Quem tem seguido com alguma distância as referências feitas à eventual construção de uma nova refinaria em Sines pensará que ao nível local existe unanimidade na aprovação do projecto. Esse entendimento resulta sobretudo das declarações, de indisfarçável apoio ao projecto, do autarca comunista Manuel Coelho. Para reforçar o seu posicionamento avançou mais alguns capítulos da sua famosa tese sobre a "Excelência ambiental do concelho já daqui a ... seis meses". Resulta igualmente da ausência de qualquer posicionamento da oposição, se não considerarmos o silêncio e a omissão um claro posicionamento. Mas a situação não é bem esta.
De facto, como ficou bem claro na sessão da AM realizada na passada sexta-feira, dentro da CDU existe um sector que se opõe ao projecto e que discorda frontalmente da actuação do Presidente da autarquia. O que assume particular significado político é que o Presidente da AM lidera, claramente, o sector dos que se opõem e assumiu a responsabilidade de levar a questão à população. Desde logo essa situação obrigou o presidente da Câmara a moderar o seu apoio ao projecto e aos 2,5 milhões de contos de Taxas Municipais de Urbanização que espera receber.
Ficará nesse exacto momento, o da discussão pública da questão, nas mãos da população o tipo de atitude a tomar. Caso a resposta seja a indiferença e o conformismo não adiantará que alguns assumam o desafio de contestar projectos como os que ameaçam o futuro do concelho.
Uma certeza alguns de nós temos: bastarão dez anos para que se cumpra o desiderato salazarista de acabar com Sines como um lugar habitável, um concelho onde se possa viver.
Sócrates, Pinho e os coveiros locais ficarão com o seu nome associado a essa realização.

... merecem destaque, ainda que atrasado, pelo que fizeram no 25 de Abril. Falo de Manuel Moreira, presidente da Câmara de Marco de Canavezes, e de Moita Flores, presidente da Câmara de Santarém.
O primeiro fez com que as comemorações do 25 de Abril voltassem ao Marco depois dos 22 anos de reinado de Avelino Ferreira Torres. O segundo recuperou de uns obscuros armazéns municipais a estátua de Salgueiro Maia -figura maior do concelho, importante capitão de Abril - que um, não menos obscuro, presidente socialista que o antecedeu para aí tinha atirado. Com alguns euros Moita Flores arranjou uma praça e dignificou-a e à cidade de Santarém aí colocando a estátua desse homem tão notável.
Em qualquer dos casos são pequenos grandes gestos que, pelo seu simbolismo, justificam uma eleição.

O Público de hoje traz um trabalho sobre a exclusão e a inclusão social. Parte desse trabalho inclui uma entrevista com Isabel Jonet a responsável máxima do Banco Alimentar contra a Fome. Em primeiro lugar convém dizer que a acção da senhora é a todos os títulos notável. Isso no entanto não a "livra" de poder ser criticada quando vem a público teorizar sobre a matéria.
Ora a teoria que a senhora defende parte do pressuposto de que a desigualdade na distribuição do rendimento não significa mais pobreza. Por outro lado a senhora julga que só o desenvolvimento económico pode ajudar a combater a pobreza, afirmação susceptível de merecer a unanimidade nacional, para não ir mais longe. O problema é que, atendendo à primeira afirmação, a senhora associa desenvolvimento à acumulação privada da riqueza, preferencialmente em poucas, mas generosas, mãos.
Que pobreza.

A refinaria que Monteiro de Barros quer construir em Sines irá emitir 6 milhões de toneladas de CO2, e não 2,5 milhões como anunciado, revela hoje o Público, com chamada à primeira página. O secretário deEstado do Ambiente revela que esta valor é dificil de cobrir com licenças gratuitas de emissões.
Segundo a Quercus estas emissões custarão - entre 2010 e 2012 - 300 milhões de euros.
Um Estado tão generoso com alguns dos investidores nunca foi capaz de gastar um cêntimo a criar as condições para que em Sines as empresas -tipo Petrogal - respeitem o ambiente e a saúde dos cidadãos. Exigindo às empresas mudanças e a modernização dos procedimentos industriais.
Temos um Estado ladrão no sentido em que rouba a todos para dar aos ricos. Quem nos dera que tivessemos um Estado do tipo Robin dos Bosques - ou se não puder ser tão bom um Estado socialista - capaz de retirar uma pequena parte aos poderosos para melhorar a vida de todos nós.

A reunião de ontem da Assembleia Municipal de Sines justifica esta adenda. Para fazer duas coisas:
-Em primeiro lugar para louvar a iniciativa do Presidente da Assembleia Municipal de Sines, Francisco do Ó Pacheco, eleito pela CDU, que introduziu o tema na agenda da reunião para obrigar a Câmara a prestar informação aos deputados e à população sobre o avanço do processo. Para o elogiar por ter decidido convocar uma reunião da Assembleia, com carácter de urgente, para discutir com a população esta questão. Muito bem.
- Em segundo lugar para denunciar a posição da Câmara e do seu Presidente, que já emitiu parcer favorável à localização da nova refinaria, como foi denunciado pelo Presidente da AM na sessão de ontem. Com a desculpa de que o PDM a isso obrigava o que, de todo em todo, não é verdade. O PDM de Sines na sua orientação estratégica, definida na década de oitenta, e até hoje não revista, recusava a aposta na continuação da instalação de indústria pesada, sobretudo associada aos sectores da refinação e ao sector petroquímico. O ónus ambiental, e de saúde, que as populações suportam desde o final da década de oitenta legitimam a tomada de posições, mesmo as mais radicais, contra esta nova intervenção "estruturante" este PIN à moda de sua excelência o ministro Pinho.
Aquilo que está em causa é demasiado importante para o futuro de Sines para poder ser decidido no silêncio dos gabinetes, com contrapartidas económicas a toldarem o espírito daqueles que foram eleitos para defenderem as populações e que se esquecem logo que ouvem o tilintar das moedas.

