espectros

Foi adicionado à direita o blogue de Constança Cunha e Sá e Vasco Pulido Valente.

Pela cobertura feita pelas diferentes televisões à visita de Bill Gates a Portugal teme-se que os jornalistas de serviço, empolgados como estão com o "mundo Bill Gates", num momento de criatividade se refiram ao patrão da Microsoft como o homem que inventou a Internet.
Se fizermos a pergunta à generalidade dos cidadãos a resposta maioritária não andará longe desta. Inquéritos semelhantes feitos nalguns países com a pequena diferença de se perguntar o que era a Internet obtiveram como resposta maioritária: "um produto Microsoft".
Mas a Internet deve muito pouco a BillGates. Manuel Castells no seu famoso livro(*) " A Galáxia internet. Reflexões sobre Internet, Negócios e Sociedade"" explica as razões pelas quais a Internet teve tanto sucesso e se desenvolveu de forma tão rápida à escala global. Castells salienta como factores determinantes desse suceso a arquitectura aberta da Internet e a existencia de uma cultura Internet.
"(...) o carácter aberto da arquitectura da Internet constitui a sua principal força. O seu desenvolvimento auto-evolutivo permitiu que os utilizadores se convertessem em produtores de tecnologia e em configuradores da rede.(...) A história da tecnologia demonstra que a contribuição dos utilizadores é crucial para a sua produção e que a adaptam aos seus próprios usos e valores e, finalmente, transformam a própria tecnologia (...) mas no caso da Internet é especial. Os novos usos da tecnologia assim como as modificações efectuadas nessa tecnologia, são transmitidas de regresso ao mundo inteiro, em tempo real. Assim, reduz-se extraordinariamente o lapso de tempo decorrido entre os processos de aprendizagem através do uso e a produção para o uso, tendo como resultado a entrada num processo de aprendizagem através da produção, num círculo virtuoso, que se estabelece entre a difusão da tecnologia e o seu aperfeiçoamento(...)"
Quanto à cultura Internet o autor salienta que esta se caracteriza "por ter uma estrutura em quatro estratos sobrepostos: a cultura tecnomeritocrática, a cultura hacker, a cultura virtual e a cultura empreendedora. Juntos contribuem para uma ideologia da liberdade, muito generalizada no mundo da Internet(...) Estes estractos estão dispostos hierarquicamente: a cultura tecnomeritocrática constitui-se como cultura hacker através de normas e costumes gerados nas redes de cooperação em torno de projectos tecnológicos. A cultura comunitária virtual acrescenta uma dimensão social à cooperação tecnológica ao fazer da Internet um meio de interacção social selectiva e de pertença simbólica. A cultura empreendedora funciona cam base na cultura hacker e na cultura comunitária, para difundir as prácticas da Internet em todos os âmbitos da sociedade, a troco de dinheiro(...) Por exemplo não se pode negar que Bill Gates e a Microsoft simbolizam, ou simbolizaram , a cultura empreendedora pelo menos nas etapas iniciais da empresa. Sem dúvida não foram produtores da Internet em termos tecnológicos. De facto passou-lhes ao lado até 1994. Apesar de Bill Gates ter sido hacker na sua juventude , não fazia parte dessa cultura, a qual chegou a acusar colectivamente na sua famosa Carta Aberta ( Open Letter to the Hobbyists ). Ao afirmar a primazia dos direitos de propriedade ( Gates: quem pode permitir-se a trabalhar a troco de nada? "Who can aford to do professional works for nothing? ) ele colocava a ganância acima da inovação tecnológia. Assim, a Microsoft representa a corrente empreendedora que se desenvolveu ao comercializar o processo de inovação tecnológico na informática sem partilhar os valores fundadores dessa inovação."
A resitência a revelar os códigos fonte dos seus produtos aí está para o atestar se necessário fosse.
Bill Gates é mais do estilo: o segredo é a alma do negócio.

(*) edição da Fundação Calouste Gulbenkian de 2004.

Carlos Dias, hoje no Público, dá conta da falta de dinheiro para viabilizar o Alqueva. Quem espera pela água para o tão famoso regadio pode esperar sentado. O país atravessa dificuldades, blá,blá, a legalenga do costume.
Manuel Pinho vai tratar da coisa. Acaba-se com a agricultura e aposta-se no turismo. Urbaniza-se a envolvente da barragem e constroem-se milhares de moradias para os velhos ricos da Europa. Ficamos todos mais pobres mas alguns, poucos, ficarão muito mais ricos. Negócios destes só com o alto patrocínio do Estado.

O Correio da Manhã divulga hoje que neste momento por cada euro que pagamos para adquirir gasolina sem chumbo 63 cêntimos são receitas fiscais. A conclusão que podemos tirar é a de que cada vez que gastamos um euro a comprar gasolina sem chumbo só 37 cêntimos são para pagar o produto e parte dos lucros, cada vez mais elevados, da companhia petrolífera.
Talvez alguém se lembre de calcular qual seria o preço de venda dos combustíveis caso se verificassem duas condições: 1) o Estado não cobrasse mais do que 50 cêntimos por cada euro. 2) as companhias, com destaque para a GALP, não tivessem rédea livre para repercutir nos consumidores todos os aumentos da matéria prima mantendo intocável a sua margem e ganhando cada vez mais com os aumentos.
Talvez alguém se lembre de calcular o efeito sobre a economia provocados por preços sensatos nos combustiveis. Espanha com uma economia pujante, tem os combustíveis mais baratos da zona Euro e impostos como o IVA cinco pontos abaixo da taxa portuguesa. São duas condições para a nossa anexação pela via económica.

Sem Bill Gates e sem a neve, a colocar na ordem do dia as mudanças climáticas, do que é que se falava neste país? Ácerca de Bill Gates vai um enorme alvoroço no País. Dizem-se as coisas mais espantosas, associando-se mesmo a vinda do homem mais rico do mundo a uma espécie de viabilização do Plano Tecnológico. Num jornal pode ler-se que o homem é o maior engenheiro de software da Microsoft. Asneira da grossa. De concreto acrescenta-se que Bill Gates vai investir nos próximos anos um milhão de euros por ano. Um milhão de euros? Admito que a notícia careça de uns zeros para engrossar os milhões. É que um milhão de euros é rídiculo, vindo de quem vem. Talvez justificasse a comenda de lata a ser verdade a penúria.

restyling

O Chá Príncipe mudou.

Pronto, era só para dizer isto.

Nunes Correia alertou ontem para a necessidade de se apostar nas energias renováveis. Foi aliás nesse sentido que Nunes Correia deu o seu acordo à construção em Sines de uma mega-refinaria e de uma nova petroquímica. Trata-se de dois investimentos típicos daquilo a que Nunes Correia chamará "energias renováveis".
Um momento de fino humor, em que este Governo se está a especializar, foi a referência de Nunes Correia às elevadas preocupações ambientais, e com o ordenamento do território, do seu colega Manuel Pinho. Será que o ministro do ambiente(?) estava a reagir àqueles que acham o seu papel meramente legitimador das opções do minstro Manuel Pinho?

A partir da leitura da análise que Pacheco Pereira faz da dissolução das estruturas partidárias julgo ser interessante tecer algumas considerações.
Em primeiro lugar a realidade que Pacheco Pereira identifica e que se traduz na incapacidade dos partidos de recrutarem pessoas qualificadas por contraponto com a disponibilidade que essas mesmas pessoas manifestam para participar em comissões de honra e conferências tipo “Novas Fronteiras”, grupos de estudo etc, julgo que não se coloca no campo das fatalidades mas resulta de opções e escolhas que os partidos conscientemente fizeram. (continuar a ler aqui)


Sines, 29/01/2006
Fotografia de Luís Patta

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor,
porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam(os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade in "Sentimento do mundo". Editora Record. Rio, S.Paulo. 2005 (7ª ed.)

«O Centro de Artes tornou-se, por magia, um imenso labirinto que será necessário percorrer.»


O próprio site da coisa adverte para a facilidade da sua utilização. Pelo menos é honesto.



Olívia Byington, sexta-feira à noite em Sines.

Nos incompletos balanços que aqui fiz sobre o ano de 2005 atribuí o prémio de "Grande Urbanizador" ao ministro Manuel Pinho. Nos ainda escassos dias de 2006 o ministro tem feito por não desmerecer da classificação. Ainda ontem o Expresso informava que Manuel Pinho ia urbanizar as margens do Alqueva. Grandes projectos turísticos irão nascer nas margens da grande reserva de água. Nem o Plano de Ordenamento - existente ou a elaborar, tanto faz - será entrave às intenções ministeriais. Em três meses o Plano de Ordenamento ou estará revisto ou estará elaborado, de acordo com a ministerial vontade, relatada no semanário. Nunca se viu nada assim.
Porque será que Sócrates não atribuí a Manuel Pinho a tarefa de fazer chegar a água do Alqueva aos campos agrícolas alentejanos? Talvez se pudesse resolver em meses aquilo que, notáveis incompetências, adiaram por muitos anos.

Adenda: Manuel Pinho é um político com sorte. Repare-se que nunca nenhum jornalista, ou qualquer blogue, invocou a eventual existência de conflito de interesses entre decisões por si fortemente influenciadas, de mudanças do uso do solo rústico e benefícios - apropriação de mais-valias simples, é disso que se trata - com essa mudança de uso associadas, por parte do seu anterior - e futuro? -patrão: o grupo Espírito Santo. Eu acho que esse conflito existe.

Clara passeava no jardim com as crianças.
O céu era verde sobre o gramado,
a água era dourada sob as pontes,
outros elementos eram azuis, róseos, alaranjados,
o guarda-civil sorria, passeavam bicicletas,
a menina pisou a relva para pegar um pássaro,
o mundo inteiro, a Alemanha, a China, tudo era tranquilo em redor de Clara.

As crianças olhavam para o céu: não era proibido.
A boca, o nariz, os olhos estavam abertos. Não havia perigo.
Os perigos que Clara temia eram a gripe, o calor, os insectos.
Clara tinha medo de perder o bonde das 11 horas,
esperava cartas que custavam a chegar,
nem sempre podia usar vestido novo. Mas passeava no jardim, pela manhã!!!

Havia jardins, havia manhãs naquele tempo!!!
-
Carlos Drummond de Andrade in "Sentimento do mundo". Editora Record. Rio, S.Paulo. 2005 (7ª ed.)

