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Hoje de manhã quando comprei o jornal li na primeira página que a drª Manuela Ferreira Leite ia candidatar-se à liderança do PSD. Fiquei a saber que o PSD já não tinha líder. O homem demitira-se a horas tardias e eu, como a generalidade de todos nós, não sabiamos de nada.
Um partido como o PSD pode resistir a um líder como Menezes mas não resiste às ondas de choque provocadas pelas diatribes de um "cangalheiro"- na versão Inimigo Público - com provas dadas, como Rui Gomes da Silva. Ainda segundo o Público, Menezes, no seu primeiro discurso de campanha - as coisas que acontecem numa só noite - estava acompanhado pelo seu vice-presidente que, pelos vistos, quer acompanhar de perto a conclusão da sua obra.
Quanto à drª Manuela não me parece que vá avançar. O país não quer mais conversa austera e ríspida sobre fantasmas e pesadelos, ainda por cima quando depois se vem a saber que a dose apesar de forte não era a mais indicada para a doença de que o país padecia. O país necessita de quem dinamize a economia, combata firmemente o desemprego, diminua a captura do Estado pelos interesses, altere radicalmente a desigualdade na distribuição da riqueza e liberte a sociedade civil do peso da partidocracia e da ingerência do Estado em áreas em que o Estado não deve intervir. Não me parece que esse seja um projecto para a Drª Manuela nem para o PSD. Estão mais talhados para a revisão da Constituição, a diminuição do peso do Estado na Economia, seja lá isso o que for, e outras "urgências".
Mas o que este episódio vem mais uma vez evidenciar é que mesmo líderes partidários eleitos com maiorias albanezas não passam de líderes frágeis de partidos frágeis. Sobretudo se esses partidos estiverem na oposição e tiverem dirigentes da estirpe do afamado Rui Gomes da Silva.

Fátima Campos Ferreira esteve magnânima no Prós e Contra dedicado às eleições: ninguém ficou sem o seu sagrado direito a "repicar" os ataques alheios.
O debate inscreve-se no contexto do que escrevi atrás. Todos a fugirem de responsabilidades na gestão dos últimos seis anos. Mesmo o PSD eo PP. Todos a virarem as costas às responsabilidades no estado a que a cidade chegou: do PS ao PSD. Claro que, na anterior autarquia, o BE e a CDU pelo seu posicionamento nos dossiers mais polémicos relativos ao urbanismo - a grande fonte de corrupção e de desgoverno da cidade - não podem ser chamados à colação no que às responsabilidades diz respeito. O mesmo não se poderá dizer do PS e daí, em parte, as opções de Costa na escolha da equipa.
Alguns exemplos: o Plano da Baixa-Chiado o melhor que conseguiu foi uma declaração de que pode ser um bom instrumento de trabalho para o futuro. Ora este Plano- sem ofensa para os Planos Urbanísticos - foi aprovado pela anterior autarquia com os votos a favor do PS. Ora este Plano era a "obra do regime" com Maria José Nogueira Pinto na condução política e Manuel Salgado na condução técnica. Ora Manuel Salgado passou, via candidatura de António Costa, para a condução política do urbanismo e MJNP vai passar, pela mesma via, para a condução técnica. Ora o PSD está contra a circular das colinas e o estacionamento sob a Praça do Comércio que são peças fundamentais do Plano que o PSD aprovou. O memso se pode dizer do PS. Ora este Plano foi elaborado à revelia de qualquer participação dos cidadãos. Alguns criticaram o facto de o Plano da Baixa Chiado não dar qualquer resposta à questão da habitação. Falso: dá resposta à habitação para o segmento mais elevado da procura, aqueles que, segundo Augusto Mateus, terão dinheiro para aí viverem. Lembam-se da célebre declaração ao Expresso: A Baixa não é para todos.
A Frente Ribeirinha. Todos querem devolver a gestão dos espaços urbanos integrantes da frente ribeirinha à autarquia. Mas, quer o PSD quer agora o PS não promoveram enquanto Governos esta alteração. A Administração do Porto de Lisboa é uma expressão na cidade da vontade do Governo. As construções na frente ribeirinha - não aprovadas pela autarquia - são uma expressão práctica da vontade urbanística do Governo para esta parte da cidade. Todos estão contra, até António Costa, recem saído do Governo que tutela a APL. Mas quem admite impedir novas construções e até implodir algumas em curso, como aquela no Cais do Sodré que amputa parte da magnífica vista que se tem quando se desce a Rua do Alecrim? E o hotel junto à torre de Belém de cuja autoria Miguel Sousa Tavares acusou Manuel Salgado?
Os transportes. Todos querem melhorar os transportes. Todos querem melhorar a circulação urbana. Estão certamente a concorrer ao orgão errado. A Câmara de Lisboa não manda em nada. A Carris nem responde às críticas da auatarquia aos seus Planos de Circulação. Quem manda na Carris é o Governo. Quem manda nos comboios é o Governo.
Ma o probema dos transportes e da circulação urbana resolvem-se quando a cidade recuperar os 300 mil habitantes que perdeu ao longo de 30 anos. Até lá nunca se resolverão mesmo que a situação possa melhorar. Não se ficou a saber porque razão os candidatos que já estiveram no Governo não lutaram por esta alteração da situação e ficou por saber como vão actuar no futuro.

