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Sócrates acusa direcção do PSD de ser “herdeira de um certo espírito do salazarismo”
Sócrates, no artigo de opinião publicado no JN, elegeu três diferenças fundamentais relativamente à direita: atitude, investimento público e políticas sociais. A estratégia de Sócrates é simple se clara, mas duvido que seja eficaz. O que é simples costuma ser bom mas, qur-me parecer, que neste caso Sócrates está a ser simplório e isso, como sabemos, não leva a nada de bom.
Quanto à atitude aquilo que os portugueses recordam de Sócrates é sobretudo traduzido numa palavra: arrogância. Ora, tendo a maioria absoluta, o que se exigia a um líder socialista era a promoção de um clima de diálogo e de mobilização da sociedade para as mudanças necessárias. Optou, deliberadamente, pelo contrário. José Gil analisou esse comportamento no seu último livro e dedicou particular atenção ao conflito na educação um símbolo maior da arrogância e autismo político deste primeiro-ministro.
Quanto ao investimento público, Sócrates, apostou como se sabe no controlo do défice. Reduziu o investimento público porque, até ao rebentar da crise internacional, a sua adesão às teses do neoliberalismo foi total. Portugal aderiu ao PEC que não é mais do que a tradução na UE das teses do consenso de Washington. Trocou o desenvolvimento ecónomico pelo controlo do défice, contraindo a economia e deitando no desemprego centenas de milhares de trabalhadores.
Quanto às políticas sociais, bom, Portugal é no contexto da UE, em áreas em que a Europa não tem uma política comum, um dos mais liberais. A política de habitação ésó um exemplo. Mas, que outro país tem umadesigualdade tão acentuada? Que outro país tem um salário mínimo tão baixo, que outro país tem as pensões de miséria que Potugal tem? Que outro país tem os paupérimos apoios à natalidade que Portugal tem? Mas, Portugal com Sócrates, não tendo alterado significativamente esse quadro terrível de desigualdade e de injustiça social foi pródigo a apoiar o sistema financeiro e a socializar os prejuízos que grupos de vigaristas organizados criaram. Uma questão de escolha que nunca colocou o primeiro-ministro perante qualquer tipo de dúvidas.
Da mesma forma a muitos daqueles que em 2005 lhe deram a maioria absoluta não restarão dúvidas de que a opção para que ele os convoca é apenas uma manobra para os desviar do essencial. A falsa opção que Sócrates lhes propõe não é entre a esquerda e direita nem existe o risco do regresso da direita com Manuela Ferreira Leite. A direita, a sua face mais adapatada a este ciclo político, tem estado no poder.
Mas trata-se de uma tentativa vã de confundir os cidadãos como se verá em Setembro.

Cavaco Silva recebe hoje partidos para decidir data das legislativas
Haverá um único bom argumento a favor da realização de eleições legislativas e autárquicas no mesmo dia? Isto admitindo que oargumento da economia é uma estupidez. Um país que toma decisões desta importância política por custos da ordem dos 4 milhões de euros não está preparado para a vida democrática. Só para dar um exemplo esse acréscimo de custos com a separação das eleições é apenas e só um vinte avos dos apoios que o Estado português deu à empresa Artenius, ou cerca de um quarenta avos dos apoios que deu à empresa do senhor Amorim. Uma ridicularia, portanto.
Mas,existem ou não boas razões para separar as eleições? Muitas. A começar pela especificidade de cada uma delas. A começar pela sobreposição de mensagens com os partidos, todos eles, a vampirizarem as eleições autárquicas para darem, inevitavelmente, maior importância às eleições nacionais. Desta forma teríamos a conclusão lógica do processo de vampirização que se iniciou com as europeias. Teríamos assim três actos eleitorais mas em que os portugueses apenas se pronunciariam sobre um deles: as eleições legislativas.
As eleições autárquicas exigem um debate que não tem menor importância, antes pelo contrário, para o nosso futuro e para a qualidade da nossa democracia. Um debate que coloque em cima da mesa alguns aspectos que são fundamentais para o nosso futuro: o endividamento e a sustentabilidade dos modelos de desenvolvimento; a transparência e a corrupção; o urbanismo e os projectos de cidade; a participação democrática e o caciquismo; os direitos urbanos dos cidadãos, entre outros.