O excelente texto publicado por Pacheco Pereira no Público da passada quinta-feira e reproduzido no Abrupto o que suscitou uma igualmente interessante correspondência. Irei dar a minha contribuição e aguardo a continuação da publicação do trabalho de Pacheco Pereira na próxima semana.
Para desenjoar do curtíssimo prazo mediático e do circunstancial.

É preciso casar João,
é preciso suportar Antônio,
é preciso odiar Melquíades,
é preciso substituir nós todos.

É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
é preciso comprar um rádio,
é preciso esquecer fulana.

É preciso estudar volapuque,
é preciso estar sempre bêbedo,
é preciso ler Baudelaire,
é preciso colher as flores
de que rezam velhos autores.

É preciso viver com os homens,
é preciso não assassiná-los,
é preciso ter mãos pálidas
e anunciar o FIM DO MUNDO.

Carlos Drummond de Andrade in "Sentimento do mundo". Editora Record. Rio, S.Paulo. 2005 (7ª ed.)

Os que soaram oriundos das bancadas do PSD, PS, CDS e BE, relativamente à proposta de Duarte Lima que deixavam de fora dos crimes investigáveis com recurso a escutas telefónicas os crimes de corrupção.
As explicações para os aplausos são várias mas nenhuma é tão original como a de Nunco Melo. Para o jovem falcão do PP "era um aplauso com o significado político de reconhecimento por um parlamentar notável, que faz falta à política portuguesa, e por uma mensagem virada para preocupações que atravessam a sociedade portuguesa, da direita à esquerda" . Uma espécie de "Óscar de carreira" que passará a ser atribuído sempre que o interveniente proponha algo de eventualmente inaceitável mas exista o reconhecimento por um parlamentar notável etc,etc.

O primeiro-ministro declarou em Sines o interesse do país no investimento numa petroquímica de capitais turcos. Num momento de grande exaltação das qualidades excelentíssimas da plataforma industrial de Sines referiu as condições excelentes para a fixação de investimentos com... elevados desempenhos ambientais. Estaria a pensar em refinarias, petroquímicas e na actuação da GALP que em tempos acusou de arrastar os pés, no que ao cumprimento das regras ambientais se referia, tendo-a multado em 50 mil euros? Cócegas que, tal como o sentido de humor que agora revela, apenas fizeram rir.

Segundo os relatos da imprensa de hoje a proposta de Duarte Lima de limitar os crimes susceptíveis de serem investigados com o recurso a escutas telefónicas mereceu fartos aplausos. Os crimes de corrupção ficaram fora da proposta do deputado social-democrata que elegeu os crimes de terrorismo, tráfico de droga e os crimes de sangue. Esta proposta foi aplaudida pelo PS, PSD,PP e BE. Só o PCP não aplaudiu. Manifesto a minha estupefacção com esta quase unanimidade. Então os crimes de corrupção ficam de fora?
Por outro lado Duarte Lima quer que seja uma entidade independente, na dependência do Parlamento, a fiscalizar a aplicação das escutas. Independente não rima bem com o Parlamento, cujas comissões de inquérito são a coisa mais dependente e mais desacreditada que se conhece neste país. Pr outro lado esta tentativa de colocar um orgão nomeado pelo poder político a controlar o exercício da justiça põe em causa a independência da justiça uma das premissas do estado de direito.
Aproveitar os atropelos que o sistema de justiça tem cometido para por em causa os pilares do estado de direito parece ser uma iniciativa muito pouco digna de aplauso.

O Governo aprovou legislação que visa obrigar os edifícios a cumprirem regulamentação que impõe poupanças energéticas.
Uma das soluções passa pela melhoria do comportamento solar passivo das construções - que pressupõe opções arquitectónicas como a existência de sistemas de sombramento dos vãos virados a sul, por exemplo - e outra passa pela adopção de sistemas de aquecimento das águas baseados na energia solar. Ler aqui as declarações do professor Colares Pereira sobre esta tecnologia que nós exportamos para países como a Alemanha e que tão pouco utilizamos no nosso país, nós que temos mais de 2500 horas de sol/ano quando os alemães não chegam às 1700 horas.


Fotografia de François Van Malleghem


O útil vai alisando as dunas
desenhos de nuances violáceas
peixes coloridos

Vai atando palavras pálidas
gestos, braços e sorrisos
nas manhãs discretas

Com sua corda esticada
vai pelos jardins
cercando, apagando vestígios
da pergunta mais elaborada

Procura o lugar certo
a brevidade da sombra
para que nada descanse

É hoje assinado o memorando de entendimento relativo a um projecto de investimento de uma empresa de capitais turcos, ingleses e portugueses da área petroquímica em Sines.
Sobre esta matéria, como sobre todas as decisivas, os nossos autarcas nada dizem. Contam as moedas que sobrarão habituados que estão à contagem das migalhas. Os impactos ambientais, os problemas para a saúde pública, são preocupações de alguns lunáticos, nos quais orgulhosamente me incluo, que não estão preocupados com as chamadas políticas concretas. A chantagem do emprego cala todos os que possam sequer questionar a razoabilidade deste tipo de investimentos e a sua perigosidade para a saúde das populações, que já estão sujeitas à maior concentração de poluição atmosférica e de outra natureza -contaminação dos aquíferos por exemplo devidos às roturas existentes na redes de produtos tóxicos das diferentes unidades com a consequente contaminação dos solos - existente no nosso país, muito para lá daquilo que é tolerável em termos de saúde pública.
Nos útlimos anos Sines perdeu população. As perspectivas do final dos anos 90 evaporaram-se. A evolução da população tem sido negativa. Havia perspectivas no Plano de Urbanização, agora aprovado e já obsoleto, que apontavam para crescimentos da população para níveis entre os 18000 e os 35000 habitantes em 2011, um crescimento notável se considerarmos os 13362 habitantes detectados nos Censos de 2001. A realidade que se encontra no concelho é a inversa com a perda de população a disparar, muito determinada pela perda de emprego e pela degradação da qualidade de vida associada à poluição atmosférica pesada. O PlanoEstratégico que se começou a elaborar no mandato de 1997 a 2001, e que foi para o lixo por decisão política da maioria comunista na autarquia, colocava como principal constrangimento ao desenvolvimento do concelho de Sines a resolução do problema ambiental. A opção vai no caminho da agudização do problema. Este opção é geradora da perda de emprego a curto-médio prazo pois dissuade a criação de emprego qualificado associado às novas tecnologias ou a empresas que utilizem tecnologias limpas cujos quadros recusam viver neste ambiente. A cascata industrial destes investimentos pesados é diminuta e o número de empregos criados por unidade de capital investido baixíssima.
Sócrates vem a Sines pede silêncio e confiança. Muita confiança. Os autarcas estão na terceira fila desejosos de poderem mostar que são muito bem comportados. Esperam um prémio.

Adenda: Este caminho da aposta na indústria pesada mais poluente recupera o modelo de desenvolvimento idealizado antes do 25 de Abril. O que é um anacronismo em termos políticos, e de acordo com os novos conceitos de desenvolvimento regional, mas não deixa de ser uma ironia se pensarmos que ao nível local são os comunistas que lideram este processo com o silêncio cúmplice dos socialistas.

Como aqui se refere esta questão não tem sido tratada na blogosfera. Com excepção deste blogue que trata, como pode, as questões ligadas aos investimentos na Plataforma Industrial-Portuária de Sines e os seus reflexos na saúde pública e no ambiente. Saliento a saúde pública porque essa perspectiva nunca está presente na abordagens, por exemplo, dos nosso ecologistas. O homem, aparentemente, não faz parte das suas preocupações o que nos poderia levar a pensar que estão próximos de movimentos do tipo "deep ecology" que Luc Ferry tão bem caracterizou na "Nova Ordem Ecológica" ( edição da ASA de 1993).
Mas a Bloguítica levanta outra questão pertinente que é a articulação entre os projectos turísticos na parte norte do Litoral Alentejano e esta concentração de industria pesada exactamente a meio do Litoral Alentejano. Seria interessante recuarmos ao tempo do primeiro governo de Guterres quando se defendia um modelo de desenvolvimento do Alentejo que integrava o Litoral, o Centro e o Interior, articulando o Terminal XXI, o aeroporto de Beja e o Alqueva. Que passava pela qualificação ambiental da plataforma de Sines e pelo investimento em fontes de energia menos poluentes do que as ligadas à refinação do petróleo e às centrais térmicas a carvão. Ou ainda recuar mais uns anos, até ao ínicio da década de 90, quando o então jovem e anónimo deputado socialista José Sócrates aqui fazia "campanha" contra a construção em Sines de uma incineradora dedicada, decidida num Governo de Cavaco Silva e cujo defensor oficial era, o então secretário de estado do ambiente, Macário Correia. Os argumentos de então, a visão estratégica de então, por onde andarão?
Com a passagem do tempo os protagonistas não mudam o que muda é a sua posição relativamente às questões.

A GALP vai investir 700 milhões na unidade de SInes, divulga hoje o DN, no seu suplemento de economia. O objectivo é aumentar a capacidade de refinação permitindo o aumento da capacidade de produção de gasolinas e de gasóleos. Quanto a investimentos para diminuir os impactos ambientais da actual refinaria, uma das mais poluentes da Europa, nada é dito e nada será feito. O autarca comunista já proclamou aos quatro ventos que vivemos numa situação de "equilíbrio ambiental" pelo que será de todo em todo desnecessário gastar recursos a resolver o que resolvido está.

O discurso do presidente sobre o estado da Justiça constitui a denúncia da existência de uma democracia que chega a ser caricatural de um "verdadeiro estado de direito". Constitui a confissão de que durante os seus dez anos as coisas na Justiça não melhoraram antes pelo contrário. Todos nós sabemos que assim foi. Os direitos e as liberdades dos cidadãos são tratados de forma inaceitável num estado democrático, com o abuso das escutas e da prisão preventiva sem que o Estado assuma os seus erros e as necessárias e justas indemnizações dos injustamente pesos pela Justiça.
Muitas das práticas normais da nossa democracia foram classificadas pelo Presidente da República como "horríveis". Pois é a palavra é muito adequada igualmente para manifestar a sensação que temos ao verificar dez anos depois de Sampaio ter tomado posse o estado em que estão as nossas instituições democráticas e o nosso país.

