A última edição do The Economist, cuja sugestiva imagem de capa reproduzo acima, analisa a evolução da recessão na America e a relação da economia americana com algumas das economias dos paises emergentes em particular a economia chinesa.
Logo a abir é feita uma comparação com a situação da grande crise de 1929. Escreve-se que "IN 1929, days after the stockmarket crash, the Harvard Economic Society reassured its subscribers: “A severe depression is outside the range of probability”.
"Outside the range", com a necessária tradução, é uma mensagem que tem sido por cá repetida até à exaustão quando se analisa a hipotética influência da crise do subprime na nossa economia. Quanto às previsões relativas à situação actual a coisa não mudou muito deasde 1929. Ainda de acordo como The Economist "In a survey in March 2001, 95% of American economists said there would not be a recession, even though one had already started. Today, most economists do not forecast a recession in America, but the profession's pitiful forecasting record offers little comfort. (...) More timely signs suggest that the economy could stall in this quarter. By early next year, output and jobs could be shrinking. The main cause is the imploding housing market. Experts said that house prices could never fall nationwide. But fall they have, by 5% in the past 12 months. Residential investment has collapsed, but a glut of unsold homes means that prices have much further to drop. Americans' spending is likely to be dented much more by a fall in house prices than it was in 2001 by the stockmarket's collapse. With house prices lower and credit conditions tighter as a result of the subprime crisis, households can no longer borrow against capital gains to support their spending.(...)"
A implosão do mercado da habitação - mais de 65% dos activos dos cinco maiores bancos portugueses eram crédito à habitação nos finais de 2005, segundo dados do Banco de Portugal - parece ser um cenário "outside the range" cá pela paróquia.
As más notícias para a economia americana não resultam apenas da crise do subprime estão igualmente relacionadas com a escalada do preço do petróleo. Quatro quintos do acréscimo de consumo de petróleo nos últimos cinco anos deve-se às economias emergentes, sobretudo a Chinesa e Indiana, e essa pressão da procura - para a qual a America contribui com apenas 20 % - explica o acréscimo de preços. Conclui o Economist que "In past American recessions the oil price usually fell. This time it is likely to hold up. That will not only hurt the finances of Western consumers, but may also make the jobs of their central bankers harder, by combining inflationary pressure with economic slowdown.(...)"

A crónica de António Barreto no Público de hoje de que saliento esta passagem(sublinhados meus): "(...) A história do tratado constitucional é a história de uma fraude política. Alguns povos recusaram a Europa mais ou menos federal, assim como a Constituição. Fez-se um tratado, praticamente igual, mais complexo, mais técnico, mais incompreensível. Com os objectivos explícitos de enganar a opinião; de aprovar furtivamente o que tinha sido recusado; e de evitar que houvesse novos referendos. Os argumentos dos defensores do tratado e opositores do referendo são intelectualmente pobres, politicamente autoritários, tecnicamente medíocres e moralmente condenáveis. Dizem que "não vale a pena"; que "o parlamento é tão legítimo quanto o povo"; que "é muito complexo e técnico" e, por isso, "incompreensível para o eleitorado"; que "é igual ao anterior"; e também que "é diferente do anterior"
Não é só no método e no processo que este tratado é uma fraude. Também no seu conteúdo. Sob a aparência de um melhoramento, concretizado em competências marginais conferidas ao Parlamento Europeu, este tratado é um dos mais potentes recuos da democracia na Europa. O Parlamento Europeu, pela sua natureza, estrutura e função, não é uma instituição favorável à democracia. Por outro lado, este tratado relega definitivamente os parlamentos nacionais para a arqueologia política e confere-lhes um estatuto tão relevante para a liberdade como o de uma qualquer direcção-geral dos recursos hídrícos.(...)"

"Confesso que cada vez que a confusão sobre o tema se pretende impor, mais me leva a concluir que, na verdade, a localização na OTA já está decidida, pese a "ingenuidade" que o Pre. da República mostra ou quer mostrar. Por um lado, na imprensa de hoje, António Vitorino diz: o Executivo tem, de primeiro escolher a localização do novo aeroporto e só depois, em função dessa escolha, definir o traçado do TGV. Por outro a RAVE contrata ( e não é barato!) o arquitecto Calatrava para colocar o terminus do TGV na Gare do Oriente. Parece que o sorriso dos últimos dias, mostrado pelo ministro Lino, são confiantes de que a OTA está escolhida. Ou foram contratar Calatrava para deitar fora dinheiro? É uma grande rabo de fora esta do Calatrava e simultaneamente nos estarem a querer convencer que nada está ainda escolhido. Mas será que julgam haver por aí tantos parvos?"

Adenda: A escolha de Calatrava inscreve-se na lógica de que os grandes arquitectos - em Barcelona a este chamam engenheiro, que é o que ele é - são facilitadores da aceitação das decisões, mesmo das mais disparatadas e cobrem as costas aos políticos, mesmo aos mais incompetentes. Mas talvez seja para o homem acabar a obra da estação do Oriente, talvez o pior sítio do mundo para se apanhar um comboio. Um descampado- cuja utilização pressupõe resistência às intempéries - no meio da cidade que deu muito jeito para o povo compreender a grande realização do génio lusitano que foi a EXPO 98.

"Parece que o tema "aqueceu" ou pelos menos a imprensa está a encontrar nele motivo para encher páginas nestes últimos dias. A preocupação da gestão portuária - das chamadas zonas devolutas ou dizendo que não há interesse portuário sobre elas - está a alastrar por vastos sectores a ela ligados.
Autarquias , como Lisboa, Sines e Oeiras vêm-nos dizer - jornais de hoje(dia 14) - que é preciso "transferir para os municípios as áreas que as Administrações Portuárias possuem mas que não as utilizam"Mas será que não serão precisas no futuro? Quem tal garante? E mostram-nos a "sua bondade" dizendo que não irão contruir nessas áreas. Que vão pôr lá então? Florzinhas? Se não vão contruir deixem-nas ficar sob jurisdição portuária pois só assim será um garante dum futuro desenvolvimento dos portos. Se a construção avançar - o que é óbvio quando se processar a tal transferência - os portos ficam travados (emparedados, atrofiados, dilacerados, etc.) no seu desenvolvimento. Os construtores civis não devem construir à borda de água. Há milhentos factores óbvios para esta recusa. Façam-no no lado oposto aos portos.Eu gostava de estar errado nesta matéria mas infelizmente nada me dá parecer no meu erro. Aguardemos a evolução das discussões que parece terem alertado os especialista do shipping."

Joaquim Silva

A mancha que o fumo branco da chaminé da Petrogal desenha na noite escura dirige-se para Sines. É o vento que, imagine-se, se atreve a soprar nesta direcção. Cheira muito mal. O tal cheiro nauseabundo que recomenda o rápido encerramento de portas e janelas. A coisa tem atacado mais ao fim-de-semana mas podia ser todos os dias, assim o vento quisesse.
Dou por mim a descobrir que a clássica e rotineira declaração do actual Presidente da Câmara de Sines deixou de ser actualizada. Há mais de seis meses que ele não declara solene: "dentro de seis meses o problema da poluição em Sines estará resolvido".
Espreito a página do Ministério do Ambiente e lá está a qualidade do ar em Sines sempre ao nível da excelência. Nada de novo, esta página nunca se deu bem com a nossa realidade tal como as sucessivas declarações do autarca. Infelizmente, para todos nós.


fotografia de Rene Burri

" O coração, se pudesse pensar, pararia ."
Fernando Pessoa

N'A Origem das Espécies, Francisco José Viegas sobre o incidente hispânico:

Interrompo a programação normal para ofender voluntária e deliberadamente os puritanos e restantes amigos que acham que o rei de Espanha não podia mandar calar o mandatario Hugo Chávez. Qualquer um poderia mandar calar o sujeito. Aliás, qualquer um devia mandar calar o indivíduo, até para podermos ouvir Zapatero, que tentava articular uma frase que não chegou a dizer.

Zapatero não defendeu Aznar. O que vi foi o actual presidente do governo espanhol a defender o seu antecessor. Um detalhe que não é apenas um detalhe; e que transforma a sua posição na mínima aceitável naquele forúm. O facto de Aznar ter procedido de forma diferente no passado não valoriza a posição de Zapatero, antes desqualifica aquele - Zapatero comportou-se como lhe seria exigido. Bem sei que, nos tempos actuais, isso poderá colocá-lo muito acima daquilo a que estamos habituados, mas não constitui, em si, uma prova de estadista brilhante.

Quanto a Juan Carlos, não fosse ele rei e muitas das críticas ouvidas teriam sido sonoros aplausos. Uma chatice, estas monarquias datadas quando comparadas com a nossa república perfeita.



Que relação existe entre um sacanner e um sobreiro? Perguntem a Paulo Portas e ele responderá: Portucale. Terá sido no âmbito das investigações sobre este alegado processo de tráfico de influências que o MP detectou a fúria scanadora que terá acometido o antigo ministro da defesa nos últimos dias do seu consulado.
O resto tem vindo nos jornais e já se sabe que nunca se saberá mais do que aquilo que agora foi divulgado.
Quanto ao caso Portucale nunca se saberá coisa nenhuma. Ou melhor sabemos que as obras foram retomadas - e as mais valias dirigem-se calmamente para o bolso do costume - e que o único - sempre é bom encontrarem algum, senão parece mal - responsável por todos os males - o ex-tesoureiro do CDS/PP, Abel Pinheiro - promoveu um incidente de recusa do juíz que trata do processo. A inauguração do empreendimento ocorrerá antes, muito antes, de a justiça ilibar o único acusado.