PS - todos os partidos estão contra a junção das datas com excepção do PSD. Julgo que o Presidente da República não pode assumir sózinho, com a líder do PSD, a responsabilidade de contribuir para esvaziar e limitar o debate democrático. Seria uma decisão em contraciclo com aquilo que tem sido a sua práctica.

Manuel Alegre sai das listas eleitorais mas fica no PS
Como tive oportunidade de escrever aqui esta era aquela que me parecia a boa escolha.
Manuel Alegre tem uma capacidade de intervenção política muito superior à que resulta da sua condição de deputado. No entanto, a sua saída do PS nestes tempos marcados por uma clubite-partidária-aguda, iria permitir aos Lellos de serviço a sua diabolização e reduziria, aí sim, a sua intervenção política.
Manuel Alegre é a expressão mais forte do desejo de uma mudança política feita com os valores da esquerda e que não poderá excluir à partida o PS, embora seja feita contra uma significativa parte da sua práctica governativa.
Desta forma Manuel Alegre mantem a sua capacidade crítica relativamente à actuação política do partido e dá um sinal claro aos seus apoiantes. Não me parece que Sócrates possa ter ficado satisfeito com esta opção.

"Sócrates escolheu mal as companhias antes de ser eleito "
Eu concordo com o dr. Saldanha Sanches. O primeiro-ministro escolheu, de facto, muito mal as companhias ao longo de parte significativa da sua vida política. O problema é que essas escolhas se revelaram operativas da sua conquista do poder no PS e no Pais. Sócrates não pensará, ao que se sabe, da mesma maneira, não tendo a mesma opinião que Saldanha Sanches acerca dessas companhias.
Daí a alguém no seu juízo perfeito poder afirmar que o primeiro-ministro está envolvido em corrupção no caso Freepeort, vai uma grande distância. Uma distância maior do que a que permitiria afirmar que ele está inocente. Maior, apenas, porque até prova em contrário prevalece o pressuposto da inocência para os arguidos e no caso em questão Sócrates nem arguido é.
Mas, voltando às declarações de Saldanha Sanches, há um ambiente pestilento no país. Um ambiente de desconfiança profunda nas instituições e sobretudo na justiça.
Não podemos de facto dissociar este facto das escolhas que determinados políticos fizeram ao longo da sua vida e os que com o nosso voto os elegemos não nos podemos colocar de fora do problema com o vago estatuto de observadores.

"Sócrates garante que haverá 40 mil estágios profissionais em 2009".
Infatigável este nosso primeiro-ministro. Quantos dias terão passado sem que ele anunciasse pelo menos uma medida, positiva pois claro, quem seria o maluquinho que viria agora anunciar medidas más, nestes tempos já de si tão complicados. Não é que o nosso priemeiro não saiba delas, como desta última do desemprego a crescer brutalmente em janeiro passado. De um homem atento à crise internacional não se poderia esperar outra coisa.
Não deve ser fácil prometer assim, com tanta intensidade. Com uma actividade tão sistemática quem poderia garantir a ausência de repetições, a sensação de dejá vu que nos chega a embrulhar muitos dos anúncios supostamente originais, acabadinhos de estrear?
Quem poderia exigir a quem ocupa tanto tempo a prometer que tivesse algum tempo e privacidade para governar?

... de João Cravinho. "Comissão Nacional do PS: João Cravinho sai, Santos Silva e Silva Pereira sobem na lista de Sócrates"
Sócrates não esquece que João Cravinho apresentou um projecto de combate à corrupção que além da sua qualidade técnica representava uma crítica política impiedosa à forma como a democracia portuguesa se relaciona com esse flagelo e em particular à omissão do PS nesse combate.
Sócrates não esquece e não perdoa.

