à beira-terra.
Onde entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.
Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raiz
tinha o fruto arrecadado
onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado
onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado.
Era uma vez um país
de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado
pelas ideias nazis
pelo dinheiro estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado
que até hoje já se diz
que nos tempos do passado
se chamava esse país
Portugal suicidado.
Ali nas vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
vivia um povo tão pobre
que partia para a guerra
para encher quem estava podre
de comer a sua terra.
Um povo que era levado
para Angola nos porões
um povo que era tratado
como a arma dos patrões
um povo que era obrigado
a matar por suas mãos
sem saber que um bom soldado
nunca fere os seus irmãos.
José Carlos Ary dos Santos
Sou capaz de prever um novo "máximo histórico" para o petróleo amanhã.
Os jornais de hoje informam que Celeste Cardona, ex-ministra das finanças e administradora da CGD, será delegada ao congresso do seu partido. Esta situação já suscitou algumas reacções motivadas pela defesa de uma desejável salvaguarda da empresas públicas da ostentação das ligações partidárias dos seus administradores. Não concordo. Acho muito bem que Celeste Cardona seja eleita delegada ao congresso do CDS já que ela deve tudo ao seu partido, incluindo o facto de ter sido ministra e de ser actualmente administradora da Caixa Geral de Depósitos. Situação que é aliás comum à generalidade dos gestores públicos quer sejam do PS, do PSD ou do CDS/PP - julgo que não haverá gestores públicos do PCP e do BE, mas se existirem aplica-se a mesma regra - a sua nomeação obedece em primeiro, e único, lugar a critérios de pura confiança política.
A meritocracia que a classe política quer(?) impor à Administração Pública não se podia aplicar aos próprios partidos e aos gestores públicos por si nomeados. Ficavam centenas de lugares eternamente vagos.
Nota: uma estranha avaria no blogue impediu a publicação deste post desde as 10h 45 m.
O FMI veio na passada semana sugerir a retoma em Portugal só no final de 2007. Depois disso até o Ministro das Finanças se enganou na idade da sua mãe.
No entanto o World Economic Outlook do FMI traz outra informação relevante e que, com excepção do Público, ninguém referiu. É que o FMI identifica quatro "modelos sociais europeus" e procede á sua avaliação. São eles o "Nórdico" o "anglo-saxónico" o "continental" e o "mediterrânico". O resultado da avaliação mostra que o "mediterrânico" é o que dá piores resultados em todos os indicadores. É no conjunto dos países - Itália, Espanha, Grécia e Portugal - que o integram, que as desigualdades sociais e a pobreza são mais altas; as horas trabalhadas mais elevadas; e os índices de produtividade mais baixos.
É por isso que quando alguma da nossa direita clama pela flexibilização do emprego, apontando o exemplo da Dinamarca, ela se esquece sempre de clamar pela protecção social aos desempregados existente na Dinamarca.
A nossa direita não conseguiu perceber uma evidência que até ao FMI salta aos olhos: não há um só modelo social europeu. Há vários. Aquilo que se passa em países como Portugal é um arremedo grosseiro de algo parecido com um Estado Social. Somos - é sempre necessário repetir isto - o país mais desigual da União Europeia. Uma questão de opções políticas e não uma fatalidade, como muitos nos querem impingir.
Abriu, esta semana, no Pavilhão do Futuro o Casino de Lisboa. Atendendo ao facto de se ter instalado no outrora emblemático Pavilhão do Futuro poderiam ter escolhido para o nome Pavilhão Portugal ou Casino do Futuro.
A inauguração contou com a presença do ministro da economia -cuja presença avaliza a importância estruturante da coisa, seja ela qual for - e da ministra da cultura, já que o ministro da economia nunca dispensa o apêndice ambiental ou cultural.
Antes da inauguração o magnata do casino foi recebido pelo Presidente da República e pelo Primeiro-Ministro.
Portugal parece-se cada vez mais com um casino. Há os poucos que ganham sempre, porque são os donos da banca, e à a generalidade dos que jogam sempre, na esperança de ganharem alguma coisa, e acabam sempre a perder.
Costumava dizer-se que a crise começava quando um economista falava dela. Ainda mais quando esse economista fosse, por hipótese, Ministro das Finanças.
Assim sendo o que acontece quando um Ministro das Finanças fala de pânico ainda que seja para referir que "não devemos entrar em pânico"?