Via Arrastão
Entre um rei empertigado e um palhaço populista a minha opção também é por Zapatero, porque defendeu Aznar - um tipo execrável que, enquanto simples político, não merece qualquer defesa - pela única razão sensata: os espanhóis, que ele agora representa, elegeram, à data a Chavez se referia, Aznar como seu primeiro-ministro e o insulto de Chavez foi um insulto aos espanhóis.
Quanto a Chavez é mais uma tragédia para a América Latina. A sua vontade de se tornar no novo Fidel e as alterações ao regime constitucional que tem promovido para se perpetuar no poder são mais uma desgraça. Apesar da sua política de redistribuição da riqueza ser uma esperança para milhões de venezuelanos que viveram sempre na miséria extrema, explorados de forma impiedosa, isso não pode servir para que se aceite os evidentes propósitos ditatoriais de Chavez e a sua agenda para fazer da Venezuela um país não democrático, dominado por si.
Há sempre uma diferença decisiva entre a pior democracia e a ditadura mais populista: nas primeiras o povo pode sempre eleger políticos como Chavez, que chegou ao poder pela via democrática através do voto livre do povo, nas segundas as eleições pura e simplesmente desaparecem, como as oposições, e o poder passa a ser uma questão unipessoal.



Mas tinha de tomar partido. Um abraço, vizinho.

P.S.: Acho que voltei.

No meu post sobre a (in)evolução da oposição interna no PS referi-me apenas a Manuel Alegre, pelo seu manifesto valor simbólico. No entanto seria um lapso inaceitável omitir qualquer referência a Augsuto Santos Silva e a Sérgio Sousa Pinto. O primeiro chegou a ser uma esperança para a suposta ala esquerda do partido a que pertenceria. O chamamento de Sócrates e um lugar de ministro - a sua verdadeira vocação - fez dele imediatamente uma ex-esperança de qualquer ideia de esquerda dentro do PS. O acinte que caracteriza a sua intervenção política e parlamentar é directamente proporcional à convicção com que defende as políticas do Governo. A esquerda por ali jaz e arrefece. Neste caso pode dizer-se que Sócrates fez uma intervenção preventiva de reorientação de vocação. O segundo chegou a ser indicado por Mário Soares como uma esperança do socialismo democrático. Expedido, por quem o conhecia bem, para Bruxelas, por lá engordou, extinta a chama fracturante, bem instalado na vidinha. Revisitem-se as suas recentes declarações sobre o referendo ao Tratado Constitucional e ver-se-á como envelheceu de forma acelerada. Sócrates não precisou de lhe colocar qualquer mordaça já que a aposta falhada de Soares o apoioiu desde a primeira hora, que o ar de Bruxelas desenvolve como nenhum outro o delicado instinto de sobrevivência.

Lets dance in style, lets dance for a while
Heaven can wait were only watching the skies
Hoping for the best but expecting the worst
Are you going to drop the bomb or not?

Let us die young or let us live forever
We dont have the power but we never say never
Sitting in a sandpit, life is a short trip
The musics for the sad men

Can you imagine when this race is won
Turn our golden faces into the sun
Praising our leaders were getting in tune
The musics played by the madmen

Forever young, I want to be forever young
Do you really want to live forever, forever and ever

Some are like water, some are like the heat
Some are a melody and some are the beat
Sooner or later they all will be gone
Why dont they stay young

Its so hard to get old without a cause
I dont want to perish like a fading horse
Youth is like diamonds in the sun
And dimonds are forever

So many adventures couldnt happen today
So many songs we forgot to play
So many dreams are swinging out of the blue
We let them come true


Alphaville/ álbum Gold /1982

Tem sido muito referido o trabalho que o Público publicou no último domingo – da autoria da jornalista São José Almeida – e que atribui a Sócrates a autoria da eliminação da oposição interna no PS. Julgo que esta ideia, que fica como a ideia forte do referido trabalho, tem uma evidente má relação com a realidade. Julgo mesmo que acusar Sócrates da autoria desta secagem da oposição interna é a mais injusta de todas as acusações que lhe podem fazer.
A oposição interna no PS não existe há mais de uma década. É uma relíquia de um passado que não volta. Tal como o debate político. Aliás, não percebo como poderia existir oposição interna num partido que secou definitivamente o debate político, após a bem sucedida campanha dos Estados Gerais para um Nova Maioria?

Quando falo de secar o debate falo da sua eliminação nos locais onde ele existiu em tempos e nos quais era mais eficaz: falo das organizações ao nível concelhio e no processo que se iniciou no período pós 1985. Estou, aliás, plenamente convencido que o momento marcante do regresso ao poder do PS nas eleições de 1995 não foram o Estados Gerais mas sim a campanha eleitoral autárquica de 1993, que permitiu ao PS conquistar um grande número de municípios importantes e tornar-se o maior partido autárquico. (Esta tese não é defendida, ao que sei, por quase ninguém, embora não seja impossível encontrar algum especialista em lugares comuns a debitar algo do estilo: “bom, todas as contribuições tiveram a sua importância…") Coordenou essa campanha, cujo lema era "As pessoas primeiro" um então jovem deputado de nome José Sócrates. Nesse período o PS era um partido aberto à participação de todos os cidadãos e receptivo ao debate. A paupérrima organização interna, o muito baixo nível de militância e o previsível longo afastamento do poder – Cavaco estava, por essa altura, de pedra e cal e o Partido Comunista ainda era esmagadoramente maioritário no Alentejo – criavam as condições propícias à receptividade das contribuições exteriores e à abertura à sociedade civil. Não havia nada para distribuir e quem se aproximava do partido não vinha por interesse e não constituía um perigo já que a expectativa de partilha das prebendas do poder era apenas... uma miragem. Nas eleições autárquicas de 1993 houve distritos, como o de Setúbal, em que o PS praticamente só candidatou independentes e nalguns casos nos lugares elegíveis não figurava qualquer militante. Esta realidade tinha reflexos na vida interna do partido e na intervenção partidária ao nível local mas, em boa verdade, não se repercutiu nos níveis superiores de direcção. As estruturas distritais, poderosas a distribuir lugares e a nomear pessoas nos períodos em que o PS está no poder, mantiveram o processo sob controlo. Por essa altura o PS era um partido, com a influência de muita gente vinda da sua esquerda e que não se identificava com o PCP, com um tipo de intervenção com um pendor muito mais social-democratizante, com um discurso inovador na gestão autárquica, introduzindo a crítica ao peso dos interesses da especulação imobiliária na gestão municipal – a gestão comunista no Alentejo, sobretudo no Litoral, era um bom exemplo – em detrimento de uma lógica de planeamento e de defesa do interesse público, introduzindo a necessidade de reformar o próprio modelo de governação municipal, tendo em 1993 apresentado pela primeira vez uma alternativa ao sistema vigente.

Mas, em 1995 o PS ganhou as eleições com Guterres, e com Jorge Coelho, e com uma legião de ex-comunistas que foram directamente cooptados para o nível de direcção, sem terem passado por qualquer nível de militância inferior. O caso Pina Moura é apenas o mais conhecido e o mais bem sucedido, transformado num ápice de ex-futuro-próximo delfim de Cunhal em Cardeal de Guterres.
Com o poder na mão o PS esqueceu rapidamente os tempos das agruras da oposição e parte significativa das promessas que fizera. Esqueceu, sobretudo, os hábitos do debate interno que o ajudaram a recuperar da letargia em que mergulhara na longa travessia do cavaquismo. As sedes do PS passaram a ser locais mais inacessíveis e os independentes, com anos de militância no partido, passaram a ser vistos como new commers, a serem olhados de soslaio, encarados como concorrentes aos lugares de nomeação política e/ou aos lugares nas listas de deputados. Ainda hoje está por entender bem o significado da famosa frase de Guterres "no Job for the boys", ele que presidiu a um Governo que nomeou milhares de boys, muitos dos quais tinham permanecido tranquilos em casa quando o PS se arrastava pela oposição, entretidos a limparem o pó ao carácter histórico da sua ligação ao partido. De um período em que encontrar um candidato autárquico era uma verdadeira epopeia o PS, em 2007, passou a deparar-se com a necessidade de escolher entre vários candidatos ao mesmo lugar. Isto apesar do debate interno se ter tornado residual quando não nulo. Os níveis inferiores do partido – abaixo do nível distrital – deixaram de ter qualquer possibilidade de discutir as questões políticas. O Governo passou a ser o nosso Governo e a única atitude aceitável passou a ser o silêncio e o conformismo. Discutir, questionar, propor alternativas eram iniciativas que só podiam levar à desestabilização e que levariam, a serem prosseguidas, à criação de problemas ao “nosso Governo”. As Comissões Políticas Distritais – distribuídos todos os lugares disponíveis desde os administradores das empresas desconcentradas da Administração Central aos simples directores de Centro de Emprego – quase sempre tuteladas pelo Governador Civil em exercício, trataram de garantir que tudo voltava ao ritmo normal. Ao silêncio e ao conformismo militantes. Julgo que este processo, cuja responsabilidade maior não pode deixar de ser assacada a Guterres enquanto secretário-geral do PS, teve o seu mentor e principal executante em Jorge Coelho, por essa altura a iminência parda do partido para as “questões da organização interna”. Apoiado por alguns ex-comunistas com uma longa experiência do centralismo democrático, e ele próprio com a origem na extrema-esquerda, constituiu um sólido núcleo central que passou a submeter todo o partido. As organizações distritais foram fundamentais para concretizar esse trabalho com a tecitura de uma teia de fidelidades ao nível concelhio.