Pelos vistos terá sido o PND de Manuel Monteiro, segundo declarações do próprio. Os cerca de 31 mil votos que garantiram a vitória à primeira volta testemunham bem a importância desse apoio, que Cavaco ingratamente ignorou, e a importante mobilização que o partido fez de todos os seus membros, familares próximos e afastados, até parentes do quinto grau, antepassados ainda não abatidos nos registos eleitorais, pessoas que se cruzaram com Manuel Monteiro, desde que a menos de 25 metros de distância ou numa zona livre de obstáculos e a permitir o contacto visual, e todos os cidadãos eleitores que não se aperceberam da morte política do ex-líder do PP e que julgam que ele continua a existir.
O problema é que estes mesmos votos são duramente disputados pelo CDS/PP que aspira a deixar de ser o outro partido. Decorrem diligências no sentido de localizar e identificar os referidos 31 mil eleitores a fim de os questionar sobre a paternidade do seu voto.
Jerónimo de Sousa irá fazer uma revisão da sua anterior declaração incluindo o PND entre os culpados além dos alegristas e dos malandros dos socialistas.

Jerónimo sobe ao palanque, já liberto do ar simpático dos dias da campanha, e acusa sem remorso: a culpa é de Alegre; a culpa é dos socialistas. Jerónimo "by the book". A divisão da esquerda acaba à porta do PCP e responsabiliza todos menos os comunistas. Pois se ele próprio até registou uma subida espectacular. Não em todos os locais, no entanto. Um conjunto globalmente superior de votos feito, felizmente para o PCP, de mais ganhos e menos perdas.
A imprensa olha de longe para os resultados e diz que Jerónimo ganhou em Beja. Pois foi com mais 100 votos do que Cavaco. Cavaco que ganhou em mais concelhos do que Jerónimo e que teve mais votos do que Jerónimo em concelhos - caso de Beja -nos quais em Outubro a CDU obteve maiorias absolutas. Como aconteceu em concelhos do distrito de Setúbal, de maioria absoluta comunista, nos quais Alegre e Soares juntos dividiram entre si os tradicionais votos do PS e Cavaco apareceu como o mais votado - quando PSD e PP normalmente não chegam juntos aos 20%. Com Jerónimo a obter menos de metade dos obtidos pela CDU em Outubro, casos de Sines e de Santiago-do-Cacém. Jerónimo obteve subidas espectaculares nalgumas regiões do país mas viu fugirem votos aos comunista noutras zonas. A ideia de que Cavaco só ganhou votos à esquerda aos socialistas é uma ficção. Não querem admitir a realidade por pura conveniência. Tal como não querem admitir a verdadeira natureza de muitas das maiorias absolutas autárquicas que preservam há décadas.
Os culpados são sempre os outros. Talvez seja sensato admitir que os eleitorados são muito volúveis e que as bases sociais de apoio já não são o que eram.

1000

Ao tentar regressar da minha hibernação, reparei que o Pedra do Homem atingiu o número mágico de 1.000 posts. O post em causa foi este, justamente da autoria do José Carlos Guinote, o nosso maior contribuinte.

Fiquei contente, naturalmente.

Alívio

Nos próximos três anos não vamos ter eleições a menos que aconteça alguma anormalidade. Que bom.

quase ninguém aponta o dedo a José Sócrates. Releiam-se os diferentes jornais e constatar-se-á que é Soares que aparece como o principal derrotado. Parece que a tese de que uma derrota de Soares seria sempre sobretudo uma derrota pessoal tinha algum sentido. Sócrates sai ileso deste desaire a caminho de uma cohabitação que todos perspectivam exemplar e frutuosa. O Bloco Central parece renascer em força viabilizando a utopia de Sá Carneiro: uma maioria, um Governo um Presidente.

na maior derrota eleitoral que o PS sofreu desde o 25 de Abril ficarão naturalmente por apurar. O partido está no poder e isso chega para acalmar as hostes. No entanto esta é a segunda derrota consecutiva, depois do resultado histórico de 20 de Fevereiro. Dizer que este resultado se deve em exclusivo à candidatura de Alegre é tentar tapar o sol com uma peneira. Centenas de milhares de cidadãos abstiveram-se ou mudaram o seu voto, alguns votando Cavaco. Mesmo no que se refere à candidatura de Alegre o resultado foi fortemente estimulado pelos dirigentes socialistas que, de uma forma irracional, hostilizaram a candidatura do poeta. Para não falar do processo de decisão tão mal conduzido que abriu caminho para a candidatura de Alegre. A inépcia dos dirigentes socialistas foi instrumental da vitória de Cavaco à primeira volta.
Mas responsabilidades é coisa que não faz sentido apurar atendendo à tradição de varrer para debaixo do tapete os acontecimentos mais incómodos. A albanização da vida interna dos partidos não é uma coisa de hoje e está para durar.

de acordo com os jornais de hoje Manuel Alegre não pretende formar um novo partido nem deixar de ser militante e dirigente do PS. Faz bem um pouco de bom senso depois de tantos disparates somados ao longo de meses sobretudo por parte dos principais dirigentes socialistas.

Louçã

perdeu para Jerónimo e viu Cavaco ganhar. O seu discurso na noite eleitoral não releva do bom senso. A dada altura parecia que o resultado tinha sido outro. Adivinhar na sociedade dinâmicas que os resultados eleitorais desmentem e que os resultados do seu partido igualmente desmentem faz pouco sentido. O seu objectivo de mobilizar os abstencionistas induzidos pela divisão do PS falhou. Perdeu em toda a linha para Jerónimo. Os resultados mais significativos foram em Lisboa -teve cerca de metade dos votos do comunista - e em Faro distrito no qual afirmava disputar o segundo lugar, tendo obtido o quarto.
Quer-me parecer que o Bloco usa e abusa de Louçã como um trunfo eleitoral. Ora a sobreexploração dos activos induz desgaste rápido e a prazo desvalorização. O Bloco e Louçã correm esse risco.

A noite eleitoral fica marcada pelo facto de os candidatos, quando no uso da palavra, poderem ser "apagados" pelo aparecimento de outra figura mais importante, segundo o alto critério dos directores da emissão. Foi o caso da sobreposição do discurso de Sócrates ao de Alegre. Sócrates nem sequer foi candidato.Foi tão somente um dos maiores derrotados da noite, quer queira quer não queira, isto porque fica associado à maior derrota eleitoral do PS desde o 25 de Abril. Nunca o PS teve 14% dos votos em qualquer tipo de eleição. Ora o PS apoiou de forma inequívoca Mário Soares. Esclarecendo e insistindo que era ele o único candidato que tinha o apoio do PS ...e de 14% dos portugueses, como se viu.
Não estou seguro que tenha sido intencional. Foi feio, ponto final. E penaliza mais uma vez Sócrates e o PS.
Quem não pensa da mesma maneira é Helena Roseta que, na RTP, acaba de afirmar não ter dúvida sobre a intencionalidade da coisa. A senhora tem a vantagem de conhecer melhor os seus camaradas. Não se percebe é como se sente bem no meio deste tipo de gente.

...foi protagonizado por Garcia Pereira que atribuiu a responsabilidade pela vitória de Cavaco Silva ao PS por ter tentado "impor a candidatura golpista e anti-patriótica de Mário Soares e por não ter aceite a sua proposta de uma candidatura patriótica." ao que se julga protagonizada por ele próprio. Um verdadeiro artista este Garcia Pereira.


Pintura de Joseph M. W. Turner
Coast scene, 1828 - Tate Gallery - London

Helena Roseta não tem dúvidas e quando questionada sobre as repercussões do resultado do poeta no interior do PS respondeu, com uma indisfarçável arrogância, que isso não interessa nada já que Alegre é maior do que o PS.
O pior da campanha de Alegre é personificado por pessoas como Helena Roseta, desde sempre ligada à política activa e vivendo do exercício dessa actividade, que visam com a candidatura acertar contas com o passado recente do PS. O melhor são as centenas de milhares de cidadãos anónimos que apoiaram a candidatura e que tão somente o fizeram num legítimo acto de cidadania. Cidadãos que não se reconhecem nas actuais estruturas partidárias e que optaram livremente por apoiar Alegre sem revanchismos ou ajustes de contas encapotados.

Curioso

em Grândola, concelho presidido por Carlos Beato, eleito pelo PS, mandatário distrital de Cavaco, ganhou Jerónimo de Sousa. O candidato oficial do PS foi o quarto e Alegre o terceiro. Jerónimo e Cavaco aproximam-se dos 60 % dos votos.

Questionar a legitimidade de Cavaco Silva pelo facto de a vitória ser por umas décimas apenas é politicamente um disparate. Cavaco ganhou à primeira contra quatro candidatos da esquerda. A vitória, mesmo que fosse por um único voto, é sempre inequívoca. Cavaco ganhou ainda contra o partido no Governo com maioria absoluta cujo candidato teve o resultado que se sabe.
Na esquerda emergem, desde a primeira hora pós fecho das urnas, dois discursos vitoriosos: o de Alegre e o de Jerónimo. Alegre declara solene que não conseguiu os seus objectivos por umas décimas. No limite poderíamos pensar que terá conseguido os seus objectivos, ficar à frente de Soares, por cerca de 6 pontos percentuais. O conjunto das esquerdas é que por umas décimas malbaratou a possibilidade de uma segunda volta. Jerónimo melhorou os resultados de Fevereiro de 2005, viu o povo validar "este projecto de transformação" etc,etc. Derrotou de forma estrondosa, como se previa, Francisco Louçã. Alguns dos dirigentes que falaram durante a noite nem perderam tempo a lamentar a vitória de Cavaco, passaram logo para a parte do contentamento.
Depois disto o país continuará na mesma apagada e vil tristeza e Sócrates conviverá tranquilamente com Cavaco antes do novo Presidente lhe começar a "fazer a folha" de forma cirúrgica e irreversível.

muito interessantes os resultados dos diferentes candidatos no distrito de Setúbal. Permite saber melhor quem votou em quem e, sobretudo, perceber a verdadeira natureza de algumas maiorias absolutas auárquicas cuja "base social de apoio" é muito sofisticada. Sofisticação que lhes garante durabilidade.

Adenda: já agora em todo o Alentejo com Cavaco Silva a conseguir um número assinalável de vitórias concelhias.