Vai ter lugar, esta noite, uma reunião ordinária da Assembleia Municipal de Sines. A ordem de trabalhos tem 13 pontos entre os quais se inclui a discussão da Conta de Gerência de 2005 - ponto 3 da OT - e a contracção de um empréstimo de médio longo prazo- ponto 4 da OT. O oitavo ponto da reunião é o seguinte : " Apreciação sobre a instalação da refinaria Patrick Monteiro de Barros".
Como se percebe este assunto é apenas mais um. O oitavo, por ordem de importância para o futuro do concelho, insusceptível de justificar uma reunião exclusiva da Assembleia Municipal. Se algum cidadão se deslocar à AM terá que esperar horas e horas até que este assunto seja discutido. Quem marcou a reunião espera que desistam todos antes disso aocntecer.
A democracia no seu esplendorcomo diria Jerónimo de Sousa.
Uma questão de pormenor. A AM tem ou não poder vinculativo no que se refere à localização da nova refinaria? Isto é, se a AM recusar a localização da nova refinaria ela pode ser construída? O que quer dizer "Apreciação"?
Defendo desde que esta decisão lamentável de Sócrates-Pinho e Pactrick ( com um lugarzito pequenino para o Coelho, assim a modos do Durão na cimeira das Lajes, passe o exagero) foi conhecida, que os actuais orgãos do concelho não têm qualquer legitimidade política para decidir nesta matéria, já que ela não constava dos programas votados pela população em Outubro de 2005. Além de se tratar de um assunto demasiado sério para ser decidido por quem não exita em trocar a saúde e o bem estar das populações pelos suculentos 20 milhões de euros de Taxas Municipais de Urbanização que a Refinaria vai gerar.Defendo que seja o povo a decidir nesta matéria pela via de um referendo.

Uma das formas de observar a maturidade política de um pais é ter em conta a maneira como se organiza o seu espaço.
Quando vamos ao norte da Europa, damos por nós a dizer: “Que organizados são estes tipos!”. Se formos francos, até os nossos vizinhos ( poupo o inventário de semelhanças e diferenças) conseguiram chegar ao “nível da União”. Madrid ou Barcelona mostram que somos capazes (os do Sul) de fazer tão bem como eles. Mas também as cidades médias espanholas entraram na corrida: Salamanca, Valladolid ou Sanitago de Compostela. Seria, claro, demasiado pessimista afirmar que só Portugal ficou para trás na realização de projectos de ordenamento regional e urbano. Lisboa, Porto e muitas cidades do Norte apresentam um corte urbanístico agradável, valha-nos a capacidade quase olímpica de algumas instituiçoes regionais conseguirem conjugar o tradicional com os” mamarrachos” dos anos eufóricos do "desenvolvimento urbano português". Assim, embora Estarreja não seja das cidades pequenas a mais bonita de Portugal, tem uma praça “limpa”. Aveiro e Braga progressam, cidades como Guimarães, Miranda do Douro ou Estremoz parecem estar no bom caminho. Estas observações desprendem-se completamente de todo e qualquer juizo oficial, pois fazem parte da opinião de quem visita ou visitou recentemente estas cidades.
Ainda que leigo no assunto, posso questionar o que a este nível se passa em Sines. Senão vejamos: no ano de 2004, a população do concelho tinha pouco mais de 13.600 habitantes. Por outras palavras, “a terra é pequena”. Sines dispõe, de uma óptima posição face ao mar e todas as vantagens que daí advêm. Um clima agradável. Ao ler estas linhas, qualquer um que tenha estado em Sines entende que falamos de lugares comuns. Da mesma forma, qualquer um pode colocar questões. Por exemplo: Se a Avenida Vasco da Gama conferiu à faixa litoral da cidade um ar mais agradável, porque não fazer o mesmo no chamado centro histórico? Ou porque não nas principais artérias da ex-vila? Ainda que possamos não estar informados a respeito de quem dá o dinheiro para fazer o quê, podemos continuar preguntando: Porquê fazer o tão esperado Centro das Artes na parte antiga ( e já suficientemente desorganizada) da cidade? Porquê esse gasto de dinheiro nessa passarela em pedra, muito mal acabada e que acaba tragicamente a remendos de alcatrão, como se uma criança gigante a tivesse remendado com os seus dedos numa tarde de brincadeira? Não se entende. O visitante ou o habitante, ou quem sabe, os dois juntos, poderiam ainda contemplar a descontinuidade urbanística daquele canto da cidade, o novo entreposto cultural da região: uma casa Alentejana típica, escoltada por um prédio creme anos noventa e pelo mini CCB. Os ditos remendos a alcatrão e, de vez em quando, um carro que passa, ziguezagueando de forma a não chocar contra os pilarzinhos chiques que ao longo da passarela rosa foram colocados. Visitante e habitante pensariam certamente: “Que desorganizados são estes tipos”. E não é difícil. Entre obras e mais obras – já sabemos que é um clássico fácil criticar as obras da via urbana – necessitamos de bússolas para encontrar o Norte em terras de Vasco da Gama. Caso de imaturidade política? Falta de consenso? Não sei. Só sei é que aqui, até Vasco necessitaria de uma bússola.

António Oliveira e Silva

(texto recebido de um leitor via e-mail)


A Europa tem escrito e rescrito a sua História. Uma História repleta de guerras, mais ou menos longas, que foram traçando mapas e definindo a ideia de civilização exaltada pelo Iluminismo. Na Europa escreve-se muito sobre os factos da sua História, mas poder-se-ía escrever mais sobre o porquê desses factos.
O velho continente Europeu tem contrastes e movimentos humanos enigmáticos e muitos eles ainda estão por analisar e compreender. No continente onde a ideia de Liberdade Política nasce na Antiga Grécia há cerca de 2.500 anos, onde a filosofia e as artes ganham o maior explendor, onde nascem a maioria dos cérebros que disparam a máquina da ciência, onde se firmam os pilares da ideia de Justiça é também o continente onde se iniciam as duas guerras mundiais e onde se leva a cabo a ideia de extermínio de um povo com contornos de horror nunca antes imaginados.
Estes contrastes leva-nos a tantas perguntas. Quem somos? Que lugar é hoje o da Europa no mundo? Como integrar correctamente o nosso passado de guerra, liberdade e desejo de equilíbrio nos caminhos do mundo de hoje? O que é a nossa voz na loucura e no barulho de hoje?