No final da experiência guterrista o partido estava de rastos e o debate político interno não era mais do que uma reminiscência do passado. O PS tinha acabado o ciclo em que evoluíra, rapidamente, de um partido de militantes para um partido de eleitores. Desde essa altura as organizações concelhias passaram a ser dispensáveis até porque as campanhas eleitorais já não dependem do esforço militante, as agências tratam de tudo incluindo os figurantes para as televisões. Quando Sócrates venceu as eleições para Secretário-Geral não foi porque tivesse apresentado o melhor programa ou o melhor projecto ou qualquer projecto. Pura e simplesmente todos os cidadãos inscritos no PS sabiam que ele era o melhor colocado para levar o PS de novo ao poder. Essa era a única questão que interessava: o acesso rápido ao poder. Não para transformar a sociedade, para aplicar o programa do partido, para concretizar esta ou aquela política concreta mas, tão somente, para, estando no Governo, permitir que cada um dos cidadãos inscritos pudessem ascender a um qualquer nível de poder de acordo com as suas capacidades. Infelizmente, como muitas vezes acontece, muito para lá das suas capacidades.

O PS não tem hoje qualquer programa que não seja gerir melhor do que o PSD a mesma coisa: o Governo. Na Educação, na Justiça, na Saúde, nas políticas territoriais, nas questões económicas, na promoção da justiça social, no combate às desigualdades sociais, no combate à corrupção, o PS não se distingue de qualquer outro Governo do PSD ou do PP, que tenham governado o País. Apenas na eficácia que é a imagem de marca socrática. Eficácia no combate ao défice essa nova grande realização do engenho socialista. Eficácia que pode, ao que parece, ser medida independentemente do conteúdo das políticas. Independentemente do número de desempregados, do aumento das desigualdades sociais, da contínua divergência com a UE. Sócrates sabe melhor do que ninguém que só isso interessa à esmagadora maioria dos cidadãos que integram o seu partido. Se ele governa à esquerda ou à direita, isso é pura e simplesmente irrelevante. O que interessa é que governa e com sucesso, seja lá isso o que for. O que interessa é que os outros estão atrapalhados, incapazes de dar a resposta adequada como acontece com o PSD. Não existe nada que mais encha de orgulho um socialista. O facto de isso acontecer por a governação ter virado à direita não é suficiente para diminuir esse orgulho. Qualquer cidadão socialista sabe que as coisas são assim porque não podem ser de outra maneira, porque são assim em todo o lado, por causa da Europa, por causa da globalização e etc. Se argumentarmos com o facto de ser este o partido socialista mais à direita no contexto europeu, de ser o menos social-democrata – uma tragédia para este país e um maná para os muitos interesses que vampirizam o Estado – a generalidade dos cidadãos inscritos no PS ou que votam PS encolherá os ombros.
Por isso, apenas por estupidez muito superior ao normal, Sócrates teria necessitado de calar a oposição interna. Manuel Alegre, como se vê com o seu famigerado milhão de votos à deriva, é a oposição que faz falta para não haver oposição. Em tempos dizia-se que com Alegre estava assegurada a discussão suficiente para não haver discussão nenhuma. Entretanto as coisas pioraram. Não existe oposição interna e Sócrates com a sua aspereza seria capaz de afirmar que ninguém no seu juízo perfeito gasta energias a combater adversários que estão antecipadamente vencidos.
E depois a política, enquanto actividade profissional, é uma actividade que depende sobretudo do bom comportamento. É uma carreira curta mas que paga bem, mesmo depois de ter aparentemente terminado, veja-se o percurso de tantos e tão afamados gestores públicos e privados. Mas, para isso é preciso muito tento e muita prudência e a necessária flexibilidade da coluna. Ora, no PS todos conhecem Sócrates e o seu staff. Todos sabem que quem se mete com eles – com o PS, como dizia o o outro - mais tarde ou mais cedo paga-as. Se quisermos encontrar um bem escasso na política é a coragem que devemos procurar . Coragem que não abunda na generalidade do pessoal político – e o PS não é excepção – e que olha para política como quem olha para a sua carreira. Todos sabem, as excepções contam-se pelos dedos de uma mão com poucos dedos, que o lugar que ocupam não é fruto do mérito individual e todos sabem que se há lugar em que a meritocracia não se aplica é na política.
Quem falou em mordaça à oposição interna?

"Que foi que deu ao PÚBLICO, para trazer hoje tão demagógico título?Então a RAVE pensa que os TGV vão movimentar por dia em Lisboa 17000 passageiros!!!Mesmo se a RAVE eliminar todos os combóios existentes não alcança esse valor. E mesmo que alcançasse só fazendo parar os TGVs nas mesmas estações onde param hoje os Alfa, os Inter e os Talgos/Madrid e com bilhetes ao mesmo preço.O fututo TGV Tanger - Marraquech (500 km) só pára duas vezes em Rabat e Casa.E diz-nos que se vão perder 5.000 passageiros por dia que não querem passar por Alcochete!Que passageiros são esses? donde vêm?Que a Rave orquestre tanta demagogia está no seu direito atendendo ao que sabemos do que querem defender; agora que o PÙBLICO atire com ela para cobrir toda uma 1ª página...será que dia do Magusto passou ao das mentiras?"

Joaquim Silva

O Centro Cultural Emmérico Nunes criou o seu blogue com o objectivo de divulgar as actividades do centro.

A questão colocada pelo comandante Ferreira da Silva leva-me a outra: será que faz sentido apenas reconverter urbanisticamente os espaços portuários devolutos ou aquilo que faz todo o sentido é repensar a relação entre as cidades e as suas frentes de água e nesse contexto tomar as decisões estratégicas mais adequadas a um desenvolvimento urbano sustentável? Que podem passar por mudanças na localização das atividades portuárias ou podem definir intervenções que se articulem com o essencial das localizações actuais.
No entanto, antes de voltar ao tema num futuro post, quero referir que as relações entre as cidades e os portos têm sofrido uma evolução ao longo dos tempos mas em todos os casos emerge uma característica paradoxal que se manteve até aos nossos dias: a expansão e o desenvolvimento urbano fez-se de costas voltadas para a água. Esta evolução acentuou-se ao longo dos tempos com aquilo que diferentes autores referem como a passagem da cidade porto para a cidade com porto.
Nas primeiras, a cidade e o porto estavam fortemente interligados não existindo uma separação física entre uma área especializada e o resto da cidade. A actividade comercial centrada no porto era essencial para a actividade economica da cidade e confundia-se com a própria actividade económica da urbe. Com a evolução para as cidades com porto, o porto organiza-se de forma autónoma relativamente ao restante espaço urbano, com especialização funcional de vastas áreas de terrenos, mobilizadas para dar resposta às novas necessidades induzidas pela evolução tecnológica do transporte de mercadorias. O acesso ao porto passou a ser condicionado. A cidade cresceu para o interior e como referem alguns autores(1) as áreas portuárias assumiram-se como áreas periféricas da cidade, com as suas actividades industriais, os armazenamentos de baixa qualidade e com a crescente e iniludível poluição das frentes de água urbanas. Com este processo importantes áreas de espaço público urbano ficaram inacessíveis aos cidadãos separadas do teritório municipal pelas restrições de acesso impostas pelas autoridades portuárias.

(1) - Quem melhor pensou estas questões, e melhor escreveu sobre elas, neste país foi o sociólogo Vitor Matias Ferreira, pofessor catedrático no ISCTE, coordenador da obra referida no meu post anterior. Vale a pena ler todos os seus texto sobre esta matéria. Ler e pensar.

... aconteceu durante a fortíssima intervenção final de Francisco Louçã, a colocar o dedo na ferida da iniquidade deste Orçamento, com as câmaras a percorrerem a bancada socialista com os deputados de cabeça baixa incapazes de encarar de frente a realidade traduzida nos dados que Louçã esgrimia. Cabeça baixa sobretudo quando o líder do Bloco acusou o PS e o Governo de apresentarem o Orçamento da desistência e do conformismo, o Orçamento dos grandes negócios do séulo XXI para os interesses e das agruras reforçadas para a generalidade das populações. Um Orçamento de um partido e de um Governo que apenas por coincidência ostentam no nome a designação de socialista.

"(...)Em minha opinião pessoal continua a ser dificil considerar quais os terrenos devolutos portuários de modo a classifiá-los de dispensáveis das actividades portuárias.Os exemplos portuários que apresentou no seu texto resultaram duma politica clara e precisa do que se desejava para o futuro dos portos em referência. Só não assisti à evolução dos portos da Australia.Por exemplo, no caso de Lisboa, ainda não se conhece por onde será expandida a área da contentorização. Será em Alcantara, terra adentro? Será no Dafundo? Será na Golada, margem sul? Onde?Sem tal definição política como dirigir a politica dos terrenos?Seria bom que se ouvissem outras doutas opiniões sobre o tema.(...)"

Joaquim Silva

Correu por estas páginas, quase exclusivamente por mérito das intervenções do comandante Ferreira da Silva, uma discussão à volta das relações entre os Portos e as Cidades.
Cabe-me agora a vez de dar a minha contribuição, já um pouco atrasado é certo, para um debate que me interessa particularmente, embora por razões distintas daquelas que motivaram os meus ilustres antecessores.