Cavaco conquistou uma enorme vitória à primeira volta. É o novo Presidente da República. Fez no CCB um discurso de vitória equilibrado que colocou as coisas no seu devido lugar. A maioria Presidencial extingue-se. Cavaco Silva é o presidente de todos os portugueses.
Cavaco recolheu votos da esquerda e da direita. Nesse sentido pode dizer-se que é o primeiro presidente oriundo da área da direita. Não se trata de uma vitória da direita. Trata-se sobretudo de uma vitória de Cavaco que foi apoiado pela maioria da direita e por uma parte significativa da esquerda, incluindo eleitores comunistas.
A divisão da esquerda e a proliferação de candidaturas nessa área foram fatais para essa mesma esquerda que não foi capaz de perceber que a população está farta de eleições e que pretendia resolver tudo à primeira volta. Ao longo de meses defendi aqui esse perigo associado à proliferação de candidaturas à esquerda. O somatório das candidaturas diminuiu a esquerda não acrescentou votos à esquerda.
O apoio do Governo, ou a colagem ao Governo, foi fatal para Soares. O resultado de 14% é um dos piores resultados eleitorais de sempre e certamente o pior resultado de um candidato apoiado pelo partido no poder na altura da eleição presidencial. Recorde-se que o PS obteve maioria absoluta em Fevereiro do ano passado.
Louçã teve um mau resultado. Jerónimo teve um bom resultado. Mas ambos perderam por não conseguirem contribuir para a derrota de Cavaco. Ambos se assemelham no apontar o dedo das responsabilidades ao PS e à existência de duas candidaturas oriundas do partido. Uma opção clássica nestes casos.
Sócrates livra-se por uma unha negra de uma segunda volta muito embaraçosa para o Governo já que seria Alegre, o candidato socialista não oficial, a representar a esquerda. Vai ter uma boa relação com Cavaco e uma grande coincidência de pontos de vista sobre questões políticas essenciais.

Sócrates acaba de anunciar, com indisfarcável satisfação, que o seu plano de transformar Sines no caixote do lixo do país sofreu nova evolução. Uma petroquímica estrangeira quer vir investir aqui, na terra do Vasco da Gama. Como a refinaria do tal Pactrick já se chama "Vasco da Gama" - esta ideia deve ter sido do Manuel Refinarias Coelho nas reuniões privadas que teve com o renomado capitalista - esta nova merda chamar-se-á "Paulo da Gama". Lixam-nos a vida e ainda gozam connosco.
Temos que fazer qualquer coisa para acabar para acabar com isto. Temos que meter mãos-à-obra contra a canalha.
Em primeiro lugar os autarcas eleitos não têm legitimidade para decidir sobre estas questões à margem da população. Não foram eleitos com estes objectivos ou propósitos.

ADENDA: Este post teve um comentário anónimo. O anonimato é uma cobardia quando serve para alguém exprimir uma opinião que não não quer defender de forma pública. Quando a coberto do anonimato se fazem considerações de carácter pessoal e moral o que se revela é uma alma pidesca. Este tipo de esgoto deve ser limpo por uma questão de higiene. Quem quiser enviar comentários pode utilizar os emails existentes no blogue que eles serão colocados na página, com todo o prazer, evitando a trampa.

Já estão disponíveis na Poça da Maria Claudina quer o texto publicado no Público sobre o tema em epígrafe quer a versão integral natualmente implubicável face à sua dimensão.


Fotografia de François Van Malleghem

Meditaste sobre as escarpas
ouviste o vento e toleraste a sua nostalgia
Pressentiste o invisível circundando
decifrando de longe
como um horizonte que nunca se afasta
Começaste a soletrar os nomes
a reconhecê-los
E partiste para a terra inteira
criando uma ilusão de eternidade

Há dias que gostaríamos de apagar das nossas vidas. Como o dia de ontem, quinta-feira dia 19 de Janeiro de 2006. Dia interrompido pela notícia de que o nosso amigo querido morrera, deixando-nos infinitamente mais pobres, mais sós, mais vulneráveis. Nãos nos conformamos com a inutilidade da morte, com a sua frieza, com a sua implacabilidade. Não nos conformamos com a injustiça da morte do nosso amigo. O António era um homem bom que gostava da vida. Era nosso amigo. O melhor amigo de muitos de nós. Só nos apetece chorar.


Pintura de Antoni Tàpies


Senta-te
suporta a erosão das palavras
até que o assassino surja com seu coração de luto

O caminho sem ninguém
Ouves? a água anoitece
Ouve-se a água a anoitecer, a ganhar frescura e peso

Senta-te
és uma agregação silenciosa
uma cidade por nascer na extremidade dos dedos

Olha-te,
a água canta cheia de noite
És uma identidade imprecisa, uma casa vazia, um disfarce de pedra

És um jardim suspenso, um rosto de barro, um país a morrer

calcular quanto é que aumentou o custo de vida dos portugueses desde que José Sócrates foi nomeado primeiro-ministro. Considerando o aumento do IVA e o efeito desse aumento nos preços dos bens e serviços. Considerando o aumento dos impostos sobre os combustíveis e o consequente aumento dos preços dos combustíveis. Considerando o brutal agravamento fiscal em sede de IMI e os custos da repressão fiscal sobre os mais fracos. Considerando o aumento do custo das portagens, das comunicações, dos telefones, da electricidade, do gás, das taxas de juro, sobretudo no crédito à habitação, etc.
Claro que o conceito "portugueses" não é operativo neste caso. Na realidade os Portugueses não existem. Existem diferentes conjuntos de portugueses: os que pagam as dificuldades, uma esmagadora maioria, e os que ganham cada vez mais com elas, que são o mais pequeno conjunto de privilegiados da União Europeia.

Muito provavelmente terei comprado mais edições do DN na última semana do que nos últimos anos. O novo grafismo "à la Cayatte" é bonito e torna o jornal um belo objecto possibilitando uma leitura mais agradável. As páginas ficam mais espaçosas e a arrumação das notícias convida à leitura. Não se passa a correr pelas diferentes páginas. Apetece-nos demorar um pouco em cada plano e ler.
Mas as mudanças no DN são muitas a começar pela renovação da equipa de jornalistas. Saliento a entrada do Eduardo Damaso e da Ana Sá Lopes, duas baixas de vulto no Público, que lia com regularidade no meu jornal de todos os dias. Mas também o director António José Teixeira, presença habitual na SIC Notícias quer para o debate político quer para as imperdíveis conversas com Mário Soares. No essencial quer-me parecer que o jornal vira à esquerda no sentido da esquerda que se reconhece no socialismo democrático. Marca aí uma diferença clara para o Público que paulatinamente tem feito o caminho inverso, deslocando-se desse espaço para próximo dos sectores mais à direita na nossa sociedade.
Encontro no entanto no DN uma limitação que é clássica: o jornal não abre as suas páginas à opinião pública. O espaço de opinião é ocupado pelas personalidades que o jornal contratou e depois sobram algumas cartas ao director e ponto final. Uma pecha da imprensa portuguesa que no DN está bem patente. Aqui o Público dá cartas sendo o jornal que mais interage com a generalidade dos leitores e o mais acessível à opinião.
Outro desapontamento é a rúbrica "Cidades". A designação é tentadora mas os conteúdos são desinteressantes. Não chega nem de perto ao conjunto de informação que o Público disponibiliza nas suas edições Norte, Centro e Lisboa do Local. Com a vantagem de no caso do Público existir ainda um interessante espaço para a polémica e para a opinião. Um espaço bastante aberto e plural, diga-se.
Mas se necessário fosse fazer um balanço - sem abordar o fim de semana e a supressão do DNA - seria caso para dizer que o DN está mais sedutor e mais difícil de ignorar.

Bom Dia


Pintura de Robert Delaunay (1885-1941)
Windows, 1912 / Museum of Modern Art - New York

Gosto da intervenção política de Louçã. Durante esta campanha - apesar das críticas que formulei ao longo destes meses sobre a sua candidatura - armado com um conjunto de propostas que são mais de um candidato a primeiro-ministro do que de um candidato a presidente, Louçã acrescentou valor ao debate. Em muitos casos, do que se disse sobraram as suas propostas. Nos debates mostrou que é hoje um dos políticos portugueses melhor preparados e um dos adversários mais temíveis para um debate. Tudo isso fui analisando ao longo dos meses. No entanto, há várias semanas que estou convencido que Louçã terá um pior resultado do que Jerónimo. Por duas razões: a primeira tem a ver com o estilo de Louçã, menos afectivo, mais intelectualizado, mais distante. Louçã é timido onde Jerónimo é afectuoso, quase íntimo não se poupando ao populismo. Louçã racionaliza argumentos que expõe de forma metódica, organizada embora com convicção. Não necessita da proximidade. As sessões de campanha divulgadas na televisão mostram um candidato em regra só no meio de um palco, de corpo inteiro. Poventura a reforçar a ideia do candidato olhos nos olhos. O público está atrás da imagem e assiste como nós; por outro lado, quer-me parecer que a capacidade de crescimento de Louçã - muito condicionado no eleitorado do PCP pelo efeito Jerónimo - se faz sobretudo à custa do eleitorado PS. O aparecimento de dois candidatos nessa área e o apelo final a uma mobilização à volta de Soares, para permitir a passagem do velho líder à segunda volta, farão os seus estragos. Há, no entanto, uma oportunidade que resulta da elevada abstenção existente nessa área. Se Louçã conseguir mobilizar e captar votos desses indecisos, obterá um resultado histórico e a esquerda ficará a dever-lhe a existência de uma segunda volta. É que toda a gente já percebeu que nos últimos dias não diminuiu o número daqueles que escolheram votar Cavaco, o que aconteceu foi que cresceu o número dos que decidiram votar à esquerda. Este é o caminho virtuoso neste final de disputa.

Os combustíveis vão aumentar três cêntimos por força da decisão do Governo de aumentar, no mesmo montante, os impostos sobre os combustíveis. A equação é absolutamente linear: aumentos dos impostos indirectos repercutem-se directamente nos consumidores finais. A margem das petrolíferas é sagrada. A margem destes negócios é sempre sagrada, tal como é sagrado que quem paga são sempre os mesmos.
Desta e doutras formas criam-se condições para diminuir o investimento das empresas e para diminuir o consumo das famílias. As grandes companhias petrolíferas, essas continuam a acumular lucros cada vez maiores. Não haveria a possibilidade de dividir o mal pelas aldeias?

Manuela Ferreira Leite apelou à decisão na primeira volta, caso os portugueses queiram eleger Cavaco Silva. Para a ex-ministra não temos tempo a perder com mais eleições, o País tem que voltar ao trabalho.
Para a ex-dama de ferro portuguesa a questão é clara: os portugueses andam na mandriagem e só com a vitória de Cavaco Silva voltarão todos ao trabalho. Dir-se-ia que a senhora confunde, de forma estrondosa, os papéis do Presidente da República com os do primeiro-ministro. Na realidade, ela olhará sempre para o seu Presidente, no caso da vitória de Cavaco, como o chefe do Governo. Depois, criar condições para que o Governo se adapte a esse perfil é só uma questão de tempo.