O discurso de Cavaco Silva foi um discurso interessante do ponto de vista político. Fez uma criteriosa análise dos problemas com que os portugueses se deparam. Problemas de exclusão social, de uma pobreza cruel, de desigualdade na distribuição da riqueza - é verdade o Presidente da República falou desta questão - de baixos salários.
Em tese poder-se-á dizer que estamos perante um discurso que não se pode avaliar como sendo crítico ou de oposiçao ao Governo. Um discurso de centro-esquerda que traduz respeito pela sua base social de apoio. Poder-se-á concluir que o Presidente da República e o Primeiro-Ministro estão em sintonia.
Mas ... Cavaco nada adiantou sobre as soluções para os problemas que identificou. Ora aí é que se pode estabelecer, ou não, alguma clivagem com o Governo.
Sócrates e o seu PS, com uma nova natureza, - na feliz expressão de Maria José Nogueira Pinto - não parecem pretender questionar minimamente as razões que conduzem a esta sociedade cada vez mais desigual. Estão no entanto empenhados -uma diferença para o PSD e para o PP - em tornar esta sociedade mais aceitável, diminuindo as dores daqueles que são excluídos. São - a tal nova natureza passa por aí - assistencialistas e nunca serão socialistas no sentido de promoverem uma sociedade mais justa em que os mecanismos de fomento da desigualdade sejam anulados. O assistencialismo é, como se sabe, impotente porque se recusa a ir à raiz do problema.
Talvez seja nesse plano que Sócrates e Cavaco possam, mais facilmente, fazer coisas em conjunto. Nesse caso será claramente injusto classificar o discurso de Cavaco como um discurso de centro esquerda. A mesma injustiça que está presente naqueles que classificam o actual governo como sendo de esquerda. Um erro que Maria José Nogueira Pinto não comete.

Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada

De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse

Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra

Junho de 1974

Sophia de Mello Breyner

Nestes tempos amargos e dificeis de desigualdades antigas e novos e velhos privilégios as esperanças que Abril nos trouxe continuam em grande parte por cumprir. Há a liberdade mas faltam as condições de exercício dessa mesma liberdade. Como cantava Sérgio Godinho - e como se mantêm actual essa canção - "só há liberdade a sério quando houver: a paz, o pão, saúde, educação, liberdade de pensar e decidir quando pertencer ao povo o que o povo produzir(...)"
Os novos senhores nacionais, regionais e, os mais sinistros, os novos senhores locais, os "caciques de nova geração", sem ideias, sem ideais, sem estratégia, com uma sede ilimitada de poder, impõem o seu mando e o seu arbítrio. Os cidadãos são tratados de acordo com a flexibilidade da sua coluna vertebral. A competência, a idoneidade, a seriedade não são valores absolutos. Depende da orientação política do portador. Os "nossos" não são incompetentes, corruptos ou canalhas. São os nossos e isso absolve-os de todas as canalhices de todas as corrupções.
Nestes tempos, tristes, volta a estar na ordem do dia a ida ao Paço para pedir a tença.

Irás ao Paço. Irás pedir que a tença
seja paga na data combinada
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce.

Em tua perdição se conjuraram
Calúnias desamor inveja ardente
E sempre os inimigos sobejaram
A quem ousou seu ser inteiramente

E aqueles que invocaste não te viram
Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto

Irás ao Paço irás pacientemente
Pois não te pedem canto mas paciência

Este país te mata lentamente

Sophia de Mello Breyner Andresen. Camões e a Tença.

AS PORTAS QUE ABRIL ABRIU

Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais infeliz
dos povos à beira-terra.

Onde entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.

Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raiz
tinha o fruto arrecadado
onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado
onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado.

Era uma vez um país
de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado
pelas ideias nazis
pelo dinheiro estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado
que até hoje já se diz
que nos tempos do passado
se chamava esse país
Portugal suicidado.

Ali nas vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
vivia um povo tão pobre
que partia para a guerra
para encher quem estava podre
de comer a sua terra.

Um povo que era levado
para Angola nos porões
um povo que era tratado
como a arma dos patrões
um povo que era obrigado
a matar por suas mãos
sem saber que um bom soldado
nunca fere os seus irmãos.

José Carlos Ary dos Santos

Sou capaz de prever um novo "máximo histórico" para o petróleo amanhã.

Os jornais de hoje informam que Celeste Cardona, ex-ministra das finanças e administradora da CGD, será delegada ao congresso do seu partido. Esta situação já suscitou algumas reacções motivadas pela defesa de uma desejável salvaguarda da empresas públicas da ostentação das ligações partidárias dos seus administradores. Não concordo. Acho muito bem que Celeste Cardona seja eleita delegada ao congresso do CDS já que ela deve tudo ao seu partido, incluindo o facto de ter sido ministra e de ser actualmente administradora da Caixa Geral de Depósitos. Situação que é aliás comum à generalidade dos gestores públicos quer sejam do PS, do PSD ou do CDS/PP - julgo que não haverá gestores públicos do PCP e do BE, mas se existirem aplica-se a mesma regra - a sua nomeação obedece em primeiro, e único, lugar a critérios de pura confiança política.
A meritocracia que a classe política quer(?) impor à Administração Pública não se podia aplicar aos próprios partidos e aos gestores públicos por si nomeados. Ficavam centenas de lugares eternamente vagos.

Nota: uma estranha avaria no blogue impediu a publicação deste post desde as 10h 45 m.

O FMI veio na passada semana sugerir a retoma em Portugal só no final de 2007. Depois disso até o Ministro das Finanças se enganou na idade da sua mãe.
No entanto o World Economic Outlook do FMI traz outra informação relevante e que, com excepção do Público, ninguém referiu. É que o FMI identifica quatro "modelos sociais europeus" e procede á sua avaliação. São eles o "Nórdico" o "anglo-saxónico" o "continental" e o "mediterrânico". O resultado da avaliação mostra que o "mediterrânico" é o que dá piores resultados em todos os indicadores. É no conjunto dos países - Itália, Espanha, Grécia e Portugal - que o integram, que as desigualdades sociais e a pobreza são mais altas; as horas trabalhadas mais elevadas; e os índices de produtividade mais baixos.
É por isso que quando alguma da nossa direita clama pela flexibilização do emprego, apontando o exemplo da Dinamarca, ela se esquece sempre de clamar pela protecção social aos desempregados existente na Dinamarca.
A nossa direita não conseguiu perceber uma evidência que até ao FMI salta aos olhos: não há um só modelo social europeu. Há vários. Aquilo que se passa em países como Portugal é um arremedo grosseiro de algo parecido com um Estado Social. Somos - é sempre necessário repetir isto - o país mais desigual da União Europeia. Uma questão de opções políticas e não uma fatalidade, como muitos nos querem impingir.

