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João Cravinho considera que “o efeito Sócrates só por si já não chega
A direita, de uma forma politicamente indefensável, veio, a reboque do resultado que o obteve no dia 7, dizer que o Governo não tinha legitimidade para avançar com as grandes obras. Ao que parece a direita proclamou que este Governo passa a ser um Governo de gestão. Não se sabe com que legitimidade dizem este tipo de asneiras, mas lá que as dizem isso é verdade.
Um efeito político que se pretende quando se está na oposição é condicionar a actuação do poder. Neste caso o PSD sabendo que o PS pode ser tentado a mudar de estratégia canalizando mais recursos para outro tipo de investimento público e libertando recursos para apoiar as emrpesas e as famílais, pressiona-o para lhe dificultar a opção. O PSD quer que o PS avance com as grandes obras mas, caso o PS mude de ideias e introduza uma moratória no processo pedindo um voto de confiança aos eleitores nas próximas eleições, quer poder dizer que fizeram aquilo que o PSD exigiu.
João Cravinho, nesta entrevista, assinala o fim do período Rei-Sócrates no PS. O período em que o PS era ele e no qual ele, apenas ele, bastava. E diz usando e aconselhando bom senso que : "Um Governo num país democrático não pode fazer quero, posso e mando. Dizer «eu tenho a minha vontade e porque tenho maioria e dentro de duas semanas já não a tenho, vou usá-la hoje para criar obrigações contratualizadas» que, no fundo, se o futuro Governo ou se o país quiser desfazê-las então paga um balúrdio tal que, aí sim, coloca o país de tanga".
A questão não se coloca no campo da legitimidade mas tão somente no campo do bom senso. Ora bom senso é o que não abunda nem no Governo nem nas oposições.

O artigo de Mário Crespo no JN, publicado no passado dia 9. Referido aqui e que opto por divulgar na íntegra.

"Façamos de conta que nada aconteceu no Freeport. Que não houve invulgaridades no processo de licenciamento e que despachos ministeriais a três dias do fim de um governo são coisa normal. Que não houve tios e primos a falar para sobrinhas e sobrinhos e a referir montantes de milhões (contos, libras, euros?). Façamos de conta que a Universidade que licenciou José Sócrates não está fechada no meio de um caso de polícia com arguidos e tudo. Façamos de conta que José Sócrates sabe mesmo falar Inglês. Façamos de conta que é de aceitar a tese do professor Freitas do Amaral de que, pelo que sabe, no Freeport está tudo bem e é em termos quid juris irrepreensível. Façamos de conta que aceitamos o mestrado em Gestão com que na mesma entrevista Freitas do Amaral distinguiu o primeiro-ministro e façamos de conta que não é absurdo colocá-lo numa das "melhores posições no Mundo" para enfrentar a crise devido aos prodígios académicos que Freitas do Amaral lhe reconheceu. Façamos de conta que, como o afirma o professor Correia de Campos, tudo isto não passa de uma invenção dos média. Façamos de conta que o "Magalhães" é a sério e que nunca houve alunos/figurantes contratados para encenar acções de propaganda do Governo sobre a educação. Façamos de conta que a OCDE se pronunciou sobre a educação em Portugal considerando-a do melhor que há no Mundo. Façamos de conta que Jorge Coelho nunca disse que "quem se mete com o PS leva". Façamos de conta que Augusto Santos Silva nunca disse que do que gostava mesmo era de "malhar na Direita" (acho que Klaus Barbie disse o mesmo da Esquerda). Façamos de conta que o director do Sol não declarou que teve pressões e ameaças de represálias económicas se publicasse reportagens sobre o Freeport. Façamos de conta que o ministro da Presidência Pedro Silva Pereira não me telefonou a tentar saber por "onde é que eu ia começar" a entrevista que lhe fiz sobre o Freeport e não me voltou a telefonar pouco antes da entrevista a dizer que queria ser tratado por ministro e sem confianças de natureza pessoal. Façamos de conta que Edmundo Pedro não está preocupado com a "falta de liberdade". E Manuel Alegre também.
Façamos de conta que não é infinitamente ridículo e perverso comparar o Caso Freeport ao Caso Dreyfus. Façamos de conta que não aconteceu nada com o professor Charrua e que não houve indagações da Polícia antes de manifestações legais de professores. Façamos de conta que é normal a sequência de entrevistas do Ministério Público e são normais e de boa prática democrática as declarações do procurador-geral da República. Façamos de conta que não há SIS. Façamos de conta que o presidente da República não chamou o PGR sobre o Freeport e quando disse que isto era assunto de Estado não queria dizer nada disso.
Façamos de conta que esta democracia está a funcionar e votemos. Votemos, já que temos a valsa começada, e o nada há-de acabar-se como todas as coisas. Votemos Chaves, Mugabe, Castro, Eduardo dos Santos, Kabila ou o que quer que seja. Votemos por unanimidade porque de facto não interessa. A continuar assim, é só a fazer de conta que votamos."


 

Pedra do Homem, 2007



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