Teixeira dos Santos tem razões para estar assustado. Mas sobretudo os Portugueses devem temer o pior. Todos os relatórios dizem que Portugal não está a recuperar, antes pelo contrário. Desde o FMI, à OCDE, ao Banco de Portugal a conclusão é unânime: a economia portuguesa não cresce. Só três países apresentam pior perfomance em todo o mundo: a Guiné Equatorial, as Seichelles e o Zimbabué - onde o PIB terá uma variação inferior a 0,8% este ano.
Ao que isto chegou.
Ao pé dos cardos sobre a areia fina
que o vento a pouco e pouco amontoara
contra o seu corpo (mal se distinguia
tal como as plantas entre a areia arfando)
um deus dormia. Há quanto tempo? Há quanto?
E um deus ou deusa? Quantos sóis e chuvas,
quantos luares nas águas e nas nuvens,
tisnado haviam essa pele tão lisa
em que a penugem tinha areia esparsa?
Negros cabelos se espalhavam onde
nos braços recruzados se escondia o rosto.
E os olhos? Abertos ou fechados? Verdes ou castanhos
no breve espaço em que o seu bafo ardia?
Mas respirava? Ou só uma luz difusa
se demorava no seu dorso ondeante
que de tão nu e antigo se vestia
da confiada ausência em que dormia?
Mas dormiria? As pernas estendidas,
com um pé sobre outro pé e os calcanhares
um pouco soerguidos na lembrança de asas;
as nádegas suaves, as espáduas curvas
e na tão leve sombra das axilas
adivinhados pêlos... Deus ou deusa?
Há quanto tempo ali dormia? Ou não estaria ali?
Ao pé dos cardos, junto à solidão
que quase lhe tocava no areal imenso,
do imenso mundo, e as águas sussurrando -
- ou não estaria ali?... E um deus ou deusa?
Imagem, só lembrança, aspiração?
De perto ou longe não se distinguia.
Jorge de Sena. Metamorfose in Fidelidade(1958).

A Europa foi um grande campo de batalha entre parentes. O sonho como poder levou-os à grande guerra e à pequena e suja guerra dos salões envenenados.
Foi nesse espaço, entre o Mediterrâneo, o Atlântico e as estepes do Norte, que a guerra e as ideias foram construíndo, ao longo de séculos, o homem futuro. A arte rompeu daí, dessa violência, desse pensamento que urge por se manifestar.
Foi a Europa que "acelerou" o motor do tempo e do espaço, quando cumpriu o sonho de o alcançar e o dar a conhecer. Como instigadores do fogo, teremos que recolher a cinzas. Pisamos as nossas cinzas, sem muitas vezes percebemos as ramificações do caminho já percorrido.
Somos uma velha referência que se consolidou pelo ofício das artes e da ciência. Somos um grande museu que parece estar perdido no tempo e no espaço. Somos uma velha mãe que se deixou ultrapassar pelos filhos, que já não reconhece e não sabe o que fazer quando estes se revoltam.
"(...)Já todos percebemos que quem "ganhou" as eleições italianas, na verdade, e para todos os efeitos mediáticos, foi Berlusconi, o homem que muitos davam como politicamente acabado. Prodi teve mais deputados e senadores, à tangente, mas há uma "lei" em Itália que não perdoa: os políticos fracos duram pouco e as coligações infinitas morrem cedo". Esta afirmação deve-se a LD o nosso cronista preferido. Pode ler na íntegra aqui. Imagine-se se o resultado fosse o inverso. O que diria o nosso Luís?
PS - os sublinhados são da nossa responsabilidade. Não podíamos deixar passar sem o devido realce aquela pérola dos "para todos os efeitos mediáticos." Magnífico!!!
A proposta de Jorge Miranda de os deputados passarem a assinar o ponto três vezes em cada sessão - uma no ínicio, outra no meio e outra no fim - não faz qualquer sentido. O que faz sentido são as outras propostas do constitucionalista que referi no post anterior.
Entretanto continua o lodaçal à volta dos hábitos dos nossos deputados. Os próprios contribuem, o mais que podem, para atirar lama sobre a função parlamentar. Aliás quantos verdadeiros deputados existirão na Assembleia da República? Gente capaz de defender príncipios e valores, capaz de pensar pela sua cabeça, com uma práctica de rigorosa separação entre interesses públicos e privados? Cada vez mais cresce a convicção de que são cada vez menos os deputados que se podem levar a sério.
Aliada esta perfomance parlamentar às dificuldades crescentes de uma parte significativa da população e ao regresso em força dos privilégios de alguns poucos, estão criadas as condições ideais para a emergência dos populismos de sinal contrário. Ouçam-se os diferentes foruns, abertos à participação livre da população, e escutem-se as primeiras vozes a solicitar novas revoluções e mudanças de regime. A insatisfação anda no ar. Pudera.