Do meu ponto de vista esta questão das relações entre as cidades e os portos inscreve-se no capítulo mais vasto da discussão sobre as formas de desenvolvimento urbano. Para esse desenvolvimento contribuem um número significativo de variáveis políticas, em particular a forma como a Administração Pública se relaciona com os terrenos urbanos devolutos (aqueles cuja vocação inicial se extinguiu). Estes terrenos representam, do meu ponto de vista, uma oportunidade única (ler
aqui) para as Cidades e um poderoso instrumento que podemos, ou não, colocar ao serviço de uma verdadeira Política das Cidades.
Por esse mundo fora a reciclagem urbana - expressão adoptada para descrever o processo de reutilização urbana de terrenos devolutos - é encarada como um instrumento poderoso ao serviço das diferentes políticas urbanas. Este aspecto pode ser decisivo sobretudo num país em que o desenvolvimento urbano é determinado não pelas necessidades dos diferentes grupos sociais mas pelos interesses dos principais promotores que intervêm na cidade. Países em que, por detrás da retórica e da aparente ditadura legislativa e do suposto peso insuportável do Estado, são os privados que controlam latus sensus o processo de desenvolvimento urbano. Um país como o nosso, diga-se.
Para recorrer ao jargão do mercado, um país em que os interesses da
oferta são dominantes e em que os interesses da procura são desprezados, quando não se adequam aos interesses daquela. Oferta e procura de espaços edificados, e espaços complementares dos edificados, para a habitação, o lazer, o comércio e a industria, entenda-se. Isto apesar do imperativo constitucional todos os dias desprezado.

Para que as Administrações Públicas possam voltar a ter uma palavra a dizer no processo de desenvolvimento urbano, quebrando a hegemonia de que os promotores dispõem, sobretudo nos casos em que a legislação urbanística não consagra mecanismos de socialização das mais-valias urbanísticas ou da sua eficaz tributação, é muito importante – embora não seja a única forma disponível - a forma como essa mesma Administração se relaciona com os espaços urbanos devolutos.

Os terrenos recicláveis são entre outros os usados por instalações militares, entretanto tornadas obsoletas quer pelas alterações sofridas pela instituição militar quer pela sua localização, engolida e tornada ineficaz pelo crescimento urbano, por zonas industriais abandonadas, por instituições ligadas à saúde, com áreas anexas muito elevadas e que se tornaram inadequadas ao seu fim e com custos de manutenção insuportáveis ou, o que interessa mais para aqui, por extensas áreas portuárias que não são já hoje necessárias ao desenvolvimento dessa actividade ou que, pela sua localização, se entenda serem melhor utilizadas para outras funções urbanas existindo alternativas de localização equivalentes para as actividades portuárias.

As áreas portuárias interessam-me do ponto de vista do desenvolvimento urbano e do interesse da cidade, não me parecendo que a questão se possa reduzir a uma lógica da cidade a comer o porto ou, ao contrário, do porto a comer a cidade, muito menos que essa lógica tinha uma expressão geográfica que permita adaptá-la a uma divisão entre o Norte e o Sul.
Deve existir uma articulação entre os interesses da cidade e do porto sendo certo que em termos ideais eles devem ser, se não coincidentes, pelo menos complementares.
Mas esta discussão poderia levar-nos, num dos seus múltiplos capítulos, à velha questão dos portos poderem ou não ser geridos pelas autarquias ou pelas administrações regionais – que não existem, em Portugal. Convenhamos que no caso das nossas autarquias, com a pessoalização do poder, a hipersensibilidade para com os interesses do imobiliário, a prevalência de uma lógica de gestão casuística em detrimento de uma lógica de planeamento e com o caciquismo a prevalecer sobre a alternância democrática, é um cenário, que admito, potencialmente assustador. A menos que entendamos como um objectivo estimável assistirmos à futura urbanização das vastas àreas portuárias.

Existem diferentes modos de conceber a reconversão de áreas urbanas situadas em frentes de água. Os diferentes autores(1) que se debruçaram sobre esta questão estudaram não só os diferentes objectivos e estratégias que estão na base da implementação destas reconversões como tentaram sistematizar os diferentes modelos de intervenção.
É consensual a identificação de três modelos e o aparecimento mais recente de um quarto muito ligado ao conceito de cidade ocasional e aos grandes eventos a ela associadas.

Um primeiro modelo, ou modelo americano, que historicamente é referido como aquele que desencadeou o processo de reconversão em frentes de água esteve desde sempre vocacionado para o turismo, lazer e recreação. São citadas, entre outros, os casos de Bóston, Baltimore, Chicago, Toronto e Montreal.

O segundo modelo, que corresponde á difusão do modelo americano pela Europa, aposta sobretudo no “terciário de negócios” adquirindo particular importância as estratégias adoptadas para a captação do investimento privado. A desregulamentação e a flexibilização da regulamentação e da gestão urbanística são os instrumentos a que a Administração recorre para que possa seduzir o investimento privado. Marselha, Londres, Sydney, Tóquio, Melbourne são exemplos apontados entre outros. (será que isto lhe lembra qualquer coisa?)

No caso do terceiro modelo definem-se estratégias globais de regeneração e reestruturação urbanas sempre com o objectivo primeiro de promover a coesão social, combater a segregação espacial dos mais desfavorecidos, reequilibrar as funções urbanas e promover a requalificação dos quarteirões periféricos e a revitalização das zonas centrais, em geral envelhecidas e desertificadas. Interessam aqui muito mais os actores e as parcerias, quer entre os diversos níveis da Administração e entre estes e os privados, do que a atracção do investimento privado a qualquer preço. Este terceiro modelo é aquele em que a intervenção se faz ao serviço de uma verdadeira Política das Cidades. Amesterdão, Newcastle, Barcelona, antes dos jogos Olímpicos, e Roterdão são os casos mais estudados e mais referidos.

O quarto modelo aparece associado à realização de grandes eventos, como no caso dos Jogos Olímpicos de Barcelona(92), da Expo em Lisboa(98) ou de Vancouver em 1986. Nestes casos a intervenção insere-se numa estratégia de reforço da competitividade de uma dada cidade no contexto internacional. Como se verificou em Lisboa, com a falcatrua do investimento público zero, e em Barcelona, com a degradação do afamado modelo de Barcelona e a subida exponencial dos preços da habitação, esta cidade ocasional não é estranha aos interesses dos grandes promotores imobiliários e sobretudo contribui para acentuar a segregação espacial das populações de acordo com o seu poder económico.

No caso de Lisboa é para mim evidente que o porto e a cidade não têm sabido coexistir de forma harmoniosa. A gestão pelo porto de vastas áreas urbanas e sobretudo de quase toda a frente rio não tem sido positiva para a Cidade e tem contribuído para acentuar um aparente divórcio entre os cidadãos e o rio.
Há em primeiro lugar que referir uma questão de principio: no território urbano a única autoridade é, e deve ser, a autoridade municipal.
Todas as áreas urbanas devolutas pertença da Administração Pública devem vir á posse do poder municipal e devem ser utilizadas ao serviço da sua política urbana. Isto é válido tanto para as áreas portuárias como para as áreas militares ou outras. Utilizar estes terrenos e o seu potencial construtivo para através da sua venda ajudar a combater o défice é um péssimo serviço ao país e ao futuro. Tem sido aquilo que tem sido feito quer pelo PSD/PP quer pelo PS. Talvez em nenhuma matéria como esta o Bloco Central corresponda a uma tão rigorosa identidade de objectivos e de políticas.

Vale isto por dizer que as tensões que se instalam entre o Governo, a APL e a autarquia da capital, passam pela disputa deste território mas, infelizmente, ao redor de um consenso nefasto sobre a forma de intervenção. A cidade beneficiará da recuperação de áreas outrora abandonadas e os privados que concretizam a ocupação dos espaços outrora devolutos, libertando algum espaço público(???) residual, beneficiam da acumulação das mais-valias urbanísticas colossais geradas por este tipo de operações. Quem detiver o poder para a reconversão ficará com o capital político associado ao dinamismo que este tipo de intervenção pressupõe. Os privados ficarão com o fillet mignon da operação : as mais-valias simples. A cidade que resulta será mais elitista, mais segregada, mais organizada segundo meros critérios de capacidade sócio-económica dos seus cidadãos. Uma cidade menos solidária, menos inclusiva, menos competitiva, para recorrer ao jargão dos novos pato-bravos do urbanês que vai liquidando as nossas cidades e o futuro dos seus cidadãos.


(1) – Ler a este propósito o texto do Eng.º Civil, Miguel Branco Teixeira, “Reconversão de Áreas Urbanas em Frentes de Água” – publicado no livro “ A cidade da Expo 98” de Vítor Matias Ferreira e Francesco Indovina – baseado na sua tese de mestrado em “Planeamento Regional e Projecto e Ambiente Urbano” com o título “Reconversão de áreas urbanas obsoletas localizadas em frentes de água”.


Pintura de Gustave Courbet (1819-77) - óleo s/ tela - Museé d' Orsay, Paris
O ritmo é a substância das coisas.
O som é o espírito da cor.
O Poeta e o Herói são dois milagres; contradizem a Natureza, como duas pedras que voassem.
Os animais são pessoas, como nós somos animais.
O homem é pedra e fogo, incandescência solar, espectro a arder.
O que há de belo, na criatura, é o ponto em que ela hesita entre o pessoal e o universal.
Andamos e não chegamos. O andar é tudo: princípio e fim.
in Antologia de Teixeira de Pascoaes, Assírio & Alvim, 2002

Elizabeth, The Golden Age
Elizabeth reinou entre 1559 e 1603.

