A terra era pesada como uma porta espessa
uma sílaba sem vogal
uma pedra sem a melodia das nascentes
Mas quando a água surgiu como uma anémona voluptuosa
a nudez reconheceu a seda de uma página ligeira
onde de curva em curva se anunciava a mulher
como se fosse uma ânfora azul ou uma janela viva
Sumptuosamente simples sumptuosamente plácida
profunda e lisa desperta no seu sono
a água espraiou-se entre o olvido e a ternura
e formou a consciência côncava e aberta num barco
O homem procurou sempre a lentidão materna
do seu ventre absoluto e dos seus ombros azuis
É na água que ele encontra as equivalências volúveis
e o ritmo da indecifrável leveza do seu sopro
De dália em dália a água embala a ferida
num adeus de melancólica e vaga melodia
O mundo retorna à sua matriz de frescura imensa
e a luz penteia a água como se fosse uma gazela


António Ramos Rosa


 

Pedra do Homem, 2007



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