... mas não velho. É o que se recolhe sempre que nos deparamos com intervenções escritas ou faladas de Jorge Miranda, um dos mais notáveis pais fundadores da nossa Constituição. A propósito da qualificação da democracia as suas propostas não merecem a aprovação do sistema partidário dominante. Compreende-se. Limitar mandatos, impor exclusividade aos deputados -não viria mal ao mundo num regime de limitação de mandatos a duas legislaturas, por exemplo - tornar efectivas as incompatibilidades e outras medidas não é coisa de que os nossos políticos queiram, sequer, ouvir falar.
Talvez por não merecerem a aprovação dos políticos é que elas merecem, certamente, a aceitação da maioria do país, sobretudo da parte que pensa.
Dito isto acrescento que nada me move contra os políticos, sobretudo contra os sérios e contra aqueles que fazem da defesa da coisa pública algo não misturável com a defesa de interesses privados. Esses podem ser raros, mas são bons.

O último filme de Spike Lee, O Infiltrado, tem tudo para talvez se vir a tornar no seu melhor filme. Com Clive Owen, Denzel Washington e Jodie Foster nos principais papéis, o argumento de Russell Gewirtz leva esta película mais longe do que a de uma simples história do assalto perfeito a um banco em plena Nova Iorque.
A construção do plano é brilhante, mas a acção surpreende pela particularidade do uso da máscara, o que cria, ao longo do filme, uma singular conjuntura de ambiguidade. Em pleno assalto, assumidamente, não sabemos quem é quem, nem no interior da dependência bancária, nem no mundo exterior, onde a máscara assume outros contornos. No jogo do poder, existe sempre um acessório para a máscara, para o acto de omitir, de resto um dos mais instintivos no ser humano. O acessório para a máscara pode ser o próprio poder. E neste caso o poder maior, mais do que o do valor do dinheiro, é o da inteligência e o do domínio sobre o que o outro esconde. Não será sempre assim na vida real?
Com a devida vénia ao "Inimigo Público" - o jornal que noticia tudo aquilo que "se não aconteceu podia ter acontecido" - não resistimos a publicar uma pequeno texto sobre a relação entre Luís Delgado -um dos nosos favoritos - e Sócrates. O título do texto é: "Sócrates apareceu a Luís Delgado em cima de uma oliveira". O texto reza assim: "O milagre da conversão de Luís Delgado a José Sócrates está a ser estudado pelo Perfeito da Congregação da causa dos Santos. "Delgado era, até há menos de um ano, um apóstata", disse ao IP o Perfeito D. Saraiva Martins, "ou seja, um santanista despudorado, um mestre do elogio a metro, capaz de escrever sobre Santana Lopes louvores dignos do que "A Gazeta de Pyongyang" escreveu sobre Kim Jong-il e do que Fernando Mendes dedicou às favas com toucinho". Ainda não há grandes certezas mas, até prova em contrário, a conversão de Delgado a Sócrates foi atribuída à irmã Lúcia.
A manchete do DN espelha uma realidade iniludível. Os Portugueses estão, desde que Sócrates tomou posse, a ser vitimas da maior subida de impostos de que há memória. Isto apesar da promessa eleitoral de não aumentar os impostos. O problema é que nesta exigência cada vez maior nem todos são chamados a contribuir da mesma maneira. Os bancos e as grandes empresas, com poder político quanto baste, usam e abusam de estratagemas legais, muitas vezes criados por elas, para pagar o menos possível.
É esta imoralidade que Sócrates não revela qualquer vontade de combater. A sua implacabilidade dirige-se fundamentalmente para os mesmos; os trabalhadores por conta de outrem e as pequenas e médias empresas que vivem debaixo do maior clima de repressão fiscal da história da democracia. Um clima que fomenta a recessão de que o último ano dá uma medida exacta apesar dos elogios patetas pelo péssimo resultado de um défice de 6%. ( a pergunta sobre o paradeiro de Vitor Constâncio é absolutamente pertinente depois do que o senhor disse sobre o terrível défice do governo de Santana Lopes. Outra questão interessante é a de sabermos como andará a dormir Cavaco Silva, com este monstro ainda tão vigoroso e tão real a pairar sobre o País?).

