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Apesar de ser uma leiga neste assunto, já aqui disse algumas palavras sobre o tema. Infelizmente parece-me que nunca é demais referenciar que uma cidade é um organismo, cujo coração é o seu centro histórico. Todos sabemos isto. Se esse orgão vital é negligenciado e posto para segundo plano, a cidade, como um todo, deixa de funcionar harmoniosamente. O coração vai morrendo aos poucos, a cada pequeno passo, a cada poder de decisão e tudo se degrada à sua volta, inclusivê a vida dos seus habitantes. Disto não temos dúvidas. Não é só mais uma casa, só mais um edifício, é muito mais do que isso que está em questão. Mas quando toca a este género de assuntos, neste país, raramente se pensa no "todo", no colectivo, mas sim nos interesses imediatos e particulares de cada poder e de cada um.

Os CTT resolveram deixar o belo edificio que ocupavam, desde sempre, na Praça Tomás Ribeiro em Sines, em pleno coração da Zona Histórica da Cidade. Deslocaram-se para uma "nova centralidade", uma urbanização à maneira, sem lugares de estacionamento, sem zonas verdes, sem equipamentos colectivos, com montes de prédios atafulhados e um espaço publico miserável. Uma nova centalidade, em suma.
O argumento foi o da necessidade de servir melhor os cidadãos. Na realidade a exiguidade do espaço de que dispunham no velho edifício só era suplantada pela exiguidade do pessoal o que fazia com que uma deslocação aos correios obrigasse à desmarcação de qualquer agenda. O problema é que o novo espaço, para lá daquele ar berrante do novo design da empresa, não oferece nem mais espaço, nem mais pessoal nem ,afinal, melhor serviço. É a mesma coisa do costume numa localização mais excêntrica. Além do construtor, que vendeu as novas instalações, quem mais terá beneficiado com a nova localização?
Entretanto, enquanto esperava pela remodelaçaõ das suas instalações, o BPI alugou o espaço da velha sede aos CTT. Numa penada, através de uma simples e barata remodelação feita num fim de semana, aumentou o espaço disponível para o triplo. O número de funcionários que atendem ao público é três a quatro vezes mais do que os que executam a mesma função nos CTT. O que fará então correr - à toa, digo eu - os CTT?
O velho edifício está à venda pela melhor oferta a partir de uma base de 400 mil euros. Isto quer dizer duas coisas: demolir o existente e construir em cima um prédio com 3 ou 4 pisos. Imobiliário puro e duro, uma arte que a gestão dos CTT parce dominar muito bem. Assim se faz a "recuperação" da Zona Histórica da Cidade conjugada com a "criteriosa" gestão, dizem alguns, dos CTT.

Mais uma ausência de peso para o Centro Histórico de Sines: a nova loja dos Correios instalou-se numa das novas urbanizações de Sines desde o passado dia 4. Ainda não consegui perceber o porquê desta mudança, se os CTT têm há meses um local para recepção na Zona Industrial Ligeira. Exceptuando a modernidade formal e confortável de uma loja franchising, todas as razões que ouvi, vagamente, em comentários no local, persistem.

Tenho a sorte de trabalhar num bonito edifício recuperado no centro histórico de Sines. O centro histórico diz-me muito e diz muito a todos os que se ligam afectivamente a Sines. O centro histórico é a alma de uma cidade, de um lugar. Se descuramos essa realidade perdemos a sua identidade; a cidade como um corpo formado por gente, fica à deriva. Sem essa alma viva, o resto, o novo, é obtuso. Todos sabemos que é assim mas é preciso agir, porque pouco a pouco "a vida activa" sineense vai-se encaminhando para um "novo" centro que não é centro, mas a ilusão de urbanidade criada por edifícios recentes, com belas vistas para o mar, erguidos no antigo espaço da fábrica do peixe, como lhe chamávamos.

Espero que haja um caminho pensado que sustente as alterações dos novos trilhos e espaços desta cidade. Por enquanto nada se sente. O centro histórico vai ficando pouco a pouco despovoado e pior ainda, abandonado. Há que trazer vida para o centro e evitar que os pólos de confluência de gente simplesmente saiam. O Centro das Artes e a Biblioteca não chegam. Há que criar razões para que as pessoas continuem a andar pelas ruas mais estreitas e a residirem ali. Não podemos deixar simplesmente cair a Portuguesa. Há que envolver os sineenses nesse "trabalho". Acho que é uma boa razão para unir ideias e pessoas.


 

Pedra do Homem, 2007



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