O ex-coordenador do Plano Tecnológico(PT) aproveitou uma conferência com a presença do primeiro-ministro para o questionar sobre o "Projecto MIT". Com este gesto, José Tavares conseguiu duas coisas: chamar a atenção do País para o facto de nem tudo estar bem com um projecto de tanta importância para a viabilidade do PT; provocar uma indisfarçável irritação em José Sócrates, que na resposta mostrou bem como não tolera ser contrariado.
Ficámos todos melhor informados pelo pequeno preço de José Tavares ir ficar de sequeiro até que José Sócrates passe à história.


Minha laranja amarga e doce
meu poema
feito de gomos de saudade
minha pena
pesada e leve
secreta e pura
minha passagem para o breve breve
instante da loucura.

Minha ousadia
meu galope
minha rédea
meu potro doido
minha chama
minha réstia
de luz intensa
de voz aberta
minha denúncia do que pensa
do que sente a gente certa.

Em ti respiro
em ti eu provo
por ti consigo
esta força que de novo
em ti persigo
em ti percorro
cavalo à solta
pela margem do teu corpo.

Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura.

Por isso digo
canção castigo
amêndoa travo corpo alma amante amigo
por isso canto
por isso digo
alpendre casa cama arca do meu trigo.

Meu desafio
minha aventura
minha coragem de correr contra a ternura.

José Carlos Ary dos Santos (1937-1984)

Notável reflexão de Eduardo Lourenço, hoje no Público, sobre o tempo de Mário Soares, suscitada pelas actuais eleições presidenciais. No da Literatura Eduardo Pitta editou o essencial do referido texto. Reflexão duma inteligência e duma limpidez insuperáveis.
Não resisto a deixar uma citação (sublinhado meu) : "Os seus adversários neste combate inglório e soberbo foram sempre outros. Não só os que se lembram do seu militantismo juvenil, como os que não esquecem a sua conversão definitiva ao socialismo democrático, mas, sobretudo, os que nunca lhe perdoaram o ter lutado pela democracia em Portugal, antes e depois de Abril. É isso que a verdadeira direita não esquece. É muito mais gente do que se supõe. É a mesma que põe na sua conta, como uma mancha indelével, a absurda culpa de ter “perdido” uma África que ninguém “perdeu” senão ela".

Souto Moura está, provavelmente desde o início, agarrado como uma lapa ao lugar de Procurador-Geral. Não há outra forma, diz-me a minha antiga experiência pessoal nesta matéria, para arrancar a lapa que não seja usar a força. Preservando a integridade da lapa, mas garantindo que ela se separa do seu habitat para nosso futuro deleite e contentamento. Bom, no caso de Souto Moura o deleite será nulo convenhamos, mas o contentamento não será pequeno. A República devia tratar com exigência os incapazes, aplicar aos seus agentes políticos os princípios da meritocracia que quer aplicar aos funcionários públicos. Sabemos todos que as consequências nas hostes seriam terríveis, incomparáveis com qualquer pandemia, gripe das aves, no cenário de catástrofe máxima, incluída.
Resta-nos pois esperar que Sampaio faça uma das clássicas revisões em baixa do seu léxico político e redefina finalmente, na sua verdadeira dimensão temporal, o que quer dizer "curtíssimo". Temos tempo.



Profissão das Armas ou o original Il Mestiere delle Armi é um filme de Ermanno Olmi que conta a história verídica de Giovanni de Medici, o primeiro soldado na História a ser mortalmente atingido pela artilharia moderna.
Novembro de 1526, a Itália é invadida pelos germânicos que usam pela primeira vez as armas de fogo. O filme retrata a preparação minunciosa das armas para a guerra onde a presença do canhão, pela primeira vez, naquela terra coberta de neve, que é pura, é obscura e obscena.
A recrição histórica é rigorosa. A fotografia, a cargo de Fabio Olmi, é de uma rara beleza. Cada imagem é uma pintura, a renascença italiana, perfeita, que se move, tal como a imaginámos: os rostos, as paisagens, as cores, a iluminação, o nevoeiro, o silêncio, a música.
A não perder.

Ficarei muito surpreendido se Jerónimo obtiver um resultado inferior ao de Louçã. As últimas sondagens vão nesse sentido mas aquilo que as campanhas mostram vão em sentido diferente. Jerónimo de Sousa, como agora se acabou de ver em S.Luís e em Alvalade Sado, mobiliza todos os comunistas e outros que o não são, com a sua energia, a sua confiança e a sua determinação. Um operário, como explicava um cidadão em Alvalade Sado, capaz de explicar à gente como é essa coisa de ser Presidente da República. Um dos nossos que é capaz.
O eleitorado rural recupera a esperança, recupara a determinação e dispõe-se a fazer mais um sacríficio para ajudar o camarada Jerónimo. Tavez desta seja possível. Jerónimo entusiasma-se com o calor dos apoios e mostra esperança numa participação sua, na segunda volta. É possível camaradas, deixa escapar esperançado. O comício no Pavilhão Atlântico, meticulosamente preparado, mostra uma capacidade mobilizadora que se dizia esgotada. O mesmo se pode dizer do dia passado no Porto. Sem este líder o PCP teria continuado a pecorrer o caminho da perda de influência. A questão está em saber quanto durará este efeito Jerónimo se as posições políticas não mudarem?

A mensagem de Mário Soares aos trabalhadores dos estaleiros de Viana do Castelo, que lhe tinha sido comunicada pelo ministro da defesa a partir da China, foi um deslize do velho político que tem feito, aliás, uma campanha muito marcada pela confusão que se foi instalando desde cedo entre o apoio do PS e o apoio do Governo. O pior de Soares nesta campanha foi a sua incapacidade para descolar do Governo e para mostrar independência relativamente às políticas do Governo. Dir-se-á que necessitava do apoio e do empenho do PS como de pão para a boca tanto mais que Alegre lhe disputa taco a taco o eleitorado. Mas o Soares dos últimos anos, o jovem Soares, foi claramente afastado pelo "centrista Soares" excessivamente preocupado em concordar com todas as medidas políticas que o Governo toma. Não me recordo de nenhuma discordância. Esperava-se mais.

Adenda: O que atrás foi escrito não altera uma decisão tomada desde o ínicio a de que irei votar em Mário Soares. Alegre nunca me seduziu e a campanha que tem feito tem sido no essencial palavrosa e vazia. A cidadania é certamente outra coisa. Obviamente caso aconteça a segunda volta votarei em qualquer candidato de esquerda. Com coisas sérias não se brinca.

Foi divulgado na passada semana o relatório da Agência Europeia do Ambiente. Um trabalho assinado por Ricardo Garcia, jornalista do Público, deu-nos a conhecer alguns dos dados revelados no relatório da AEA. A menos de futuras abordagens do documento ficam aqui as duas principais conclusões: A poluição do ar é o problema ambiental que mais afecta a saúde dos europeus. Estima-se que em 2000 a poluição atmosférica tenha provocado a morte prematura de 350 mil europeus; entre 1,8 e 6,4 por cento das mortes de crianças europeias com idades compreendidas entre os 0 e os 4 anos são atribuídas à poluição do ar exterior.

Sócrates enganou-se com a localização dos projectos. Não faz mal, qualquer um se engana com tantos projectos. Não foi na Costa Vicentina foi mais acima. Para a Costa Vicentina vai a refinaria do Patrick e depois o Manuel, não é o da Câmara que esse passa a vida com mão estendida, logo arranja qualquer coisinha. E depois o importante não é o local, o importante é a confiança. A confiança!!! Portugal rebenta de confiança. Bom, se não rebenta vai rebentar. São projectos PIN por tudo o que é lado. Biliões de euros de investimento privado, note-se bem. Tudo por obra e graça de Sócrates, mais do orgulhoso Pinho sem esquecer o ambiental Nunes Correia. O interesse público da coisa foi decretado. Ver-se-á no futuro. O interesse privado era evidente e mede-se em milhões - ou biliões - de mais-valias simples arrecadadas. Por uma simples decisão de atribuição do interesse público. Ainda é possível nomear herdeiros e atribuir fortunas. Ou desgraçar pequenos proprietários rurais convidados a venderem as suas propriedades oneradas pelas rigorosas(!!!) limitações da estratégica política de conservação da natureza. Que agora fez um lifting do tipo eco-resort para se poder dar bem com os senhores dos investimentos. Uma coisa fina, esta política de conservação da natureza, que fica bem em qualquer... natureza.
A monarquia não está tão longe quanto isso. Somos aliás o País mais desigual da União Europeia a 15. É preciso uma confiança quase cega para acreditar que isto chega a mudar. Confiança. Confiança.

As declarações, inusitadamente dramáticas, de Alegre que declarou ser a eleição de Cavaco uma viagem de seis meses para a próxima crise - supõe-se que por esta altura o poeta-candidato terá deixado de dormir descansado - e de Augusto Santos Silva, ministro-dia de serviço na campanha de Soares, que declarou ser uma vitória de Cavaco uma tentativa de golpe de Estado Constitucional, parecem inscrever-se num clima de radicalização próprio de quem, na realidade, já não acredita na realização da segunda volta. Nada de novo.

Manuel Pinho, ministro dos PIN e o seu fiel escudeiro, Nunes Correia, ministro do ambiente(com letra pequena, naturalmente). Responsável pela maior passagem de solos rústicos a urbanos de que há memória e pela maior apropriação privada de mais-valias simples. Tudo em nome do "desenvolvimento" e do "interesse nacional". Tudo a benefício dos abençoados investidores. Abençoados pelo(s) ministro(s).

"Os engenheiros ucranianos trabalham na construção porque é isso que se faz em Portugal. Não são os emigrantes que têm baixas qualificações, é o país que tem baixas qualificações."

Manuel Castells em entrevista ao Público a propósito da conferência que realizou na Gulbenkian, em Março, sobre "A Europa e a conomia do conhecimento."

"Se os Vereadores do Urbanismo são os coveiros da democracia, os partidos são as casas mortuárias"

Paulo Morais. Ex-vereador do urbanismo da Câmara do Porto.