A Correspondência trocada entre Sophia de Mello Breyner e Jorge de Sena, ao longo de quase quarenta anos, dada à estampa recentemente pela nóvel editora Guerra e Paz, constitui uma excelente oportunidade para nos aproximarmos dos universos dessas duas figuras maiores da cultura portuguesa. Através destas cartas, podemos entender os problemas com que se deparavam e, afinal, como apesar de fisicamente separados, em continentes diferentes, Sena e Sophia se sentiam tão próximos na relação com o Portugal de então. Um Portugal salazarista, com os seus pides e censores, cuja oposição, na sua pequenez controleira, que se reflectia na área cultural como esta correspondência evidencia, teria tornado impossível, como hoje sabemos, o derrube do regime se, desgraçadamente, isso dependesse unicamente da sua acção.
Percebemos as razões do périplo de Sena pelo Brasil e depois pelos Estados Unidos com passagem pelo Wisconsin até se fixar definitivamente na Calofórnia em Santa Bárbara. O poeta aspirava sobretudo a voltar a Portugal, ou à Europa, o que lhe era impossível pela situação política mas também pela sua animosidade em relação à generalidade do meio literário. Como se sabe, o 25 de Abril não veio alterar significativamente a situação e Sena acabou por morrer no exílio.
Percebemos, através das cartas de Sophia, as dificuldades dos que foram sujeitos ao exílio no interior. Dificuldades de quem escolhera dedicar a sua vida à poesia e à actividade cultural e que, apesar disso, nas suas palavras, não desistira de ser mãe e esposa de um Dom Quixote, Francisco Sousa Tavares, que advogava em defesa das vítimas da ditadura e que sofria as represálias do regime. Dificuldades em lidar com um meio literário, no qual a presença da censura consumia as energias e as capacidades dos que resisitiam, que aparecia minado pelas tentativas de o hegemonizar politicamente.
Esta correpondência constrói-se de um dos mais belos sentimentos humanos: a amizade. Amizade e admiração recíproca pela arte de cada um, de que as cartas dão eloquente testemunho.
Outros tempos e outras gentes. Tempos piores, mas uma gente de uma qualidade rara entre os portugueses.

Quando o Amor Vacila
Eu sei que atrás desse universo de aparências das diferenças toda a esperança é preservada. Nas xícaras sujas de ontem o café de cada manhã é servido. Mas existe uma palavra que eu não suporto ouvir e dela não me conformo. Eu acredito em tudo, mas eu quero você agora. Eu te amo pelas tuas faltas, pelo teu corpo marcado, pelas tuas cicatrizes, pelas tuas loucuras todas. Minha vida, eu amo as tuas mãos mesmo que por causa delas, eu não saiba o que fazer das minhas. Amo teu jogo triste. As tuas roupas sujas é aqui em casa que eu lavo. Eu amo a tua alegria mesmo fora de si, eu te amo pela tua essência, até pelo que você podia ter sido, se a maré das circunstâncias não tivesse te banhado nas águas do equívoco. Eu te amo nas horas infernais, e na vida sem tempo. Quando, sozinha, bordo mais uma toalha de fim de semana. Eu te amo pelas crianças e futuras rugas. Te amo pelas tuas ilusões perdidas e pelos teus sonhos inúteis. Amo o teu sistema de vida e morte. Eu te amo pelo que se repete e que nunca é igual. Eu te amo pelas tuas entradas, saídas e bandeiras. Eu te amo desde os teus pés até o que te escapa. Eu te amo de alma pra alma. E mais que as palavras. Ainda que seja através delas que eu me defendo, quando te digo que te amo mais que o silêncio dos momentos difíceis quando o próprio amor vacila!
(Dito por Maria Bethania In Maricotinha ao Vivo, 2002)
Se gosta de jazz, blues e do melhor da música portuguesa e brasileira, exprimente a sintonia de 98.1 (site: http://www.marginal.fm/ )
Pouca publicidade e uma selecção musical excelente.
Este colaborador do Pedra do Homem, depois de uma ausência com alguns pequenos intervalos, vai continuar em "trabalho político" . Posto isto qualquer tentativa de identificar as ausência futuras com motivos associados à pura e simples fruição das férias pascais será severamente desmentida. Aqui ninguém falta. Fazemos trabalho político.
Nestas férias da Páscoa, vim para Porto Covo, com os meus pais. Viemos de caravana, para o parque de campismo, como habitualmente. Tem estado um tempo óptimo, dá para ir à praia. Eu ontem até tomei um banho, no mar.
Ontem, uns amigos nossos, vieram ter connosco ao parque de campismo.
Agora que estou perto de Sines, posso visitar o meu primo bebé, o Diogo. Assim já não fico com tantas saudades dele!!!!!!!!!