A Câmara de Sines iniciou o processo de revisão do PDM do concelho, já objecto de uma meia dúzia de anúncios anteriores que apenas produziram efeitos para fins eleitorais.
Mas desta vez parece que o processo vai mesmo andar. A autarquia insiste no CESUR como o seu parceiro para a realização deste trabalho, com a colaboração a adquirir a forma de um protocolo(*) (disponível para consulta na página da autarquia, saliente-se).O coordenador da revisão do PDM é o professor Manuel Costa Lobo, um dos mais notáveis urbanistas deste país e uma garantia de trabalho sério e muitíssimo qualificado.
Mas, o planeamento sendo, ou podendo ser, um acto eminentemente democrático depende sobretudo da participação dos cidadãos. Por isso aqui fica o apelo: Participe!!!
No site da Câmara pode perceber quais as formas como essa participação pode ser possível e eficaz, agora e já.
Por mim irei ficar atento na minha condição de cidadão ao evoluir da coisa e a ela voltarei sempre que possível. Lembro no entanto a forma desagradável como foram tratadas as diferentes formas de participação na fase da discussão pública dos PP´s e dos PU´s. Uma paródia da participação, vencida pela soberba do supostamente infalível conhecimento técnico.

(*) - Não concordo, por príncipio, com a adjudicação deste tipo de seviços sem que exista um concurso público aberto. Julgo que devia ser proibido, aliás.
No entanto, enquanto vereador da autarquia de Sines entre 1993 e 2001, votei favoravelmente a adjudicação de serviços de planeamento a esta mesma entidade, por uma via semelhante. Entretanto mudei de posição por entender que a aquisição de serviços pelas entidades públicas deve ser aberta a todos os que tenham competência para o realizar com a escolha a ser determinada pelos critérios legalmente estabelecidos. Não faz qualquer sentido que sejam retirados do mercado centenas de milhares ou de milhões de euros de serviços por esta via ou por outra. Trata-se de uma situação que impede a formação de mais e melhores empresas e que por essa via impede a criação de muitos milhares de postos de trabalho, afectando sobretudo os jovens licenciados. Fragiliza um mercado que deveria funcionar em regime de concorrência aberta e democrática. Por outro lado não existe nenhuma vantagem em ter um fornecedor único neste tipo de matéria, ou em qualquer outra, como a experiência largamente demonstra.


de Caspar David Friedricht (1774-1840)
- On board a sailing ship (1818-1820) - óleo s/ tela ( 71 cm x 56 cm)

... na colecção do Hermitage .

É o título do post de Ana Gomes no Causa Nossa. Cito: "A Russia abarrota de rublos do petróleo e do gás. E tanto Putin como os novos magnates e mafiosos de Moscovo comprazem-se em ostentar a opulência. A Exposição do Hermitage em Lisboa serve obviamente para projectar a grandeza russa passada no presente.Mas o que é inacreditável é que quem paga não são os abastados russos: somos nós, os pelintras dos portugueses, porque o erário público é suposto “entrar” ao lado dos financiadores privados portugueses, laboriosamente angariados pelo Ministério da Cultura. Não chegava cedermos o Palácio da Ajuda... (...)De qualquer sorte, esta Exposição já vai ficar nos anais: como demonstração da mais deslumbrada parolice. Com a agravante de querer fazer de todos nós tolinhos!"

Ler ainda da mesma autora: "Putin, o desmancha-prazeres" e "Direitos humanos: a lebre de Putin"

As sondagens divulgadas este fim de semana vieram mostrar que decresce a olhos vistos o apoio de que goza o Governo, o primeiro-ministro e o vegetativo partido que o suporta.
Nada de novo: as sondagens traduzem, de uma forma mais ou menos rigorosa, aquilo que já aconteceu. São uma tentativa de quantificação, diferida no tempo, de uma realidade que as precedeu. Realidade cujo tempo de construção é lento mas inexorável. Construção que se alimenta da falência das expectativas das pessoas com as políticas concretas. Da falência e do choque, mais vísivel á medida que o tempo passa, entre as promessas que determinaram o sentido dos votos e os resultados para as pessoas dessas políticas.
Neste sentido ninguém no seu juízo perfeito pode mostrar qualquer sinal de estranheza com o plano inclinado em que parecem mover-se Jósé Sócrates e o seu Governo. Mesmo Menezes, e o PPD/PSD de que o outro gosta de falar, podem ser de mais para um primeiro-ministro e um Governo tão pouco socialistas.

Sampaio defendeu no SOL a realização de um referendo sobre o Tratado Europeu, como uma "oportunidade única para finalmente se realizar a primeira consulta popular directa sobre as matérias europeias, o que a recente revisão constitucional veio permitir.(...)"
Não se percebem nesta polémica os argumentos dos que não querem ouvir falar do referendo. A discussão é empobrecedora, impossível sobre matérias tão sofisticadas, o povo não quer saber destas coisas, o Tratado é diferente da Constituição, etc,etc. Trata-se afinal de realizar uma consulta popular e dessa forma saber o que pensa, ou não pensa, a população sobre a matéria. Trata-se de saber se porventura a população tem uma ideia clara ou se tem claramente uma absoluta falta de interesse pela questão, preocupada tão somente com os dinheiritos que nos chegam.
Aos cépticos e aos ferozmente contra por razões de pura política partidária, falta apenas a apresentação de uma nova tese sobre o verdadeiro papel do povo na democracia representativa. O verdadeiro papel e a verdadeira importância, já agora.

Pertence a Luís Campos e Cunha, o ex-minisro das Finanças de Sócrates, que afirmou a propósito do regresso de Santana Lopes: "(...) Sócrates vai ter um interlocutor no Parlamento do seu nível político e intelectual(..)"
Tantas citações depois, um homem tem que ouvir uma comparação destas.

As Novas Fronteiras foram sempre um remake do movimento que Guterres lançou e que contribuiu para a sua vitória em 1995. Um remake com mais, muito mais, show off e menos, muito menos, conteúdo. Afinal Guterres, com a sua imagem pouco apelativa, era quele que dizia que "a minha imagem é o meu conteúdo". Imagine-se Sócrates reduzido ao seu conteúdo.
Vem isto a propósito de mais uma edição do "Fórum Novas Fronteiras" que serviu, desta vez, para assinalar a positividade do "Saldo da Balança Tecnológica" facto inédito neste País e expressão fiel da excelência deste governo e desta governação, passe a ironia. Claro que esta edição do Fórum foi marcada, no sentido literal do termo, pelo facto de terem aparecido algumas sondagens e ter ocorrido uma manifestação que visaram o Governo. Daí a necessidade de alguém fazer o papel de defensor do Governo. Segundo parece coube a António Vitorino a urgente tarefa. Uma boa escolha, sem dúvida: se existe alguém neste país vocacionado para a defesa dos interesses é António Vitorino. Ora, o Governo é desde há muito um interesse que paira acima, e longe, do interesse da generalidade dos portugueses. Da generalidade mas não de todos acentue-se: a desigualdade social não pára de crescer, embora o assunto não tenha sido discutido no tal carcomido Fórum.



não só esteticamente bonita, é também uma inteligente aposta nas energias alternativas, não poluentes. Esta estação de energia eólica no mar foi implantada em 2002 na Dinamarca.

I'm staring at a broken door,
There's nothing left here anymore.
My room is cold,
It's making me insane.
I've been waiting here so long,
But the moment seems to 've come,
I see the dark clouds coming up again.

Running through the monsoon,
Beyond the world,
To the end of time,
Where the rain won't hurt

Fighting the storm,
Into the blue,
And when I loose myself I think of you,
Together we'll be running somewhere new

Through the monsoon.
Just me and you.

A half moon's fading from my sight,
I see your vision in its light.
But now it's gone and left me so alone

I know I have to find you now,
Can hear your name, I don't know how.
Why can't we make this darkness feel like home?

Running through the monsoon,
Beyond the world,
To the end of time,
Where the rain won't hurt

Fighting the storm,
Into the blue,
And when I loose myself I think of you,
Together we'll be running somewhere new
And nothing can hold me back from you.

I'm fighting all this power,
Coming in my way
Let it sail me straight to you,
I'll be running night and day.

I'll be with you soon
Just me and you.
We'll be there soon
So soon.

Running through the monsoon,
Beyond the world,
To the end of time,
Where the rain won't hurt

Fighting the storm,
Into the blue,
And when I loose myself I think of you,
Together we'll be running somewhere new
And nothing can hold me back from you.

Through the monsoon.
Through the monsoon.
Just me and you.


Tokio Hotel - Through The Monsoon



Canções Egípcias

Ela:
Meu amado
como é doce banhar-me perante ti
deixar que a minha nudez se revele
por debaixo da
túnica molhada
Mergulhar contigo
e voltar a emergir
com um bonito peixe vermelho
entre os dedos

Ele:
Quando ela me acolhe
com os braços abertos
um perfume delicioso e estranho
me envolve
como se tivesse chegado agora
da longínqua Punt
E quando a vejo
o fogo sobe-me à cabeça
e sinto-me bêbedo
sem ter bebido

Ela:
O teu amor penetra o meu corpo
como o vinho a água
quando a água e o vinho se misturam


Anónimo, Egipto, séc. XI A.C.