Uma das simplificações grosseiras que a democracia normalmente promove é a de que em cada eleição estamos a julgar, apenas, aqueles que estiveram no exercício do poder no período anterior às mesmas. Levada ao extremo esta simplificação leva a um rotativismo extremo entre dois partidos que se revezam no exercício do mesmo poder, aquilo a que alguns chamam o centrão. A perda de umas eleições e a passagem durante algum tempo pela oposição corresponde assim não só a uma punição mas também a um acto purificador por si só. Basta ao partido que esteve no poder passar por este estado para se poder apresentar no próximo acto eleitoral com uma legitimidade renovada para se propor voltar a governar. Exercícios de carácter reflexivo sobre o que correu mal ou sobre o que há necesidade de alterar são escusados e mesmo desaconselhados: basta, na pior das hipóteses, mudar de líder e esperar para que tudo possa voltar a correr bem.
As eleições em Lisboa dão uma medida exacta deste estado de coisas. Pede-se o voto contra aqueles que estiveram no poder nos últimos 6 anos, responsáveis pelo estado a que chegou a cidade. Os responsáveis para a esquerda são o PSD e o PP que governaram a cidade. O PSD inaugura nestas eleições uma nova variante do que atrás disse. Para o PSD - e para o PP- "os responsáveis" é Carmona Rodrigues. Um partido pode candidatar-se contra si próprio desde que tenha mudado de candidato e o anterior, por uma qualquer circunstância, faça o favor de permanecer na liça e forneça desta forma um alibi perfeito aos que exerceram o poder. Não foi o PSD que governou mal, foi Carmona Rodrigues. Não foi o PSD que fez aumentar o endividamento da Câmara a níveis gigantescos, foi Carmona Rodrigues. Neste caso o PSD não valoriza sequer o facto de o autarca ter promovido a tradução nas contas da autarquia da totalidade das dívidas que até aí não eram traduzidas no balanço, de que a da Parque Expo era a mais destacada. Necessidade de atacar Carmona oblige.
Os cidadãos com menos paciência para a política e os seus jogos não gostam disto e como se vê Carmona resiste com níveis elevados de popularidade e parece mesmo que pode vir a integrar uma solução de Governo da cidade com os socialistas.

Pois, "É muita prescrição e muito arquivamento para as loas que se cantavam". O anterior Director-Geral dos Impostos está associado a um hipotético reforço da eficácia da máquina fiscal de que o aumento da receita seria a expressão práctica. O que nunca nos explicaram foi qual a composição desse aumento de receita. Essa informação é fundamental para avaliar do mérito ou do demérito do senhor. Eu sempre achei que o fisco, no essencial, vai aos mesmos. Vai é com outra intensidade, com coimas e penalizações agravadas, com uma insistência a roçar a implacabilidade. Medina Carreira, alguns dias atrás, explicava na SIC Notícias que o aumento da receita fiscal se devia sobretudo ao aumento do IVA e dos impostos sobre os combustíveis. Eu acrescento e a uma penalização obsessiva das pequenas e médias empresas. Aliás, para avaliar o actual estado de coisas, falta também analisar os efeitos colaterais do aumento da "repressão fiscal" - gosto desta expressão - sobre a actividade económica e o emprego. As coimas brutais e alguns custos administrativos cobrados ao acto são um factor de injustiça fiscal já que não dependem dos montantes em dívida e tanto se aplicam para um euro como para um bilião (existe alguma diferença, mas é irrelevante e a penalização é dura sobretudo para as pequenas dívidas).

A leitura da lista de apoios de António Costa volta a colocar a questão que as imagens da televisão já suscitara: Quem não apoia António Costa?
Numas eleições para a cidade capital do país com problemas fortes de exclusão social, envelhecimento da população, segregação espacial dos mais desfavorecidos, guetização crescente de pobres e ricos - uma obra colectiva em que esquerda e direita dividem os méritos - dir-se-ia que ninguém quis correr o risco de ser excluído.
Faz todo o sentido que António Costa ponha o acento tónico na governabilidade. Com apoios tão abrangentes que sentido faz valorizar o projecto ou as condições para a governabilidade? Basta acenar com as condições de governabilidade, a maioria absoluta, pois claro, que o tempo não está para brincadeiras.
Na lista encontram-se muitos nomes que se julgaria pudessem apoiar Roseta - muitos dos arquitectos do regime - Sá Fernandes ou mesmo o candidato do PSD. Cheira a vitória.

Acabei de ver a entrevista a Carmona na TVI. Não percebo qual é a ideia que preside a este tipo de entrevista, se é que podem ser assim classificadas. Perguntas atrás de perguntas, interrupções constantes que impedem qualquer tentativa de articular a mais pequena ideia e uma exuberante demonstração de superficialidade e de falta de conhecimento sobre a questão. Fica a esperança de que o candidato - todos os candidatos - vão ter muito tempo para explicar os seus pontos de vista. Não era esse, manifestamente, o objectivo daquela conversa.

Sobre a entrevista de Helena Roseta ler "Lisboa a Votos, 9" de Eduardo Pitta no "Da Literatura" .

Sobre a entrevista de Roseta ler "Antes e depois" de Daniel Oliveira no Arrastão.

Sobre o caso OTA ler "O nevoeiro à volta da OTA" de Mário Bettencourt Resende no DN.


 

Pedra do Homem, 2007



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