Abriu, esta semana, no Pavilhão do Futuro o Casino de Lisboa. Atendendo ao facto de se ter instalado no outrora emblemático Pavilhão do Futuro poderiam ter escolhido para o nome Pavilhão Portugal ou Casino do Futuro.
A inauguração contou com a presença do ministro da economia -cuja presença avaliza a importância estruturante da coisa, seja ela qual for - e da ministra da cultura, já que o ministro da economia nunca dispensa o apêndice ambiental ou cultural.
Antes da inauguração o magnata do casino foi recebido pelo Presidente da República e pelo Primeiro-Ministro.
Portugal parece-se cada vez mais com um casino. Há os poucos que ganham sempre, porque são os donos da banca, e à a generalidade dos que jogam sempre, na esperança de ganharem alguma coisa, e acabam sempre a perder.

Costumava dizer-se que a crise começava quando um economista falava dela. Ainda mais quando esse economista fosse, por hipótese, Ministro das Finanças.
Assim sendo o que acontece quando um Ministro das Finanças fala de pânico ainda que seja para referir que "não devemos entrar em pânico"?
Teixeira dos Santos tem razões para estar assustado. Mas sobretudo os Portugueses devem temer o pior. Todos os relatórios dizem que Portugal não está a recuperar, antes pelo contrário. Desde o FMI, à OCDE, ao Banco de Portugal a conclusão é unânime: a economia portuguesa não cresce. Só três países apresentam pior perfomance em todo o mundo: a Guiné Equatorial, as Seichelles e o Zimbabué - onde o PIB terá uma variação inferior a 0,8% este ano.
Ao que isto chegou.

Ao pé dos cardos sobre a areia fina
que o vento a pouco e pouco amontoara
contra o seu corpo (mal se distinguia
tal como as plantas entre a areia arfando)
um deus dormia. Há quanto tempo? Há quanto?
E um deus ou deusa? Quantos sóis e chuvas,
quantos luares nas águas e nas nuvens,
tisnado haviam essa pele tão lisa
em que a penugem tinha areia esparsa?
Negros cabelos se espalhavam onde
nos braços recruzados se escondia o rosto.
E os olhos? Abertos ou fechados? Verdes ou castanhos
no breve espaço em que o seu bafo ardia?
Mas respirava? Ou só uma luz difusa
se demorava no seu dorso ondeante
que de tão nu e antigo se vestia
da confiada ausência em que dormia?
Mas dormiria? As pernas estendidas,
com um pé sobre outro pé e os calcanhares
um pouco soerguidos na lembrança de asas;
as nádegas suaves, as espáduas curvas
e na tão leve sombra das axilas
adivinhados pêlos... Deus ou deusa?
Há quanto tempo ali dormia? Ou não estaria ali?
Ao pé dos cardos, junto à solidão
que quase lhe tocava no areal imenso,
do imenso mundo, e as águas sussurrando -
- ou não estaria ali?... E um deus ou deusa?
Imagem, só lembrança, aspiração?
De perto ou longe não se distinguia.

Jorge de Sena. Metamorfose in Fidelidade(1958).



A Europa foi um grande campo de batalha entre parentes. O sonho como poder levou-os à grande guerra e à pequena e suja guerra dos salões envenenados.
Foi nesse espaço, entre o Mediterrâneo, o Atlântico e as estepes do Norte, que a guerra e as ideias foram construíndo, ao longo de séculos, o homem futuro. A arte rompeu daí, dessa violência, desse pensamento que urge por se manifestar.
Foi a Europa que "acelerou" o motor do tempo e do espaço, quando cumpriu o sonho de o alcançar e o dar a conhecer. Como instigadores do fogo, teremos que recolher a cinzas. Pisamos as nossas cinzas, sem muitas vezes percebemos as ramificações do caminho já percorrido.
Somos uma velha referência que se consolidou pelo ofício das artes e da ciência. Somos um grande museu que parece estar perdido no tempo e no espaço. Somos uma velha mãe que se deixou ultrapassar pelos filhos, que já não reconhece e não sabe o que fazer quando estes se revoltam.

"(...)Já todos percebemos que quem "ganhou" as eleições italianas, na verdade, e para todos os efeitos mediáticos, foi Berlusconi, o homem que muitos davam como politicamente acabado. Prodi teve mais deputados e senadores, à tangente, mas há uma "lei" em Itália que não perdoa: os políticos fracos duram pouco e as coligações infinitas morrem cedo". Esta afirmação deve-se a LD o nosso cronista preferido. Pode ler na íntegra aqui. Imagine-se se o resultado fosse o inverso. O que diria o nosso Luís?

PS - os sublinhados são da nossa responsabilidade. Não podíamos deixar passar sem o devido realce aquela pérola dos "para todos os efeitos mediáticos." Magnífico!!!

A proposta de Jorge Miranda de os deputados passarem a assinar o ponto três vezes em cada sessão - uma no ínicio, outra no meio e outra no fim - não faz qualquer sentido. O que faz sentido são as outras propostas do constitucionalista que referi no post anterior.
Entretanto continua o lodaçal à volta dos hábitos dos nossos deputados. Os próprios contribuem, o mais que podem, para atirar lama sobre a função parlamentar. Aliás quantos verdadeiros deputados existirão na Assembleia da República? Gente capaz de defender príncipios e valores, capaz de pensar pela sua cabeça, com uma práctica de rigorosa separação entre interesses públicos e privados? Cada vez mais cresce a convicção de que são cada vez menos os deputados que se podem levar a sério.
Aliada esta perfomance parlamentar às dificuldades crescentes de uma parte significativa da população e ao regresso em força dos privilégios de alguns poucos, estão criadas as condições ideais para a emergência dos populismos de sinal contrário. Ouçam-se os diferentes foruns, abertos à participação livre da população, e escutem-se as primeiras vozes a solicitar novas revoluções e mudanças de regime. A insatisfação anda no ar. Pudera.

... mas não velho. É o que se recolhe sempre que nos deparamos com intervenções escritas ou faladas de Jorge Miranda, um dos mais notáveis pais fundadores da nossa Constituição. A propósito da qualificação da democracia as suas propostas não merecem a aprovação do sistema partidário dominante. Compreende-se. Limitar mandatos, impor exclusividade aos deputados -não viria mal ao mundo num regime de limitação de mandatos a duas legislaturas, por exemplo - tornar efectivas as incompatibilidades e outras medidas não é coisa de que os nossos políticos queiram, sequer, ouvir falar.
Talvez por não merecerem a aprovação dos políticos é que elas merecem, certamente, a aceitação da maioria do país, sobretudo da parte que pensa.
Dito isto acrescento que nada me move contra os políticos, sobretudo contra os sérios e contra aqueles que fazem da defesa da coisa pública algo não misturável com a defesa de interesses privados. Esses podem ser raros, mas são bons.