Bjx.
A cidade do urbanismo moderno e do urbanismo funcionalista
Posted by JCG at 4/11/2006 07:31:00 da tardeA cidade do urbanismo do movimento moderno e do urbanismo funcionalista é por excelência o lugar de negação da cidade.
A combinação preversa do zonamento - uma criação de Le Courboisier e do movimento moderno, saído da carta de Atenas de 1933 - com a privatização - defendida e praticada pelo urbanismo funcionalista que se lhe seguiu - criou uma caricatura da cidade na qual as "peças", os "produtos", a arquitectura dos "monumentos" e dos "objectos-mercadoria", substituem a cidade do intercâmbio e da diversidade. A cidade fragmentada tem tendência a ser uma cidade socialmente segregada, economicamente pouco produtiva e culturalmente miserável. É a negação da cidade ao negar o potencial das liberdades urbanas, a promessa de justiça e os valores democráticos.
Num colóquio realizado em Buenos Aires(*), o director de planeamento da City de Londres afirmou: "(...)A mercadoria mais importante que se troca na cidade é a conversa, a informação cara a cara, a murmuração... Em consequência são muito importantes o bar e o restaurante. O urbanismo tem que garantir, como mínimo nas áreas densas, que em cada quarteirão os pisos térreos sejam lugares de encontro, espaços comerciais e sobretudo cafés, o equipamento mais importante da cidade.(...)"
(*) - Seminário Internacional promovido pela Cidade de Buenos Aires, 1996.
Na sua conferência com o título “ A ideia de Europa” proferida no Nexus Institute em 2004 – editada em livro pela Gradiva com prefácio de Durão Barroso – George Steiner diz o seguinte logo no início “ (…) A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kierkgaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo. Não há cafés antigos ou definidores em Moscovo, que já é um subúrbio da Ásia. Poucos em Inglaterra, após um breve período em que estiveram na moda, no século XVIII. Nenhuns na América do Norte, para lá do posto avançado galicano de Nova Orleães. Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da “ideia de Europa”.
O café é um local de entrevistas e conspirações, de debates intelectuais e mexericos, para o flàneur e o poeta ou metafísico debruçados sobre o bloco de apontamentos. Aberto a todos, é todavia um clube, uma franco-maçonaria de reconhecimento político ou artístico-literário e presença programática. Uma chávena de café, um copo de vinho, um chá com rum assegura um local onde trabalhar, sonhar, jogar xadrez ou simplesmente permanecer aquecido durante todo o dia. É o clube dos espirituosos e a posta-restante dos sem-abrigo. Na Milão de Stendhal, na Veneza de Casanova, na Paris de Baudelaire, o café albergava o que existia de oposição política, de liberalismo clandestino. Três cafés principais da Viena imperial e entre as guerras forneceram a agora , o locus da eloquência e da rivalidade, a escolas adversárias de estética e economia política, de psicanálise e filosofia. Quem desejasse conhecer Freud ou Karl Marx, Musil ou Carnap, sabia precisamente em que café procurar, a que Stammtisch tomar lugar. Danton e Robespierre encontraram-se uma última vez no Procope. Quando as luzes se apagaram na Europa, em Agosto de 1914, Jaurés foi assassinado num café. Num café de Genebra, Lenine escreveu o seu tratado sobre empirocriticismo e jogou xadrez com Trotsky.(…)
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Etiquetas: cidades

A cidade deve ser um espaço onde ninguém se sinta excluído. A cidade é um lugar que deve estar preparado para receber e integrar a diversidade de culturas que aí existam. A cidade deve respeitar e cuidar a multiplicidade de tempos históricos que nela coexistam. A cidade deve ter meios para que o espaço público seja partilhado e construído por todos. Estas duas linhas principais só serão possiveis se se levar a cabo programas de planeamento sérios para os quais deverão ser chamados urbanistas com visibilidade social que estabeleçam uma ponte entre o poder político eleito e os cidadãos. O planeamento de uma cidade deverá passar por uma estratégia criativa e de antecipação que congregue a dinâmica de equipas multidisciplinares. Todos podem e devem pensar a cidade, porque pensar uma cidade é pensar o futuro.
Foi muito enriquecedor ouvir falar destes e de outros olhares no passado Sábado, no Centro Cultual Emmerico Nunes em Sines, num debate promovido por esta cooperativa e pela ASAS-Academia Sénior de Artes e Saberes e organizado por alunos do Instituto Superior Técnico. Estiveram presentes o Prof. Manuel Costa Lobo, Engº José Carlos Guinote e a Prof. Alice Santos Silva que partilharam os seus conhecimentos e foram questionados sobre esta temática.