(clicar sobre a imagem para visualizar ecrã inteiro)

Pouco passava das 8 da manhã (hora de Lisboa) quando o A380 aterrou no aeroporto internacional de Sidney, na Austrália. A fotografia em baixo mostra um pormenor do seu interior. Para mais navegações em língua portuguesa: aqui

O discurso de Paulo Bento no final do jogo com o Roma, mais do que convocar os Gatos para mais um sketch, deixa-nos uma vaga sensação de familiariedade com outros discursos que por aí pairam. Senão vejamos o que declarou, com muita tranquilidade, P.B. no final do jogo: "Neste jogo tinhamos como primeiro objectivo ganhar e era muito importante não perder. Estivemos perto deste segundo objectivo, mas não o conseguimos. Logo, o jogo de Lisboa torna-se mais decisivo para a nossa qualificação para os oitavos-de-final da Champions. Ganhar (...) sabendo que a Roma tem grande qualidade(...)" etc, etc,
Caso para dizer: importa-se de repetir?

Numa noite em que o céu tinha um brilho mais forte
E em que o sono parecia disposto a não vir
Fui estender-me na praia, sózinho, ao relento
E ali longe do tempo, acabei por dormir

Acordei com o toque suave de um beijo
E uma cara sardenta encheu-me o olhar
Ainda meio a sonhar perguntei-lhe quem era
Ela riu-se e disse baixinho: estrela do mar

"Sou a estrela do mar só a ele obedeço
Só ele me conhece, só ele sabe quem sou
No princípio e no fim
Só a ele sou fiel e é ele quem me protege
Quando alguém quer à força
Ser dono de mim..."

Não sei se era maior o desejo ou o espanto
Só sei que por instantes deixei de pensar
Uma chama invisível incendiou-me o peito
Qualquer coisa impossível fez-me acreditar

Em silêncio trocámos segredos e abraços
Inscrevemos no espaço um novo alfabeto
Já passaram mil anos sobre o nosso encontro
Mas mil anos são pouco ou nada para estrela do mar

"Estrela do mar
Só a ele obedeço
Só ele me conhece, só ele sabe quem sou
No princípio e no fim
Só a ele sou fiel e é ele quem me protege
Quando alguém quer à força
Ser dono de mim..."


(...)
Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve como uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.
(...)
- Álvaro de Campos -


Balloon, 2002 - fotografia de Julie Blackmon (n. 1966)

Matamos o que amamos.
de um poema de Rosario Castellanos

Somos o que pensamos. Tudo o que somos surge com os nossos pensamentos. Com os nossos pensamentos fazemos o nosso mundo.
Buda

O que há de mais belo na vida são as ilusões da vida.
Honoré de Balzac

Viu a desconhecida a voar escadas acima (...)
... por causa das mulheres que voam na Avenida Névski (conto de NiKolai Gógol)

São jogadores como estes, a oscilarem entre o mau e o péssimo, que justificam o "segundo milagre " do Fátima. Farneroud não tinha lugar no Fátima nem em qualquer equipa da primeira liga. É sempre pior que Pereirinha independentemente do ângulo usado para a comparação. Purovic é um péssimo defesa-central, apesar da altura, porque não sabe jogar de cabeça e porque faz penáltis, na sua área, com grande facilidade. Paredes é o nome de um antigo bom jogador de futebol que assinou um bom contrato de pré-aposentação com o Sporting.
Paulo Bento que tem todos estes jogadores em elevada consideração já não sabe, por esta altura, que existe um jogador em Alvalade chamado Adrien Silva. Melhor do que estes e do que aquela ex-futura-próxima esperança brasileira que dá pelo nome de Celsinho. Uma nulidade, pelo que se viu ontem.
Parabéns ao Fátima. Parabéns ao treinador Rui Vitória.

No SOL deste fim de semana é dado destaque à divulgação do currículo de um vereador da Câmara de Coimbra, eleito pelo PS de que é aliás presidente da Comissão Política concelhia, no que se refere à área sensível da obtenção de financiamentos partidários ilícitos. Uma área muito especializada, como se sabe.
Entre os corruptores activos - o distinto vereador era o corruptor passivo - destaca-se o incontornável Domingos Névoa, o tal do caso "Bragaparques versus Sá Fernandes". No caso coimbrão a massa envolvida foi menos, qualquer coisa como 50.000 euros, do que os 200.000 euros que visaram seduzir Sá Fernandes. O objectivo era no entanto o mesmo: contribuir para que o distinto autarca permitisse, com o seu esclarecido voto, aprovar o negócio que a Braparques entretanto concretizou nos terrenos do parque subterrâneo na Baixa de Coimbra.
Notável é a explicação de Névoa que esclareceu ter o empréstimo representado um "empréstimo entre dois amigos" que já foi liquidado. Embora Névoa não refira a taxa de juros utilizada, nós sabemos que ela foi muito elevada como sempre acontece nos processos em que os representantes do interesse público são corrompidos.

PS - Coimbra que se reinvindica da "Capital da saúde" é uma cidade em que, conhecidos os casos que se sabe, pelo menos a corrupção goza de muito boa saúde.

A intervenção de Byrne junto ao Mondego fotografada da Ponte "Pedro e Inês".

O Imobiliário que vampiriza os dinheiros públicos dos programas Polis fotografado do mesmo local

O meu filho, que não se perde com miudezas, é um adepto incondicional do Programa Polis, em particular deste junto ao Mondego.


PS - reparem nas guardas da ponte. São bonitas.





Eis aqui uma proposta sensata para uma nova política de habitação, capaz de manter Portugal no grupo dos países que menos dinheiro gasta -em percentagem do PIB - com as políticas públicas de habitação. O lema podia ser : "Traga qualquer coisa, nós pomos um telhado"
PS - imagem enviada pela MJB


"engenharia mágica, logo arquitectura" foi como o New York Times classificou a ponte pedonal que liga as duas margens do Mondego e que foi construída no âmbito do Progama Polis. O Guardian escreveu que “A sua estrutura é revolucionária, ainda que não exuberante; é naturalmente elegante. É também o género de engenharia mágica".
Trata-se de um projecto em parceria entre os engenheiros Cecil Balmond e Pedro Adão da Fonseca. Esta ponte belíssima - as pontes são sempre belos objectos como exuberantemente demonstrou ao longo da vida esse engenheiro primu inter pares que deu pelo nome de Edgar Cardoso - tem uma particularidade que se deve ao génio criativo de Cecil: tem uma praça no meio que resulta do desfasamento entre os eixos longitudinais das duas meias-pontes. Uma bela ideia, uma ideia simples, como quase todas as ideias geniais.


PS - imagem enviada pela MJB

Big Love

Looking out for love
In the night so still
Oh Ill build you a kingdom
In that house on the hill
Looking out for love
Big, big love

You said that you love me
And that you always will
Oh you begged me to keep you
In that house on the hill
Looking out for love
Big, big love

I wake up alone
With it all
I wake up
But only to fall

Looking out for love
Big, big love
Just looking out for love
Big, big love

Letra de Lindsey Buckingham / FLEETWOOD MAC


Maria / George, 1994 - Fotografias de Aziz + Crucher , fotógrafos que fazem parte da colecção permanente do Museum of Contemporany Photography (Chicago)

Gordon Brown, com aquele ar de quem vai perder as próximas eleições, acaba de anunciar que os Governos da UE combinaram aprovar o Tratado sem consultas ao povo ignaro. Nada de novo: a construção europeia dispensa o povo e reserva-lhe um lugar menor. A burocracia político-administrativa abomina o povo e, não podendo eliminá-lo, despreza-o.
A Europa é cada vez mais o lugar político onde o povo mesmo pagando não pode entrar. Uma espécie de apartheid entre as populações e a classe política dominante.

Duzentos Mil protestaram contra a política do Governo. Provavelmente uma das maiores manifestações de sempre organizada por uma Central Sindical. Uma manifestação que dá conta, de forma expressiva, de como esta política do Governo do PS agride e penaliza os mais desfavorecidos e aqueles que vivem sobretudo dos rendimentos do trabalho. Um Governo que cospe nas mãos de muitos dos que nele votaram.
PS - simbolicamente foram 200 mil, um por cada dez pobres existentes neste país que é o mais desigual da UE. Um País no qual existem 2 milhões de pobres e no qual a acumulação privada de capital prossegue a um ritmo nunca visto. Um país no qual meia dúzia de famílias mandam pr interposto Governo. Mandam e governam-se, hoje como ontem, desgraçadamente.

O Instituto Superior Técnico (IST) foi a universidade na qual me licenciei em engenharia civil. Ao longo da vida tenho-me muitas vezes recordado, por boas razões, da qualidade do ensino que aí recebi, da excelência do corpo docente e da adequação do ensino à realidade profisisonal, sobretudo aquela que pressupõe conhecimento, rigor e exigência.
Uma grande Universidade e uma grande Universidade Pública.
Não posso por isso deixar de manifestar o meu contentamento pela decisão do Conselho Científico do IST de recusar a formação de uma fundação pública de direito privado tal como previsto no actual regime jurídico das instituições do ensino superior. Mariano Gago que é um professor prestigiado do IST, e que no tempo em que lá andei era um homem situado francamente à esquerda, sofre uma derrota em casa própria, ele cuja política actual nos deixa muitas vezes gagos de espanto.