O último filme de Spike Lee, O Infiltrado, tem tudo para talvez se vir a tornar no seu melhor filme. Com Clive Owen, Denzel Washington e Jodie Foster nos principais papéis, o argumento de Russell Gewirtz leva esta película mais longe do que a de uma simples história do assalto perfeito a um banco em plena Nova Iorque.
A construção do plano é brilhante, mas a acção surpreende pela particularidade do uso da máscara, o que cria, ao longo do filme, uma singular conjuntura de ambiguidade. Em pleno assalto, assumidamente, não sabemos quem é quem, nem no interior da dependência bancária, nem no mundo exterior, onde a máscara assume outros contornos. No jogo do poder, existe sempre um acessório para a máscara, para o acto de omitir, de resto um dos mais instintivos no ser humano. O acessório para a máscara pode ser o próprio poder. E neste caso o poder maior, mais do que o do valor do dinheiro, é o da inteligência e o do domínio sobre o que o outro esconde. Não será sempre assim na vida real?

Com a devida vénia ao "Inimigo Público" - o jornal que noticia tudo aquilo que "se não aconteceu podia ter acontecido" - não resistimos a publicar uma pequeno texto sobre a relação entre Luís Delgado -um dos nosos favoritos - e Sócrates. O título do texto é: "Sócrates apareceu a Luís Delgado em cima de uma oliveira". O texto reza assim: "O milagre da conversão de Luís Delgado a José Sócrates está a ser estudado pelo Perfeito da Congregação da causa dos Santos. "Delgado era, até há menos de um ano, um apóstata", disse ao IP o Perfeito D. Saraiva Martins, "ou seja, um santanista despudorado, um mestre do elogio a metro, capaz de escrever sobre Santana Lopes louvores dignos do que "A Gazeta de Pyongyang" escreveu sobre Kim Jong-il e do que Fernando Mendes dedicou às favas com toucinho". Ainda não há grandes certezas mas, até prova em contrário, a conversão de Delgado a Sócrates foi atribuída à irmã Lúcia.

A manchete do DN espelha uma realidade iniludível. Os Portugueses estão, desde que Sócrates tomou posse, a ser vitimas da maior subida de impostos de que há memória. Isto apesar da promessa eleitoral de não aumentar os impostos. O problema é que nesta exigência cada vez maior nem todos são chamados a contribuir da mesma maneira. Os bancos e as grandes empresas, com poder político quanto baste, usam e abusam de estratagemas legais, muitas vezes criados por elas, para pagar o menos possível.
É esta imoralidade que Sócrates não revela qualquer vontade de combater. A sua implacabilidade dirige-se fundamentalmente para os mesmos; os trabalhadores por conta de outrem e as pequenas e médias empresas que vivem debaixo do maior clima de repressão fiscal da história da democracia. Um clima que fomenta a recessão de que o último ano dá uma medida exacta apesar dos elogios patetas pelo péssimo resultado de um défice de 6%. ( a pergunta sobre o paradeiro de Vitor Constâncio é absolutamente pertinente depois do que o senhor disse sobre o terrível défice do governo de Santana Lopes. Outra questão interessante é a de sabermos como andará a dormir Cavaco Silva, com este monstro ainda tão vigoroso e tão real a pairar sobre o País?).


A Correspondência trocada entre Sophia de Mello Breyner e Jorge de Sena, ao longo de quase quarenta anos, dada à estampa recentemente pela nóvel editora Guerra e Paz, constitui uma excelente oportunidade para nos aproximarmos dos universos dessas duas figuras maiores da cultura portuguesa. Através destas cartas, podemos entender os problemas com que se deparavam e, afinal, como apesar de fisicamente separados, em continentes diferentes, Sena e Sophia se sentiam tão próximos na relação com o Portugal de então. Um Portugal salazarista, com os seus pides e censores, cuja oposição, na sua pequenez controleira, que se reflectia na área cultural como esta correspondência evidencia, teria tornado impossível, como hoje sabemos, o derrube do regime se, desgraçadamente, isso dependesse unicamente da sua acção.
Percebemos as razões do périplo de Sena pelo Brasil e depois pelos Estados Unidos com passagem pelo Wisconsin até se fixar definitivamente na Calofórnia em Santa Bárbara. O poeta aspirava sobretudo a voltar a Portugal, ou à Europa, o que lhe era impossível pela situação política mas também pela sua animosidade em relação à generalidade do meio literário. Como se sabe, o 25 de Abril não veio alterar significativamente a situação e Sena acabou por morrer no exílio.
Percebemos, através das cartas de Sophia, as dificuldades dos que foram sujeitos ao exílio no interior. Dificuldades de quem escolhera dedicar a sua vida à poesia e à actividade cultural e que, apesar disso, nas suas palavras, não desistira de ser mãe e esposa de um Dom Quixote, Francisco Sousa Tavares, que advogava em defesa das vítimas da ditadura e que sofria as represálias do regime. Dificuldades em lidar com um meio literário, no qual a presença da censura consumia as energias e as capacidades dos que resisitiam, que aparecia minado pelas tentativas de o hegemonizar politicamente.
Esta correpondência constrói-se de um dos mais belos sentimentos humanos: a amizade. Amizade e admiração recíproca pela arte de cada um, de que as cartas dão eloquente testemunho.
Outros tempos e outras gentes. Tempos piores, mas uma gente de uma qualidade rara entre os portugueses.



Quando o Amor Vacila

Eu sei que atrás desse universo de aparências das diferenças toda a esperança é preservada. Nas xícaras sujas de ontem o café de cada manhã é servido. Mas existe uma palavra que eu não suporto ouvir e dela não me conformo. Eu acredito em tudo, mas eu quero você agora. Eu te amo pelas tuas faltas, pelo teu corpo marcado, pelas tuas cicatrizes, pelas tuas loucuras todas. Minha vida, eu amo as tuas mãos mesmo que por causa delas, eu não saiba o que fazer das minhas. Amo teu jogo triste. As tuas roupas sujas é aqui em casa que eu lavo. Eu amo a tua alegria mesmo fora de si, eu te amo pela tua essência, até pelo que você podia ter sido, se a maré das circunstâncias não tivesse te banhado nas águas do equívoco. Eu te amo nas horas infernais, e na vida sem tempo. Quando, sozinha, bordo mais uma toalha de fim de semana. Eu te amo pelas crianças e futuras rugas. Te amo pelas tuas ilusões perdidas e pelos teus sonhos inúteis. Amo o teu sistema de vida e morte. Eu te amo pelo que se repete e que nunca é igual. Eu te amo pelas tuas entradas, saídas e bandeiras. Eu te amo desde os teus pés até o que te escapa. Eu te amo de alma pra alma. E mais que as palavras. Ainda que seja através delas que eu me defendo, quando te digo que te amo mais que o silêncio dos momentos difíceis quando o próprio amor vacila!

