.. .sucedem-se. Ou melhor as manifestações públicas de desacordo com orientações e decisões do Governo e de alguns dos seus membros começam a adquirir características de alguma ... regularidade. No caso "Correia de Campos versu Celeste Cardoso" Soares não tem dúvidas: "(...) há certas coisas que não se devem fazer e em vez de disciplinar, indisciplinam(...)"
Soares não esconde a preocupação com a evolução do seu PS e do Governo.

"Isto não vai acabar bem", de José Pacheco Pereira, no Público, sobre a decisão de referendar ou não o Tratado Europeu. Cito ( e subscrevo): "(..) hoje, dia trinta de junho de dois mil e sete, eu, abaixo assinado, faço a mais fácil das previsões -isto vai acabar mal, porque está a ser mal feito, está a ser feito com má fé, está a ser feito com dolo, está a ser feito para nos convencer que o gato é a lebre. Eu ainda sou da escola que acha que o gato não é uma lebre e não conto aderir à União Nacional."


a Amílcar Fernandes
e Rui Knopfli
moçambicanos de alma e coração
que me passearam a ilha de Moçambique
É pobre e já foi rica. Era mais pobre
quando Camões aqui passou primeiro,
cheia de livros a cabeça e lendas
e muita estúrdia de Lisboa reles.
Quando passados nele os Orientes
e o amargor dos vis sempre tão ricos,
aqui ficou, isto crescera, mas
a fortaleza ainda estava em obras,
as casas eram poucas, e o terreno
passeio descampado ao vento e ao sol
desta alavanca mínima, em coral,
de onde saltavam para Goa as naus,
que dela vinham cheias de pecados
e de bagagens ricas e pimentas podres.
Como nau nos baixios que aos Sepúlvedas
deram no amor corte primeiro à vida,
aqui ficou sem nada senão versos.
Mas antes dele, como depois dele,
aqui passaram todos: almirantes,
ladrões e vice-reis, poetas e cobardes,
os santos e os heróis, mais a canalha
sem nome e sem memória, que serviu
de lastro, marujagem, e de carne
para os canhões e os peixes, como os outros.
Tudo passou aqui - Almeidas e Gonzagas,
Bocages e Albuquerques, desde o Gama.
Naquele tempo se fazia o espanto
desta pequena aldeia citadina
de brancos, negros, indianos e cristãos,
e muçulmanos, brâmanes, e ateus.
Europa e África, o Brasil e as Índias,
cruzou-se tudo aqui neste calor tão branco
como do forte a cal no pátio, e tão cruzado
como a elegância das nervuras simples
da capela pequena do baluarte.
Jazem aqui em lápides perdidas
os nomes todos dessa gente que,
como hoje os negros, se chegava às rochas,
baixava as calças e largava ao mar
a malcheirosa escória de estar vivo.
Não é de bronze, louros na cabeça,
nem ao escrever parnasos, que te vejo aqui.
Mas num recanto em cócoras marinhas,
soltando às ninfas que lambiam rochas
o quanto a fome e a glória da epopeia
em ti se digeriram. Pendendo para as pedras
teu membro se lembrava e estremecia
de recordar na brisa as cróias mais as damas,
e versos de soneto perpassavam
junto de um cheiro a merda lá na sombra,
de onde n' alma fervia quanto nem pensavas.
Depois, aliviado, tu subias
aos baluartes e fitando as águas
sonhavas de outra Ilha , a Ilha única,
enquanto a mão se pousava lusa,
em franca distracção, no que te era a pátria
por ser a ponta da semente dela.
E de zarolho não podias ver
distâncias separadas: tudo te era uma
e nada mais: o Paraíso e as Ilhas,
heróis, mulheres, o amor que mais se inventa,
e uma grandeza que não há em nada.
Pousavas n' água o olhar e te sorrias
- mas não amargamente, só de alívio,
como se te limparas de miséria,
e de desgraça e de injustiças e dor
de ver que eram poucos os melhores,
enquanto a caca ia-se na brisa esbelta,
igual ao que se esquece e se lançou de nós.
Jorge de Sena

O PS vai rever o Código do Trabalho. Vai rever significa que ainda não concluiu o processo. Mas na realidade existem algumas propostas que já são conhecidas. Propostas que suscitam muitas dúvidas no sector do trabalho. E que causam perplexidades mesmo à direita. Veja-se o caso das declarações de Bagão Félix ao CM.
Bagão sente-se ultrapassado pela direita e fala mesmo em aliança entre o PS e a CIP e de dávidas ao patronato.

PS - alguém se lembra das declarações dos socialistas quando a direita avançou com o anterior Código Laboral?

Era desta realidade, inevitável a prazo face às opções políticas deste Governo, que Soares falava na entrevista ao Expresso e, depois, na Universidade de Verão do PS em Setúbal. As sondagens são lentas a traduzir a realidade mas não a ignoram. Mais tarde ou mais cedo.
O Governo, o PS e sobretudo Sócrates, assistem a um recuo daqueles que os apoiaram, certamente mais cedo do que esperariam e não no melhor momento político. Todos mantiveram um nível elevado de simpatias por força de uma recomposição da base social de apoio que levou os socialistas ao poder com maioria absoluta. No momento em que a direita começa a exigir cada vez mais do Governo - vidé as exigências recentes do Compromisso Portugal - fica à vista a debandada de parte da esquerda que apoiou o PS em Fevereiro de 2005.