Um debate interessante que infelizmente não contou com a presença de técnicos e autarcas das Câmaras Municipais do próprio concelho e de concelhos vizinhos.
O texto da Maria José Botelho levanta algumas das questões pertinentes que se colocam hoje na relação entre a arquitectura enquanto coisa pública, já que de outra qualquer perspectiva o assunto é bastante irrelevante, e a polis.
Questões que o círculo de poder - dos vários poderes mesmo os que entre si conflituam - recusa discutir agora que descobriu que a arquitectura, sobretudo aquela que é susceptível de transportar no dorso o carácter distintivo da monumentalidade e mesmo da obra de arte moderna, seja lá isso o que fôr, pode permitir disfarçar programas políticos de intervenção na cidade mediocres, reaccionários, retrógados, desprovidos da mais elementar ideia por muito elementar que seja.
O mundo move-se muitas vezes assim, com sucessivos regressos ao passado. Recorde-se a utilização que Mussolini fez da monumentalidade na arquitectura e a relação entre Albert Speer, um dos maiores arquitectos alemães, e Hitler. Já com o ditador nazi desesperado, no bunker onde se suicidou, Speer foi-lhe mostrar a maquete da reconstrução de Berlim. Recorde-se num passado mais recente a forma como Miterrand utilizou a arquitectura para deixar, sobretudo, a sua marca impressa no tempo. A arquitectura tornou-se instrumental dos projectos de poder pessoal e de tentativa de assegurar um lugar na posteridade. Recebe em troca um farto saco de moedas.
Nestes tempos pouco interessantes com um pequeno lugar para a capacidade crítica e a discussão de ideias a Arquitectura coloca-se ao conjunto dos cidadãos como uma fatalidade e nunca como uma escolha. Numa recuperação do espírito salazarista, que nunca nos abandonou, devemos talvez proclamar: felizes de nós tão ignaros que temos pessoas tão inteligentes e sensíveis capazes de pensar, decidir e fazer por nós.
( a continuar).

Escultura de A. Giacometti
Não sou entendida em arquitectura, no entanto, parece-me que muitas obras que se erigem nos dias de hoje, são projectadas por arquitectos que gostariam de ter sido escultores.
Quando os projectos são destinados à habitação particular e são desenhados e construídos com aceitação dos proprietários, não tenho nada a apontar, é apenas uma questão de gosto. Mas quando os mesmos são destinados a fins públicos, erguidos com financiamento público, mesmo os leigos na matéria, como eu, têm o direito a ter uma opinião: a opinião de um utilizador, de um dos que usufruem esses espaços e os partilham com os outros.
Nos dias de hoje, os edifícios construídos com pressupostos públicos, deveriam-se impor pela sua sobriedade, pela qualidade da sua construção, pela beleza de uma iluminação bem direccionada, e, sobretudo, pela funcionalidade dos espaços que no futuro as pessoas, capacitadas e incapacitadas, vão usufruir.
Existem muitos edifícios onde podemos desfrutar estas qualidades. Sentimo-nos bem nesses espaços, em raros momentos nos agridem, ainda que a cada passo, a cada recorte de janela, se presencie a mão, o cunho e a originalidade do arquitecto que o projectou.
Estou a lembrar-me do edifício da Escola Superior de Educação em Setúbal, da autoria de Siza Vieira. É um edifício que não se impõe pela presunção do autor, antes pela qualidade de um projecto que, tanto no exterior como no interior, soube envolver a obra com a natureza circundante e soube dar uma dinâmica a todos os espaços. Entendeu a função dos espaços humanos, entendeu as pessoas nesses espaços, percebeu que as pessoas também são os espaços que habitam, que se moldam, se retraiem, se expandem de acordo com a "casa".
Infelizmente, existem muitos edifícios que apesar de concebidos a partir de um projecto largamente reconhecido, pertencem a uma outra linha da arquitectura. São espaços que nos surpreendem, mas que também nos "esmagam". Esses edifícios têm salas onde nem todas as esculturas de Giacometti ou Rodin retirar-lhes-íam a imposição. Esses edifícios querem ser esculturas, querem ser uma espécie de arquitectura intelectual.
Apesar da unanimidade em considerar a obra um exemplo da nova arquitectura, apesar dos prémios, permitam-me que uma simples utilizadora do espaço possa dizer que um dos exemplos desta útlima arquitectura a que me referi seja o projecto de Aires Mateus do Centro das Artes de Sines.