(Dito por Maria Bethania In Maricotinha ao Vivo, 2002)

Se gosta de jazz, blues e do melhor da música portuguesa e brasileira, exprimente a sintonia de 98.1 (site: http://www.marginal.fm/ )
Pouca publicidade e uma selecção musical excelente.

Este colaborador do Pedra do Homem, depois de uma ausência com alguns pequenos intervalos, vai continuar em "trabalho político" . Posto isto qualquer tentativa de identificar as ausência futuras com motivos associados à pura e simples fruição das férias pascais será severamente desmentida. Aqui ninguém falta. Fazemos trabalho político.

Nestas férias da Páscoa, vim para Porto Covo, com os meus pais. Viemos de caravana, para o parque de campismo, como habitualmente. Tem estado um tempo óptimo, dá para ir à praia. Eu ontem até tomei um banho, no mar.
Ontem, uns amigos nossos, vieram ter connosco ao parque de campismo.
Agora que estou perto de Sines, posso visitar o meu primo bebé, o Diogo. Assim já não fico com tantas saudades dele!!!!!!!!!

Bjx.

A cidade do urbanismo do movimento moderno e do urbanismo funcionalista é por excelência o lugar de negação da cidade.
A combinação preversa do zonamento - uma criação de Le Courboisier e do movimento moderno, saído da carta de Atenas de 1933 - com a privatização - defendida e praticada pelo urbanismo funcionalista que se lhe seguiu - criou uma caricatura da cidade na qual as "peças", os "produtos", a arquitectura dos "monumentos" e dos "objectos-mercadoria", substituem a cidade do intercâmbio e da diversidade. A cidade fragmentada tem tendência a ser uma cidade socialmente segregada, economicamente pouco produtiva e culturalmente miserável. É a negação da cidade ao negar o potencial das liberdades urbanas, a promessa de justiça e os valores democráticos.

Num colóquio realizado em Buenos Aires(*), o director de planeamento da City de Londres afirmou: "(...)A mercadoria mais importante que se troca na cidade é a conversa, a informação cara a cara, a murmuração... Em consequência são muito importantes o bar e o restaurante. O urbanismo tem que garantir, como mínimo nas áreas densas, que em cada quarteirão os pisos térreos sejam lugares de encontro, espaços comerciais e sobretudo cafés, o equipamento mais importante da cidade.(...)"

(*) - Seminário Internacional promovido pela Cidade de Buenos Aires, 1996.

Na sua conferência com o título “ A ideia de Europa” proferida no Nexus Institute em 2004 – editada em livro pela Gradiva com prefácio de Durão Barroso – George Steiner diz o seguinte logo no início “ (…) A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kierkgaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo. Não há cafés antigos ou definidores em Moscovo, que já é um subúrbio da Ásia. Poucos em Inglaterra, após um breve período em que estiveram na moda, no século XVIII. Nenhuns na América do Norte, para lá do posto avançado galicano de Nova Orleães. Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da “ideia de Europa”.
O café é um local de entrevistas e conspirações, de debates intelectuais e mexericos, para o flàneur e o poeta ou metafísico debruçados sobre o bloco de apontamentos. Aberto a todos, é todavia um clube, uma franco-maçonaria de reconhecimento político ou artístico-literário e presença programática. Uma chávena de café, um copo de vinho, um chá com rum assegura um local onde trabalhar, sonhar, jogar xadrez ou simplesmente permanecer aquecido durante todo o dia. É o clube dos espirituosos e a posta-restante dos sem-abrigo. Na Milão de Stendhal, na Veneza de Casanova, na Paris de Baudelaire, o café albergava o que existia de oposição política, de liberalismo clandestino. Três cafés principais da Viena imperial e entre as guerras forneceram a agora , o locus da eloquência e da rivalidade, a escolas adversárias de estética e economia política, de psicanálise e filosofia. Quem desejasse conhecer Freud ou Karl Marx, Musil ou Carnap, sabia precisamente em que café procurar, a que Stammtisch tomar lugar. Danton e Robespierre encontraram-se uma última vez no Procope. Quando as luzes se apagaram na Europa, em Agosto de 1914, Jaurés foi assassinado num café. Num café de Genebra, Lenine escreveu o seu tratado sobre empirocriticismo e jogou xadrez com Trotsky.(…)



A cidade deve ser um espaço onde ninguém se sinta excluído. A cidade é um lugar que deve estar preparado para receber e integrar a diversidade de culturas que aí existam. A cidade deve respeitar e cuidar a multiplicidade de tempos históricos que nela coexistam. A cidade deve ter meios para que o espaço público seja partilhado e construído por todos. Estas duas linhas principais só serão possiveis se se levar a cabo programas de planeamento sérios para os quais deverão ser chamados urbanistas com visibilidade social que estabeleçam uma ponte entre o poder político eleito e os cidadãos. O planeamento de uma cidade deverá passar por uma estratégia criativa e de antecipação que congregue a dinâmica de equipas multidisciplinares. Todos podem e devem pensar a cidade, porque pensar uma cidade é pensar o futuro.
Foi muito enriquecedor ouvir falar destes e de outros olhares no passado Sábado, no Centro Cultual Emmerico Nunes em Sines, num debate promovido por esta cooperativa e pela ASAS-Academia Sénior de Artes e Saberes e organizado por alunos do Instituto Superior Técnico. Estiveram presentes o Prof. Manuel Costa Lobo, Engº José Carlos Guinote e a Prof. Alice Santos Silva que partilharam os seus conhecimentos e foram questionados sobre esta temática.
Um debate interessante que infelizmente não contou com a presença de técnicos e autarcas das Câmaras Municipais do próprio concelho e de concelhos vizinhos.