PS - Estes resultados não são boas notícias para António Costa em Lisboa. As asneiras políticas de Sócrates de que a falta de grandeza que as pessoas associam à sua acção contra o autor do blogue Portugal Profundo, e a ausência de uma atitude firme de repúdio pela acção da directora da DREN no caso Charrua ajudam a agudizar os afeitos nefastos do aumento do desemprego e das dificuldades crescentes de cada vez mais portugueses.

"Melancholia" de Anselm Kiefer
"Deves submeter-te por inteiro ao teu melhor momento, à tua maior recordação.
Temos que reconhecê-la como rei do tempo.
A maior recordação.
O estado a que devem as disciplinas todas levar-te. Ele, que dá razões ao desprezo e à justa preferência por ti próprio.
Tudo em atenção a Ele, que instala uma medida, instala graus, no teu desenvolvimento.
Devendo-se a outro que não tu - nega-o e sabe-o.
Centro de impulso, desprezo, pureza.
Imolo-me interiormente àquilo que eu desejaria ser!"
( Espécie de oração particular de O Senhor Teste de Paul Valéry)
"Temos de entrar em nós próprios armados até aos dentes."
( Primeira frase de Alguns Pensamentos do Senhor Teste de Paul Valéry )

Este post do "Ladrões de Bicicletas" contra a lógica simplista do "Fato Único" e a pretensa modernidade do "economês" mais pobrezinho.

Valentim estrebucha na televisão. Os gajos que fizeram o relatório são uns incompetentes. As contas estão mal feitas. Em Gondomar não há dívidas. "O quê? Tiraram os dados das Contas de Gerência? Aprovadas pela Assembleia Municipal? Onde é que isso fica? Quem são esses gajos?"
Valentim, geralmente bem sucedido nestes conflitos com a realidade, corre o risco de sair do primeiro lugar do pódio. Manuel Coelho, e a sua equipa económica, preprara-se para subir discretamente ao primeiro lugar. Uma honra para Sines. Depois de terem conquistado a medalha de prata sabia bem trocá-la por uma medalha de ouro. Bem vendida nos leilões virtuais podia ajudar a pagar aos fornecedores mais aflitos.

São imagens como esta que vendem as revistas de moda. Por breves instantes, contemplam-se imagens que nos querem levar para um outro lugar. Apenas por um instante, um breve salto, mas levam. Não são afinal as coisas breves que nos sustêm no ar, iluminados?

Quem o disse foi Ana Gomes, eurodeputada do PS ( aqui citada.) Uma entre algumas vozes socialistas que acham mal a reviravolta do Governo que aproveita a mudança de designação do Tratado Constitucional para sonegar aos Portugueses a possibilidade de o referendarem. Mais uma machadada no programa do Governo que diz: "(...) é necessário reforçar a legitimação democrática do processo de construção europeia, pelo que se defende que a aprovação e ratificação do Tratado deve ser procedida de referendo popular.(...)"

PS - entre os que acham que a necessida de referendar o Tratado se extinguiu com a mudança da designação destaca-se Sérgio Sousa Pinto. Um ex-jovem fracturante confortavelmente asilado na Europa. Um dos mais clamorosos erros de análise de Mário Soares nos últimos anos. Um bluff em vez de uma promessa. Como diz Paulo Gorjão um jovem muito velho na política piortuguesa.

No Insurgente, Patrícia Lanca faz auma análise técnica dos males do sexo anal homosexual, num comentário a um post de um colega seu do blogue. Uma comentário que não é para tímidos, como a própria adverte. Ou não será para aqueles que ainda usem o cérebro, como alguém comentou?

... para eu não gostar do major Valentim Loureiro. Então não é que a sua câmara roubou à câmara da minha terra - Sines - o titulo da que tem o pior índice de dívida a fornecedores, em função da receita total do ano anterior. Gondomar venceu a câmara liderada pelo comunista Manuel Coelho conseguindo um score de dívidas a fornecedores de 139% das receitas do ano anterior enquanto o autarca da CDU não conseguiu, apesar dos esforços, ultrapassar os 120%.
A Lei das Finanças Locais estabelece que um município cuja dívida ultrapasse em 50% as receitas totais do ano anterior está em situação de rotura financeira. Mas a Lei das Finanças Locais é uma coisa e o que o major, e os restantes majores do país, diz é outra.
Esta via - que não é comunista nem social-democrata - é a utilizada pelas autarquias que têm uma capacidade de endividamento à banca enorme e que por esse facto ultrapassaram o seu limite de endividamento. Recorrem aos fornecedores que funcionam aqui como as vitimas involuntárias da má gestão alheia. Claro que não é facil articular esta realidade com a defesa do tecido produtivo e do direito ao trabalho de muitos trabalhadores de muitas empresas asfixiadas por este tipo de gestão. Mas esse é um problema para Jerónimo de Sousa resolver.