Foi necessário a atribuição do prémio Secil para que a rapaziada reparasse, dois anos depois mas vá lá, que o Estádo do Braga tinha, além do projecto de arquitectura de Souto Moura, sofisticados e inovadores projectos de engenharia em particular de engenharia estrutural. A entrevista que o engenheiro Rui Furtado dá hoje ao Público vale por resgatar do anonimato um dos maiores autores daquela obra a que se chama "Estádio do Braga". Um engenheiro civil, coisa quase dispensável nos tempos que correm, nesta nossa pobre "sociedade do (des)conhecimento".

O Expreso, da passada semana, convidou um painel de economistas e de empresários a opinarem sobre se " a nova refinaria de Sines é estratégica para Portugal?"
As respostas no essencial primam pelo bom senso. A resposta globalmente apurada é, não!
Interesantes algumas respostas que não ignoram na sua abordegem a questão ambiental e a contribuição para o emprego dessa unidade.
Sobre a importância estratégica:
Augusto Mateus: "Numa palavra, não!"
Henrique Neto: "Não tem qualquer justificação económica, estratégica e menos ainda por razões de segurança."
Miguel Beleza: "Não sei. Não tenho os números nem o estudo do impacto ambiental."
Teodora Cardoso: "Melhorar a eficiência no uso da energia é certamente a principal prioridade.Produzir e distribuir energia a um custo competitivo é outra.(...) A nova refinaria de Sines não se enquadra em nenhuma dessas áreas."

Sobre o emprego e os impactos ambientais.
Mira Amaral: "(...) trata-se, no entanto, de um investimento de capital intensivo, pelo que a criação de emprego não será muito generosa e com impactos ambientais a ter em conta."
Teodora Cardoso: "O seu contributo para o emprego é insignificante e, se é grande nas exportações, não o é menos nas importações -incluindo a compra de direitos de poluir."

Hoje no Público -suplemento Local de Lisboa- o artigo "A Questão do Tempo e os Planos de Pormenor". Uma reflexão sobre a importância da questão do tempo no Planeamento, contra a corrente dominante dos que clamam menos tempo para a aprovação do Planeamento Urbanístico, fazendo crer ser essa a principal questão que determina a reconhecida ineficácia do nosso Sistema de Planeamento. (Vamos tentar criar um link para permitir o acesso ao referido texto)


Pintura de Amadeu de Souza-Cardoso (1887-1918)
Cabeça, 1913


Há pouco tempo li um livro hilariante que gostei imenso: O Alienista de Machado de Assis. Neste livro fala-se da primeira era da psicologia, da questão da loucura (quem são os loucos?) e da luta pelo poder numa pequena cidade de província.
Tanto neste livro como na “vida real”, ao que nós chamamos de homens comuns, quando em contacto com as teias da política e do poder, depressa mudam de atitude face a um problema, traindo muitas vezes os princípios que defenderam antes de eleitos. É como se na política o rosto de um homem se desdobrasse quase sempre em duas faces. Quando conseguem o poder os homens tomam o vaidoso gosto pelas possibilidades que se lhes oferece, o que altera a perspectiva do seu pensamento. O pensamento de um político no poder torna-se quase sempre afunilado, alienado e perde, na maioria dos casos, o sentido inventivo da conquista de soluções para as sociedades. Isto acontece a quase todos os homens, principalmente aos que sempre tiveram um fraquinho pelo poder em si próprio e fizeram, inclusivé, disso a sua vida.
Toda esta conversa porque não consigo perceber porque é que não se pode pensar, reflectir e alcançar soluções para os problemas de uma cidade ou de um país, sem que isso seja visto sempre como uma posição política pobre (entre amigos e inimigos)? Não saberemos ainda lidar com a democracia no sentido prático? Será a democracia apenas uma base para o evoluir da justiça e uma teoria para controlar a arrogância.
Esqueçam um bocadinho a política e olhem para as questões com maturidade humana, com verdadeira responsabilidade social. Olhem para os que vos criticam não como inimigos, mas como o lado de a outra face esquecida.
Acredito que daqui a 30 ou 50 anos o modelo político como o conhecemos hoje ter-se-á certamente alterado, à custa dos homens o desgastarem e de novos pensamentos o exigirem. Será uma mudança em conformidade com a forma como hoje e amanhã lidarmos com a política.


Um filme sabe bem nestas noites de frio.
Ontem, vi um filme repleto dessa silenciosa e rica sabedoria narrativa que nos enche de pensamentos e emoções: Dear Frankie. É uma história de encontros, de amizade e amor que se dão de forma natural e incondicional. É uma história que só poderia passar-se à beira-mar, num porto como Glasgow ou, quem sabe, Sines. Portos de onde partem e aonde chegam navios de longo tráfego, que nos deixam de olhos presos ao mar mesmo se lá não estão.
“Querido Frankie é uma pérola”, não admira que tenha obtido tanto êxito nos Festivais de Cinema de Cannes, Toronto e Los Angeles. Dirigido por Shona Auerbach, conta com o desempenho de Emily Mortimer, Jack Mclhone and Gerard Butler nos principais papéis. Não percam.























Pintura de Antoni Tàpies, 1996

O sigilo da forma rodando
Na vigília dos passos
Alguém
na rosa instante, na secreta composição
fixa o centro da voragem

Olha e vê
Rostos-sombra
Sílabas vivas, sopros da névoa
Cordas-fogo abrindo a noite das grutas
O peso das esferas
onde algo se resigna,
o olhar tolhido, a boca do sono
dois joelhos dobrados
à escuta

Nos últimos dias o "equilibrio ambiental" de Sines tem cheirado mal que se farta. Ontem pelo fim da tarde e durante parte da noite em diferentes zonas da cidade - Baixa de S.Pedro, Santa Catarina, S.Rafael, Quinta do Meio - o cheiro era nauseabundo, provocando vómitos e dores de cabeça. Os mesmos vómitos que provoca o discurso do Presidente da Câmara que já pela décima quinta vez anunciou solene que dentro de seis meses as empresas acabavam com os maus cheiros na cidade. Já deve ter partido o nariz várias vezes ao passar pelas portas, depois de tanta mentira.

O Bloco de Esquerda propôs uma redução do número máximo de alunos por turma, nos ensinos básico e secundário, passando dos actuais 25 para 18. Podia ter colocado o tecto nos quinze mas a proposta é excelente. Importa não esquecer que existem muitos casos nos quais o número máximo de alunos é francamente excedido. Milhares de casos.
Um menor número de alunos permite melhorar o ensino porque o tempo de aprendizagem de que cada aluno dispõe é maior pelo que o ensino pode ser mais individualizado. Isto é particularmente sensível na aprendizagem das línguas e da matemática. Por outro lado o sistema paga a milhares de professores do quadro que estão neste momento com horário zero e outros com horário incompleto e que poderiam ser completamente rentabilizados com a redução do número de alunos em vez de outras trapalhadas.
Só uma visão tacanha pode impedir a aprovação desta proposta.


Pintura de Eduard Hopper (1882-1967)
Night Windows, 1962 / Museum of Modern Art - New York

Nesta tarde à beira-mar, a noite chega das mãos abertas do silêncio,
da luz alaranjada, breve, sobre as casas, do recorte mais denso de um
navio que parte
E vão-se acendendo luzes, aqui e ali, no interior das casas, para que a
memória do sol resista e o frio sossegue à porta dos cafés, na entrada
dos prédios, nos jardins desertos

Através do da Literatura tive acesso ao post de Nuno Ramos de Almeida sobre a polémica que durante alguns dias azedou as relações entre Alegre e Jerónimo. A percepção que tive do que se passou, com base na leitura dos jornais, foi que Alegre terá cometido o grave crime de, no arranque oficial da sua campanha junto ao Forte de Peniche, ter citado o exemplo de vários antifascistas que lutaram pela liberdade entre os quais Cunhal e Dias Lourenço. A reacção do candidato do PCP pareceu-me despropositada já que Alegre, ou qualquer outro, tem o legítimo direito de reclamar entre as suas motivações os exemplos que muito bem entenda. Daí a poder afirmar que Cunhal apoiaria a sua candidatura ou com ela se identificaria vai uma enorme distância. Que julgo Alegre não terá percorrido.
O que me chamou a atenção no post - para lá de uma sintética desconstrução da história pessoal de Alegre enquanto antifascista no exílio - de NRA foi a afirmação de que Alegre terá reivindicado Cunhal conta o PCP. Esta afirmação não a percebi mas admito que me escapou alguma coisa na declaração de Alegre que legitimará esta conclusão.
O que não deixa de ser paradoxal é o facto de, na exacta altura em que Cavaco aparece cada vez mais seguro de uma vitória à primeira, dois candidatos à esquerda se ocupem deste tipo de questões. Ao que parece Jerónimo, entusiasmado com a vitória sobre Loução mais do que preocupado com a derrota de Cavaco, aspira agora a recuperar votos perdidos para o poeta-candidato tornando-o um candidato inaceitável para qualquer comunista que se preze, um candidato capaz de se apropriar dos símbolos do partido.

Adenda: não referimos aqui um facto que merece ser assinalado: o aniversário do da Literatura. É um local de visita diária desde que o Duarte fez o link e nos chamou a atenção para o blogue. Muito por força daquilo que ali escreve o Eduardo Pitta que faz deste blogue o mais interessante de todos os que fazendo da cultura o seu objecto primeiro não a separam do mundo ao redor.

em declarações à Lusa, referidas pelo jornal Público do passado dia 4 de Janeiro, o comunista Manuel Coelho - um ferveroso defensor da construção da nova refinaria em Sines e de todo o tipo de trampa que possa significar alguns cobres para o ajudar a manter o poder até ao final dos seus dias - teceu algumas considerações que do ponto de vista do rigor se podem assemelhar às do ministro dos negócios estrangeiros de Saddam aquando da invasão de Bagdad pelos americanos. Disse o edil: "Os tempos que se aproximam são de previsíveis grande investimentos e nós queremos que a qualidade do ambiente se mantenha e até possa melhorar." Manuel Coelho, que além do mais é médico, está-se nas tintas para a saúde dos seus concidadãos. Afirmar que a qualidade do ar é boa e que queremos que ela se mantenha é gozar com toda a população. Manuel Coelho fala como um homem de mão da indústria pesada e poluente que escolhe Sines para os seus negócios e que sacrifica a saúde dos cidadãos aos seus lucros. É a sua vocação e a sua triste sina: fazer de Sines um lugar pouco recomendável. Depois talvez ainda vá a tempo de se retirar para Miranda do Corvo para gozar os seus últimos dias. Uma vergonha que nos compete a nós impedir.