O texto da Maria José Botelho levanta algumas das questões pertinentes que se colocam hoje na relação entre a arquitectura enquanto coisa pública, já que de outra qualquer perspectiva o assunto é bastante irrelevante, e a polis.
Questões que o círculo de poder - dos vários poderes mesmo os que entre si conflituam - recusa discutir agora que descobriu que a arquitectura, sobretudo aquela que é susceptível de transportar no dorso o carácter distintivo da monumentalidade e mesmo da obra de arte moderna, seja lá isso o que fôr, pode permitir disfarçar programas políticos de intervenção na cidade mediocres, reaccionários, retrógados, desprovidos da mais elementar ideia por muito elementar que seja.
O mundo move-se muitas vezes assim, com sucessivos regressos ao passado. Recorde-se a utilização que Mussolini fez da monumentalidade na arquitectura e a relação entre Albert Speer, um dos maiores arquitectos alemães, e Hitler. Já com o ditador nazi desesperado, no bunker onde se suicidou, Speer foi-lhe mostrar a maquete da reconstrução de Berlim. Recorde-se num passado mais recente a forma como Miterrand utilizou a arquitectura para deixar, sobretudo, a sua marca impressa no tempo. A arquitectura tornou-se instrumental dos projectos de poder pessoal e de tentativa de assegurar um lugar na posteridade. Recebe em troca um farto saco de moedas.
Nestes tempos pouco interessantes com um pequeno lugar para a capacidade crítica e a discussão de ideias a Arquitectura coloca-se ao conjunto dos cidadãos como uma fatalidade e nunca como uma escolha. Numa recuperação do espírito salazarista, que nunca nos abandonou, devemos talvez proclamar: felizes de nós tão ignaros que temos pessoas tão inteligentes e sensíveis capazes de pensar, decidir e fazer por nós.
( a continuar).


Escultura de A. Giacometti

Não sou entendida em arquitectura, no entanto, parece-me que muitas obras que se erigem nos dias de hoje, são projectadas por arquitectos que gostariam de ter sido escultores.
Quando os projectos são destinados à habitação particular e são desenhados e construídos com aceitação dos proprietários, não tenho nada a apontar, é apenas uma questão de gosto. Mas quando os mesmos são destinados a fins públicos, erguidos com financiamento público, mesmo os leigos na matéria, como eu, têm o direito a ter uma opinião: a opinião de um utilizador, de um dos que usufruem esses espaços e os partilham com os outros.
Nos dias de hoje, os edifícios construídos com pressupostos públicos, deveriam-se impor pela sua sobriedade, pela qualidade da sua construção, pela beleza de uma iluminação bem direccionada, e, sobretudo, pela funcionalidade dos espaços que no futuro as pessoas, capacitadas e incapacitadas, vão usufruir.
Existem muitos edifícios onde podemos desfrutar estas qualidades. Sentimo-nos bem nesses espaços, em raros momentos nos agridem, ainda que a cada passo, a cada recorte de janela, se presencie a mão, o cunho e a originalidade do arquitecto que o projectou.
Estou a lembrar-me do edifício da Escola Superior de Educação em Setúbal, da autoria de Siza Vieira. É um edifício que não se impõe pela presunção do autor, antes pela qualidade de um projecto que, tanto no exterior como no interior, soube envolver a obra com a natureza circundante e soube dar uma dinâmica a todos os espaços. Entendeu a função dos espaços humanos, entendeu as pessoas nesses espaços, percebeu que as pessoas também são os espaços que habitam, que se moldam, se retraiem, se expandem de acordo com a "casa".
Infelizmente, existem muitos edifícios que apesar de concebidos a partir de um projecto largamente reconhecido, pertencem a uma outra linha da arquitectura. São espaços que nos surpreendem, mas que também nos "esmagam". Esses edifícios têm salas onde nem todas as esculturas de Giacometti ou Rodin retirar-lhes-íam a imposição. Esses edifícios querem ser esculturas, querem ser uma espécie de arquitectura intelectual.
Apesar da unanimidade em considerar a obra um exemplo da nova arquitectura, apesar dos prémios, permitam-me que uma simples utilizadora do espaço possa dizer que um dos exemplos desta útlima arquitectura a que me referi seja o projecto de Aires Mateus do Centro das Artes de Sines.

O Governo espanhol determinou a dissolução de câmara de Marbella após uma operação que levou mais de vinte pessoas à prisão. Entre essas pessoas está incluída a presidente da Câmara. A corrupção pura e dura foi o motivo. Enriquecimento gigantesco de algumas figuras da hierarquia municipal e dos sectores prestadores de serviços, incluindo o lucrativo sector dos acessores. Traço comum a todos os corruptos e a todos os corruptores: faziam a ligaçao entre o urbanismo e o imobiliário. Nada de mais natural, afinal. Um dos rapazes que acumulou uma fortuna pessoal superior a 2,4 mil milhões de euros - ele que em 1992 era um simples dsempregado - tinha criado cerca de 120 sociedades para promover a circulação do dinheiro. Nunca ninguém tinha reparado. Há coisas que não se vêm logo assim às primeiras.
O Ministério Público espanhol criou um gabinete especial para investigar os delitos urbanísiticos. será que se pode dizer, nestes casos, que mais vale tarde do que nunca?
E por cá como é? Tudo gente séria, acima de qualquer suspeita, naturalmente.

Simplex

O Benfica foi eliminado. Do que mais gostei foi da actuação dos adeptos. Os que ouvi na TV acharam que a equipa não jogou nada. Foi o que eu também achei. Quem equilibrou a partida no conjunto das duas mãos foi a falta de pontaria dos avançados do Barcelona. O Moreto ajudou, desta vez, com algumas boas defesas e sem fífias. Ganhou o melhor. Simplex.

O Homem tem uma tendência natural para a globalização. No planeta de hoje, não só nas cidades densamente povoadas do Ocidente, mas praticamente em todos os lugares, a mistura de culturas, de crenças, de modos tão díspares de pensar é uma realidade. Somos, por isso, obrigados a repensar os percursos da Humanidade e, sobretudo, a conhecer as outras culturas e religiões; a saber quem são os outros que connosco partilham o mundo.
Sempre gostei de cidades onde coexistem diferentes expressões culturais, especialmente quando as mesmas são manifestadas no mútuo respeito pelo outro. A mistura de culturas é e vai ser cada vez mais a paisagem humana do futuro.
Por tudo isto é de extrema importância que cada um de nós aprenda as origens, os percursos históricos e as culturas diferentes da nossa. É importante que os professores e os pais tenham essa consciência e que motivem as crianças e os jovens nessa aprendizagem.
Todos os dias falamos ou ouvimos falar do povo muçulmano, dos judeus, dos árabes, mas será que sabemos quem são esses povos?
Na presença de um mundo cada vez mais fracturado pelo ódio, com antigas raízes na divergência cultural e religiosa, seremos nós ocidentais (porque talvez tenhamos essa obrigação) a dar o primeiro passo. Será um passo decisivo para que possamos partilhar uma Terra onde o respeito pelas diferenças culturais e religiosas não seja sustentada apenas pelos interesses económicos. Será um passo para que no futuro possamos, de resto, sobreviver.