"Vital Moreira é cabeça de lista do PS ao Parlamento europeu"

A escolha dizia-se ser entre Freitas do Amaral e Ferro Rodrigues. Afinal a escolha recaiu em Vital Moreira, o intelectual mais empenhado e militante na defesa das políticas deste Governo, quer no seu blogue quer nos diversos jornais nos quais opina. Intelectual orgânico do socratismo vê agora reconhecida e politicamente recompensada a importância da sua acção em defesa das políticas seguidas pelo PS a nível interno e a defesa que fez do tratado de Lisboa.
Não se confirma a possibilidade desta escolha poder mostrar uma inflexão táctica capaz de agradar aos sectores mais à esquerda do PS, como representaria a opção por Ferro Rodrigues. Só com muita imaginação é que se pode identificar Vital Moreira com as ideias da esquerda, a menos que estejamos a falar da esquerda moderna tal como Sócrates a entende. Mas a aceitação da presença da deputada Ana Gomes, um sacríficio necessário por esta altura, irá permitir a Sócrates dar um tom mais de esquerda a esta candidatura.

Adenda: A campanha de Vital Moreira contra os professores e a defesa do projecto de avaliação do Governo roçou muitas vezes um sectarismo chocante. Vital Moreira acha que todos aqueles que se opõem à proposta da avaliação não querem qualquer tipo de avaliação e querem promoções automáticas na carreira. O mesmo aconteceu com a defesa das opções políticas na área da saúde, sendo Vital Moreira um defensor das propostas mais liberais protagonizada pelo anterior ministro. Na verdade, por tudo aquilo que fez em defesa deste Governo, só uma grande injustiça de Sócrates retiraria ao ex-comunista -embora mantenha a mentalidade de "partido único" - este prémio.
Os ex-comunistas são de facto cada vez mais a entourage que conta em torno de Sócrates. No caso de Vital Moreira apetece dizer que um bom revisa encontra sempre o seu PC.

"António Costa chama “parasita” ao Bloco de Esquerda"
Para António Costa a esquerda é boa desde que os que são de esquerda votem no partido socialista. O mundo ideal, segundo António Costa, é um mundo em que o PS dispõe da imensa maioria dos votos à sua esquerda, bastando para isso um discurso nos congressos pré-eleitorais com uns bitaites mais sociais, até porventura mais críticos do liberalismo que a malta por engano tem adoptado, para depois governar em nome de um pragamatismo e de uma responsabilidade política que só o PS pode ter, em defesa de interesses contrários aos que defendeu.
Este mundo perfeito está a acabar. O PS pode até obter uma maioria absoluta, mas será sempre pela conquista de votos à sua direita, a um famélico PSD e a um inexistente PP. O PS viu a sua esquerda crescer, e a coisa pode até atingir maiores proporções do que as reveladas pelas sondagens e por isso reage com dureza a essa debandada. Não muda as suas políticas, que estão na origem desse êxodo, opta, ao contrário, por tentar descridibilizar os partidos que parecem capitalizar esses descontentamentos. Fazê-lo nesta altura representará a assumpção, face aos dados de que dispõem, da inevitabilidade de um grande crecimento sobretudo do BE, já que esta referência é como se sabe potencialmente útil ao próprio BE.
É, no entanto, uma opção oportunista, politicamente oportunista. Sócrates necessita de alguém com peso, de preferência identificado com a ala esquerda do partido, para fazer esse papel: escolheu António Costa, não tinha dúvidas que o autarca de Lisboa estaria disponível.
O Congresso Socialista decorre para já dominado por dois sentimentos muito fortes: o medo da perda da maioria absoluta como resposta popular às opções feitas ao nível da governação; a perda de influência do partido por força da erosão do líder, afectado pelo processo Freeport. As respostas políticas determinadas por estes dois sentimentos não prometem nada de bom. O País e os seus problemas podem esperar.

António Costa disse que acabar com a diferença de salários entre homens e mulheres é um objectivo para a próxima legislatura
António Costa não falou da necessidade de dignificar o factor trabalho na sociedade portuguesa, não lembrou o histórico tratamento desigual dos trabalhadores que o novo Código do Trabalho acentua, não referiu o facto de a melhoria das condições de vida da grande maioria dos prtugueses implicar uma maior dignificação do factor trabalho, não referiu o perigo de a actual crise num contexto de crecente flexibilização das relações laborais poder ser ainda mais penalizadora para os trabalhadores.
Optou por falar de mais um grande objectivo da próxima legislatura: acabar com a diferença salarial entre homens e mulheres: todos a quinhentos euros, naturalmente.


 

Pedra do Homem, 2007



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