A passagem de Soares por Grândola proporcionou um dos momentos da campanha. Uma senhora de idade próxima da de Soares aproximou-se para o beijar e disse: "o nosso Presidente -Carlos Beato, eleito pelo PS para a câmara de Grândola e mandatário distrital de Cavaco - saiu-nos um grande mentiroso. Dizia-se socialista e agora só o vemos a andar com os PPD´s."
O povo é assim claro e franco. Soares fazia-se acompanhar por vários capitães de Abril e sobre Beato afirmou esclarecedor: nós permanecemos do mesmo lado ele é que mudou.

A futura-ex ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima - que faz parte do stock de ex-comunistas que Sócrates levou para o Governo - conseguiu nos últimos dias uma unanimidade notável: toda a gente a contesta. Apesar de algumas medidas nas quais pareceu, momentaneamente, regressar à vida a verdade é que a morte da ministra não tendo sido ainda anunciada é já manifestamente irreversível. Em boa verdade a desgraça de Pires de Lima começou com a guerra contra Rui Rio que teve o final que se sabe. O último episódio deste doloroso final de um doloroso mandato é a afirmação pública da ministra de que goza do apoio do primeiro-ministro. Claro que goza e pode mesmo ser mantida em câmara ardente mas logo que seja oportuno far-se-á o funeral ou a cremação conforme o gosto do primeiro ministro e do seu assessor cultural.

A medida em que me meço
Mede a medida de um ponto
De encontro do que conheço
Co' aquilo com que não conto

Ponto de encontro da sorte
Com o traçado da corrida
Em que a coragem na morte
Nasce do medo da vida

Veneno, punhal, saída
Porta aberta para o fim
Loucura comprometida
Com o que conheço de mim
É nesse ponto-momento
Que no limite do excesso
Me transformo no que invento
E finalmente apareço

Letra: Manuela de Freitas
Música: Fado Franklim de quadras



Hoje, na Cinemateca Portuguesa, em Lisboa, tem lugar a ante-estreia da curta-metragem 'Entre o Desejo e o Destino', de Vicente Alves do Ó. A sessão inicia-se às 21h30 e a entrada é livre, limitada aos lugares disponíveis.

Vicente Alves do Ó, siniense em part-time, rodou este filme, a sua primeira obra como realizador, em Dezembro de 2004, tendo como cenário um pequeno monte na frequesia de Porto Covo. O resto pode saber-se aqui.

Até já.

Coragem

de Ana Gomes, eurodeputada do PS, que defende, na Causa Nossa, a demissão de Pina Moura por iniciativa própria ou por iniciativa da Comissão de Ética da Assembleia da República.
Já aqui defendi várias vezes ao longo dos anos a insustentabilidade da posição de Pina Moura, ex-mimistro da Economia, Presidente da Iberdrola, concorrente da EDP, deputado eleito pelo PS. Julgo que o pior que a política tem em Portugal é esta promiscuidade entre negócios e política. Esta utilização da coisa pública para ancorar as carreiras privadas.
Registo a coragem da militante socialista que destoa neste ruidoso silêncio das estruturas do seu partido, silêncio feito de cumplicidades várias e de frágeis telhados de vidro.

Sócrates só aparece em vídeo na campanha de Soares, a menos de uma participação mais física na fase final da campanha num comício a realizar no Porto. O simples facto de, ao longo de meses, se ter alimentado este enredo acerca do verdadeiro interesse de Sócrates, é por si só um poderoso trunfo a favor de Cavaco. Trunfo que era importante anular dando sinais claros e inequívocos, que as novas tecnologias ainda não prmitem. O empenho e a solidariedade, a afectividade não se comunicam por vídeo.

Bom Dia


Pintura de Pablo Picasso (1881-1973)

Rapariga com Bandolim, 1910

Museum of Modern Art - New York

A fotografia de Soares que o Expresso publica na primeira página é notável. Mostra-nos um Soares cansado, impotente para mudar os acontecimentos, derrotado. Um Soares já vencido. Mostra-nos um Soares que é o oposto daquele que, com uma energia crescente e uma cada vez maior acutilância política, tem percorrido o Pais e nos tem chegado através das televisões.
A primeira página de um jornal é uma escolha e não uma fatalidade. Uma escolha por motivos editoriais mas que não é imune a motivações políticas.

Cáceres Monteiro morreu inesperadamente na passada semana. Soubemos agora que estava gravemente doente. Sentimos uma sensação de perda quando somos confrontados com o desaparecimento de pessoas que de uma ou outra forma marcaram presença no tempo que tem sido a nossa vida. Como aconteceu com este grande jornalista que me recordo de ler desde os tempos do semanário "O Jornal" e que continuei a ler na "Visão". Gostava de o ler. Gostava de ler as suas reportagens, trabalhos só possíveis por um grande repórter. Gostava de o escutar quando na rádio ou na televisão emprestava lucidez e rigor à tão maltratada crítica política nacional.
Cáceres Monteiro faz parte da memória destes trinta anos da nossa vida. Porque com a sua arte conseguiu aproximar-nos dos acontecimentos e dos seus protagonistas.

O anterior presidente do CCB numa entrevista ao Expresso explica que forçou a demissão recusando demitir-se como lhe sugerira a ministra. Mas Fraústo produz duas afirmações a merecerem atenção. A primeira é a de que "a ministra não sabe do que fala. Fala de ouvido." A outra é relativa às suas relações com Berardo. Diz Fraústo, comentando uma declaração de Berardo a acusá-lo de não gostar da sua colecção, que "neste momento, do que eu não gosto mesmo, mesmo, é das exigências do comendador Berardo."
Quanto à primeira afirmação todos já percebemos que é isso que se passa. Quantoà segunda talvez fosse razoável alguém esclarecer quais são afinal as exigências a que Berardo obrigou o Estado.

Cavaco Silva ganharia à primeira volta se as eleições se tivessem realizado a três ou quatro de Janeiro. Depois dos debates e destas intensas semanas de campanha Cavaco reforça a sua posição e Alegre e Soares trocam, outra vez, de lugar. Soares nada ganha com a excessiva e incompreensível colagem ao Governo. Soares nada ganhou com os ataques àsperos a Cavaco. Soares nada ganhou com a rábula da comunicaçao social, ainda que nós saibamos que o tiro não é completamente infundamentado.
Jerónimo pesaroso, apesar do crescimento relativo da sua candidatura que quase duplica os votos de Louçã, admite que há que fazer um esforço redobrado. O resultado de quase 7% a confirmar-se será mais uma vitória para Jerónimo. Louçã insiste no esclarecimento de quase um milhão de portugueses e manifesta uma confiança inabalável na perda de votos de Cavaco. Arrisca-se a ficar a léguas de Jerónimo e a ver Cavaco eleito à primeira volta com o pleno dos votos da esquerda a não totalizar 40 % dos votos dos portugueses. Mistérios que estas eleições encerram. Os portugueses dão maiorias absolutas a quem prometer resolver os seus problemas, todos os seus problemas. Vai ser assim com Cavaco. Foi assim com Sócrates. Soares com o seu discurso realista, e ele sim rigoroso sobre os limites do cargo presidencial, não soube nem podia por formação e convicção, captar os ares do tempo. Por aí se construirá a sua derrota.
Mas, como escreveu Alegre há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não. Até dia 22 de Janeiro temos que acreditar no bom senso dos portugueses.

a atacar o mandatário distrital de Setúbal de Cavaco. Louçã recordou a Beato que foi Cavaco, enquanto primeiro-ministro, que negou uma pensão à viúva de Salgueiro Maia o comandante das forças libertadoras do 25 de Abril que Carlos Beato integrava e de cujo exemplo tantas vezes se reclama.

Cavaco Silva declarou na sua passagem pelo distrito de Setúbal - durante a qual ensaiou um remake da subida de Eanes ao tejadilho do carro embora num contexto festivo - que vai ganhar no distrito. Cavaco pensará na simpatia que desperta no eleitorado comunista, consolidada pelas excelentes relações entre o PSD e a CDU no distrito? Ou terá informações do seu mandatário distrital Carlos Beato, presidente da autarquia de Grândola eleito nas listas do PS, que lhe terá explicado que o eleitorado socialista está no papo. A menos que a realidade confirme este desejo de Cavaco não deveremos estar senão perante um beato desejo daqueles muito bem intencionados mas que, para mal dos seus destinatáros, nunca se confirmam.

Luís Delgado anuncia hoje no DN o fim das Linhas Direitas, isto é o fim da sua colaboração com o jornal no formato e com a periodicidade actuais. Proponho um movimento de apoio à manutenção das Linhas Direitas. Por mais tortas, vagas, vazias, contraditórias, incompreensíveis, sectárias, militantes que elas nos tenham parecido ao longo dos tempos é um facto que se tornaram um referencial de leitura obrigatória. Um pouco como o óleo de figado de bacalhau, que depois de nos enfiarem duas colheres pelas goelas a baixo nos ajudava a compreeender como o mundo à nossa volta não era afinal assim tão mau, as Linhas Direitas ajudava-nos a relativizar os muitos disparates que se iam escrevendo e dizendo do lado direito das coisas. Acaba assim ingloriamente, por força de uma remodelação que desejamos virtuosa, esta fonte inspiradora, para não dizer esta musa o que não vai nada bem com o ar hirto do Luís. Estaremos perante uma vingança do António José Teixeira, que se paga assim do esforço insane a que, durante meses a fio, foi submetido para conseguir manter o ar sério face às intervenções do seu colega comentador residente, na SIC Notícias?
Duas notas finais: em primeiro lugar este estilo que nos seduzia levou nove anos a apurar permanecendo a eterna dúvida de sabermos a que nível de apuramento se poderia chegar algumas dezenas de anos depois; em segundo lugar LD volta às segundas-feiras num formato maior, o que permitirá atenuar a sensação de perda com que ficamos e não deixará de nos inspirar.


imagem retirada do site da Colecção Berardo/posters

O Dia de Reis é uma daquelas datas que se comemora mais por tradição do que por fundamento histórico.
No Evangelho Segundo São Mateus, os Reis Magos são sábios que vieram do Oriente, guiados por uma estrela guia, para adorar o Deus Menino, em Belém.
Aos Reis Magos, representantes de outros povos da Terra, atribui-se uma tentativa do cristianismo em congregar a Humanidade na adoração de um só Deus.
Apesar de ser muito vaga a informação que se tem dos Reis, ao longo do tempo, a cada um foram dadas características: Belchior seria o representante da raça branca (europeia), Gaspar representaria a raça amarela (asiática) e Baltazar a raça negra (africana).
Não se sabe como é que os Reis Magos associaram o aparecimento da Estrela ao nascimento de Jesus. Apesar do episódio estar envolto de um grande simbolismo, ao longo do tempo, muitas teorias astronómicas surgiram para explicar "cientificamente" o brilho dessa "nova" estrela.
Uma das possibilidade é a de a Estrela de Belém ter sido um cometa não periódico, de grande brilho, que atravessou o "nosso" firmamento. Outra, foi lançada no final do ano de 1572 pelo astrónomo dinamarquês Tycho-Brahe que "descobriu uma estrela muito brilhante na constelação de Cassiopeia. Na verdade o seu brilho era tanto que o novo astro pode ser visto mesmo à luz do dia, durante 20 meses. Mais tarde o fenómeno seria baptizado de supernova, denominação usada em astronomia para designar as estrelas que explodem, aumentando assustadoramente o brilho e depois desaparecem". Muitas outras teorias existem, esfumam-se no tempo e na necessidade de tudo explicarmos à luz da ciência.
Deixemos que flua a fantasia que foi de ouro, mirra e incenso e que agora é uma data, um bolo colorido de frutas e amêndoas torradas. Mas que seja alguma coisa.