O Governo espanhol determinou a dissolução de câmara de Marbella após uma operação que levou mais de vinte pessoas à prisão. Entre essas pessoas está incluída a presidente da Câmara. A corrupção pura e dura foi o motivo. Enriquecimento gigantesco de algumas figuras da hierarquia municipal e dos sectores prestadores de serviços, incluindo o lucrativo sector dos acessores. Traço comum a todos os corruptos e a todos os corruptores: faziam a ligaçao entre o urbanismo e o imobiliário. Nada de mais natural, afinal. Um dos rapazes que acumulou uma fortuna pessoal superior a 2,4 mil milhões de euros - ele que em 1992 era um simples dsempregado - tinha criado cerca de 120 sociedades para promover a circulação do dinheiro. Nunca ninguém tinha reparado. Há coisas que não se vêm logo assim às primeiras.
O Ministério Público espanhol criou um gabinete especial para investigar os delitos urbanísiticos. será que se pode dizer, nestes casos, que mais vale tarde do que nunca?
E por cá como é? Tudo gente séria, acima de qualquer suspeita, naturalmente.
O Benfica foi eliminado. Do que mais gostei foi da actuação dos adeptos. Os que ouvi na TV acharam que a equipa não jogou nada. Foi o que eu também achei. Quem equilibrou a partida no conjunto das duas mãos foi a falta de pontaria dos avançados do Barcelona. O Moreto ajudou, desta vez, com algumas boas defesas e sem fífias. Ganhou o melhor. Simplex.
O Homem tem uma tendência natural para a globalização. No planeta de hoje, não só nas cidades densamente povoadas do Ocidente, mas praticamente em todos os lugares, a mistura de culturas, de crenças, de modos tão díspares de pensar é uma realidade. Somos, por isso, obrigados a repensar os percursos da Humanidade e, sobretudo, a conhecer as outras culturas e religiões; a saber quem são os outros que connosco partilham o mundo.
Sempre gostei de cidades onde coexistem diferentes expressões culturais, especialmente quando as mesmas são manifestadas no mútuo respeito pelo outro. A mistura de culturas é e vai ser cada vez mais a paisagem humana do futuro.
Por tudo isto é de extrema importância que cada um de nós aprenda as origens, os percursos históricos e as culturas diferentes da nossa. É importante que os professores e os pais tenham essa consciência e que motivem as crianças e os jovens nessa aprendizagem.
Todos os dias falamos ou ouvimos falar do povo muçulmano, dos judeus, dos árabes, mas será que sabemos quem são esses povos?
Na presença de um mundo cada vez mais fracturado pelo ódio, com antigas raízes na divergência cultural e religiosa, seremos nós ocidentais (porque talvez tenhamos essa obrigação) a dar o primeiro passo. Será um passo decisivo para que possamos partilhar uma Terra onde o respeito pelas diferenças culturais e religiosas não seja sustentada apenas pelos interesses económicos. Será um passo para que no futuro possamos, de resto, sobreviver.

Fotografia de Tina Modotti, Roses, 1925
@ The state of Tina Modotti
Quando a vida ainda é um amplo e ilimitado espaço, vivem-se as melhores coisas com arrebatado brilho, com tanta exaltação que o peito parece ser pequeno para abarcar tanta beleza, tanta felicidade. E o peito, nessa altura, é, na verdade, facilmente ultrapassado pelo fulgor das coisas, ainda não percebe o que quer realmente dizer a palavra efémero. Desconhece o sentido do que é finito. Vive-se a ilusão de que tudo é eterno.
Só mais tarde é que percebemos a verdadeira importância dos sentimentos, da beleza e o lugar dos outros na nossa vida. Só mais tarde é que se alcança a significação do que é partilhado com os outros e os momentos que passamos com os nossos amigos. Só mais tarde é que aprendemos a perdoar e a relativizar o que gostamos menos nas pessoas. Só mais tarde é que percebemos que não devemos ter medo de acreditar, de arriscar e de dizer o que nos diz o coração. Só mais tarde é que entendemos o valor das palavras ditas, do passado e do tempo.
Graças quero dar ao divino
labirinto dos efeitos e das causas
pela diversidade das criaturas
que formam este singular universo,
pela razão, que não cessará de sonhar
com um plano do labirinto,
pelo rosto de Helena e a perseverança de Ulisses,
pelo amor que nos deixa ver os outros
como os vê a divindade,
pelo firme diamante e a água solta
(...)