Levanta-te contra a pobreza, a injustiça, o esquecimento, a indiferença, o medo, a opressão, a corrupção, a ignorância, a prepotência, levanta-te contra o ódio, contra a miséria, levanta-te pela justiça, pela clareza, pela igualdade, pela diversidade, pelo conhecimento, levanta-te pelos outros, levanta-te por uma só coisa, por uma razão

as propostas de Menezes - se é que se pode assim chamar ao conjunto de afirmações - têm uma vantagem para Sócrates: permitem, com imaginação quanto baste, arrastar a discussão para a direita para uma espécie de tentativa de subverter o regime. A ideia de fazer uma nova constituição mobiliza contra esse perigo que vem da direita radical e populista que Menezes personificará. As políticas de Sócrates, que têm apagado a direita e levaram ao descrédito de Marques Mendes, incapaz de fazer tão bem quanto ele, recentram-se à esquerda agora que Menezes endurece o nível de exigência acenando com a agenda dos duros da direita mais radical. Mera ilusão, mero jogo de espelhos complementares, mas eficaz quanto baste para desviar as atenções, por alguns momentos, da verdadeira natureza da governação que temos tido esse neo-liberalismo que já nem um parente afastado se reconhece das sociais-democracias europeias.

O caso do filho e dos amigos de Jardim Gonçalves colocou o senhor Berardo a espumar em directo, e no dialecto que utiliza, na televisão. Espuma táctica ao serviço do seu interesse em mandar para casa o velho Jardim, que as prácticas bancárias que agora critica são do seu conhecimento e do conhecimento de todos, desde sempre. Trata-se de um indignação que soa a falso mas que, ampliada pelo prime time, mobiliza as hostes contra o velho patriarca. E acorda da sua sonolência profunda o Banco de Portugal e a CMVM, esses garantes de coisa nenhuma.
Claro que a banca usa de dois pesos e de duas medidas. Claro que a banca, que é inflexível com o pobre que não pode pagar o empréstimo da casa e a quem dsespeja sem dó nem piedade, é permissíva e conivente com o rico que deixa um calote de milhões. Sobretudo se o rico for um dos nossos. Ora, em Portugal, os ricos são sempre um dos nossos. Porque não há outra possibilidade, hoje como ontem no tempo do António de Santa Comba.
É duplice a canalha que manda e que se governa. A mesma canalha sempre com a mesma ganância e com a mesma avidez. Beatos a tresandarem de fé.
Vampiros, chamavas-lhe o Zeca Afonso.

chamem-me o quiserem, a voz e a atitude dele fazem-me lembrar uma outra ideia de América

I was tryin' to find my way home
But all I heard was a drone
Bouncing off a satellite
Crushin' the last lone American night
This is radio nowhere, is there anybody alive out there?
This is radio nowhere, is there anybody alive out there?

I was spinnin' 'round a dead dial
Just another lost number in a file
Dancin' down a dark hole
Just searchin' for a world with some soul

This is radio nowhere, is there anybody alive out there?
This is radio nowhere, is there anybody alive out there?
Is there anybody alive out there?

I just want to hear some rhythm
I just want to hear some rhythm

I want a thousand guitars
I want pounding drums
I want a million different voices speaking in tongues

This is radio nowhere, is there anybody alive out there?
This is radio nowhere, is there anybody alive out there?
Is there anybody alive out there?

I was driving through the misty rain
Searchin' for a mystery train
Boppin' through the wild blue
Tryin' to make a connection to you

This is radio nowhere, is there anybody alive out there?
This is radio nowhere, is there anybody alive out there?
Is there anybody alive out there?

I just want to feel some rhythm
I just want to feel some rhythm
I just want to feel your rhythm
I just want to feel your rhythm

Radio Nowhere de Bruce Springsteen /álbum: Magic / 2007

Sócrates agradeceu aos portugueses por o terem ajudado a controlar o défice que já desceu para os 3%, pasme-se. Este milagre - que Sócrates espera o coloque, depois de 2009, por mais quatro anos com a faca e o queijo na mão - da gestão socialista merece as mais variadas críticas quanto à forma como foi conseguida. Mas se alguém tem dúvidas sobre o notável feito leia aqui que todas as dúvidas se dissiparão. Para alguma coisa servirão os chamados intelectuais orgânicos do socratismo.
Eu que me recordo do que Sócrates dizia na camapanha eleitoral que o elegeu e de como manifestava a sua sensibilidade e preocupação com o crescimento do desemprego e de como acusava, justamente, o PSD de insensibilidade face a esse drama crescente, espanta-me que nada diga agora sobre o crescente desemprego que parece a consequência das políticas que o conduzem ao resultado que tanto orgulho lhe provoca.
Recorrendo a um livro de Stiglitz, Os Loucos anos 90 - A década mais próspera do Mundo, e ao prefácio de Jorge Sampaio destaco as seguintes frases:
"(...) Entre os mitos analisados ( e desmontados) pelo prof. Stiglitz ao longo do livro (...) estão as ideias feitas de que:
- a redução do défice orçamental foi o motor da recuperação económica - quando a teoria e a práctica mostram que a diminuição do défice não relança a economia, questão a que, pela sua relevância para a Europa e para Portugal, também dedicarei adiante alguma atenção;(...) A nova explicação [ para a relação entre o combate ao défice e o desenvolvimento económico a partir da bem sucedida experiência americana de 1992] assenta essencialmente na confiança: A diminuição do défice público aumentaria a confiança dos banqueiros e investidores e assim tranquilizadas, as empresas voltavam a investir no crescimento e na inovação, os consumidors começaram a gastar outra vez e a recuperação ganhou impulso. O programa dos falcões do défice era claro: manter os défices baixos (mesmo nas recessões) e ouvir o que os mercados financeiros queriam (...) A análise da redução do défice orçamental na década de 90 é importante para os países da Zona Euro, cujas políticas orçamentais têm estado condicionadas pelo Pacto de Estabilidade e, subjacentemente , pelo mito de que a austeridade orçamental, especialmente pela diminuição das despesas públicas, aumentaria a confiança dos agentes económicos e o crescimento da economia viria por acréscimo. Seria bom, mas não é inteiramente verdade. A amarga experiência económica dos últimos anos, na Zona Euro e em Portugal, mostra que as coisas não se passaram assim (...)"
Este prefácio de Jorge Sampaio foi escrito em Fevereiro de 2005. Passados mais de dois anos podemos concluir que, tal como então, as coisas continuam a não se passar assim. O controlo do défice melhorou, o discurso político, sobretudo de Sócrates, centrado na confiança -nunca nenhum primeiro-ministro utilizou tanto esta palavra - repete-se até à exaustão mas a retoma económica jaz e arrefece. O desemprego, esse sim, não para de aumentar. Sócrates consegue a taxa de desemprego mais elevada da Zona Euros e a mais elevada em Portugal desde a adesão à UE. É obra.
Os desempregados são as vitimas maiores deste tipo de políticas neoliberais que conduzem hoje os destinos de Portugal e da UE. Políticas que foram beber ao espírito do Consenso de Washington. Volto a Stiglitz e a outro livro(*) para citar : " A austeridade orçamental, as privatizações e a liberalização dos mercados foram os três pilares do Consenso de Washington nos anos 80 e 90." São elas que hoje estão na base do Pacto de Estabilidade e Convergência e das políticas que liquidam, todos os dias, o ideal europeu.

(*) - Joseph Stiglitz. Globalização. A Grande desilusão. Edição Terramar.

Ao contrário dos Nobel da Literatura, os Nobel da Paz são sempre boas notícias: como esta
Espero que esta distinção ajude a afastar este organismo, os alertas e as mudanças lançados e propostos do miserável círculo do "passar de moda".

O artigo (*)de João Ferreira do Amaral, hoje no Jornal de Negócios, em que denuncia o cinismo da Comissão Europeia na análise dos efeitos das suas políticas na desprotecção dos cidadãos perante os efeitos perversos da globalização. Cito: "Na realidade, em particular os estados da Zona Euro, são dos mais desprotegidos em relação à globalização e isto devido ao caminho que o processo de integração tomou desde o tratado de Maastricht. Em três grandes domínios se nota esta acção prejudicial das instituições comunitárias.
Em primeiro lugar, a tentativa (só parcialmente lograda) de destruição da coesão nacional de cada estado (em que o acabar com as moedas nacionais foi um passo importante). (...) Ora a resposta à globalização, para ser eficaz, passa sempre por uma forte coesão nacional. Tudo o que a prejudica como a acção da Comissão expõe mais os países aos efeitos negativos da globalização.
Um segundo aspecto é a destruição da política macroeconómica de resposta aos choques da globalização, Ao criar a moeda única e instituições deficientes para a gerir e ao impedir políticas orçamentais activas, a integração tornou, desde Maastricht, as economias muito mais vulneráveis perante a globalização, como é visível hoje em Portugal.
Não tenho qualquer dúvida em afirmar que devido à moeda única Portugal está hoje mais desprotegido em relação à globalização do que grande parte das economias do mundo, mesmo de países de dimensão e nível de desenvolvimento inferior.
Finalmente, o terceiro domínio é o da política de concorrência, que põe um colete de forças tal às políticas de desenvolvimento dos sectores produtivos que só por milagre eles se podem ir adaptando às condições impostas pela globalização.(...)
"
Ferreira do Amaral é um economista próximo do PS, mas lá por isso não precisa de ser parvo ou ceguinho, como muitos por aí.