O Supremo Tribunal de Justiça declarou não existir o direito a ser indemnizado por parte de um cidadão infectado com o HIV em 1986, por transfusão realizada num hospital público. O STJ relativiza a responsabilidade do hospital com argumentos como a não perigosidade das transfusões de sangue o que em última análise pode no futuro justificar sabe-se lá o quê. Talvez o recurso a um qualquer líquido cuja aspecto se assemelhe ao sangue.
Triste país este no qual um orgão de soberania toma este tipo de decisões. Na realidade alguns, muitos, cidadãos são de facto culpados de existirem e dos males que causam por esse facto.

AMIGO

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».

«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!
«Amigo» é o erro corrigido,

Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.

«Amigo» é a solidão derrotada!

«Amigo» é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!


-Alexandre O’Neil-
in No Reino da Dinamarca

Bom Dia


Pintura de Gustav Klimt (1862-1918)
O Parque, 1910, óleo sobre tela
Museum of Modern Art - New York

Alexandre Melo parece cada vez mais o "homem que conta" por detrás de José Sócrates. É ele que se adivinha na origem das decisões e das rápidas decisões que Sócrates toma em lugar de uma minstra que já não o é de corpo inteiro. É ele que vem agora explicar qual a exacta posição do chefe sobre os dossiers que importam, deixando claro que a posição do Governo, nesta ou naquela matéria, não é veiculada pela ministra ou pelo seu ministério.
Relativamente à nomeação de Mega Ferreira, que aparentemente deu à ministra a possibilidade de recuperar um pouco o pé que perdera no dossier CCB/Berardo, Alexandre Melo veio declarar ao Público o empenho pessoal de Sócrates num CCB mais ambicioso. Equivale isto a dizer que se tratou de um esclarecimento sobre de quem partiu a iniciaitiva de afastar Fraústo e nomear Mega Ferreira. Foi de José Sócrates, aliás de Alexandre Melo.

" O fio do horizonte" que Eduardo Prado Coelho escreveu ontem no Público aborda a crise indisfarcável no Ministério da Cultura. EPC detecta uma clara necessidade de mudanças a curto prazo e escreve: "Neste momento devo reconhecer que os responsáveis pelo Ministério da Cultura atravessam o seu pior momento. O que significa que é a altura de mudarem e pessoas e estilos e ganharem uma credibilidade junto da opinião pública que obviamente perderam." A propósito da articulação temporal entre a decisão de Sócrates sobre o CCB/colecção Berardo e a entrevista da ministra ao Expresso screve EPC: "(..) ficou a sensação de que s edeixou arrastar os problemas até que o primeiro-ministro chegou e resolveu-os num ápice. Neste plano, a entrevista de Isabel Pires de Lima ao Expresso foi infelicíssima(...) e caiu no pior momento." Ponto de vista coincidente com o que defendemos aqui.

Na verdade Ribeiro e Castro não ganhou o congresso do PP. O que aconteceu foi que uma parte dos rapazes que viajam habitualmente no taxi resolveu pregar uma partida a Telmo Correia, que na altura em que se preparava para pagar a corrida descobriu que não tinha dinheiro.
Mas daí, essa sua condição de líder precário, a dizer o que disse vai uma grande distância. Afirmar que os problemas do mundo existem porque existe a esquerda é de uma falta de honestidade intelectual notável além de uma afirmação de ignorância ou pura e simples estupidez. Chamar criminoso a Che Guevara inscreve-se no mesmo registo.
Imagino que o professor Cavaco nem o deixa chegar ao pé para lhe oferecer um cafézito.

.. lembrei-me do processo Vara e pus-me a imaginar que Sampaio, antes do lavar dos cestos, manifestasse a Manuel Pinho o desconforto que lhe provoca a sua permanência no Governo, impondo-lhe uma saída por motivos pessoais, e a Sócrates quanto acha intolerável que Pina Moura depute em nome da Nação, solicitando-lhe que promovesse uma justa abdicação do lugar.
Mas pelo vistos não se passou assim.

Bom Dia


Pintura de Henri Matisse (1869-1954)
Paisagem em Collioure, 1905, óleo sobre tela
Museum of Modern Art

Bater palmas pela actuação de alguém que é actor no cartel da energia em Portugal é coisa que não me passava pela cabeça. Mas julgo qur João Tallone as merece pelo que afirmou sobre a participação dos espanhóis da Iberdrola na gestão da EDP e sobre a sua recusa de continuar na gestão da empresa. Não quero ignorar que decisões como esta ocultam outras razões mais do foro pessoal e dos interesses próprios do que assomos de patriotismo que não ficam bem a este tipo de famílias. O que está no centro das decisões é o escândalo da actuação de Pina Moura/Iberdrola em todo este processo. Num país decente este senhor estaria a ser investigado e a passar um mau bocado. Num país no qual o tráfico de influências ao mais alto nível do aparelho do Estado não fosse a condição primeira para se fazerem bons negócios.
Em Espanha, por exemplo, que, não por acaso, cresce e prospera enquanto nós definhamos colectivamente permitindo que alguns poucos, mas poderosos, engordem.

O PCP está contra a adesão à CEE mas não defende a saída de Portugal. Tem vontade mas não tem coragem pode dizer-se em síntese. Os 20 anos decorridos já causaram habituação no que resta do poder comunista em Portugal - os seus autarcas - muito mais capaz de avaliar os benefícios materias que resultaram da adesão.
Jerónimo de Sousa fez sobre este tema a declaração mais extraordinária da campanha, revelando um conservadorismo e uma visão política sectária, muito próxima daquilo que se temia quando da sua eleição para secretário geral. Foi um acto de sinceridade política. É caso para dizer que muitos sorrisos depois o leão mostra, finalmente, a sua raça.

Ele vinha sem muita conversa, sem muito explicar
Eu só sei que falava e cheirava e gostava de mar
Sei que tinha tatuagem no braço e dourado no dente
E minha mãe se entregou a esse homem perdidamente

Ele assim como veio partiu não se sabe pra onde
E deixou minha mãe com o olhar cada dia mais longe
Esperando, parada, pregada na pedra do porto
Com seu único velho vestido cada dia mais curto

Quando enfim eu nasci minha mãe embrulhou-me num manto
Me vestiu como se fosse assim uma espécie de santo
Mas por não se lembrar de acalantos, a pobre mulher
Me ninava cantando cantigas de cabaré

Minha mãe não tardou a alertar toda a vizinhança
A mostrar que ali estava bem mais que uma simples criança
E não sei bem se por ironia ou se por amor
Resolveu me chamar com o nome do Nosso Senhor

Minha história é esse nome que ainda hoje carrego comigo
Quando vou bar em bar, viro a mesa, berro, bebo e brigo
Os ladrões e as amantes, meus colegas de copo e de cruz
Me conhecem só pelo meu nome Menino Jesus


Pintura de Caravaggio (1571-1610)
O tocador de alaúde, 1596 (detalhe), óleo sobre tela
Museu The Hermitage, St. Petersburg

Na entrada do ano de 2006 todas as televisões entenderam que a questão mais importante para abrir os seus telejornais, na hora do almoço, era qualquer coisa que se passou entre o senhor Vieira do Benfica, um tal Moreto que era guarda-redes do Setúbal e um tipo que andou, ou quis andar, à pancada com o senhor Vieira e os seus guarda-costas. Repetiram a dose ao jantar.
Que tristeza.

Depois do que o sempre bem informado Expresso escreveu sobre a substituição de Fraústo da Silva por Mega Ferreira e do que cada um afirmou sobre a decisão de Sócrates de instalar a colecção Berardo no CCB este desenlace era inevitável. A ministra aproveita bem esta oportunidade para dar a ideia de que ainda existe, depois do grave acidente provocado pela socrática decisão, imediatamente após - azar dos Távoras - uma inoportuna entrevista da ministra ao Expresso a fazer voz grossa sobre a pretensões - chantagens? - do Joe.

Artigo de Pedro Lains, economista, no suplemento de Economia do Expresso de 23-12-2005. Dus ou três frases num artigo que, acerca da construção da refinaria de Patrick Monteiro de Barros, coloca um conjunto de questões absolutamente pertinentes:
"(...)Sines com a refinaria da GALP, é já um cancro ecológico e isso deverá agravar-se(...)."; "(...) a projectada refinaria vai produzir - espante-se - para exportação. Ou seja, vamos ter um elevado investimento com elevados riscos ambientais num sector menos importante para o futuro, sem que isso seja necessário para fornecer energia à produção feita em território nacional."
Assino por baixo.

dez dias depois regresso a esta casa. A tempo de agradecer a sábia deliberação do concelho de redacção. Pairava sobre as suas cabeças uma ameaça, muito séria, de demissão. Ainda bem que foram capazes de trocar algumas horas extraordinárias pela possibilidade de continuarem a blogar na Pedro do Homem. Uma decisão sensata nestes tempos em que aceitar a globalização que temos parece ser uma questão de bom senso já que não se poderá, dizem sumidades várias, recusar ou mudar a coisa. A tempo e com vontade de escrever sobre coisas que a voragem do tempo mediático já remeteu para o esquecimento (Esta da voragem do tempo mediático é um pouco forçada, um pouco dejá vu, não acham).
As vontades não devem ser reprimidas. As dos outros e as nossas, principalmente.


 

Pedra do Homem, 2007



View My Stats