Excerto do poema " Outro Poema dos Dons"
de Jorge Luís Borges
Deste meu alheamento da blogosfera só mesmo o LD me podia resgatar. Ao passar os olhos pelo DN fui presenteado com mais uma das admiráveis peças do Luís desta vez sobre as técnicas socráticas de comunicação. Luís está conquistado pelas artes de Sócrates e não compreende como a oposição não reage ao canto da sereia. Não resisti a voltar à blogosfera. Cito: "(...) A forma como Sócrates actua, a simplicidade eficaz da sua mensagem e os meios que usa para a transmitir são componentes de um sistema moderno, muito bem organizado e que nunca teve paralelo em Portugal, mesmo com um comunicador nato como Guterres, ou um especialista em oratória como Santana. Sócrates junta tudo isso ao melhor das escolas de comunicação, que explicam que a mensagem, para ser compreendida pela generalidade de um eleitorado, tem de ser simples, muito directa, com medidas e exemplos fáceis de decorar e com uma imagem fabricada para os órgãos de comunicação social. Enquanto a oposição ainda lê longos discursos de papel, sem olhar os portugueses nos olhos e sem se centrar numa ideia, o chefe do Governo está décadas e décadas avançado, usufruindo das melhor técnicas de comunicação e indução positiva.(...)
Ufa.

No DN de ontem, um artigo despertou-me a atenção. Trata-se de um texto de Kenneth Rogoff, professor de Economia e Política Pública na Universidade de Harvard, sobre a temática da Inteligência Artificial do qual retirei alguns excertos que gostava de partilhar convosco:
"O meu portal para o mundo da inteligência artificial é estreito: um jogo com mais de 500 anos, o xadrez. "
"Em 1997, o "Deep Blue" da IBM espantou o mundo ao derrotar o campião mundial de xadrez Garry Kasparov. Após a derrota, Kasparov disse sarcasticamente aos repórteres que tinha sentido "a mão de Deus" a guiar o seu oponente de silicone."
"O "Deep Blue" é uma combinação de um engenhoso software e de um sólido poder de computação paralelo, que produz uma entidade baseada em silicone, capaz de uma tal fineza e subtileza, que os grandes mestres de xadrez de todo o mundo ficaram simplesmente espantados".
"Tudo mudou à velocidade de um relâmpago. As máquinas agora podem ser programadas para imitar jogadores famosos - incluíndo as falhas deles - tão bem que apenas o olhar de um perito ( e às vezes apenas um outro computador!) consegue ver a diferença."
"Há mais de um século, o padrinho da inteligência artificial, Alan Turing, argumentava que a função cerebral podia ser totalmente reduzida à matemática e que, um dia, um computador rivalizaria com a inteligência humana. Ele sustentava que a maior prova de inteligência artificial seria atingida se um interrogador humano fosse incapaz de perceber que estava a conversar com um computador."
"Não tenho dúvidas que ainda neste século, será possível comprar professores de bolso"
O CCEN, sobre cuja actividade paira a bota pesada e repressiva - pela via da asfixia económica, neste caso - da uniformização e da eliminação de toda a capacidade crítica, não desiste de continuar. Desta vez o CCEN inicia um ciclo de Conversas para fomentar o " poder de participar e de pensar com o(s) outro(s)." O pretexto são as "Conversas sobre a Cidade".

Tu cuja carne que hoje é pó e planeta
pesou como a nossa sobre a Terra,
tu cujos olhos viram o Sol, essa famosa estrela,
tu que viveste não no rígido ontem
porém no incessante presente,
no último ponto e ápice vertiginoso do tempo,
tu que em teu mosteiro foste chamado
pela antiga voz da épica,
tu que teceste as palavras,
tu que cantaste a vitória de Brunnanburh
e não a atribuiste ao Senhor
mas à espada do teu rei,
tu que com júbilo feroz cantaste as espadas de ferro,
a vergonha do viking,
o festim do corvo e da águia,
tu que na ode militar congregaste
as rituais metáforas da estirpe,
tu que num tempo sem história
viste no agora o ontem
e no suor e sangue de Brunnanburh
um cristal de antigas auroras,
tu que tanto querias à tua Inglaterra
e não a nomeaste,
não és hoje senão umas palavras que os germanistas
anotam.
Hoje não és senão a minha voz
quando revive tuas palavras de ferro.
Peço aos meus deuses ou à soma do tempo
que os meus dias mereçam o olvido,
que meu nome seja Ninguém como o de Ulisses,
mas que algum verso perdure
na noite propícia à memória
ou nas manhãs dos homens.
-Jorge Luís Borges -