(*) - link via "ladrões de bicicletas"

Joseph Stiglitz, o ex-conselheiro de Clinton e Prémio Nobel da Economia em 2001, apoiou em Caracas a iniciativa de Hugo Chavez de criar um banco regional de empréstimos de apoio ao desenvolvimento dos países da América do Sul.
Stiglitz, que denunciou o Consenso de Washington e foi vice-presidente do Banco Mundial, afirmou que: "«É uma boa coisa haver concorrência na maioria dos mercados, incluindo o mercado do empréstimo para o desenvolvimento», (...) o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional tendem a impor muitas condições que entravam um efectivo desenvolvimento".
Chavez é definitivamente uma personagem muito mais complexa do que a imagem estereotipada do ditador sul-americano, que a nossa direita mais ideológica tenta passar, faria supor. Separar a análise da personagem política das políticas concretas e dos seus conteúdos, fazendo sobressair o seu carácter muitas vezes populista e demagógico, é uma via fácil para a diabolização mas não passa de uma análise simplista que lida mal com a realidade complexa daquela zona do globo e que por isso se permite mesmo dispensar a realidade, como coisa supérflua.
Uma zona na qual Stiglitz denuncia a cooperação "à lá USA" como ao serviço "da estratégia americana de dividir para conquistar, uma estratégia para tentar conseguir o máximo de lucros para as empresas americanas, deixando pouco para os países em desenvolvimento"

Sobre este post de JCG gostaria apenas de acrescentar:

Mas a hipocrisia extravasa a esfera política. É este país que adere em massa ao Caso Maddie, que se indigna, reza, chora, faz forwards de e-mails de crianças desaparecidas e deixa passar incólumes os culpados, a responsabilidade da Instituição e simplesmente não exige que se faça justiça e se resolva um caso como o de a Casa Pia? São estes os mesmos políticos, é este o mesmo povo, os mesmos intelectuais, professores e educadores?

Conferência / debate:
A República em Portugal - expectativas e realidades” por Júlia Leitão de Barros, historiadora, investigadora no Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa e professora na Escola Sup. Comunicação Social do Instituto Politécnico de Lisboa no Centro das Artes de Sines (Cafetaria) pelas 21:30

No post de Ana Gomes cujo título é "Pia a ex-Provedora" a eurodeputada suscita um conjunto de questões que o tempo tratou de tentar apagar do processo Casa Pia. Será que ninguém repara nas questões colocadas por Ana Gomes? Questões aasociadas à manipulação politica deste processo e em particular associadas ao objectivo, evidente, de decapitar a direcção do PS de então? Questões que determinaram que a situção política fosse a actual e não outra provavelmente muito diferente daquela que temos.


Praia Banana, na Ilha do Príncipe, a mais bonita praia da Ilha ... ainda mais perto aqui na galeria de imagens ... explore "praias" e "paisagens"

Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?
Todos o são, mesmo os melhores, às suas horas,
e todos estão contentes de se saberem sacanas.
Não há mesmo melhor do que uma sacanice
para poder funcionar fraternalmente
a humidade de próstata ou das glândulas lacrimais,
para além das rivalidades, invejas e mesquinharia
sem que tanto se dividem e afinal se irmanam.


Dizer-se que é de heróis e santos o país,
a ver se se convencem e puxam para cima as calças?
Para quê, se toda a gente sabe que só asnos,
ingénuos e sacaneados é que foram nisso?


Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.
Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice,
porque no país dos sacanas, ninguém pode entender
que a nobreza, a dignidade, a independência, a
justiça, a bondade, etc., etc., sejam
outra coisa que não patifaria de sacanas refinados
a um ponto que os mais não são capazes de atingir.
No país dos sacanas, ser sacana e meio?
Não, que toda a gente já é pelo menos dois.
Como ser-se então nesse país? Não ser-se?
Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.
Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma.


Jorge de Sena
10 de Outubro de 1973

Des yeux qui font baisser les miens
Un rire qui se perd sur sa bouche
Voilà le portrait sans retouches
De l'homme auquel j'appartiens

Quand il me prend dans ses bras
Il me parle tout bas
Je vois la vie en rose
Il me dit des mots d'amour
Des mots de tous les jours
Et ça me fait quelque chose
Il est entré dans mon coeur
Une part de bonheur
Dont je connais la cause
C'est lui pour moi, moi pour lui, dans la vie
Il me l'a dit, l'a juré, pour la vie
Et dès que je l'aperçois
Alors je sens en moi,
Mon coeur qui bat

Des nuits d'amour à plus finir
Un grand bonheur qui prend sa place
Les ennuis, les chagrins s'effacent
Heureux, heureux à en mourir

Quand il me prend dans ses bras
Il me parle tout bas
Je vois la vie en rose
Il me dit des mots d'amour
Des mots de tous les jours
Et ça me fait quelque chose
Il est entré dans mon coeur
Une part de bonheur
Dont je connais la cause
C'est toi pour moi, moi pour toi, dans la vie
Tu me l'as dit, l'as juré, pour la vie
Et dès que je t'aperçois
Alors je sens en moi
Mon coeur qui bat

letra de Edith Piaf, música de Louiguy, 1946

Era um dos poucos blogues que eu visitava, quase numa rotina diária. Assegurava um espaço de discussão sobre a vida política portuguesa e não só. Era um dos poucos que citava este blogue e o que aqui se vai escrevendo. Agora o Paulo Gorjão resolveu por-lhe um fim. Fica a memória das polémicas, das opiniões, das divergências, daquilo tudo que faz da blogosfera um espaço único.

A ler, obrigatoriamente, esta entrevista de João Cravinho sobre a evolução do País e do Sistema Político. Cito algumas das frases fortes que muitos dos que vivem neste país não terão dificuldades em subscrever:

Sobre o combate à corrupção - "(...) Fui até ao limite do que podia. Após um processo longo e muitas discussões, formei uma ideia sobre as razões das divergências profundas (...) entre mim e a direcção do grupo parlamentar em questões fulcrais. A primeira tem que ver com um juízo político e ético sobre a situação da corrupção em Portugal e o seu efeito corrosivo sobre o funcionamento das instituiçõe democráticas. Penso que é um fenómeno grave, extenso e sem mecanismos de contenção à altura.(...)Mas também não estávamos de acordo sobre a natureza do fenómeno. Prevaleceu no debate uma noção eminentemente policial da corrupção.(...) Só que a corrupção como fenómeno novo, associado à globalização, torna a concepção policial obsoleta.Um dos nossos grandes problemas é a corrupção de Estado, a apropriação de órgãos vitais de decisão ou de preparação da decisão por parte de lóbis.(...) Foi um dos maiores choques da minha vida ver que aquela matéria causava um profundo mal-estar, era como que um corpo estranho no corpo ético do PS.(...)"

Sobre a actuação do Governo - "(...) Há anos que a governação em Portugal é neoliberal, com mais ou menos consciência social. O problema não está nas políticas sociais, mas na adopção da ideologia neoliberal como matriz.(...) Não pode estar a promover-se uma pseuso-economia de mercado, em que o Estado serve de muleta aos grandes e até aos pequenos negócios. Muitos acham que deve ser essa a originalidade do neoliberalismo à portuguesa.(...)"

Sobre as relações Governo-Presidente da República. - "(...) O regime está de tal modo fragilizado que, em certo sentido,o prof. Cavaco Silva, em conjugação com o engº Sócrates, funcionam como uma cavilha de segurança suplementar da granada em que está a transformar-se o nosso sistema político.(...) Mas o que está a perguntar é se existe uma nova forma de bloco central. De certo modo, sim.(...)"



... começam a manifestar-se satisfeitos com a vitórias de Menezes. Vejam-se as declarações de Isaltino Morais, esse impoluto autarca vilipendiado por Marques Mendes, que declara solene ao DN ser "A vitória de Menezes é o espírito do velho PPD a vir ao de cima". Um espírito assombrado, só pode ser, a fazer fé nas suas entusiásticas declarações.

De assinalar este encontro, mais simbólico do que substancial, entre as duas Coreias, 54 anos após a assinatura do armistício que pôs fim à guerra entre o Norte e o Sul.

A ler no DN: Flores de plástico na cimeira das duas Coreias




Convido-vos a observar imagens como esta na galeria de imagens do Hubble: aqui
Aquilo que o Hubble nos mostra é tanto e tão pouco, e é também a grande solidão e uma grandiosidade que nos ultrapassa e do que afinal nós somos.

Se perguntarem: das artes do mundo?
Das artes do mundo escolho a de ver cometas
despenharem-se
nas grandes massas de água: depois, as brasas pelos recantos,
charcos entre elas.
Quero na escuridão revolvida pelas luzes
ganhar baptismo, ofício.
Queimado nas orlas de fogo das poças.
O meu nome é esse.
E os dias atravessam as noites até aos outros dias, as noites
caem dentro dos dias - e eu estudo
astros desmoronados, mananciais, o segredo.

Herberto Helder, Do Mundo


Clay Room, 2007, instalação/fotografia

... uma presença mental que constrói e desconstrói, que transforma...


Snow Stacks, 1987, instalação/fotografia

Trabalhos do inglês Andy Goldsworthy. O autor (na wiki). Outros trabalhos do autor: aqui

"...estou procurando, estou procurando. Estou tentando me entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. "

"Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada."

Clarice Lispector


 

Pedra do Homem, 2007



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