PS - estes dados foram revelados pelo Anuário Financeiro dos Municípios Portugueses de 2005 e dizem respeito a 2005.

A ver pelo "culture for life" dentro de um coração, se calhar aceitam-se ideias de aquisições para a colecção Berardo. Apesar de ser uma leiga no assunto, não ser funcionária pública, nem ser sócia de nenhum clube de futebol, imaginem, até gosto de alguma pintura. E é só por isso que sugiro a aquisição de obras de Anselm Kiefer, de quem junto duas pinturas para sustentar a proposta.


António Mega Ferreira é o primeiro alvo do comendador Joe Berardo. Se a coisa continuar, e o Estado não fizer a vontade ao Joe, ainda o vamos escutar a invectivar o bom do António - assim promovido a uma espécie de Rui Costa do CCB - com o seu tradicional:"Fuck him".

Adenda: para uma análise séria das razões próximas e distantes do conflito ler aqui e aqui.

Carrilho manifesta, hoje no DN, a sua discordância completa com o acordo celebrado entre o Estado e Joe Berardo para a instalação deste no CCB. De uma forma resumida Carrilho afirma que o Estado fez um mau negócio e que a colecção foi avaliada por quatro a cinco vezes o seu valor real. Carrilho pensa mesmo que o acordo já deve estar a ser renegociado. Carrilho defende a tese de que mais valia esperar do que avançar com o acordo, uma tese contrária ao que Sócrates ontem defendeu ao criticar o "Estado" por não ter feito o acordo mais cedo.

Uma das questões centrais da construção europeia é o afastamento - melhor dizendo a separação - entre os cidadãos europeus e a nomenclatura política de Bruxelas e, por arrastamento, dos paises membros.
Esta realidade é desejada pelas diferentes forças políticas no poder que aspiram a ter uma opinião pública amorfa e conformada embora, nalgumas ocasiões festivas, os protagonistas façam redundantes discursos que expressam a profunda mágoa pela separação entre os cidadãos e a política e manifestam uma vontade inabalável de promover a participação cidadã e a aproximação entre os partidos e os eleitores. Palavras , apenas palavras. Na primeira ocasião lá estão eles a dar o dito por não dito e a tratar os cidadãos como atrasados mentais a quem se pode, com umas simples balelas, remeter ao seu estatuto idílico de amorfismo e de não participação nessa coisa tão sofisticada e tão complexa - só para eleitos e para eruditos - que é a construção europeia.
É o que está a acontecer agora com a manifesta vontade de não levar a referendo o Tratado Reformador, brilhantemente sintetizada na declaração de José sócrates de que "colocar a questão da ratificação neste momento diminui as condições portuguesas para levar a cabo uma tão exigente missão que é fazer o tratado".
Pensar, discutir , participar, decidir são direitos dos cidadãos cuja concretização coloca sempre um qualquer inesperado problema à classe política no poder. Quando não lhes ocorre mais nenhum declaram tão somente que por uma questão de patriotismo não devemos ir por aí. Só um anti-patriota se coloca na posição de contribuir com a sua atitude para diminuir as condições de êxito do país. (udo o que se faz na política em Portugal é, aliás, para melhorar as condições de êxito do país e ainda ontem por duas vezes o primeiro-ministro o lembrou a toda a gente mais ou menos com as mesmas palavras a propósito da Nokia e do Museu Berardo .)
Nesta altura devo declarar que me sinto um perfeito anti-patriota. Quero que haja um referendo sobre aquilo que a nomenclatura europeia aprovou e quero participar na discussão e na decisão com o meu voto.

... não se faz nada, meu querido. Terá sido isto, mais coisa menos coisa, que Joe Berardo afirmou a um atónito reporter da SIC ( Ricardo Serrano) ao lado de um Sócrates adepto - acabado de confessar - do surrealismo.

Maria José Nogueira Pinto acaba de esclarecer às televisões que entende o convite de António Costa como um convite profissional e não como um convite político. Ficamos esclarecidos.

a propósito do post do Eduardo Pitta o que eu acho mais extraordinário é a discriminação positiva dos "funcionários públicos portugueses, tal como os sócios de qualquer clube de futebol da primeira liga" que entrarão de borla. Imagino que durante as negociações Berardo terá sido intransigente na defesa dos superiores interesses culturais dos "sócios dos clubes da primeira liga" e que, confrontado com essa bizarria, o Governo exigiu a contrapartida dos funcionários públicos. E ainda há quem diga que o Governo elegeu os funcionários públicos como seus inimigos de estimação.

Este post de Eduardo Pitta no Da Literatura.
Demonstra bem como "o comendador" vai conseguindo o que queria: ter um Museu com o seu nome que lhe fosse lucrativo e estar na berra, ou mais formalmente, ter honras...


 

Pedra do Homem, 2007



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