Fotografia de Tina Modotti, Roses, 1925
@ The state of Tina Modotti

Quando a vida ainda é um amplo e ilimitado espaço, vivem-se as melhores coisas com arrebatado brilho, com tanta exaltação que o peito parece ser pequeno para abarcar tanta beleza, tanta felicidade. E o peito, nessa altura, é, na verdade, facilmente ultrapassado pelo fulgor das coisas, ainda não percebe o que quer realmente dizer a palavra efémero. Desconhece o sentido do que é finito. Vive-se a ilusão de que tudo é eterno.
Só mais tarde é que percebemos a verdadeira importância dos sentimentos, da beleza e o lugar dos outros na nossa vida. Só mais tarde é que se alcança a significação do que é partilhado com os outros e os momentos que passamos com os nossos amigos. Só mais tarde é que aprendemos a perdoar e a relativizar o que gostamos menos nas pessoas. Só mais tarde é que percebemos que não devemos ter medo de acreditar, de arriscar e de dizer o que nos diz o coração. Só mais tarde é que entendemos o valor das palavras ditas, do passado e do tempo.

Graças quero dar ao divino
labirinto dos efeitos e das causas
pela diversidade das criaturas
que formam este singular universo,
pela razão, que não cessará de sonhar
com um plano do labirinto,
pelo rosto de Helena e a perseverança de Ulisses,
pelo amor que nos deixa ver os outros
como os vê a divindade,
pelo firme diamante e a água solta

(...)

Excerto do poema " Outro Poema dos Dons"
de Jorge Luís Borges

Deste meu alheamento da blogosfera só mesmo o LD me podia resgatar. Ao passar os olhos pelo DN fui presenteado com mais uma das admiráveis peças do Luís desta vez sobre as técnicas socráticas de comunicação. Luís está conquistado pelas artes de Sócrates e não compreende como a oposição não reage ao canto da sereia. Não resisti a voltar à blogosfera. Cito: "(...) A forma como Sócrates actua, a simplicidade eficaz da sua mensagem e os meios que usa para a transmitir são componentes de um sistema moderno, muito bem organizado e que nunca teve paralelo em Portugal, mesmo com um comunicador nato como Guterres, ou um especialista em oratória como Santana. Sócrates junta tudo isso ao melhor das escolas de comunicação, que explicam que a mensagem, para ser compreendida pela generalidade de um eleitorado, tem de ser simples, muito directa, com medidas e exemplos fáceis de decorar e com uma imagem fabricada para os órgãos de comunicação social. Enquanto a oposição ainda lê longos discursos de papel, sem olhar os portugueses nos olhos e sem se centrar numa ideia, o chefe do Governo está décadas e décadas avançado, usufruindo das melhor técnicas de comunicação e indução positiva.(...)
Ufa.


No DN de ontem, um artigo despertou-me a atenção. Trata-se de um texto de Kenneth Rogoff, professor de Economia e Política Pública na Universidade de Harvard, sobre a temática da Inteligência Artificial do qual retirei alguns excertos que gostava de partilhar convosco:

"O meu portal para o mundo da inteligência artificial é estreito: um jogo com mais de 500 anos, o xadrez. "
"Em 1997, o "Deep Blue" da IBM espantou o mundo ao derrotar o campião mundial de xadrez Garry Kasparov. Após a derrota, Kasparov disse sarcasticamente aos repórteres que tinha sentido "a mão de Deus" a guiar o seu oponente de silicone."
"O "Deep Blue" é uma combinação de um engenhoso software e de um sólido poder de computação paralelo, que produz uma entidade baseada em silicone, capaz de uma tal fineza e subtileza, que os grandes mestres de xadrez de todo o mundo ficaram simplesmente espantados".

"Tudo mudou à velocidade de um relâmpago. As máquinas agora podem ser programadas para imitar jogadores famosos - incluíndo as falhas deles - tão bem que apenas o olhar de um perito ( e às vezes apenas um outro computador!) consegue ver a diferença."

"Há mais de um século, o padrinho da inteligência artificial, Alan Turing, argumentava que a função cerebral podia ser totalmente reduzida à matemática e que, um dia, um computador rivalizaria com a inteligência humana. Ele sustentava que a maior prova de inteligência artificial seria atingida se um interrogador humano fosse incapaz de perceber que estava a conversar com um computador."

"Não tenho dúvidas que ainda neste século, será possível comprar professores de bolso"


é um disco editado em 2004 que só descobri.
Quem gosta de Fado e ainda não conhece a voz
e o talento de Aldina Duarte, não deve perder
de forma alguma este disco. Os poemas, quase
todos da autoria da fadista, são de uma
deslumbrante beleza.

O CCEN, sobre cuja actividade paira a bota pesada e repressiva - pela via da asfixia económica, neste caso - da uniformização e da eliminação de toda a capacidade crítica, não desiste de continuar. Desta vez o CCEN inicia um ciclo de Conversas para fomentar o " poder de participar e de pensar com o(s) outro(s)." O pretexto são as "Conversas sobre a Cidade".



Tu cuja carne que hoje é pó e planeta
pesou como a nossa sobre a Terra,
tu cujos olhos viram o Sol, essa famosa estrela,
tu que viveste não no rígido ontem
porém no incessante presente,
no último ponto e ápice vertiginoso do tempo,
tu que em teu mosteiro foste chamado
pela antiga voz da épica,
tu que teceste as palavras,
tu que cantaste a vitória de Brunnanburh
e não a atribuiste ao Senhor
mas à espada do teu rei,
tu que com júbilo feroz cantaste as espadas de ferro,
a vergonha do viking,
o festim do corvo e da águia,
tu que na ode militar congregaste
as rituais metáforas da estirpe,
tu que num tempo sem história
viste no agora o ontem
e no suor e sangue de Brunnanburh
um cristal de antigas auroras,
tu que tanto querias à tua Inglaterra
e não a nomeaste,
não és hoje senão umas palavras que os germanistas
anotam.
Hoje não és senão a minha voz
quando revive tuas palavras de ferro.

Peço aos meus deuses ou à soma do tempo
que os meus dias mereçam o olvido,
que meu nome seja Ninguém como o de Ulisses,
mas que algum verso perdure
na noite propícia à memória
ou nas manhãs dos homens.

-Jorge Luís Borges -


 

Pedra do Homem, 2007



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